A Rosa de Hermione
1 Prólogo
Notas iniciais
[2006]
O terreno da aldeia "Ottery St. Mary" passou por diversas mudanças nos últimos anos. Mesmo os trouxas da cidade próxima ─ Ottery St. Catchpole ─ sussurravam, assustados, tentando descobrir o que acontecera para que, de repente, aquelas casas surgissem, rodeando "A toca" ─ como chamavam a moradia há mais tempo no local. Era verdade que conheciam os moradores ─ por vezes estes faziam visitas a cidade ─, contudo quase não revelavam quem realmente eram. Andavam com vestes despojadas e muito fora de moda, ou ao menos era aquilo que madame Arandt, uma senhora de sessenta anos que gostava muito de fofocar sobre a vida alheia, costumava dizer. Isso para não mencionar os modos; enquanto alguns agiam exatamente como lhes era comum, outros pareciam olhar encantados para as coisas mais simples do mundo!
"Por que aquele senhor passa meia hora olhando os postes?" ou "O que têm de errado com as televisões?" eram perguntas que faziam sempre que pegavam no flagra os estranhos encarando diversos objetos que compunham as ruas e aposentos da cidade.
Um dos fatos mais estranhos é que antes pareciam ser apenas uma família comum. Os com memória boa poderiam lembrar do casal com os não tão poucos filhos ─ ainda que nunca tivessem tido o "prazer" de ver todos os nove reunidos ─, enquanto os mais jovens poderiam desfrutar de uma visão nova, não menos chamativa. Parecia que a família tinha se duplicado. Não, triplicado! Os adultos viraram idosos, as crianças viraram adultos e agora carregavam... bebês? Pareciam ter o cuidado de parar de frequentar a cidade com intensidade, no máximo passavam ali duas vezes por ano, todavia as visitas sempre eram lembradas.
─ Não fique perto daquela gente! ─ Sussurrou madame Arandt para uma das criancinhas ─ uma menina de olhos inteiramente azuis e cabelos que ora pendiam para o castanho, ora pareciam um pouco aloirados ─, provavelmente de nove ou dez anos, que passava a seu lado cochichando com outros de sua idade sobre a visita que tinham recebido semana passada.
***
─ Você viu, Molly?! Eu achei simplesmente incrível! Passou em cima da gente! E parecia tão perto. Pena que minhas juntas não estão mais tão boas, ou poderia ter pegado a vassoura e voado até ele. ─ O senhor Weasley falava, encantado, sobre o que tinham encontrado na cidade. Daquela vez foram apenas Molly e Arthur, disfarçando-se o melhor que conseguiam de trouxas comuns, por causa de uma notícia recebida por um dos contatos no Ministério. Havia um elenco famoso de algum seliado, serado, serido, que estava de visita para publicidade.
O casal já beirando aos sessenta anos mal entendiam daquele assunto, contudo Arthur descobrira que a visita seria acompanhada por um helicóptero! Não que entendesse muito, seu foco estava em aviões ─ ele nunca abandonara aquele desejo de voar ─, contudo era empolgante ver uma coisa tão parecida passar perto deles. Tinham conseguido ficar a metros de distância, ignorando as regras de segurança que desconheciam, e acompanharam o fim do voo sem que nenhum trouxa os visse. Ainda tinham alguns truques na manga, no que dizia respeito à invisibilidade, mesmo que durasse pouco.
─ Arthur, depois você terá todo o tempo do mundo para explicar aos nossos filhos sobre o que viu, mas agora precisamos preparar a casa! Molly II nasceu há apenas uma semana e quero toda a família reunida para recepcioná-la. ─ Exclamou, andando de um lado para o outro, deixando a varinha fazer parte de seu trabalho, enquanto ajeitava as poltronas, tirava alguns objetos que deixavam o local menos espaçoso e limpava a sala de estar.
Ao mesmo tempo em que a família cresceu a toca também cresceu, ainda que não muito, já que nenhum dos filhos morava ali. Com certa tristeza e alívio, presenciou um a um construírem suas casas nos arredores. Percy e Audrey, ambiciosos, decidiram se fixar mais perto do Ministério e Harry e Gina em Godric's Hollow. Tirando os dois casais, os outros encontraram um lar nos terrenos há muito o lugar fixo da toca. Possuíam uma rede fixa de pó de flú e podiam se locomover entre as casas quando quisessem, com um aviso prévio de algumas horas quando não era uma emergência.
─ Molly, querida, venha, vamos nos sentar. Já está tudo certo: A casa está perfeita, os móveis arrumados... Exatamente como você gosta. ─ Um traço jovial passou, de repente, por sua face, como se tivesse recuperado aquela áurea brincalhona, por mais que a mantivesse sempre que era possível. Deixou o corpo descansar em uma das muitas poltronas, convencendo aos poucos sua companheira a sentar. Logo que se acomodaram, ouviram um estouro no andar acima. Não era preciso desviar os olhos para perceber o sorriso no rosto da esposa. O relógio agora apontava para Gui, o que significava que ele, Fleur e seus filhos chegaram.
