A Salvação de um Uchiha
16 Capítulo quinze
A sala do Hokage era preenchida por uma luz tênue que atravessava os papéis empilhados, lançando sombras suaves sobre o chão de madeira encerada.
O cheiro de tabaco queimado pairava no ar, misturando-se com aquela expectativa silenciosa que sempre vinha antes de uma missão importante.
Sarutobi Hiruzen estava parado de costas para nós, observando a Vila da Folha pela janela aberta.
A fumaça de seu cachimbo subia lentamente, dissolvendo-se no ar da manhã como pensamentos que ele preferia manter consigo.
Meu coração batia mais forte do que eu gostaria de admitir.
Mesmo depois de tantas missões, cada audiência direta com o Hokage carregava um peso especial — e dessa vez, um peso ainda mais denso, quase como uma premonição apertando minha garganta.
Ao meu lado, Itachi estava sereno, como sempre. O vento balançava seus cabelos negros de um jeito que eu achava hipnotizante.
Ele não dizia nada, mas sua presença era firme, constante. Era mais que parceria.
Era uma ligação silenciosa que crescia entre nós, nas brechas entre batalhas e nos olhares trocados quando achávamos que ninguém via.
_ Sukui. Itachi. — A voz do Hokage cortou o silêncio como uma lâmina afiada. _ Confio em ambos como poucos. E por isso, trago a vocês uma missão que não posso confiar a mais ninguém.
Endireitei os ombros. Eu não gostava de demonstrar nervosismo, principalmente com Itachi por perto, mas era impossível dessa vez.
_ Essa missão será executada na fronteira com o País do Relâmpago. — Continuou ele. _ Informações chegaram até mim de que um antigo laboratório da ANBU, abandonado há anos, foi reativado. Algo está acontecendo ali, mas é protegido por barreiras que dificultam nossa vigilância. Precisamos de olhos que vejam além das ilusões comuns.
Itachi franziu levemente o cenho ao meu lado.
_ O senhor quer que usemos o Sharingan para romper essas barreiras?
Hiruzen virou-se devagar, e seu olhar repousou sobre mim por um tempo mais longo do que eu esperava.
_ Sim. Os dois possuem o dom do Sharingan. E antes que perguntem... — Ele disse, olhando diretamente para mim. _ Sempre soube do seu segredo, Sukui.
Meu coração parou por um instante, não por suas palavras, mas pela sua intenção de ocultar que já nos conhecíamos há anos e que sou sua subordinada das sombras...
Queria manter a expressão firme, impassível, mas senti o leve vacilar de algo dentro de mim.
Ao meu lado, Itachi me observava com atenção. Ele sempre percebia quando algo me afetava — sempre.
_ Por que não disse nada antes? — Perguntei, minha voz saindo mais baixa do que o normal, mas ainda assim firme.
Deveria continuar o teatro, se assim ele queria.
_ Porque não era necessário. — E logo mudou de assunto. _ O que encontrarem lá pode ameaçar a estabilidade da vila. — O Hokage continuou. _ Confio que, juntos, serão capazes de enfrentar o que quer que esteja escondido entre aquelas ruínas.
Apenas assenti. Com ele, palavras nunca eram desperdiçadas. E com Itachi, muito menos.
_ Aqui, pegue o pergaminho e partam ao anoitecer. — Itachi foi mais rápido, mas não me importei.
_ Por que está nos dando uma tarefa tão...
_ Suas capacidades vão além da compreensão, minhas crianças. — A voz do Hokage soou mais baixa, como se estivesse falando com outra parte de si mesmo. _ Espero que um dia entendam o porquê das escolhas que fazemos por vocês.
Não respondi.
Apenas inclinei levemente a cabeça em sinal de respeito, mesmo com a mente fervendo em perguntas que nunca seriam feitas.
Itachi fez o mesmo. Não precisávamos de mais palavras.
Com o pergaminho seguro nas mãos dele, demos meia-volta em silêncio. A porta se fechou atrás de nós com um estalo suave, abafado, mas que pareceu muito mais alto dentro de mim.
Como se marcasse o início de algo que ainda não tinha nome.
Descemos os longos lances de escada da torre do Hokage sem trocar uma palavra, e cada passo ecoava entre as paredes como parte de um ritual silencioso que já havíamos vivido inúmeras vezes.
Mas, dessa vez, algo era diferente, podia sentir na forma como a respiração de Itachi fluía ao meu lado — controlada, mas um pouco mais profunda do que o normal.
