A Rosa Dourada
15 Acorrentadas
Notas iniciais
j a r d i m d e c i m a
Roslin passava o pincel pela tela com tranquilidade. Tentava ao máximo ser cuidadosa e pintar as flores da melhor forma possível. Desde que havia começado as aulas de pintura tinha melhorado bastante, seus borrões passaram a ter forma e a jovem Fossoway conseguiu ser mais realista.
Septã Iglitine observava todas as damas do jardim com olhos de águia. Procurava defeitos e pontos para serem corrigidos. Junto de Roslin se encontravam as irmãs Meadows, pintavam melhor do que ela, mas mesmo assim não se gabavam e sempre tentavam ajudá-la.
Thalia Crane era um fracasso, mesmo que passasse horas tentando, suas flores sempre acabavam como borrões coloridos. Era o bode expiatório da septã que sempre gostava de parar ao seu lado para dizer seus erros. Por fim do outro lado e mais abastada se encontrava Mylessa Valoa, a amante do rei, como todos do castelo fofocavam.
A cortesã vinda de Braavos meses atrás pintava com uma perfeição e calma extraordinária. Septã Iglitine nunca conseguia achar um erro para reclamar em suas telas. A Fossoway nunca se aproximou da jovem, não queria desagradar à rainha que sempre olhava para a bravosi com repugnância.
Deveria ser horrível a situação em que a Rainha Elizabeth encontrava-se, ter outra mulher dividindo a cama de seu marido e você não poderia mover um dedo para impedir. John a trairia com uma amante também? Ela não se importava com a resposta, estava bem claro que um convívio de paz com o príncipe não poderia existir. A única coisa possível que ela poderia fazer era se manter afastada dele, pelo menos até o casamento.
Perguntava-se como um ser tão doce como Lady Cecily poderia ser irmã de John, ela achava ainda mais curioso o fato dela aguentar a presença dele quase o tempo todo. Ele deveria ser gentil com ela, afinal eram irmãos.
— Minha querida Roslin, melhores suas pétalas, elas estão pequenas demais. — A septã apareceu ao seu lado, tirando-a de seus devaneios.
O tom de voz da mais velha era calmo e gentil, como ela havia percebido ultimamente, todos no castelo a tratavam bem, afinal ninguém gostaria de ser inimigo da futura rainha. Muitas garotas poderiam fazer de tudo para ter uma coroa sobre a cabeça, mas só a ideia de governar um reino inteiro e ter John como marido a fazia querer trocar isso com qualquer uma. Tudo que a mantinha firme era seu pequeno irmão, o ser que precisava de proteção dela e de Ellynor. As duas tinham de cuidar dele agora que os pais haviam partido, era o dever delas, mesmo que esse dever fosse árduo.
A irmã mais velha de Roslin seria uma rainha muito melhor, ela tinha certeza disso. Sabia como cuidar dos lordes, administrar terras e é claro amava a corte. Já Roslin daria de tudo para voltar a sentir o cheiro doce de maçã de Solar de Cidra, as folhas de macieiras, as pessoas que ela conhecia a vida toda. Aquele era seu lar e não Jardim de Cima.
Gostaria que assim que tivesse seu herdeiro ela pudesse visitar sua casa, sabia que a irmã e Raymun não poderiam ficar ali para sempre, teriam de partir, deixando-a sozinha com um péssimo marido. Ela borrou no caule de uma das flores e suspirou, tinha estragado a pintura.
Levantou-se rapidamente e um pajem começou a recolher seus materiais.
De qualquer forma não poderia demorar mais, o casamento de Lady Cecily com Lorde Tarly seria daqui a algumas horas, tinha de se arrumar já que era uma das Sete Donzelas.
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Seus passos eram lentos comparados com o do pai, que andava com rapidez até a sala do trono. Os dois Tyrell haviam sido jogados nas masmorras como traidores, eram acusados de terem se aliado aos Hightower. Todavia nem Lorde Filip como Barth não tinham nada haver com a rebelião. Tudo aquilo era culpa de sua mãe e seus irmãos, pensou amargamente.
