A Retribuição

35 À Espera de Notícias


O cabriolé trazendo Holmes e Watson parou diante do edifício que Mycroft morava, em Pall Mall. Embora Watson tivesse insistido para que Holmes cuidasse de suas feridas, a ansiedade de Holmes era maior do que a dor de seus ferimentos, fazendo com que eles se apressassem, para ter certeza de que Esther estava bem.

Holmes e Watson foram recebidos por Mycroft, adentrando à sala. Próximo dali, estava o idoso Siger, pai de Holmes, sentado em uma poltrona á beira da lareira. Watson não o conhecia pessoalmente e ficou curioso em saber como era o pai de seu amigo, mas havia uma questão importante e ainda mais forte do que esta.

–Sherlock? O que houve com você? – disse Mycroft abalado em ver seu irmão ferido e descomposto.

–Esteve em alguma guerra, Sherlock? – perguntou o idoso.

–Mycroft, eu posso explicar depois. Agora, por favor, eu preciso saber de Esther.

Mycroft virou-se para seu pai brevemente, com o olhar interrogativo, e voltou ao seu irmão Sherlock.

–Ela já foi embora.

–Como assim? – Holmes estava sem entender. – Alguém a levou?

–Não... Bem, eu precisei atender um telefonema, e quando eu voltei, nosso pai estava sozinho, e disse que ela foi embora.

–Para onde ela foi, pai? – perguntou Holmes, não escondendo a preocupação no tom de voz.

–Só Jesus Sabe... Se bem que, no caso dela, isso deve ser impossível...

–Oh não... – Holmes parecia ter compreendido tudo. – Alguém veio aqui, pediu a cabeça dela ao senhor, e o senhor lhe entregou de bom grado quando soube que ela é uma judia, não é? – disse, com raiva na voz.

–Não vou deixar a boa linhagem da família Holmes se destruir porque você decidiu se reunir com uma... Judia.

Holmes tremia de raiva.

–Dê-me um motivo para não leva-lo á polícia agora por colaborar em um sequestro...

–Holmes... – tentava acalmá-lo Watson.

–Eu não posso acreditar que você fez isso, pai. – disse Mycroft, com desgosto. – Ela era uma boa moça.

–Ela é uma boa moça, Mycroft. Porque eu irei resgatá-la. Agora, me diga: quem fez isso? Quem fez isso? – perguntava Sherlock, aos gritos.

–Ele é nosso pai, Sherlock. Acalme-se! – pedia Mycroft.

–Quem... Foi? – pedia Holmes, ameaçador.

–Um homem chamado Jenkins, é tudo que sei. Havia uns dez capangas. Eles a imobilizaram e colocaram em um cabriolé. Depois, eu fui embora.

–Jenkins?! Céus...

–O que foi, Holmes? – perguntou Watson, ainda atônito.

–Jenkins é um membro da Okhrana.

Tanto Mycroft quanto Watson arregalaram os olhos, sentindo a gravidade da situação que Esther estava metida. Siger permanecia inabalável, em sua certeza de que fizera o certo.

–Eu só não o mando para cadeia por cumplicidade em um sequestro, Mr. Siger Holmes, porque eu não quero que você apenas ouça notícias do que está acontecendo do lado de fora. Eu quero que você testemunhe com seus próprios olhos o que eu farei quando recuperar Esther desses bandidos. Eu quero que você testemunhe o casamento de Sherlock Holmes e Esther Katz. Também quero que você esteja vivo o bastante para ver os filhos que teremos, praticantes do Judaísmo, circuncidados e frequentando a sinagoga todo sábado.

Siger parecia enojado apenas com o vislumbre da situação.

–Por cima do meu cadáver! Ouviu? Por cima do meu cadáver!

Holmes nada mais disse, deixando seu pai revoltado com suas palavras e indo embora dali.

–Irei acionar o Governo, Sherlock. Farei alguns telefonemas e acionarei a Agência. Pedirei que bloqueiem portos e estradas. Esther não irá muito longe.

Holmes agradeceu, descendo as escadas com Watson rapidamente.

–Não temos tempo a perder, Watson. Precisamos avisar Lestrade que Esther Katz foi sequestrada. Uma agente do Serviço de Inteligência Britânico foi sequestrada por um agente russo ilegalmente instalado aqui, isso deve requerer uma grande movimentação.

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Londres, Inglaterra. 26 de Fevereiro de 1901.

Meses depois...

Watson tinha tido um dia cheio. Os pacientes não tinham dado trégua. Estava tendo um surto de gripe na cidade, de modo que a cada dia que se passava, mais seu consultório ficava abarrotado de pessoas. Do mais, ele estava obtendo sucesso em cuidar e curar das pessoas, o que já era bom.

O mesmo ele não poderia dizer de sua vida pessoal. Assim que o caso do Duque Ivanov terminou, ele expulsou Rose Willians de sua casa, mas ontem ele recebeu uma notícia ingrata e ao mesmo tempo maravilhosa: ela estava grávida. Entretanto, Watson já estava noivo de Molly Sarandon, amiga de Esther, e com casamento marcado. Ele realmente estava perdido, sem saber o que fazer. Temia revelar o fato a Molly e causar um rompimento. Ele estava cada dia mais apaixonado pela modesta professora, e seu ódio por Rose Willians também havia crescido, ainda mais quando soube que a prostituta também o traíra com Jenkins. Embora não tivesse certeza de que a criança era mesmo sua, Watson sabia que jamais conseguiria viver em paz carregando esta dúvida, e que deveria empenhar sua palavra de assumir a criança, como sendo sua.

