A Saga das Lendas - Prólogo
9 Os Cinco Servos do Vazio
A barreira do sábio ainda se encontrava ativa. Ashtar e sua filha, apesar de ainda abatidos pela tristeza, se colocam de pé. Aquilo era o causador de suas dores. O Mestre, sem pensar e com incrível velocidade, acerta o estômago da criatura com a palma da mão, desfazendo toda a região do impacto. A vitória não iria ser tão simples assim. A parte atingida se refaz em questão de instantes. Frustrante.
-Droga... Quer dizer que isso não morre?
— Vocês não parecem fracos. Vamos lá! Venham todos! — Ele abre os braços como um convite, bem confiante das próprias habilidades. Kaiser é o próximo. Eles usam uma troca padrão de ataques, equilibrando em números seus punhos. Kaiser então salta em uma boa altura, concentrando o ataque em seu pé esquerdo. Volkrav desvia. Nesse instante, Yukki aparece em suas costas, o tocando e congelando quase todo o seu corpo, pra logo depois despedaçá-lo com um chute. Assim feito, o corpo do monstro ainda se regenera absurdamente rápido e quase é atingida pela rajada de luz que sai de sua boca.
— E agora? Não dá pra matar ele. — Diz Yukki.
— Isso vamos confirmar. — Kaiser junta as mãos e se concentra, liberando um pouco da energia de sua Besta. Como antes, a coloração do seu cabelo e olhos mudaram para vermelho-sangue. Ele avança contra Volkrav, que mal consegue acompanhá-lo, e o acerta também do estômago, perfurando e traspassando, resultando em uma grande explosão. A poeira não demora para abaixar, e mostra apenas a cabeça do inimigo como sobra. O sentimento de satisfação quase acontece, até que o corpo se regenera em um piscar de olhos.
— Minha vez... — Volkrav começa a fazer cópias de si mesmo em alta velocidade, cercando todos. Levanta as mãos — Michi kara no atsuryoku. — Uma força muito grande começa a atrai-los pro chão. Volkrav manipulou a gravidade. O Sábio, Ashtar, Shaya e Yukki não aguentam e seus corpos caem. Kaiser, graças ao poder da Besta, permanece de pé, mesmo que com um pouco de dificuldade. O inimigo ataca-o facilmente, dando um soco em sua barriga, o pegando pela cabeça e o batendo contra o chão. Kaiser consegue se levantar, mas Volkrav consegue fortalecer a pressão, o fazendo ficar no chão. Todos se encontram, naquele momento, incapacitados, a mercê de um inimigo que emanava desejo de ver o sofrimento. Com sua espada, ele perfura a barriga de Kaiser, causando uma forte dor.
— Não!!! — Yuki grita, encostando em sua mão. Nesse instante, ela começa a emanar a mesma energia que nos combates anteriores. Seu cabelo muda para branco-azulado e ela consegue se levantar, conseguindo acertar Volkrav com grande velocidade, cancelando a técnica, libertando todos. Com raiva, ele faz seus clones, ainda parados, usem a rajada de luz para matá-los, mas Yukki, Kaiser e Shaya conseguem desviar, enquanto o Sábio protege Ashtar com sua barreira ao redor de ambos. Parece estar difícil segurar dessa vez. Os outros três permanecem abaixados, mas Shaya implora.
— Não, pai, você também não! — Lágrimas rápidas escorrem dos olhos da filha desesperada. Ashtar estava quase certo de sua morte. Qualquer movimento que ele fizesse, ultrapassaria o escudo e ele seria desintegrado. Estava apenas aproveitando os últimos momentos para olhá-la.
Em questão de menos de um segundo, assim que a barreira se desfaz, algo parte ao meio todos os clones, que viram cinzas, salvando os dois homens. Sem esperar, Volkrav é cortado em dezenas de pedaços. O responsável deu as caras e, antes dos pedaços caírem, são chutados para grandes distâncias, escolhidas aleatoriamente. Naquele momento, deu para ver de quem se tratava. Uma jovem, de rosto pequeno e levemente triangular. Seu cabelo era incomum, da cor verde, assim como seus olhos de tom mais escuro. Usava uma espécie de coque que era sustentado por dois pequenos pauzinhos que faziam o formato de um "X", porém ainda lhe sobrava um grande cabelo liso que ia até seu cotovelo. Sua roupa se assemelhava muito a de um samurai, uma camisa branca por baixo, aonde a parte superior do kimono era preta, e a calça, incrivelmente larga, branca. Era perceptível sua pressa quando, de voz leve e firme, diz :
— Ele vai demorar pra voltar ao normal, mas tenho certeza que está vivo. Se ainda querem sobreviver, me sigam! — Todos a seguem adentrando na floresta. A caminhada é longa e cansativa para Shaya, que teve que ser carregada nas costas por Kaiser, já curado da ferida. Demorando um pouco mais de vinte minutos em correria incessante, eles chegam até um vilarejo. Um lugar típico de pescadores, ainda mais sendo um local cercado por um grande lago. As casas eram simples, feitas de barro com coberturas de palha e madeira emendados. A primeira era aonde ela os estava levando. Abrindo com pressa a porta, que range alto, eles entram. Um lugar muito modesto e bonito, ótimo para se morar. Nada além de uma cama, um criado-mudo, um banheiro e uma bancada para se fazer a comida em cima e embaixo guardar os ingredientes. Ela então se vira e faz uma referência padrão, se curvando para frente com os braços retos juntos ao tronco.