Eram escoltados como meros prisioneiros, todos os anos de serviço e lealdade pareciam ter sido esquecidos. Os membros da corte olhavam curiosos, enquanto Barth e Filip eram levados até seu julgamento.
Ele ainda não acreditava em tudo o que a mãe havia feito, se metido no meio de uma rebelião e ainda assim mentindo para ele. O moreno acreditava que a mãe o amasse, mas seu pai havia aberto seus olhos, Lady Terresa só queria poder, assim como seus irmãos mais novos. Lyra e Alexander nem haviam pensado duas vezes antes de se juntarem a ela, agora deveriam estar em Vilavelha com seu rei usurpador.
Os dois Tyrell com sua pequena comitiva haviam chegado a Jardim de Cima no dia passado. Foram recebidos com algemas e espadas, vieram para prestar lealdade, mas agora estavam sendo considerados traidores.
As portas da sala do trono foram abertas e fechadas rapidamente. Ao contrário do que pensava, a sala do trono estava vazia com exceção do rei e quatro cavaleiros da Ordem da Mão Verde. Todos os julgamentos que Barth compareceu foram com a presença da Corte Gardener em peso, por isso, apenas a presença do rei foi uma surpresa.
Os dois foram jogados como sacos de batatas pelo chão. Barth se levantou com o resto de honra e orgulho que tinha, enquanto o pai continuou no chão ajoelhado perante o Rei Gardener.
O rei com sua coroa dourada permanecia atento, com um sorriso de satisfação na face.
— Meus carcereiros me disseram que tinha coisas a me dizer Filip... — Garth começou com curiosidade. — Que coisas seriam essas?
— Vossa majestade, tenho que dizer que somos inocentes de qualquer acusação e...
Qualquer coisa que fosse que seu pai fosse falar não pode, o rei bateu com tudo no braço do trono fazendo Filip se calar.
— Então vai-me dizer que sua esposa e sua filha se aliaram a rebeldes e isso não é traição?
— Terresa agiu por conta própria sem meu consentimento, arrastou meus filhos mais novos para o meio dessa rebelião e fugiu antes que eu pudesse trazê-la para Jardim de Cima.
— Então quer dizer que a teve em suas mãos e a deixou fugir?
O tom de voz de Garth era de raiva, mas ele nem gritou ou ergueu-se de seu majestoso trono.
— Infelizmente sim majestade, mas saiba que eu nada tive haver com tudo isso e peço sua piedade para seus fiéis servos...
Garth observou por um breve momento o homem prostrado a sua frente antes de suspirar.
— Como posso saber se não está mentindo? Pode muito bem estar conspirando com sua esposa...
Mais rápido que qualquer um naquela sala Lorde Tyrell ergueu-se e pegou a espada do cavaleiro mais próximo. Foi em direção ao rei rapidamente, os guardas foram lentos e ainda estavam apáticos sem perceber o que havia acabado de acontecer. Barth pensou que seu pai fosse matar o rei.
Surpreendeu-se, o pai do rapaz estava novamente de joelhos, a espada estava nas mãos de Garth próxima a garganta de Lorde Tyrell.
— Sou leal a você, vossa graça, deixo que decida meu destino!
Por mais que Garth tentasse parecer tranquilo, ainda assim estava assustado por conta de toda a situação, sua testa estava com suor. Ele pareceu ponderar mais um pouco antes de por fim dizer:
— Você foi absolvido de suas acusações Lorde Tyrell, assim como seu filho. E peço desculpas pelo seu castelo...
Filip levantou a cabeça rapidamente para o rei, surpreso.
— O castelo foi atacado por minhas forças e incendiado. — Ele parecia de certa forma ter se arrependido.
— Castelos podem ser reconstruídos, peço apenas misericórdia por meus filhos, os dois estão sendo manipulados pela mãe e não sabem o que fazem. — Disse Lorde Filip levantando-se.
Um guarda tirou suas algemas, assim como às de Barth.
— Posso dar o perdão real para o garoto, mas não posso prometer nada pela garota...
— Por que não? — Barth perguntou, por mais que estivesse com raiva de Lyra ainda se preocupava com ela.