Era mais de sete da noite quando ele chegou à Baker Street. Um sentimento de pesar veio sobre si quando ele estava na calçada, perto da porta, e observou a única janela acesa. Ele sabia que seu amigo estaria acordado, e esperava que ele não estivesse fazendo uso de nenhuma droga.

Ele foi recebido por Mrs. Hudson, que lhe ajudou a retirar a pesada casaca que lhe protegia do frio daqueles últimos tempos.

–Como ele está, Mrs. Hudson?

A senhoria parecia tensa e preocupada.

–Insiste em não comer, Doutor. Nem preciso dizer que está em um de seus humores, pois você sabe o motivo.

Watson suspirou. – Nenhuma notícia de Esther, então.

–Não, nada. Eu temo o que pode acontecer com ele se... Se... – a velha esforçava-se em não chorar. Watson a consolou.

–Calma... Um dia, nós a encontraremos.

Deixando Mrs. Hudson, Watson subiu as escadas e adentrou aos seus aposentos em Baker Street, encontrando Holmes reclinado sobre a poltrona, com o olhar derrotado. Seu cabelo negro e liso estava desgrenhado e sem corte, quase escapando das orelhas, e sua barba já se encontrava grossa. Há sete meses atrás, seria impossível dizer que o homem elegante que frequentara um baile na casa de um nobre inglês era agora aquela criatura, despojada e alquebrada.

–Holmes?

Ele parecia perdido em devaneio, e finalmente seus olhos cinzentos e voltaram aos de Watson.

–Nenhuma notícia? – perguntou o médico.

Holmes resmungou alguma coisa, e levantou-se abruptamente.

–Holmes, você já jantou?

–Não, Watson.

Watson parecia preocupado. – Há quanto tempo você não come?

–Ontem... Ou anteontem, eu não sei.

–Deus, homem... Você precisa comer! Vamos lá, Mrs. Hudson acabou de nos colocar o jantar. Venha comer antes que esfrie.

–Tudo que eu preciso agora é da minha mente, Watson, e minha mente só trabalha bem quando posta sobre privações...

Ao perceber que sua insistência não surtia efeito, Watson insistiu por outro lado. – Esther precisará que você esteja forte, se acaso recebermos notícias, ou alguma pista.

Holmes refletiu por alguns instantes, até se direcionar à mesa e fazer seu prato. – Está bem, mas apenas um pouco.

–Você quer dizer “o suficiente para que você não desmaie”, não é?

Holmes mudou de assunto. – E quanto à Miss Sarandon, Watson?

Watson ficou corado. – Bem, eu pretendo leva-la amanhã à uma apresentação de um quarteto de cordas.

Holmes sorriu brevemente. – Você contará a ela sobre o bebê?

Watson suspirou, preocupado. – Não tenho o que fazer. Seria errado começar um casamento já com tamanha mentira. Eu espero que Rose aceite o meu acordo e me deixe ficar com a criança, e também desejo que Molly possa aceitar esta situação.

–Ela tem um bom coração, meu caro. Confio que possa aceitar.

–Bem, Holmes, como eu disse, nós dois iremos a um concerto. Tocarão Mozart por lá. Porquê não vem conosco?

–Você sabe que eu não posso me ausentar daqui, Watson. Infelizmente, devo recusar seu convite.

–Holmes... Todos os portos e estradas foram vigiados, não encontramos nenhuma pista de Jenkins... Você precisa viver, meu caro.

–Eu não consigo, Watson. Não enquanto não descobrir o que aconteceu com Esther. – ele disse, introspectivo.

De repente, ambos escutaram batidas na porta. Watson atendeu e encontrou Mrs. Hudson.

–Inspetor Lestrade deseja vê-lo, Mr. Holmes. – ela disse.

–Diga a ele que se ele deseja mais alguma ajuda em um de seus casos, eu estou deveras ocupado com...

–Não é nada disso, Mr. Holmes. – disse a voz forte de Lestrade, que adentrou ao cômodo sem pedir qualquer licença aos donos da casa. – São novidades ao respeito do caso de Miss Katz.

Os olhos de Holmes iluminaram-se rapidamente.

–Q-Quais novidades?

–O inspetor Wren, de Hampshire, telegrafou para nós esta noite, Mr. Holmes. Uma mulher apareceu em sua delegacia, para fazer uma denúncia sobre o cárcere privado de uma mulher com as mesmas características que Miss Katz.

Holmes mostrou-se interessado. Afinal, aquela era a melhor pista que encontrara em meses.

–Precisamos ir à Hampshire. Importa-se, Lestrade, de esperar que eu me recomponha? Muito obrigado! – disse Holmes, adentrando ao seu quarto às pressas, com os ânimos revigorados.

Embora a pista fosse boa, Lestrade ainda não tinha o semblante otimista. Watson, que também estava tão feliz quanto Holmes ao descobrir essa nova pista, mostrou-se estranhado com o comportamento do inspetor.

–O que houve, Lestrade? Há algo de ruim nesta notícia?

–Não necessariamente ruim, Dr. Watson. Eu irei contar ao Mr. Holmes mais tarde com cautela.

–Contar? Mas contar o quê?!

–A mulher que compareceu á delegacia em Hampshire, que fez a denúncia... Ela é... Ela é uma parteira.

Notas finais
Sim, é isso mesmo que você entendeu.... Passaram-se cerca de sete meses desde que Esther foi sequestrada. Então... Quem imaginava um bebê deste casal deve estar pulando de alegria! Ou mesmo preocupado, afinal não sabemos se o bebê está bem. Vejamos se ela e o baby Holmes estão bem, e se conseguirão sair dessa. Até o próximo cap!