A Salvação de um Uchiha
18 Capítulo dezessete
Meses se passaram desde a missão na fronteira com o País do Relâmpago.
A lembrança daquele céu e absurdamente chuvoso ainda me assombrava, como uma ironia cruel, um escárnio dos deuses.
Hoje, tudo era diferente.
Hoje era o dia.
O dia em que tudo ruiria.
Fui chamada antes do amanhecer, enquanto a névoa ainda cobria as ruas e o silêncio da vila parecia pesar mais que o ar.
Hiruzen me esperava sozinho. O sol ainda não havia tocado o horizonte, mas ele já parecia ter envelhecido uma década só naquela madrugada.
Seus olhos, os mesmos que tantas vezes me guiaram, estavam gastos, apagados, carregando o peso de alguém que viu o fim antes que ele começasse.
Ele me fitou longamente, como se procurasse algo dentro de mim. Talvez força. Talvez obediência.
_ Fique no setor leste da torre. — Disse, a voz embargada pelo que não podia ser dito. _ Atrás do painel de madeira com o símbolo antigo do clã Senju. Há uma sala de escuta oculta ali. Não respire alto e não interfira.
Foi tudo.
Nenhuma explicação. Nenhuma justificativa. Apenas a ordem. Fria, seca, definitiva.
Agora, aqui estou.
As paredes da sala são revestidas com selos que abafam qualquer presença de chakra.
Mas o som... o som atravessa, como uma lâmina fina cortando o silêncio.
É uma armadilha, um santuário da verdade.
E eu estava presa nele.
Meu corpo inteiro parecia feito de pedra enquanto as vozes começavam a preencher o espaço abafado.
E então, ela. A primeira. Tão familiar que meu coração perdeu o compasso.
_ Itachi. — A voz de Hiruzen ecoou, grave, carregada.
Senti uma fisgada no peito. Meus músculos tensionaram, o nome dele tinha gosto de ferro na minha boca.
_ Chamamos você porque a situação atingiu um ponto crítico. — Prosseguiu o Hokage. _ Não há mais tempo. O clã Uchiha está se organizando e querem o golpe. Já estão infiltrando espiões até mesmo na ANBU.
A segunda voz veio como veneno derramado em água limpa.
Danzo.
_ Eles já escolheram o campo de batalha. Só nos resta decidir se vamos combater ou ceder, e não há espaço para concessões.
Quis gritar. Quis cravar minhas unhas na madeira até sangrar, mas não me movi. Respirei fundo, devagar, como se o próprio ar pudesse me trair.
_ Ainda há alternativas. — Disse Itachi.
Ah, aquela voz... Contida, controlada. Mas conhecia cada nuance, cada pausa. Ele estava se quebrando.
_ Não. — Interrompeu um dos anciãos, um homem de cabelos finos e expressão de pedra. _ Já tentamos, o tempo foi dado. O que ganhamos? Desprezo, conspiração e uma ameaça iminente de guerra civil. Você sabe o que isso significa para a vila. Para os civis e para as crianças.
Itachi ficou em silêncio por um instante que pareceu eterno, e então:
_ Eles são meu clã, minha família. Minha noiva está...
Minha garganta se fechou.
Essa frase me atravessou como uma kunai quente. Ele pensou em mim, no meio daquele abismo, ele ainda pensava em mim.
Mas isso só doía mais.
_ Justamente por isso confiamos essa missão a você. — Falou Hiruzen, e sua voz, sempre firme, agora tremia como as folhas de uma árvore prestes a cair. _ Porque você ama essa vila, e por isso, só você pode fazer isso rápido. Limpo.
Limpo? Não há nada limpo no sangue de inocentes.
Meu estômago revirou. Meus dedos cravaram nos braços, o gosto do desespero subiu até minha garganta.
Então Danzo, sempre Danzo, lançou sua sentença:
_ Você é um herói, Itachi. Mas precisa provar isso, sacrifique tudo. Seu nome, sua honra, seu lar e seu amor.
O silêncio que veio depois pesava como um caixão fechado.
Ouvi passos. Itachi, talvez se levantando, a madeira rangeu levemente, um som ínfimo que soou como trovão dentro de mim.