— Ora vocês não sabem? — A confusão nos Tyrell fez com que o rei abrisse um sorriso. — Ela vai se casar com Niklaus Hightower hoje e eu preparei um presente mais do que especial para o casal.
❇
As mãos de Cecily suavam frio. Não deveria estar ali, deveria estar se preparando para ir ao septo com suas damas. Mas não resistiu, a carta de Gwayne estava cheia de emoção e ela não pode deixar de ir até aquela torre.
Aguardava em pé, olhando para os jardins, onde nobres se amontoavam e aguardavam para entrar no septo de Jardim de Cima. Todos ali esperando para testemunhar sua união com Axel Tarly. Ela se sobressaltou quando a porta abriu-se com estrondo, viu um Gwayne transtornado e com medo.
Antes de dizer sequer alguma coisa os lábios dele foram contra os dela, a Beesbury não resistiu ou impediu o ato. Ela também tinha vontade, vontade de permanecer com ele e os dois ficarem juntos até o fim de seus dias, mas a vida em si nunca é da maneira que imaginamos.
— Não faça isso... — Ele pediu depois de se separarem, as testas dos dois grudadas, a respiração dele era audível. Turva e inconstante.
— Eu preciso, por Willas! — Por mais que tentasse ser forte naquele momento, não conseguia, os olhos já estavam se enchendo de lágrimas. — Axel me dará os homens que eu necessito, poderei proteger o patrimônio de meu filho.
— Mas vai ser infeliz. — Agora os dois se olhavam, Cecily mirava os olhos negros de Gwayne com compaixão. — Do que adianta ter uma vida sem amor, amor é tudo Cecee. Vamos encontrar outra solução.
— Qual? — Ela questionou.
— Não sei, nós poderíamos...
— Não há outra maneira Gwayne, é o único jeito. Mesmo que eu seja infeliz vai valer apena para proteger o futuro de meu filho.
Ele se colocou sobre um joelho.
— Cecily, eu lhe imploro, por nosso amor e por todo o afeto que tem por mim. Não se case com Axel, continue comigo. — Os olhos do cavaleiro eram pedintes.
Custou muito dentro de si soltar a mão dele.
— Sinto muito... — Foi tudo que conseguiu pronunciar antes de virar as costas e sair da torre.
Já não conseguia suportar as lágrimas, então deixou que caíssem, borrando sua maquiagem e a deixando com um ar melancólico. Não deu atenção para os guardas, os servos ou até os nobres. Apenas seguiu para seus aposentos. Não soube ao certo o caminho que seguiu para chegar lá, contudo não demorou muito para bater de frente com a rainha.
Sua mãe, Elizabeth, estava em frente à porta com uma expressão de preocupação. Não pelo sumiço da filha, mas sim pelos problemas que o rompimento da união causaria. Suspirou ao ver Cecily chegar de outro corredor e foi rapidamente até a mais nova.
— Pelos Sete, pensei que tivesse fugido com aquele homem. — A rainha olhou para maquiagem borrada da filha com repreensão. — Estava com ele não estava?
Lady Cecily não concordou, contudo também não desmentiu. Elizabeth a empurrou para dentro de seus aposentos, onde várias damas estavam esperando com lamparinas na mão. Todavia ela não deu importância para as mesmas. A mãe a empurrou para uma cadeira e mandou que Aliena refizesse a maquiagem. A dama de Cecily fez seu trabalho rapidamente. Logo todas já estavam rumo ao septo. Cecee estava inerte ao que acontecia à sua volta, deixava que a mãe a guiasse.
Seu coração dizia para ficar com Gwayne, seu amor, seria realmente amor? Ou ela estava confundindo amor com paixão? Já a cabeça de Cecily dizia que deveria se casar com Axel, para ganhar os soldados e o apoio da Casa Tarly.
Ela olhou ao redor, os corredores estavam vazios por exceção de um ou dois guardas em prontidão. Atrás da Rainha da Campina e da Senhora de Bosquemel estavam suas Sete Donzelas: Roslin e Ellynor Fossoway, Aliena Grent, Mary e Ceryse Meadows, Thalia Crane e por último Genevive Vyrwel. Seriam suas damas em seu casamento, suas donzelas.
