A Rosa de Masyaf

Razões

– Desmond, o que aconteceu? – Lucy questiona olhando o assassino sentado no Animus.

O ex-bartender não responde de imediato, apenas fecha os olhos e respira fundo. Desmond sente o corpo trêmulo e lágrimas implorando para deixarem o abrigo sob as pálpebras fechadas. O que aconteceu? A pergunta de Lucy se repete na mente do jovem assassino. Aflição – ou algo muito próximo a isso – invadira o peito de Desmond, sufocando-o. Teria sido por causa de Ezio? O que o assassino italiano sentira ao observar Anna havia passado para ele? Ou seria a própria frustração de Desmond acerca da ladra que finalmente atingira o limite?

– Eu... Eu preciso andar um pouco. – o ex-bartender diz voltando a abrir os olhos e tentando se focar o suficiente para se levantar e deixar o Santuário.

Shaun faz menção de impedir Desmond, mas um sinal de Lucy bloqueia o intento do historiador. O assassino segue livre e silencioso para fora do esconderijo, caminhando pelas ruas de Monteriggioni sem realmente notar a direção que segue. Quando volta a ter consciência de si mesmo, Desmond se descobre na antiga sala do Códex. Confuso, o rapaz olha ao redor se perguntando como fora parar ali.

– Pensei que pudesse vê-lo novamente se retornasse a esse lugar. – uma voz familiar demais diz, fazendo o coração do rapaz bater mais rápido.

Levemente hesitante, o jovem assassino se vira, deparando-se com o fantasma que o assombra mais do que qualquer outro.

– Quem é você? – Desmond pergunta suavemente mesmo conhecendo o nome e a origem de Anna. Desespero enche o peito do assassino misturado ao intenso desejo de saber quem a jovem italiana realmente foi.

– Eu deveria ser aquela a fazer essa pergunta. – a ladra responde – Você não é Altaïr, mas se parece muito com ele. Vocês possuem a mesma cicatriz nos lábios.

Dito isso, Anna se aproxima, parando a menos de um passo de Desmond. Há tristeza nos olhos dela, o assassino percebe. Tristeza e curiosidade. E, lá no fundo, há dor. A mesma dor que Desmond viu na primeira vez, por ver outro fantasma. A dor trazida pela sensação de estar afundando cada mais vez no mar da insanidade. Algo que o assassino conhece muito bem.

– Eu sou Desmond. – o rapaz diz sem pensar, sentindo-se, de alguma maneira, aliviado por responder a essa pergunta tantas vezes repetida em sua mente com a voz da ladra italiana. As palavras fazem um pequeno sorriso nascer nos lábios da filha de Ezio – Desmond Miles.

– Sou Anna. – a jovem diz – Anna Auditore da Venezia.

Nascida em Veneza é o primeiro pensamento a surgir na mente do assassino ante o nome dito. Faz sentido se ela é filha da Rosa.

– Você é um fantasma? – a subida pergunta da ladra surpreende o ex-bartender – Como Altaïr?

– Não. – Desmond responde lentamente – Para mim, você é o fantasma.

– Como isso pode ser possível? – Anna questiona claramente confusa.

– Eu não sei, mas... – o assassino começa erguendo a mão e a aproximando do rosto da jovem – Sinto que há muitas coisas que não sei, mas preciso saber... Sobre você.

– Sobre mim? – a Auditore pergunta, não parecendo incomodada em ter a mão do assassino tão próxima ao rosto – O que há de tão especial em mim?

– Eu gostaria de saber. – Desmond responde e morde o lábio inferior vendo, com uma pontada no peito, a imagem de Anna desaparecer.

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Leva algum tempo explicar aos amigos o que está acontecendo com ele. As insistentes perguntas de Lucy e os sarcásticos comentários de Shaun não facilitam a tarefa, mas ele a cumpre e diminui o nível de preocupação dos parceiros, embora esse sucesso tenha custado o silêncio acerca de um ou outro detalhe. Como, por exemplo, a conversa com Anna.