_ E Sasuke? Sukui? Posso...
Meu corpo inteiro se dobrou por dentro.
Ele ainda... Ele queria saber de nós.
Não era o ANBU quem falava, era o irmão. Era o homem que um dia me prometeu flores de ameixeira e um mundo longe da guerra.
_ A criança poderá viver, mas sua noiva... não. — Proferiu Danzo, com crueldade cirúrgica.
Minha respiração falhou, um segundo a mais e eu teria arfado alto. Mas me calei, me esmaguei em silêncio.
Eles estavam me oferecendo em sacrifício. Como se minha vida fosse um preço justo.
_ O que acha que acontecerá se ele descobrir? — A voz de Itachi agora era uma ferida aberta.
_ Ele não descobrirá, e se um dia descobrir, será forte o suficiente para entender.
Quis vomitar, quis morrer e renascer só para impedir aquele momento.
Mas então, ouvi a decisão.
A sentença.
_ Então que seja eu o vilão. — Falou, com uma serenidade que rasgava. _ Se é por paz, carrego esse sangue. Mas ninguém deve saber, e Sasuke deve ser protegido.
_ Você tem nossa palavra, mas se alguém interferir... — Não completou.
A ameaça era clara, um dardo invisível cravado no meu peito.
Se eu me movesse, se ousasse salvar alguém... Sasuke seria o preço.
Pela primeira vez, eu temi.
Pela primeira vez, me senti encolher.
E então, tudo cessou. Passos. Silêncio. Restou apenas o som violento do meu coração, batendo contra minhas costelas como um tambor de guerra.
Ele aceitou.
Itachi... aceitou.
Fechei os olhos. Encostei a testa na madeira fria, tentando conter o grito preso na garganta.
Era o fim.
Mas não para mim.
Porque se eu sou Kagehime, a princesa da sombra, então ainda tenho um papel a cumprir.
Ainda posso torcer o destino entre meus dedos.
Só preciso de tempo e coragem.
Fiquei ali mais alguns minutos. Cada segundo era uma eternidade arranhando minha alma, meus dedos tremiam — não por medo, mas por raiva. Por impotência. Por amor.
Eles queriam fazer dele um monstro.
Mas eu conhecia a verdade.
Ele era o garoto que treinava até os dedos racharem por amor ao irmão. Era o homem que, mesmo em missão, trazia dangos para mim porque sabia que eu os escondia na bainha da roupa.
Ele era o único que via por baixo da minha máscara. E agora, queriam apagá-lo.
Saí da sala como um fantasma.
Meu chakra estava tão controlado que até o ar hesitou diante da minha presença. Atravessei a torre como fumaça, como um lamento preso nos corredores da história.
Cheguei à sala de Hiruzen. Entrei sem ser notada.
_ Você escutou? — Ele perguntou, sem me olhar.
Acenei.
_ O que quer que eu faça?
Ajoelhei.
Ele suspirou, pesado e derrotado.
_ Mesmo que eu não te desse ordem alguma, você mudaria o destino de todos. Você sabe o que fazer, Sukui. Sabe desde sempre.
As lágrimas vieram, salgadas, quentes, mas não caíam de fraqueza.
_ Sim. — Sussurrei. _ Desde o dia que abri meus olhos neste mundo.
Ele se aproximou e em um gesto terno, colocou uma mão em minha cabeça.
_ Então vá, salve quem puder e mude o destino de todos, minha criança.
Levantei-me, pronta para ir.
_ Por que me deixou escutar? — Observei a porta.
Hiruzen hesitou.
_ Porque você é minha sombra, mas é a noiva dele.
E, por um segundo, o velho Hokage não parecia um líder.
Parecia apenas um homem cansado, tentando impedir que o mundo desabasse.
A porta da sala do Hokage se fechou atrás de mim com um leve "clique", mas o som pareceu retumbar dentro do meu peito.
O corredor da Torre era escuro àquela hora. Não havia mais guardas, nem passos, nem vozes. Apenas o eco distante do vento que soprava do lado de fora, assobiando entre os vitrais altos como um espírito inquieto.
Puxei o capuz do meu manto negro, prendi o fôlego e então comecei a caminhar.