— Recomponha-se Cecily! — Elizabeth ordenou e Cecee percebeu que novamente tinha os olhos marejados.
A jovem suspirou profundamente, ergueu a cabeça e olhou para frente. Não havia chorado quando havia se casado com Armand, mas quando havia sido dada para o Lorde de Bosquemel não tinha nada a perder. Agora perderia Gwayne para sempre...
Saíram por um corredor que dava diretamente ao septo de Jardim de Cima, feito em mármore e com detalhes em dourado. Seu pai, Garth, estava aguardando junto das portas de bétula.
Elizabeth os deixou e adentrou no septo sozinha, enquanto Cecily, o rei e as Sete Donzelas aguardavam do lado de fora.
— Sua mãe achou que você fugiria com aquele cavaleiro, mas eu sabia que você não faria uma besteira dessas.
— Como?
— Por mais que você possa não gostar, você é minha filha. Eu te conheço, você pode amar aquele homem, mas ama mais seu filho. Eu sempre soube que você iria ser forte quando casei você com Armand e sabia que também seria forte agora, para se casar com Axel. — Ele falava sem olhar diretamente para ela, olhando para as portas do septo. — A verdade é que não existe espaço para amor e paixão para nós, a nobreza. Tudo tem de ser político e racional, é o preço pela coroa dourada sobre nossas cabeças. Eu apenas tento manter a Casa Gardener no poder por mais uma geração, depois que eu morrer seu irmão terá de se virar, contudo enquanto eu viver não deixarei que nenhum rebelde tome nosso poder que foi conquistado com árduo trabalho de tantos reis antes de mim.
Ele olhou para ela.
— Por isso Cecily que tem de se casar com Lorde Tarly, para manter a Casa Gardener como os Reis da Campina, é seu dever e você deve cumpri-lo.
Assim que ele terminou de falar os guardas abriram as portas. O septo estava lotado com todos os nobres da Corte. Todos olhavam para a bela noiva, vestida de amarelo e preto. Com os braços dados ela adentrou junto de seu pai. As Sete Donzelas entraram e seguiram para o altar da Donzela, colocaram suas lamparinas sobre os pés da divindade e começaram a rezar. Ficariam em suas preces até o final da cerimônia, pedindo por bênçãos sobre o casal.
Axel vinha com as cores de sua casa, um gibão e calças verde escuro, a capa verde musgo com um caçador vermelho como sangue. Havia cortado o cabelo, talvez fosse uma tentativa de agradá-la. Cecee preferiu não pensar naquilo, focou-se em não desabar novamente quando viu Gwayne, ao lado de John.
Ela continuou andando, Garth praticamente guiava seus passos. Em um piscar de olhos ela se viu entre a estátua da Mãe e do Pai. O Septão Ballard sorria docemente para ela, parecia realmente feliz em realizar a cerimônia, já ela, nem tanto...
Axel mantinha-se ao seu lado com uma face de pedra, os olhos azuis como gelo fixos no septão que agora começava o casamento com um discurso sobre o matrimônio e a união de dois fiéis. Cecily olhava de soslaio para seu cavaleiro, ele estava sério, não demonstrava nada além de certa raiva. Contudo ela podia ver certa esperança em seu olhar, esperança que ela interrompesse tudo e fosse para ele. Ela queria aquilo, queria ter uma decisão própria, mas era só olhar para Willas que essa vontade passava.
Seu pequeno bebê estava ao lado da avó, olhando tudo com curiosidade. Como ela o amava, era seu mundo e só queria o melhor para ele. E se o melhor para ele fosse se casar com Axel ela faria isso, faria tudo por ele!
— Cecily? — A voz de Lorde Tarly a tirou de seus pensamentos.
Todos olhavam para ela, alguns cochichavam, era sempre assim na corte.
— Sim?
— Os votos... — Axel respondeu segurando suas mãos de um jeito que poderia ser considerado delicado.
Ela suspirou, agora estava colocando uma corda sobre sua garganta, uma corda tão fortemente amarrada que ela nunca mais poderia tirar, mesmo que quisesse.