Primeiro veio a mulher, numa pose altiva, com um sorriso contagiante, ainda que o nariz estivesse empinado, caminhando em postura digna da realeza, enquanto descia ─ com certo cuidado para não derrubar Louis, de apenas um ano, cujos movimentos da mãe pareciam não influenciar na amamentação. Gui surgiu logo depois em seu campo de visão, as marcas de um passado inapagável em seu rosto, demonstrando apenas com o olhar estar extremamente feliz em estar ali, pronto para passar o restante do dia com sua mãe amada e o pai, também. A pequena Dominique, de apenas dois anos, era apalpada por seu pai numa tentativa de fazê-la dormir ─ os olhos ávidos, cheios de curiosidade, olhavam de um lugar para o outro, o corpo e a mente da pequena recusando-se a adormecer. Por fim, Victorie, entre os dois, segurando as partes que pudesse das vestes dos pais, copiando a pose de Fleur e a alegria de seu papai. Tinha seis anos e, como ela mesma dizia, queria ser igualzinha aos dois!
Mais uns minutos e Jorge, Angelina, Fred II e Roxanne apareceram, a apenas alguns metros dos sofás. Jorge ─ cujo olhar nunca voltara a apresentar o mesmo brilho após a morte do irmão ─ parecia animado com a possibilidade de fazer mais brincadeiras, mesmo que elas fossem um pouco dolorosas. Agora, no entanto, era um homem sério e um pai: Equilibrar o próprio filho, não aparatar e não ter uma orelha eram três tarefas difíceis a serem consumadas ao mesmo tempo. Angelina, trazendo consigo suas particularidades, segurava o braço do marido, ajudando-o, enquanto, sem esforço, levava a pequena Roxanne até uma acomodação mais apropriada. Era preciso muita determinação e momentos de brincadeiras, as quais ajudavam a dissipar o nervosismo, para criar dois filhos da mesma idade ─ um ano, ainda que estes não fossem gêmeos ─ ao mesmo tempo.
─ Querido, não! Não é pra segurá-lo assim. Você vai sufocar a criança. Dona Weasley, tem certeza que ele não perdeu o cérebro, também? Isso, Jorge. Não é tão difícil, viu? Um ano para aprender e nada. Fala sério, homem!
Gina, Harry, Rony, Hermione. Os quatro chegaram, quase como se formassem um quarteto. Tinham, na verdade, se encontrado na parte da manhã e tomaram a decisão de vir juntos. James, que aprendera a andar fazia apenas algumas semanas, correu para se acomodar onde Angelina segurava o pequeno Fred. As duas mães trocaram olhares, cúmplices, como se soubessem que logo a terceira geração teria seus dois marotos ─ o que ninguém imaginava, com a exceção de Jorge, era que, depois de um quarteto e uma dupla, havia espaço para um trio. Hermione e Gina estavam, as duas, na metade da gravidez. Rose e Alvo. Fadados a se tornarem, um dia, melhores amigos. Nenhum sinal do pequeno Hugh ou Lily, cujos anos passariam até que pudessem nascer.
─ Entrem, por favor. ─ A senhora Weasley parecia ter se esquecido de responder a pergunta de Roxanne, pois agora os ponteiros também informavam que Percy chegara. Tinham instalado uma campainha na casa, para alegria de Arthur, assim que ele se casara com Audrey, uma trouxa que conhecera numa das poucas viagens de férias que se permitia fazer. A pequena aniversariante tinha finalmente chegado, para alegria da família. Lucy estava junto a Percy, com o olhar fechado, parecendo desinteressada. Audrey trazia uma pequena ruivinha, cujos tufos do cabelo visíveis eram raros não só por sua idade, mas por sua cor. De todas as comemorações, a mais emocionante devia ter sido a de Molly. Foi com um sorriso ─ e uma sensação de paz, de que agora tudo estava certo entre eles e o passado perdoado ─ que o filho mais velho percebeu as lágrimas escorrendo pelo rosto da mulher, ao mesmo tempo em que ela esfregava os olhos numa tentativa inútil de contê-la. O nome da pequenina fora dado em sua homenagem e, para si, não podia ter recebido maior honra.
Aquele era apenas um dos inúmeros encontros da família Weasley. Verdade que sempre havia espaço para mais algum: Por vezes recebiam Neville, agora professor de herbologia em Hogwarts, ou Luna, que conquistara o respeito de todos após poucas visitas a toca. O pequenino Teddy, cujos pais nunca veriam crescer, também costumava estar presente, contudo tinha se machucado no dia anterior ─ era desajeitado demais para pegar um livro numa das partes mais altas da estante, mesmo que tivesse oito anos e fosse um mocinho ─ e não poderia estar presente. Carlinhos apareceria dali uma hora: Um imprevisto envolvendo uma nova ninhada de dragões o impediria de chegar no horário marcado.
O que importava era que todos estavam ali e, para alguém que vivia num mar de preocupação quanto aos membros da família, tudo estava como deveria ser.
Fale com o autor