A Saga das Lendas - Prólogo
3 Fuga por Fuga
Notas iniciais
Acordo em minha cama, com um pouco de dor ainda em meu corpo. Yukki, ao meu lado, também dormia. Acredito que adormeceu enquanto me esperava acordar. Vendo daquela forma, nem parecia aquela garota apavorante que arrasou o cara que deixou meu corpo dormente numa surra mortal. Ela acorda quase junto comigo. Aquele olhar típico de inocência voltou a iluminar seu rosto.
Levanto com dificuldade enquanto ela me olha atentamente. Está bem claro em suas expressões que não se lembra do que realmente aconteceu. Talvez ao contar, ela nem faça ideia do que estarei falando. Vou até a cozinha devagar, a água já estava fervendo. Ela havia se antecipado nisso. Boa garota.
Depois de tudo pronto, tomávamos café tranquilamente, como se nada tivesse acontecido. Depois de um banho e um bom café da manhã, tive um revigoramento impressionante, algo que só valorizamos depois de sair bem de uma experiência de quase morte.
Mal levanto, e batem em minha porta. Não é meu costume receber visitas. Pra ser sincero, nunca recebi visitas, até onde lembro.
Yukki abre a porta antes de mim. Eram caras de terno. Em filmes, quando eles aparecem em sua casa, significa que você está com problemas, e ali a situação era a mesma. Antes que ela dissesse algo, a peço licença.
— O que querem aqui?
— Kaiser, certo? Você é o dono dessa propriedade?
— Sim, sou. Por quê?
— Queremos uma conversa com você. — O cara era uns 10 cm mais alto que eu, mas seu terno dava a impressão de mais. Em aparência não tinha um cara com porte sério, mas o trabalho o fazia ser assim, mesmo com sua fina camada de cabelo moicano loiro. — Podemos entrar?
— Quem são vocês?
— Somos do Departamento de Ocorrências da Cidade de Kasai. Podemos tratar de nossos assuntos? É de extrema urgência.
Permito que entre. Qualquer coisa dou conta dele e dos seis que vieram logo atrás. Olho para fora e vejo três carros, que eram puxados por 4 cavalos cada. Chuto uns 5m de comprimento, o suficiente para caberem pelo menos 6 pessoas. Na frente do principal, dois homens do mesmo tipo com cada um segurando uma espécie de arma de fogo. A coisa era realmente séria.
Sem pedir permissão, sentam em meu sofá. Não podia julgá-los, eu também seria assim.
O único que falava começou a desembuchar. Retirou do bolso do paletó uma pasta de papel, e retira fotos, jogando do meu lado. Eu conhecia aquilo. Era Yukki que surrava o cara estranho. Também fotos minhas e dele em combate. Até hoje ninguém soube o que eu fazia, e duas horas depois de eu entrar numa batalha pela vida de uma garota, esses malditos vem fazer alarde. Por isso odeio o pessoal do governo.
— Este aqui é você, esta aqui é sua namorada, e este cara aqui, não sabemos quem é, mas vocês não parecem se gostar muito.
— Pois é, eu não gosto de pessoas sem convite em meu território. — Acho que não posso chamar isso de indireta.
— Acreditamos que vocês possam ser uma ameaça para nós. — Yukki estava atrás de mim, segurando meu braço esquerdo com firmeza. Ela parecia sentir o perigo que eles estavam fornecendo. E é a primeira vez que fica assim. — Temos que levá-los para nossa base e descobrir se consideraremos vocês como uma ameaça ao governo ou se podemos tirar proveito de suas habilidades na área militar.
— Eu não me interesso nisso. Não gosto de soldados. Eu não estou prejudicando ninguém aqui. Tenho mais de uma centena de idade e nunca saí daqui para fazer mal a alguém. Por isso, acredito que não devemos ir com vocês. Por favor, se retirem. Não quero que tenhamos problemas.
— Minhas desculpas, mas isso não é uma opção. Devemos levar vocês. São ordens do presidente, não podemos ignorar. Se não vierem por bem, teremos que usar a força bruta.
— Pra mim, isso não é problema. — Eu estava realmente disposto, embora ainda estivesse um pouco fraco.
Sem pensar, o cara do moicano saca uma pistola de sua cintura e aponta para Yukki.
