A Revolta das Máquinas
2 02 - Visita

O dia não começara nada bem. O céu cinzento estragava tudo, todo plano iria por água abaixo, literalmente. A chuva caia fortemente na enorme área coberta por caixotes cinzentos e monohelicopteros e bergs vazios e escoltados.
O garoto passou pelos guardas a poucos metros de distancia de seus postos. E por pouco não fora pego.
As coisas agora estavam difíceis para sua família.
— Marcus! – ele se assustou ao ouvir seu nome.
O garoto atreveu-se a olhar ao redor e procurar a fonte, ali estava. A poucos metros de distancia ele avistou o guarda de roupas pretas e boné vermelho com o emblema da corporação estampado. Ali estava seu amigo Dan. Decidiu aproximar-se.
— O que você pensa que está fazendo? – perguntou o soldado.
— Desculpe. Queria vê-lo antes que me pegassem. – Marcus respondeu meio tremulo.
Dan o analisou de cima abaixo e fitou os olhos do rapaz por baixo do boné entre os pingos de água que caiam de sua aba. Ele estava com medo pelo garoto.
— Me escute. Se continuar a vir aqui, eles vão te pegar antes de você completar dezesseis. Seu pai não sentirá sua falta daqui a dois dias. Você sabe muito bem disso.
Marcus deixou escapar um olhar triste e brilhante, baixou a cabeça para esconder suas lagrimas do soldado. No mesmo momento, Dan arrependeu-se do que acabara de falar e arfou em busca das palavras certas para aconselhar o pobre rapaz.
Uma gota de chuva percorreu pelos cantos do rosto do garoto e se encontrou com a única lágrima que ele havia fabricado. Dan a enxugou sem se incomodar se fora bastante grosseiro seu gesto.
— Olhe para mim. – ajoelhado segurou o rosto do garoto entre a orelha e o pescoço – está vendo aquilo... – ele apontou para o além, mas precisamente para a mancha cinza metálica logo após o campo magnético – aquilo é o fim. E você sabe muito bem que eu não quero que esse seja seu fim.
Dan se lembrou da promessa que havia feito para seu amigo de infância. Meses antes, antes dele...
— Vá para casa. Espere eu voltar. Eu te prometo... – outra promessa – que levarei notícias dele.
Marcus olhou por alguns segundos para o rosto de Dan em busca de mais respostas.
— Você nunca cumpre com suas promessas! – gritou o garoto, não se importando com quem estivesse ali ao redor. – eu quero ver o meu pai, agora!
Todos os outros guardas haviam parado de fazer suas tarefas e observavam a acena.
— Marcus, me escute...
O rapaz virou as costas e saiu em direção ao centro, mas foi impedido de dar mais um passo. O homem despojou sua mão grossa no ombro do garoto o segurando com força. Eles lançou um olhar confuso em direção a Dan e perguntou.
— Conhece este rapaz, soldado? – perguntou o soldado com uma voz grossa e rouca ao mesmo tempo.
Dan balançou a cabeça.
— É apenas um vizinho, senhor. – ele disse em formação, com as mãos nas costas como se estivessem sido amarradas. – veio apenas me fazer uma visita.
— E porque treme tanto soldado Struker? – ele notou o terremoto em seu corpo – Não vou fazer mal algum a você, foi só uma pergunta.
— Desculpe General, só estou um pouco nervoso.
O general o analisou com algumas expressões estranhas em sua face.
— Diga-me a verdade. – disse com autoridade.
Dan relutou, mas aquilo o obrigou a dizer.
— Ele queria visitar o pai, senhor.
Marcus detestou ainda mais o soldado. O general avaliou o garoto e o soldado Dan.
— Por que não disse antes?! – o general colocou um sorriso sombrio no rosto.
Não parecia que ele estava tentando ser simpático, só estava tentando fazer um favor ao garoto.
— Venha comigo. Vou mostrar onde estão os infestados.
Marcus o seguiu sem olhar para trás esquecendo-se de Dan. O soldado seguiu os passos do garoto com um olhar tristonho.
...
A central era como se fosse um aeroporto, só que sem as escadas rolantes, mas com pessoas andando para lá e para cá o tempo todo, carregando caixas cinzentas e algumas maletas azuis. O general estava logo a frente com dois guardas a seu lado e mais dois ao lado do garoto. Algo estava dizendo a Marcus que aquilo não era para sua proteção.