— Pai. Ferreiro. Guerreiro. Mãe. Donzela. Velha. Estranho. Eu sou dele e ele é meu, a partir desse dia, até o último de meus dias. — Os dois murmuram ao mesmo tempo, ela olhava fixamente para seus olhos azuis, perdendo-se na imensidão daquele ser desconhecido e que ela deveria passar o resto de seus dias.
O Rei Garth se aproximou retirando seu manto com cuidado, rapidamente Axel colocou o manto da Casa Tarly, verde com um caçador em vermelho sangue.
— Com este beijo empenho meu amor, e o tomo como meu senhor e esposo. — Ela disse rapidamente.
— Com este beijo empenho meu amor. — Os dois se olhavam fixamente, o que era uma dádiva para ela não ver a face de Gwayne. — E a tomo como minha senhora e esposa.
Cecily inclinou-se para cima, os lábios dos dois roçaram rapidamente, nem chegou a ser um verdadeiro beijo, mas enfim estava pronto. Axel segurou sua mão e os dois viraram para os convidados, que aplaudiram o casal.
— Aqui, à vista dos deuses e dos homens, proclamo solenemente que Axel da Casa Tarly e Cecily da Casa Beesbury são marido e mulher, uma carne, um coração, uma alma, agora e sempre, e maldito seja quem se interpuser entre eles. — Septão Ballard proclamou, pondo fim a cerimônia.
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v i l a v e l h a
Seus aposentos estavam silenciosos e calmos, as aias terminavam de aprontar seu penteado, os cachos castanhos presos e bem arrumados. Tudo pronto para seu casamento. Todos já deveriam estar no Septo Estrelado, aguardando a noiva. Lyra conseguia ver o sol se pondo ao horizonte por sua janela, quando ele voltasse amanhã ela estaria casada.
Quando era mais nova, ela e sua prima Roslin costumavam imaginar como seriam seus casamentos. O dela não era nem um pouco parecido com esse, casada à força, sem a presença de toda a família. Nem ao menos havia participado da organização, não tinha encontrado cabeça para isso. Tudo tinha ficado sobre os cuidados de Armelyne e Blair, pelo menos ela podia dizer que a tinha como amigas, era um conforto no meio de tudo aquilo.
A Tyrell levantou-se quando o penteado ficou pronto e subiu em um tablado elevado. As aias deram os últimos retoques no vestido e a perfumaram com um aroma de pétalas dos pés a cabeça. Até ela achou exagerado.
A porta abriu-se rapidamente, dando espaço para uma Terresa sorridente. Em seus braços finos um pano grosso e verde.
— Finalmente seu grande dia chegou! — Ela parecia realmente feliz, como se nada mais importasse. — Não sabe o quanto esperei por esse dia, uma filha minha sendo uma futura rainha.
Lyra já não tinha mais comentários rudes para rebater, por isso preferiu manter-se em silêncio com uma carranca. Era o máximo que ela poderia fazer.
— Vejo o que eu trouxe — A mais velha desenrolou o pano que se mostrou ser um manto de casamento nas cores Tyrell. — Foi meu manto, que usei com seu pai, guardei até hoje para o dia de seu casamento.
Era um manto mais simples que o seu, em vez de pedras preciosas a rosa dourada havia sido feita em fios de ouro. Era muito bonito e por mais que Lyra quisesse berrar que não usaria aquilo, ainda ficou com um nó na garganta com a felicidade de Terresa ao mostrar o manto.
— Eu não posso usá-lo. — Lyra cruzou os braços e instintivamente abaixou a cabeça, mesmo que não estivesse fazendo absolutamente nada de errado. — Seria desfeita não usar o manto que foi feito especialmente por mim pela princesa Armelyne.
A Tyrell apontou para o manto que as aias pegavam. Lady Terresa pareceu ter ficado mais triste, contudo logo concordou com um meneio, parecia que nada estragaria aquele dia. O manto verde-relva foi colocado sobre seus ombros pelas duas moças que a ajudavam, foi preso com duas rosas de ouro mole, impedindo que o pano pesado escorregasse por seus ombros pequenos.
