A Saga das Lendas - Prólogo
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Notas iniciais
Me chamo Kaiser. Minha vida é diferente da definição de normalidade, minha juventude solitária e estendida comparada a dos demais humanos, sem alguém para compartilhar segredos ou que eu possa questionar coisas das quais eu não entendo. Tudo se resume a um cotidiano superficial, baseado em necessidades básicas e leitura. Quando se está preso num dia a dia corriqueiro, não se costuma perceber as transformações da vida que dão sentido a nossa existência. Porém, sempre há uma ocasião que muda tudo.
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Olhar para um céu belamente estrelado, em uma noite de lua cheia, é uma coisa que Kaiser não fazia com frequência. Mas ali estava ele, admirando as obras cósmicas que pairavam sobre si. Há sempre aquela estrela de brilho mais intenso, e era essa que Kaiser observava.
Até naquele segundo, o céu estava intacto, mas algo começou a brilhar cada vez mais intensamente ao ponto de incomodar os olhos.
— Mas o que...? — Esse algo se chocou contra a base da montanha de onde Kaiser morava. O impacto foi forte e alto o suficiente para causar uma breve erosão, encobrindo um pouco o objeto. Kaiser então salta de sua casa, caindo em cima dos destroços.
Não parecia haver perigo. Mas, também, não parecia algo que não pudesse surpreendê-lo. Ele começa a cavar com suas próprias mãos, o que não era difícil para alguém que morava em uma montanha? Em pouco tempo, consegue desenterrar a ponta do que parecia ser um cristal azul-celeste. Decidido a tirar aquilo dali, com um bom esforço, consegue puxar o cristal para fora. Logo, seu corpo é tomado por arrepios, ansiedade e surpresa. Dentro daquele cristal hexagonal e afiado... Havia uma garota!
Aparentava ter pelo menos 18 anos, cabelos negros, completamente nua, em um sono profundo. Kaiser continuou perplexo por mais alguns segundos. Então, rapidamente envolve seu punho esquerdo com uma chama bastante densa e soca o cristal. No mesmo instante, ele se desfaz em cacos. Antes de cair na terra úmida, Kaiser consegue pegá-la nos braços. Para alguém do tamanho dela, estava muito leve. Era como pegar uma pena. Logo, salta até sua casa, a coloca no sofá e a cobre com seu cobertor.
Pouco tempo depois a garota começa a murmurar em um tom quase inaudível, e abrir os olhos lentamente. Agora ele tinha mais uma informação, seus olhos eram negros. Ela se levantou normalmente, mas com um detalhe pouco normal... Ela não estava nem um pouco envergonhada por estar completamente desprovida de roupas. Ao ficar de pé, começa a admirar o lugar luminoso em que se encontrava.
Ele logo se vira de costas. Em seu ponto de vista, era inadmissível uma garota como ela sequer sentir algum incômodo pelo estado que se encontrava. Não dava pra imaginar o que estava pensando, mas com certeza ela não sabia o que era estar viva. Seu olhar era o de alguém totalmente novo no mundo. Estava perdida.
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Eu não sabia o que fazer ali. Ela estava parada, olhando cada espaço da minha casa. Eu não estava vendo-a, me encontrava de costas, mas podia saber pela sua reação anterior. Não sei quem ela pode ser ou de onde teria vindo só que, para alguém vinda do céu dentro de um cristal que resistiu a uma queda de provavelmente quilômetros por hora, com certeza se trata de um ser incomum.
Pego meu sobretudo e, de olhos fechados, a cubro.
— Com licença... Nome? — Eu a pergunto. Ela me olhava com curiosidade. Aproximou-se de mim, com seu pequeno rosto redondo e aquele queixo levemente triangular, analisando meus braços, rosto, cabelo, nariz, ao ponto de aproximar absurdamente seu rosto do meu e me fazer sentir sua respiração, analisando-me cada vez mais de perto. As poucas luzes da cidade afastada, do lado de fora, atraem sua atenção.