— Me chamo Midori, é bom conhecê-los, apesar das circunstâncias.
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Apesar de cinco anos ali, eu nunca notei esse lugar. O cheiro excessivo de grama úmida dá uma sensação acolhedora de alívio. Nada além de um frescor que se distribui por todo o corpo. O comportamento da tal Midori está calmo demais, considerando o que acabamos de passar. Feitas as apresentações, nossa nova companheira nos apresenta o lugar. Está vazio, apesar de ter grande quantidade de peixes e vegetais cultivados. Parece que algo os fez abandonar ali. Mas por que apenas ela está ali ainda? Sou interrompido pelos meus pensamentos quando Yukki vem até mim.
— Você está bem? Ele te feriu de um jeito horrível lá.
— Não se preocupe, isso aqueceu o corpo. — Um alívio cômico desfuncional. Isso já se autoexplica.
Tinha me esquecido que ainda carregava Shaya nas costas. Incrível como ela tem tanto corpo e tão pouco peso. Midori declara que ali poderia ser a nossa nova moradia. Shaya e eu vamos para uma casa que parecia caber nós dois. Antes de passarmos pela porta, vemos Ashtar ainda pensativo. A morte de seu filho o deixou longe, além de onde podemos alcançar. Fico do seu lado, seguro nos seus ombros e então, se deixando levar, o coloco na casa ao lado da nossa, de tamanho igual. Ele agradece e entra, sem olhar para trás. Entro com Shaya, e assim que fechamos a porta, ela desaba em soluços e lágrimas que duram metade da noite. Ali fiquei, abraçando-a até que dormisse em minhas pernas.
Se passando três dias, é a primeira manhã que todos já estavam acordados antes de nós. O céu continuava vermelho, sinalizando que os assuntos não foram resolvidos. Midori aparece do meu lado enquanto tento apreciar os peixes nadando em sincronia dentro do lago.
— Alguém forte está vindo. — Antes de ser avisado, Shaya segurava minha mão forte. Ela havia sentido a presença. E não se tratava do nosso último inimigo. Uma energia começa a deixar o ar pesado, causando dificuldade de respiração em todos. Nossa nova aliada põe a mão na sua espada, assumindo a postura defensiva. De fato, apareceu.
Um homem que mostrava ter um gosto muito grande pela cor preta. Sua roupa se baseava em uma armadura robusta e detalhes pontiagudos nas ombreiras, mãos, elmo e botas. E adivinha? Preto. Tudo preto. Por que os vilões adoram isso? Independente disto, ele grita.
— Dor de cabeça. Vocês viraram uma dor de cabeça. Aquelas vidas foram desperdiçadas, e tudo isso porque vocês não quiseram entregar esse insolente para mim! Vim aqui com uma última chance. Entreguem-me Kaiser, e posso pensar em não ferir ninguém. Caso contrário, vou separá-los e matá-los um por um com meus leais companheiros. — Ele estala os dedos, e todos os inimigos que enfrentamos até agora, ali estavam. O primeiro inimigo de Yukki, Liak, a mulher que quase matou a Shaya, Jax, e Volkrav. Todos ali, com a clássica formação de guarda-costas ao redor. Ashtar responde.
— Acha mesmo que depois de tantos companheiros mortos, vamos te entregar alguém tão especial assim de bom grado? Apenas por cima do nosso cadáver! — O homem ri. Logo, todos formam uma barreira em minha frente. Não posso negar que me senti realmente especial naquele momento.
— Eu esperava que dissesse isso. Que seja. — Ele suspende as duas mãos, fazendo todo o mundo em nossa volta ficar escuro, impedindo que enxergássemos a nós mesmos e aos nossos companheiros. Aos poucos, a escuridão foi dando lugar a uma paisagem diferente da anterior. Era um deserto, e não havia nada por perto além da mais pura areia. Por reflexo, desviei de algo que senti vindo em minha direção pelas costas. Um soco desavisado, que quase me acerta, mas ouço seu atrito no ar a milímetros do meu rosto. Era Jax.
— Achei que tivesse morrido. — Admito querer provocá-lo. Ele foi derrotado aquela vez covardemente, do jeito que merecia.
— Não importa como fui derrotado. Se não fosse ele, conseguiria ter te matado! E agora, levarei sua cabeça ao nosso mestre! — Ele assume uma postura de concentração, e enquanto grita,seus músculos começam a se encher junto com a aura forte ao seu redor. Ele terminou seu ato se transformando em uma aberração enorme e musculosa, e logo ele explode. Obviamente, aquilo não era o fim. Lá estava ele, com uma espécie de armadura feita do fogo azul, se encaixando perfeitamente na modelagem do seu corpo inteiro, o qual dava para ver por uma certa transparência, enquanto seus olhos brilhavam com a mesma cor, deixando exposto apenas seu rosto.. — É hora de compensar aquela derrota humilhante. Este é o verdadeiro momento de provar o verdadeiro poder do fogo-fátuo!
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