Ela fez todo seu caminho até a base de Torralta em silêncio, dois guardas Tyrell junto de Terresa faziam a escolta de Lyra. Ela mesma já não tinha a vontade e força para lutar contra aquilo tudo, não iria se agarrar ao pé de uma mesa e chorar como uma criança, enfrentaria tudo com o rosto erguido, o orgulho de Lyra não poderia ser tirado por sua mãe.
Algumas donzelas aguardavam no portão principal, ela apenas conhecia as irmãs Hightower e Lady Olyne. As outras eram desconhecidas escolhidas por Lyne. Outra coisa que ela não havia imaginado em sua juventude, as Sete Donzelas deveriam ser amigas da noiva e pessoas importantes, se fossem virgens poderiam participar, mas não seria assim. Nada seria como ela havia imaginado.
Foram rapidamente de cavalo até uma pequena fragata que as levaria pelo Vinhomel. Todos os convidados já deveriam estar esperando no Septo Estrelado, só aguardavam a noiva. Quando desembarcaram várias carruagens abertas aguardavam as moças, juntamente com uma multidão de pessoas que acenavam e jogavam pétalas de rosas brancas. O aglomerado fez a barriga de Lyra embrulhar, todavia ela se segurou e subiu em sua carruagem única.
Agora era seu último caminho até o septo, o último passo para ela trocar os votos com Niklaus. O povo gritava seu nome e a aclamava, era uma surpresa, eles mal a conheciam e já a tratavam como uma verdadeira rainha. A guarda Hightower impedia que eles se aproximassem muito, mas isso não impedia que as pétalas caíssem sobre ela e a carruagem.
Parecia que a cidade toda havia parado para assistir a passagem de Lyra, desde camponeses e comerciantes até as prostitutas que olhavam do alto de seus sobrados. Ela manteve-se de cabeça baixa.
Quanto mais ela rezava para que demorasse a chegar ao septo, mais rápido a comitiva andava. O sol agora já havia ido embora, chegou às escadarias de mármore no início da noite, estava frio e ela começou a tremer. Talvez fosse de medo em vez de frio...
Blair piscou para Lyra atrás de si e Lyne apenas fez um meneio.
— Como não temos a presença de seu pai ou de Barth, será Alec quem te levará até seu noivo. — Terresa informou tocando seu braço, seu olhar não estava mais tão feliz ao falar do resto da família. — Estarei perto de ti, tudo bem?
A jovem Tyrell respirou fundo antes de se esquivar do toque da mãe e se colocar de frente para a grande porta adornada de ferro. Suas donzelas se colocaram atrás de si todas em uma fileira reta. Não havia mais volta, sua mãe a havia colocado ali e ela terminaria de cabeça erguida.
Alexander apareceu logo ao seu lado, os dois vestidos em verde faziam contraste com todo o mármore e branco. Ele colocou o braço sobre o dela e a Tyrell sentiu vontade de entrar sozinha, afinal ele também havia ajudado em trazê-la até Vilavelha.
Alec pareceu sentir seu desconforto pois abaixou a cabeça como em um pedido de desculpas.
— Eu sinto muito por tudo — Alec começou com a voz baixa. — Quando mamãe disse tudo que ganharíamos eu pensei que seria a melhor coisa a se fazer, mas sei que não foi certo te obrigar a tudo isso. Perdoe-me...
— Eu acho que nesse momento não serviria de nada guardar rancor. Você está tão preso a tudo isso quanto eu, acho melhor duas rosas na mesma roseira do que separadas! — Lyra disse com um sorriso pequeno.
Alec também sorriu, mas não por muito tempo. As portas se abriram e Lyra sentiu seu coração dar um pulo, centenas de cabeças viraram para ela ao mesmo tempo, inclusive seu noivo e futuro marido. Estava vestido de cinza escuro, com um gibão em detalhes com prata, o manto que usava era tão grande que arrastava no chão.
Os dois irmãos seguiram juntos sobre os olhares críticos dos membros da corte, Lyra sentiu que Alexander tremia tanto quanto ela. Às vezes ela se esquecia que ele era mais novo e tinha apenas quinze dias de seu nome, aquilo tudo poderia estar sendo pior para ele do que para ela. Deveria conversar com ele mais tarde.