— É bem grande aqui não é – disse o general logo a sua frente dirigindo lhe um sorriso estranho – mas precisamos de mais espaço. Por isso estamos de mudança.
— Pensei que estivessem indo embora por conta dos C.A.O.S. que estão no campo magnético de ao redor da cidade.
— Somos soldados, não fugimos, somos A força, cumprimos com nossa obrigação. – o homem falou por cima do ombro em tom sério – mesmo que isso vala a morte.
Esse slogan não pega, cara. Disse mentalmente.
Todos pararam próximo a uma porta com aspecto velho. Suas laterais estavam enferrujadas e gastas, qualquer pessoa poderia arrombá-la com apenas um chute, até mesmo o homem mais magricela do mundo.
Dois soldados ficariam em formação ao avistar seu superior e logo depois puxaram a tranca da porta, que se abriu com um rangido agudo.
Somente o general deu um passo a frente e uma porta metálica e mais tecnológica possível, se materializou alguns centímetros depois da outra porta velha. Alguns flashes de luz azuis rodopiaram ao redor do general como se estivesse o revistando, e uma pequena luz vermelha piscou atrás do pescoço do mesmo.
Marcus não havia reparado naquilo. Era algum tipo de chip que estava conectado da nuca e ia seguindo, em um conjunto metálico, pela coluna vertebral até as costas cobertas pelas roupas de superior.
A porta emitiu alguns estalos e cliques e começou a se abrir lentamente, o general deslizou a mão até a coxa e retirou de um pequeno bolso uma arma de cor vermelha e apontou para a porta, e os guardas que haviam lhe acompanhado pelo caminho puxaram algumas armas e apontaram na mesma direção.
O menino tentou se proteger ao entender a situação, mas era tarde demais. Os sons dos tiros o ensurdeceram, ele ajoelhou-se e fechou os olhos na tentativa de mudar a cena.
Não demorou muito para que seus olhos voltassem a abrir e se acostumassem com a luz bastante incomoda que jazia no teto da sala. Ele encarou o piso também branco e depois tentou se concentrar em sua audição.
— Garoto... Você está bem? – a voz grossa ecoou até chegar a seus tímpanos. – garoto? – a voz repetiu.
— Sim, estou bem. – ele disse a general.
O homem deu umas batidinhas em seu ombro parabenizando-o.
— Esses não foram tão ruins de eliminar. – o general sussurrou com um sorriso no canto dos lábios.
Marcus analisou ao redor e se deparou com uma sala com macas brancas e metálicas com alguns corpos de pessoas despejadas de qualquer forma por cima de panos sujos. Era uma cena horrível, porém outra cena o deixou ainda mais traumatizado. Logo na porta que tinham passado, havia vários corpos de pessoas jogadas empilhadas em cima das outras. Algumas ainda cuspiam sangue pelos orifícios, e outras já não havia mais vestígios de vida, alguns soldados tentavam limpar a cena arrastando corpos ensanguentados e deixando um rastro vermelho no chão embranquecido.
— É isso que fazemos com eles. – o homem limpava a sua pistola vermelha suja de sangue fresco. – Não ligue muito para isso – ele apontou para a pilha de corpos. – eles iam morrer em dois dias mesmo. Seus destinos pertencem a elas.
Ele admirou a pistola de tons encarnados a elevando-a acima de sua cabeça e colocando-a contra a luz e depois girou o objeto na mão, e Marcus finalmente entendeu que “elas” significavam as armas.
Ele não acreditou na cena. Olhou novamente a pilha de corpos a procura de seu pai, mas, por sorte, não encontrou.
— O que aconteceu aqui? – uma voz meio fração veio logo atrás.
Marcus virou-se e ficou de frente ao seu pai, ele correu e abraçou-lhe com toda a força que pode.
Naquela hora não havia soldados, general ou Dan. Só eles dois naquela sala branca.
O homem afastou o filho com bastante brutalidade e depois encostou seu corpo na parede, debatia-se rapidamente. Sua expressão era bem amedrontadora e enlouquecida, mas Marcus viu que ele estava confuso.
— O que está acontecen... – ele foi impedido pelo gesto do corpo na parede.
Ele apontou o dedo sujo em direção ao garoto e gritou para o seu filho.
— Quem... é... você? – ele gritou com os olhos esbugalhados.
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