Como pode ser possível que um veja o outro como um fantasma e ainda assim possam conversar? Anna está morta! E há mais de cinco séculos! Ela está morta... Por que esse pensamento é tão doloroso para Desmond? Balançando a cabeça para espantar essas divagações, o assassino caminha até o Animus, deitando-se na máquina.

– Tem certeza de que está bem o suficiente para fazer isso, Desmond? – Lucy pergunta preocupada.

– Yeah. Não se preocupe. – o ex-bartender responde relaxando e se deixando conectar a máquina.

Uma vez mais, ele sincroniza com Ezio, encontrando o assassino caminhando por Roma com uma jovem desacordada nos braços. Anna. Desmond consegue sentir a inquietação que domina o Auditore e o modo como os pensamentos de Il Mentore voam e se misturam, todos acerca da garota inconsciente e Rosa. Os olhos do assassino são abaixados para a face de Anna e, na mente do líder da Ordem, emergem lembranças de uma tarde em Veneza e uma ladra ferida.

Com habilidade, Ezio evita a atenção dos guardas durante o percurso até o Rosa in Fiore. O assassino bate na porta com a ponta de um dos pés e aguarda. Logo, a porta é aberta por uma das cortesãs, que, ao ver a jovem nos braços do Auditore, deixa que surpresa e preocupação dominem sua expressão.

Madonna Rosa está? – Ezio questiona com um tom de voz alto e firme.

– Ela não está. – a cortesã responde rapidamente – Signor La Volpe pediu que ela fosse vê-lo no La Volpe Addormentata.

– Irmão? – ao ouvir a voz de Claudia, Ezio entra no bordel com rapidez e, ao ver a garota que o irmão carrega, a antiga Madonna completa: – O que aconteceu com Anna?

– Você sabe quem ela é? – o líder da Irmandade pergunta levemente desconfiado.

. – a mais nova dos irmãos Auditore responde confusa ante a postura de Ezio – Ela é filha da Rosa, a senhora que ficará no meu lugar aqui no Rosa in Fiore.

. – Ezio confirma assentindo – Ela é também minha filha. – o olhar do assassino volta a cair sobre a garota desacordada.

– O quê?! – Claudia exclama e a expressão na face da Auditore faz com que Desmond tenha vontade de rir.

Porém, quando Ezio faz menção de responder, Anna começa a despertar e, notando estar em braços estranhos, a ladra procura se libertar do toque.

– Acalme-se. – o assassino pede segurando a ladra pelos braços – Está tudo bem. Você está segura.

O olhar da veneziana é dirigido para a face do Mentor e parecem levar alguns segundo para reconhecê-lo. Ao fazê-lo, Anna para de tentar se afastar.

– O que aconteceu? – a jovem pergunta.

– Você teve um colapso na rua. – o assassino começa a explicar – Eu e o Leonardo a levamos para o ateliê dele e depois eu a trouxe até aqui. Para Rosa.

Mia madre está aqui? – Anna pergunta olhando ao redor.

– Não. – Ezio responde e Desmond ouve o pensamento que nasce na mente do assassino. Mas eu estou. – Mas você está segura.

Anna assente e se desvencilha das mãos do Auditore. O moderno assassino sente ecoar em si mesmo o desapontamento que o italiano sente com relação ao movimento da ladra.

– Eu vou para o meu quarto. – a jovem veneziana diz – Grazie, messere.

Anna, então, se afasta sob o olhar de Ezio. O líder da Irmandade se despede da irmã e segue a ladra pela escadaria e através dos corredores. Durante todo o trajeto, nenhuma palavra é proferida e Desmond sente o próprio coração e o do assassino batendo rapidamente, cheios de ansiedade. Anna entra no quarto, mas deixa a porta aberta. Ezio aproveita e também entra no aposento, tomando o cuidado de fechar a porta ao passar.