Ela sai para a varanda de onde, antes, eu estava a olhar o céu. Debruça-se na pequena grade que não a deixaria cair naquele precipício. Seus olhos brilham quando encontram a lua e as estrelas. Ela estava a admirar aquelas perfeições de um jeito mais profundo do que eu fazia em algumas noites sem chuva.
Eu sempre soube que coisas que caem do céu tendem a trazer problemas junto, mas, ali, algo me dizia que eu estaria pronto para enfrentar tudo o que poderia vir contra mim. Ali eu pude ter um motivo para lutar.
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— Venha, vamos comer. — Ele a convidou. Ela inclina a cabeça para o lado. Não o entendia. Ele tentou tocá-la a fim de lhe conduzir à sua cozinha, mas num primeiro instante, ela dá um passo para trás. Kaiser faz o mesmo. — Calma, não vou te machucar... — Ela o olha arregaladamente, e então, permite que a toque nas costas e a direcione para a mesa. Ele afasta uma das cadeiras para que ela possa sentar, porém a mesma não entende esse gesto.
Ela parecia ter acabado de nascer.
Ele então a mostra o que fazer ao ir para o seu lugar à frente, afasta sua cadeira, senta e se aproxima da mesa. Logo após, sinaliza com o indicador apontando para a cadeira que havia puxado. Ela reluta em tocar no objeto, mas cria coragem para sentar e repetir, mesmo que com rigidez, os gestos de Kaiser.
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A sorte era que eu já havia feito minha janta e estava apenas esperando esfriar. Um dos meus pontos fortes é que sempre tive um dom para culinária. Não me gabando, mas sempre peguei com facilidade as técnicas referentes à comida. Ali eu havia feito um grande bife assado. O suficiente para duas pessoas, embora eu sempre comesse a mesma quantidade. Arrumei ambos os pratos com seus respectivos garfos, facas e colheres ao seu lado esquerdo, então, com a faca maior ao lado da carne. Cortei um grande pedaço pra minha "convidada", e logo depois outro para mim. Em seguida, peguei devagar o garfo e a faca, e a mostrei como se cortava uma carne devidamente. A coitada estava com medo demais, pois estava sempre se impedindo de tocar em algo, mas suou frio e ficou bastante assustada quando ambos ouvimos sua barriga roncar com brutalidade.
Todo o tempo, ela estava séria. Não demonstrava qualquer reação a não ser surpresa e medo. Logo, eu sabia que precisava ter paciência. Estava ensinando uma garota, provavelmente de outro mundo a se adaptar aqui, ou pelo menos era o que parecia. Levantei e fui até seu prato, e lentamente cortei o seu pedaço até a metade para mostrar com mais precisão como se fazia aquilo. Mais a minha frente eu tinha colocado um jarro de vidro com água, e havia dois copos. Os copos que eu mais gostava e, por isso, os únicos copos da casa. Coloquei um ao lado dela e servi a água. Mais uma vez, não soube o que fazer com aquilo, então a mostrei como se bebia. Ela entendia que eu estava ensinando-a, então tentava reproduzir meus movimentos. Pegou o copo lentamente com as duas mãos de forma tão delicada que parecia estar segurando um filhote de gato, então o levantou até sua boca e, dessa vez, ela não relutou. Ao piscar, não havia mais água naquele copo, ela precisava. Coloquei mais e ela bebeu antes que eu pudesse expirar. Ali, a ensinei como comer a primeira vez um alimento.
Aquela situação era nova, tanto para ela como para mim. Eu não tinha conhecimento sobre ela, e ela por sua vez não tinha sobre tudo. Era um mundo completamente novo do que ela talvez estivesse adaptada. Pensei na possibilidade de ela ser a própria estrela, mas isso soa muito surreal, mesmo que ela tenha caído do céu. Até que ela se adapte completamente, pode tomar muito do meu tempo, mas sinto que essa pode ser uma boa missão. Assim, minha vida pode fazer mais sentido.
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