Quando os portões se abriram para nós no andar térreo, a luz do dia nos recebeu com um calor gentil.
O sol já estava mais alto, tingindo o céu de um azul limpo, salpicado por algumas nuvens preguiçosas. Parei por um instante, antes de pisar fora da torre.
Ergui o olhar.
O céu. Sempre tão imenso. Sempre tão indiferente.
Naqueles segundos, senti como se o mundo estivesse em pausa, como se respirasse comigo. Como se dissesse, de forma silenciosa: Sim, você está indo para algo inevitável.
Ao meu lado, Itachi também havia parado. Ele olhava para o mesmo ponto no céu, e por um momento, vi seu rosto suavizado pela luz do sol.
Havia algo em seu silêncio que me alcançava sem esforço — uma paz contida, quase melancólica, que apenas ele sabia carregar.
_ Está bonito hoje. — Comentei, baixinho, como se o céu fosse um segredo só nosso.
Ele apenas assentiu.
_ Está.
Suspirei, soltando a tensão dos ombros. O silêncio entre mim e Itachi era confortável, mas carregado de tudo o que nunca dizíamos.
_ Você sabia? — Perguntei, sem virar o rosto para ele.
_ Que o Terceiro sabia do seu Sharingan? — Respondeu no mesmo instante, com aquela calma desconcertante. _ Sim. Imaginei isso há algum tempo. Ele é cuidadoso demais para não ter percebido.
Mordi levemente o lábio.
_ E por que nunca me disse?
Ele parou por um segundo e virou-se para mim. Seu olhar era direto, sereno, e ainda assim parecia alcançar dentro de mim.
_ Porque eu sabia que você só contaria quando estivesse pronta. E porque seu segredo era seu.
Senti algo apertar dentro do peito.
Ele fazia isso — sempre quebrava minhas defesas com pequenas verdades, ditas de forma tão sincera que era impossível ignorar.
O tempo que passamos juntos, os treinos silenciosos, as trocas de olhar que nunca diziam tudo... tudo nos trouxe até aqui.
Mas antes que eu pudesse responder, algo me chamou a atenção.
Na praça em frente à torre, duas crianças treinavam com entusiasmo.
Sorri ao ver Sasuke, com seu cabelo rebelde e a expressão séria, lançando pequenos shurikens contra um alvo improvisado.
Ao lado dele, Hinata tentava acompanhar, com os olhos brancos concentrados e as bochechas coradas de esforço. Ela parecia determinada... e encantada.
Parei no lugar, e Itachi também.
_ Eles são tão pequenos ainda... — Murmurei. _ Mas já carregam tanto.
Vi quando os olhos de Itachi se prenderam ao irmão. Era raro ver qualquer emoção em seu rosto ao falar de Sasuke. Mas naquele momento, algo ali suavizou.
Sasuke acertou o alvo e virou-se imediatamente para ensinar Hinata como posicionar os dedos. Ela sorriu de leve, os olhos brilhando, enquanto ele explicava com uma paciência surpreendente para a idade.
_ Ele se importa com ela. — Comentei, sorrindo com ternura. _ Você viu isso?
_ Sim, e ela o admira mais do que ele percebe. Eles... não são tão diferentes de nós.
Aquelas palavras me acertaram de um jeito que eu não esperava.
Virei lentamente o rosto para ele, surpresa.
Itachi me olhava de um jeito diferente — não invasivo, mas íntimo. Como se, por um momento, ele estivesse me permitindo ver algo que guardava só para si.
_ Você acha mesmo isso? — Perguntei em voz baixa, quase num sussurro.
Ele assentiu.
_ Nós dois carregamos mais do que deveríamos. Mas ainda assim... encontramos conforto na presença um do outro. É o bastante por agora.
Aquelas palavras aqueceram algo em mim. "Por agora." Era o suficiente.
Sasuke nos viu e acenou com entusiasmo. Hinata, tímida, tentou se esconder atrás do cabelo, mas sorriu.
Acenei de volta. Ao meu lado, Itachi apenas inclinou levemente a cabeça. Pequenos gestos, mas tão carregados de significado.
_ Vamos? — Ele perguntou depois de alguns segundos.
Assenti. A missão nos aguardava.
Mas algo havia mudado entre nós ao sairmos daquela sala — como se o silêncio tivesse falado por nós.
Como se o que não dissemos tivesse se tornado mais claro do que qualquer palavra.
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