A Saga De Câncer

6 A Noite Mais Densa


Notas iniciais
A infância de MdM está chegando ao fim... O que mais se desenha para o futuro de Carlo?
Apreciem. Comentários, sempre bem-vindos.

Capítulo 6: A Noite Mais Densa

Santuário de Atena — Campo de Treinamento dos Cavaleiros

Matteo passou a se esforçar mais nos exercícios de velocidade, já mostrando muito progresso. Jabu mostrava-se cada dia mais contente com o novo Matteo que se desenhava à sua frente. O garoto realmente estava disposto a tornar-se um Cavaleiro — havia mergulhado de cabeça no projeto.

Quem treinava junto a Matteo era Victor, o filho de Shura. O espanhol também tinha a agilidade e estilo de luta do pai, mostrando-se o parceiro perfeito para Matteo. Ele conseguiam treinar por horas a fio, sem reclamar ou gemer. Apenas sorriam e desferiam socos e pontapés rápidos e fortes.

Treinaram, naquele dia, até às sete horas. Terinaram por doze horas seguidas sem reclamar uma vez sequer.

(Jabu, orgulhos): Meus parabéns, rapazes! (dá tapinhas nas costas de ambos) Se continuarem assim, poderão um dia tornar-se Cavaleiros tão fortes quanto os Dourados...

Um brilho surgiu nos olhos de Matteo. Cavaleiro de Ouro, ele? Seria isso possível? Teria ele todo esse potencial? Ele tinha algumas dúvidas... Seá que Máscara da Morte também diria o mesmo?

***

(Victor): (Surpreso) Otra vez? Por que não vai com a gente?

Era aniversário de Hera, a filha de Kanon, a garota que Matteo tinha magoado. Todos haviam sido convidados para a festinha, que seria no dormitório das Amazonas. Apesar de querer pedir desculpas, Matteo não se sentia à vontade com a situação. Preferia ler as cartas a ir até o local.

(Christian): Por favor! Sei que você e a Hera não se gostam, mas hoje é aniversário dela! (Puxa o braço de Matteo) Vamos, por favor.

(Victor): (Sorriso melindroso, sussurra) A Zahara vai estar lá...

(Matteo): (Corado) E-ela v-vai?

(Victor): Vai... (Suspira) E a Madri também...

(Matteo): Não sei... (Coça a cabeça) Não tenho presente... (Estala os dedos com o semblante decidido) Já sei! Tenho algo guardado para ela... Não é grande coisa, mas pode ser que ela goste. Preciso voltar ao nosso dormitório! (Retira-se, correndo)

(Christian, gritando): Vê se não demora! (Para Victor) Vamos.

(Victor): É... (sorriso triste) Vamos.

O espanhol demora-se um pouco mais, vendo Matteo sumir no horizonte. Até quando ele continuaria a agir assim?

***

O italianinho chegou até sua cama, tirando uma caixa debaixo dela. Havia algumas pequenas esculturas e colares de madeira — eram o passatempo de Matteo, que tinha um lado bem artístico. Ele escolheu um colar de conchas cor-de-rosa, as quais já tinham sido pintadas e envernizadas. Antes de sair, abriu a próxima carta de Máscara da Morte.

“Garoto, você não tem mais o que fazer?”

(Matteo): Ah, Hera pode esperar... Só um pouquinho! Quero saber o que acontece com Syrus e os demais.

“Bom, já lhe vou adiantando que será uma carta menorzinha. Outra coisa: não repita os mesmos erros que eu, garoto. Eu não era o mais sociável dos Cavaleiros, e nem fazia questão de sê-lo. Hoje, vejo que, se eu tivesse sido um pouco mais camarada, digamos que eu teria ao menos uma boa alma para chorar minha morte...”

(Matteo): E eu? (Levemente triste) Eu não conto?

“Claro que conta! Mas, o que quero dizer é que você deveria aproveitar os amigos enquanto ainda os tem. Eu dispensei a oportunidade de ter feito dos outros Dourados minha segunda família, e hoje... A eternidade, Matteo... Pode ser muito, muito fria e cruel se não houver uma única alma penada para fazer-lhe companhia...”

O menino fitou aquelas palavras por um longo momento, reflexivo. Máscara da Morte sabia o que era a solidão verdadeira. Apesar de morto, ele se preocupava com o rapaz. Seria o Cavaleiro de Câncer uma espécie de...

(Matteo): Meu anjo da Guarda?

“Como?”

(Matteo): (Tímido) É... Por acaso... O senhor...

“Eu me vejo mais como um... Como uma consciência, por assim dizer. É algo bem irônico, se for parar para pensar... Bem, sou sua Consciência. Consciência é algo estranho para mim — quase nunca eu a tive...”

Matteo riu levemente e abriu a carta. O relógio marcava sete horas, vinte e cinco minutos e trinta segundos. Ele tinha tempo.

–--

Ilha de Sicília, Itália — Continuação da Carta Anterior

Aquela foi a última vez que Carlo vira Syrus sadio; agora, eram ele, Mefisto e Sírius quem treinavam. Na maior parte do tempo, Syrus permanecia nos aposentos de Sage. Durante a noite, era possível ver Mefisto do lado de fora do dormitório, ouvindo as crises respiratórias de seu amigo. Em uma dessas noites, a mais escura que Carlo já testemunhara até então, o futuro Cavaleiro de Câncer aproximou-se do rapaz, que chorava em silêncio.