– Anna... – Il Mentore começa mantendo uma distância segura da jovem – Leonardo me mostrou alguns desenhos que você fez. – uma pausa e apenas silêncio por parte de Anna – Como você conhece a Maçã?

– Que Maçã? – a ladra questiona sem olhar para o assassino.

Desmond, através de Ezio, percebe quando a jovem veneziana olha para o lado como se observasse algo. Entretanto, na direção em que ela olha há apenas a parede. Anna estica a mão, como se tentasse alcançar algo, mas rapidamente desiste.

– A Maçã do Éden. – o assassino responde e seu tom de voz se torna mais alto e mais firme – Um globo dourado e entalhado com símbolos que você desenhou.

– Aquilo é chamado de ‘Maçã’? – Anna pergunta se virando para o mais velho.

. Onde você a viu? A Maçã, os uniformes, as armas...?

– Em lugar nenhum. – a jovem responde e Desmond sabe que há mentira em suas palavras – Eu apenas desenhei.

– Como você pode desenhar algo que nunca viu? – Ezio questiona – Você deve ter tido algum contato com a Maçã, com os Assassinos...

– Eu não tive! – Anna exclama interrompendo, raiva e mágoa colorindo sua voz – Eu não sei nada sobre a sua Ordem! – a maneira áspera com que as palavras são ditas surpreende o líder dos assassinos. Respirando fundo, a ladra se aproxima da janela, as mãos espalmadas contra o vidro – Por que ela existe? O que significa ser um assassino? – as perguntas são apenas sussurros que escapam por entre os lábios pálidos até que o olhar azul volte a ser dirigido a Ezio – Por que e pelo que você luta?

– Sua mãe não contou a você?

– Não estou perguntando a ela.

Um suspiro escapa pela boca do Auditore antes que ele responda:

– Eu luto pela liberdade, pela paz. Para que todos possam escolher o que pensar, em que acreditar. Para que possam construir sua própria realidade.

– Isso responde pelo que, mas não o por quê. – Anna comenta dando um passo a frente – Por que viver uma vida que traz tanta dor e perda?

– Como você pode saber? – Ezio pergunta um pouco desconfiado – Você disse que não sabe nada sobre a Ordem, então como pode saber as consequências da vida de um assassino? – a ladra apenas morde o lábio inferior e abaixa o olhar. O Mentor permanece em silêncio por alguns segundos e então continua: – Eu iniciei nessa vida quando minha família foi morta, injustamente acusada de traição. Por muito tempo, eu lutei por eles. Agora, eu luto por todos.

– Inclusive por você? – Anna questiona levantando o olhar – Você luta por que quer ou apenas por que é uma sequência natural do que, no começo, foi apenas uma busca por justiça, por vingança? Antonio... – uma pausa – Uma vez, Antonio me disse que os assassinos acreditam que ‘nada é verdade. Tudo é permitido’ Você também acredita nisso? Você entende verdadeiramente o significado dessas palavras?

Il Mentore não responde de imediato, as perguntas de Anna ecoando em sua mente. Há lógica no que a jovem questiona, isso está claro para o assassino, mas ainda assim... Desmond pode sentir a confusão em Ezio. A luta entre sentimentos. O cansaço de tantos anos de batalha, o desejo de livrar Roma do domínio dos Borgia, as responsabilidades como líder da Ordem, a convicção de ser um assassino. As palavras de Anna fazem o mais velho pensar. E Desmond também.

O ex-bartender nunca foi capaz de compreender completamente a crença dos assassinos, sua luta contra os templários. Esse foi um dos motivos dele ter fugido, buscado outra vida. O que faz alguém acreditar tanto em algo e lutar com a própria vida para defendê-lo? Até que ponto alguém é capaz de compreender a própria crença, a própria vida, a própria luta?

– Você faz muitas perguntas. – Ezio diz para disfarçar sua incapacidade de responder às questões levantadas por Anna.

– Eu só quero entender. – a ladra explica – Você. Ele. – o último pronome sai quase inaudível.