O Tyrell mais novo deixou a irmã sobe a proteção de Niklaus, que recebeu Lyra com mãos firmes e voláteis. Os dois se ajoelharam sobre a face do pai e da mãe, o Alto Septão começou mais uma de suas inúmeras pregações sobre o casamento sob o olhar da Fé e as inúmeras obrigações do casal.
— Por favor, profiram seus votos perante os Sete Deuses. — O mais velho disse pondo fim a sua pregação que Lyra mal havia prestado atenção.
Os dois se colocaram de pé e de frente um ao outro.
— Pai. Ferreiro. Guerreiro. Mãe. Donzela. Velha. Estranho. Eu sou dele e ele é meu, a partir desse dia, até o último de meus dias. — Ela havia dito tudo de um jeito longínquo, no momento só esperava que tudo aquilo acabasse de uma vez.
— Pai. Ferreiro. Guerreiro. Mãe. Donzela. Velha. Estranho. Eu sou dela e ela é minha, a partir desse dia, até o último de meus dias. — Klaus procurava os olhos castanhos de Lyra, mas ela olhava para o chão branco como leite.
Quando a troca dos mantos finalmente chegou Alexander retirou os broches em forma de rosas e pegou o manto verde-relva, ela virou de costas para o príncipe, ele, por sua vez, colocou o manto cinzento com a torre em chamas sobre os ombros de Lyra, colocando a jovem sobre sua proteção eternamente perante os Sete.
A morena virou-se para o príncipe e proferiu a última frase antes de virar uma Hightower.
— Com este beijo empenho meu amor, e o tomo como meu senhor e esposo. — Ela terminou sua parte e Niklaus disse o mesmo, os dois selaram os lábios em um beijo rápido.
Por fim ela estava casada com Niklaus, havia terminado e ela própria havia dito às frases que a algemaram a ele para o resto da vida.
❇
O salão estava barulhento com a conversa e os burburinhos criado pelos nobres. Lyra aguardava em silêncio ao lado de Niklaus que também estava sério. Servos passavam servindo vinho e alguns dos setenta e sete pratos servidos. Ela esperava que aquele banquete demorasse o maior tempo possível, temia mais que tudo o que viria depois. A cerimônia de consumação deixava a jovem com muito medo, por isso Lyra já estava em sua terceira taça de vinho. Talvez ajudasse...
Até o momento seu noivo não havia dito nada depois do septo, estava sentado em seu cadeirão como uma estátua, vez ou outra beliscava algo de seu prato. A nova Hightower não sabia se ele não falar nada era melhor do que trocar alguma palavra com o mesmo, preferiu manter o silêncio e se concentrar em seu vinho.
— Vamos logo vocês dois, quero dançar e o casal deve liderar a valsa! — Armelyne disse levantando-se de sua cadeira e puxando Niklaus da sua.
O príncipe lançou um olhar cortante para a irmã mais nova, contudo ela apenas sorriu docemente e também puxou Lyra de seu assento. Não havia escapatória quando o assunto era Armelyne Hightower. Os dois foram de mãos dadas até o centro do salão, os nobres deram espaço para o casal.
Os músicos mudaram a melodia para algo mais calmo e lento. Klaus colocou uma de suas mãos fortes sobre a cintura de Lyra e ela colocou uma de suas mãos sobre seu peitoral. Ele a conduziu e ela tomou coragem para olhar em seus olhos castanhos, eram bonitos de se ver e de certa forma profundos, como se pudessem ler seus pensamentos.
Ela realmente não sabia o que pensar sobre seu marido, ele não era ruim, os comentários de suas mais novas irmãs só deram a entender que ele era um pouco fechado. Então porque ela não sentia vontade alguma de fazer aquilo dar certo? Poderiam os dois acabar se amando como nos contos infantis?
Aquele pensamento parecia sonhador demais, os contos não eram iguais à vida. A vida era dura e nada fácil, ela era uma prova real, havia sido raptada pela mãe, casada com um desconhecido e ninguém nunca perguntou sua opinião sobre nada. Sua vida de uma hora para outra não era mais dela e sim das grandes pessoas acima dela.