— Venham, e ninguém se machuca. Tomaremos conta de sua residência enquanto estiverem fora, não se preocupem. Checaremos se há algo de perigo nacional aqui, mas não apreenderemos pertences inofensivos.
Somos então levados para fora da residência. Os seguranças do veículo abrem a porta antes de sairmos da casa, acreditando que a missão tinha sido um sucesso. Que pena.
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De repente, Kaiser dá um poderoso soco no chão, gerando uma nuvem de poeira e pedras. Os que seguravam as armas começam a dar tiros em direção a eles, mas Kaiser consegue agarrar Yukki e se lança no penhasco, pousando com firmeza no chão e correndo para as árvores, sendo perdidos de vista. Acima, os seguranças desesperados contatam alguém pelo rádio e começam a procurar pela casa. Em suas palavras distantes, só se entendia uma coisa: a missão falhou.
Kaiser e Yukki caminham naquela floresta que até então nunca explorara. As folhas das árvores altas faziam os raios de sol parecerem migalhas douradas no chão e em suas peles. O ar era úmido, causando arrepios. Eles andam por alguns minutos, e então encontram uma espécie de vilarejo. Embora o sol alcançasse suas cabanas de madeira e seda debaixo daquele monte de árvores, parecia que tinham a necessidade de acenderem suas lâmpadas externas.
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Quanto mais perto chegávamos, mais um cheiro estranho ficava evidente. Um fedor forte e, de alguma forma, repulsivo. Logo que alcançamos ao local. Achei estranho quase todas as pessoas dali serem mulheres. Não é questão de machismo, mas... É estranho um lugar assim.
Andamos em meio à poeira que as pessoas deixaram pairando com seus passos apressados e ansiosos. As cabanas faziam um círculo no vilarejo, destacando uma maior na ponta esquerda.
— Vamos nos informar ali, Yukki. — Era meu objetivo, pelo menos, entender onde estávamos. Ao subirmos os cinco degraus que nos guiava para dentro, o cheiro que antes era repulsivo havia ficado insuportável. Yukki não parecia perceber, aliás, ela permanecia com a mesma expressão de perdida o caminho inteiro e em nenhum momento mudou. Lá dentro, sentada atrás de uma mesa com um forro de seda vermelha e bordas douradas, estava aquela que parecia ser a Manda-Chuva de todo o ambiente, mas, para o meu desagrado, se vestia depravadamente. Havia apenas algo que cobria seus mamilos (sim, apenas os mamilos) e uma saia semitransparente de um roxo forte, que vi quando a mesma se levantou para me cumprimentar.
— Sejam bem-vindos, que tipo de serviços posso lhes prestar? — Um comportamento formal demais para alguém ousada.
— Procuramos informações. Me chamo Kaiser, e esta é Yukki. Precisamos de um lugar para ficar, e espero que aqui talvez tenha este tipo de serviço.
— Ooooh, pelo jeito não percebeu que tipo de "serviço" nós prestamos aqui. — A mulher desliza suas unhas negras de ambas as mãos em meu rosto. Aquilo me dá calafrios. Não dá pra saber por que, mas com certeza aqui vou ter problemas.
— Talvez não, mas a única coisa que preciso agora é de informação. Aqui não parece ser uma cidade, então preciso saber como chegar à próxima. Eu vim de bem perto, só precisamos da direção certa.
— Claro, meu querido Kaiser. Mas precisamos que antes você nos dê algo em troca. — Seus olhos começam a criar um vermelho-vivo. Pego Yukki pelo pulso e a levo para fora da cabana, mas acredito que esse lugar não deva ser de onde os humanos comuns sairiam vivos. Ao que parecia, todas as mulheres de seus respectivos esconderijos se reuniram para nos cercar. Seus olhares não eram de boas vindas.
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Uma das mulheres avança contra os dois com os braços levantados e a boca aberta, revelando seus caninos como presas enormes. Kaiser a golpeia com um soco concentrado de seu elemento no estômago, e sem tempo de parar, contra-ataca da mesma forma com chutes as que vinham depois ao seu redor aleatoriamente. Ao ter uma brecha, Kaiser pega Yukki em seus braços e consegue saltar para o telhado de uma das cabanas pra tomar impulso até um galho alto de uma das árvores. Ele vê a líder indo ao meio de suas semelhantes.
— Peguem esse garoto. Peguem o filho daquele maldito rei. Peguem Flamvell Kaiser!
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