– Ele? – o assassino pergunta – Quem é ‘ele’?

– Eu... – Anna começa virando o rosto e se aproximando da cama – Eu estive em Monteriggioni antes de vir para Roma e me encontrar com minha mãe. Ela me disse que você vivia naquela cidade e eu pensei que, talvez, devesse ir lá pelo menos uma vez. Então, eu fui. E encontrei algumas páginas na casa principal. Elas falavam sobre a Ordem dos Assassinos e pareciam ter sido escritas por um homem chamado Altaïr.

– Elas foram. Altaïr foi um grande líder para nossa Ordem. – o Mentor responde, mas questiona mentalmente. Anna diz não saber nada sobre a Irmandade, mas desenha a Maçã, questiona as consequências da vida de um assassino e sabe sobre o Códex, o leu. Como alguém que não sabe nada pode questionar sobre tantas coisas? – Anna...

– Anna! – uma voz feminina chama e uma mulher entra no quarto.

Madre. – a ladra responde se aproximando e abraçando Rosa.

A Madonna retribui o abraço da filha e olha para o assassino presente.

– O que vocês estavam fazendo, Ezio?

– Apenas conversando. – Anna responde antes que o outro tenha a oportunidade de falar.

Ezio vê a jovem sorrir para Rosa e percebe que não conseguirá falar sobre mais nada relacionado a Ordem com Anna.

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– Ela é uma garota bem questionadora, não? – o comentário de Shaun é a primeira coisa que Desmond ouve ao sair do Animus.

– Ela quer entender a Ordem, os assassinos, Altaïr. – Lucy diz.

– Anna quer achar o próprio lugar no meio disso tudo. – Desmond contribui se levantando e simpatizando com a posição da veneziana.

– Eu não a culpo. – Rebecca diz – Também procuraria por respostas se sofresse de um efeito de sangramento natural.

– Efeito de sangramento natural? – o ex-bartender questiona assim como os outros dois assassinos.

– É apenas uma teoria em que estive pensando. – Rebecca responde – Anna não tem um Animus, mas sofre dos mesmos efeitos que o uso dele causa ao Desmond e que nós chamamos de ‘efeito de sangramento’. E se a queda que Anna sofreu em Veneza causou um trauma semelhante ao que o Animus causa? Ela sofreria as mesmas consequências.

– É uma teoria válida. – Lucy comenta.

– Então, você está comparando a queda de um telhado ao uso de uma máquina de alta tecnologia? – Shaun pergunta cético.

– Como eu disse, é só uma teoria. – Rebecca responde dando de ombros.

Desmond, por sua vez, não diz nada, mas concorda com Lucy quanto a validez da teoria de Rebecca. Anna poderia ser vítima de um efeito de sangramento natural. Isso explicaria por que ela era capaz de ver Altaïr. Mas não explicaria por que ela era capaz de ver a ele. Fora isso, Anna disse a Ezio que esteve em Monteriggioni uma vez enquanto Desmond a viu na sala do Códex duas vezes. Anna teria voltado a Monteriggioni? Se sim, por quê?

Suspirando e afastando os pensamentos acerca da ladra, o jovem assassino passa as mãos no rosto e decide dormir um pouco.

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Altaïr está segurando a Maçã, oferecendo-a. Ele tenta pegá-la, mas fantasmas não são seres sólidos. Apenas um toque e a imagem se desfaz. Ele volta o olhar para além da janela, onde Roma é banhada pelos últimos raios de sol do dia. Ele respira fundo, sentindo o peito ser esmagado sob o peso de uma força invisível. A janela fecha estrondosamente devido ao vento que bate e, no vidro, ele pode ver o próprio reflexo. O reflexo dela. E dele.

Altaïr se inclina sobre o ombro de Anna e sussurra para a ladra:

Masyaf.

Notas finais
Por favor, deixem comentários. Críticas e sugestões são sempre bem-vindas. Obrigada.