– Acho que ele não passará dessa noite — Murmurou Mefisto — Ele... Ele está tossindo há horas, Carlo! — Ele enxugou as lágrimas de seu rosto, e o italiano sentou-se perto dele — Desde aquele maldito dia... Que Cortéz morreu... — Ele fitou Carlo com os olhinhos marejados — Ele não sai daquela cama, Carlo! Não fosse a tosse ininterrupta, eu diria que... Ele morrera também.

Carlo já estava chorando; compadecido com a dor do amigo, acolheu-o em seus braços. Apesar de sentir a perda de Cortéz, os últimos dias fizeram Carlo endurecer mais, e logo ele já não chorava mais. Em vez disso, ouvia, atravéz da janela, Sage conversar com o agonizante Syrus.

– Quantos anos você tem, pequenino? — Indagou o antigo Cavaleiro Dourado.

– Tenho... Oito e meio... — Respondeu Syrus entre pigarros.

– E de onde você vem? — A voz de Sage estava claramente embargada.

– De... Edimburgo, sim senhor — Respondeu o menino com muita fraqueza.

O garoto não parava de tossir, e Sage começou a chorar junto a ele. Logo, a tosse tornou-se mais crítica; naquele momento, Carlo ouviu passos ao longe. Eram os passos de Sírius com toda a certeza.

A tosse, então, parou; Sírius ficou parado ao lado de Carlo, com os olhos prateados fixos no parapeito da janela. Não havia sinal algum de luto nele; Carlo então fitou-o, com ódio.

– Não havia salvação para ele — Sussurrou o descendente de espanhóis — Daqui, sairemos ou Cavaleiros... Ou cadáveres.

Mefisto parou de chorar, ficando em silêncio. Carlo continuava apático por fora, mas corroído de ódio por dentro.

– Realmente... — O tom de voz de Carlo estava mudado: era mais grave e rouco, como se ele fosse mais velho e sem sentimentos — Cavaleiros ou cadáveres...

Ele se levantou, apoiando Mefisto nos ombros. Sírius olhava para ele fixamente.

– Não pense que não quero me livrar de você, Carlo — Ele disse — Desde que chegamos aqui, você é o que mais me interessou como adversário... Admita; somos os peixes-grandes aqui.

– Negativo — Respondeu Carlo em seu novo tom de voz — O único peixe-grande aqui sou eu. Você não passa de uma reles alma sem salvação... Um menino perdido, sem rumo ou destino. Cavaleiros ou cadáveres, você diz? Bem, o Cavaleiro serei eu. O resto não me diz respeito.

Sirius fitou Carlo com surpresa e perplexidade; o rapaz mudara muito no pouco tempo em que estivera em Sicília. Talvez os planos dele tivessem que ser reajustados — o novo Carlo que se desenhava diante dele... Seria bem capaz de frustrar-lhe os planos...

–--

Oito horas, vinte minutos. Matteo estava atrasado! O rapaz guardou as cartas e as demais esculturas embaixo da cama e correu para o aniversário de Hera, ainda na posse do colar. Haviam lágrimas em seu rosto, fruto de sua última leitura. Estava triste por Carlo ter perdido mais um amigo, mas feliz por ter ganhado uma consciência.

Tinha um Cavaleiro de Ouro como guia. O que mais ele poderia pedir?

***

A festa de aniversário de Hera acontecia na casa de Gêmeos. Apesar de ser uma ocasião especial — afinal, 13 anos só se comemoram uma vez na vida -, ela não conseguia deixar de estar triste. Desde sua última discussão com Matteo, tornara-se um pouco mais triste, frágil. Além disso, havia rompido relações com Zahara, e só podia contar com a indiana Madri que, apesar de cega para o exterior, enxergava o interior e entendia os sentimentos das pessoas como ninguém.

(Hera): (Triste) Ele não vem, Madri...

(Madri): Quem, Matteo?

(Hera): É... (Suspiro) Acho que, dessa vez, consegui afastá-lo. (Irônica) Parabéns, Hera. Você é, de fato, um gênio!

(Madri): Não fique assim, amiga! (Abraça-a) Eu acho que ele aparecerá, sim! Por mais que vocês tenham brigado, ele nunca foi de fazer esse tipo de desfeita...

A grega fitava o chão, arrasada. Ela se arrependia de ter brigado com o italiano; por causa de seu ataque de ciúmes, era muito provável que Matteo não desse as caras por lá. Em instantes, contudo, provou-se errada a teoria de Hera, pois Matteo, ofegante e com uma caixinha em mãos. O rosto da sardenta greguinha iluminou-se ao vê-lo.

(Hera): Matteo! (Corre e abraça-o) Obrigada! Obrigada por ter vindo! (Beija-lhe o rosto)

(Matteo, tímido): Não há de quê... (Estende a caixinha) P-para você... Espero que goste...

A grega abriu a caixinha com hesitação seguida de alegria ao ver o colar de conchas feito pelo italiano. A garota ficou extremamente emocionada, abraçando o italiano fortemente.

(Matteo, pensando): Ótimo conselho, Carlo... Obrigado...

Continua...

Notas finais
É, estamos chegando aos anos de Cavaleiro do MdM... Como será que ele se sairá? O que mais há para ser descoberto? Descubram... No próximo capítulo!
Até a próxima!