Meus passos eram leves, treinados, mais silenciosos que sombra, mais sombra que carne.
A cada lance de escada, sentia o frio da pedra atravessar as solas das botas. A noite estava gélida e meu coração ainda mais.
Cruzei o último andar e passei por uma porta lateral, quase oculta entre pilares. Desci pelas escadas de serviço, aquelas que só ANBU e velhos conselheiros sabiam usar.
As mesmas que uso tantas vezes quando sou apenas a sombra da vila.
Mas esta noite, esta noite era apenas Sukui.
Lá fora, a lua estava parcialmente encoberta por nuvens grossas. O céu parecia um lago escuro e revolto. A Vila, no entanto, dormia. Janelas fechadas, luzes apagadas.
As casas pareciam frágeis, pequenas como bonecas feitas de papel prestes a serem engolidas pela tempestade.
Segui por vielas estreitas, deixando que meus pés me guiassem. Sem pressa, sem direção clara. Apenas uma vontade ardente de fugir do peso dentro do peito.
Passei pela ponte de pedra sobre o riacho, onde os sapos coaxavam escondidos entre as margens.
Cruzei o mercado vazio, onde as barracas dormiam sob lonas coloridas, embaladas por fantasmas de conversas e risos.
Tudo estava quieto demais. E, ainda assim, tão barulhento por dentro.
Quando dobrei a esquina entre duas árvores de sakura adormecidas, vi a silhueta.
Ele estava ali.
No parquinho antigo ao lado do templo. Sentado no escorregador de madeira, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar perdido na escuridão. Um balanço rangia devagar, empurrado só pelo vento.
Meu coração parou por um segundo. Depois deu três batidas rápidas, desesperadas, como se reconhecesse um lar.
Aproximei-me devagar, o cascalho sob meus pés quase não fazendo som.
Ele ainda não me viu.
Ou talvez tenha visto, e apenas esperava.
A luz da lua escapava pelas nuvens e caía sobre ele como prata líquida. O rosto meio coberto pela gola alta do uniforme ANBU, os olhos escuros carregando um cansaço antigo, um vazio que ele não sabia esconder de mim.
Sem pensar, corri os últimos metros.
Meu corpo se moveu por impulso. Um impulso nascido do desespero, da dor, do amor.
E me joguei nos braços dele com força, como quem se joga num último abrigo antes do mundo desabar.
Ele me recebeu.
Oh, como ele me recebeu...
Com braços que pareciam feitos para me envolver. Com mãos que afundaram em minhas costas e cabelo, segurando firme, como se só ali ele conseguisse respirar.
Eu o beijei.
Sem pedir.
Sem pensar.
Apenas... beijei.
E ele correspondeu com a mesma fome, o mesmo desespero contido. Nossos lábios se encontraram num gesto bruto, confuso, apaixonado e tudo entre nós explodiu num calor que desafiava o frio da noite.
Eram lágrimas e suspiro.
Era guerra e refúgio ao mesmo tempo.
Quando o beijo cessou, ficamos assim, colados. A respiração dele batendo no meu rosto, o nariz dele tocando o meu.
_ Sukui... — Sua voz saiu baixa, rouca, quebrada. _ Se eu... se eu fizesse algo ruim, algo que você não pudesse entender, você me perdoaria?
A pergunta caiu entre nós como uma kunai embebida em veneno.
Mas eu já sabia.
Já o havia perdoado.
Mesmo antes de ele errar.
Fechei os olhos e encostei a testa na dele.
_ Sim. — Sussurrei. _ Sempre.
Ele tremeu.
Foi sutil, mas senti. A dor, o medo, a gratidão, tudo nele era silêncio contido, um grito mudo preso na garganta.
Ficamos assim por um tempo que não sei medir. As nuvens passaram lentamente, revelando a lua por inteiro. O vento soprava folhas ao nosso redor, como se até a noite nos quisesse embalar.
O abracei com força.
E ele me apertou de volta, como se soubesse que isso também era uma despedida.
Mas me recusei a acreditar.
Porque enquanto estivesse nos braços dele... eu era apenas Sukui.
E ainda acreditava que poderia salvá-lo.
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