A música mudou e agora os outros casais também poderiam dançar. Armelyne foi a primeira a puxar seu noivo para o meio do salão, seguida por Lady Olyne e Blair.
Lyra continuou com Niklaus por mais uma música até ele ter a ideia de falar alguma coisa.
— Blair disse que eu deveria conversar com você antes do casamento, infelizmente eu não tive tempo...
— Tudo bem, o senhor é muito ocupado como príncipe herdeiro.
— Não precisa me chamar de senhor, pode me chamar de Niklaus ou apenas Klaus. — O príncipe disse com um leve sorriso.
— Pode me chamar de Lyra também...
— Acho que poderíamos tirar um tempo pra nos conhecermos melhor, eu deveria conhecer a pessoa com quem vou dividir a cama e você também.
— É uma boa ideia, o que você gostaria de fazer? — Lyra perguntou.
— Me diga oque você gostaria de fazer?
Ela ponderou um pouco, não sabia ao certo do que ele gostava ou uma atividade que agradasse os dois.
— Bom, poderíamos caminhar pelos jardins. — A mais nova sugeriu.
— Perfeito, amanhã à tarde então.
A música novamente mudou e alguns pares também, Arthur apareceu ao lado do casal.
— Poderia me emprestar à mão de sua dama, príncipe Niklaus? — Arthur tinha uma das mãos estendida para Lyra.
Klaus apenas concordou com a cabeça antes de pegar Blair como par. Ela segurou uma das mãos do Tarly e ele colocou uma das mãos em sua cintura. Lyra via ele eventualmente por Torralta, mas pouco conversavam, ela nem havia percebido o quanto havia se fechado de todos, mesmo até de Arthur que era seu amigo desde a infância. Os dois brincavam de Entra-No-Meu-Castelo e de Esconde Esconde pelos jardins junto de Roslin, eram memórias doces, mas longínquas.
— Eu sinto muito Lyra...
— Sente pelo que? — Ela questionou em confusão.
— Qualquer um poderia ver o quanto infeliz você estava ao se casar com Niklaus, de certa forma foi minha culpa você estar aqui, eu fui a Jardim de Cima e...
— Basta! — Ela fez ele se calar rapidamente. — Nada disso é sua culpa, você foi traído da mesma forma que eu, perdeu seu castelo e suas terras para seu tio, eu fui traída pela minha família. Acho que nós dois estamos em situações difíceis então não venha com isso, vamos apenas dançar e beber muito vinho.
— Acho que isso é um bom plano. — Arthur disse com um sorriso de ponta a ponta.
Os dois dançaram até ficar ofegantes e aos risos, ela não ligou para a cara de desgosto de sua mãe, estava cheia dela e do fingimento. Pelo menos enquanto dançava com Arthur estava sendo ela mesma, a Lyra de antes de tudo aquilo. Apenas parou quando os pés já doíam, se despediu do amigo e foi em direção da estrado.
Esbarrou em alguém e quase foi ao chão, todavia mãos fortes a impediram de cair.
— Perdão, milady!
— Tudo bem, sor.
Ela presumiu que era um cavaleiro, era um homem de meia idade, com uma barba por fazer. Seu rosto era familiar para ela, Lyra buscou na cabeça alguém com aquele rosto e logo relembrou-se. Aquele homem era um cavaleiro da Ordem da Mão Verde, um cavaleiro de Jardim de Cima. Instintivamente ela pensou em gritar, mas quando ela olhou para o estrado já era tarde demais.
Gerold já tinha a garganta aberta esguichando sangue para todo lado, o cavaleiro também tinha sangue sobre si. Ele também tentou ir contra Niklaus, contudo os guardas foram rápidos em prender o homem que agora se encontrava de joelhos.
— Viva ao Rei Garth, o verdadeiro Rei da Campina! — Foi tudo que o homem conseguiu dizer antes de ser arrastado para fora do salão.
Blair chorava sobre o corpo sem vida do pai, Armelyne a consolava. Niklaus olhava para o pai ainda sem acreditar no que via. Já Lyra apenas tinha medo, medo do que viria depois, não a consumação, mas o dever.
Ela se tornaria rainha mais rápido do que pensava.
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