A Retribuição
15 Inspetor Encurralado
Notas iniciais
Londres, Inglaterra. 10 de Junho de 1900.
Passava das duas da manhã quando o inspetor-chefe Reid finalmente saiu da Delegacia de Whitechapel. O trabalho burocrático de um Inspetor-Chefe era muito maior do que ele imaginava e ele ainda não estava acostumado àquele tipo de papelada. Demoraria meses até que ele estivesse trabalhando plenamente e com mais rapidez.
Seu novo trabalho lhe permitiu mais luxos, como pegar um cabriolé até sua casa. Depois de esperar por alguns minutos, finalmente apareceu um disponível.
Entretanto, assim que Reid embarcou, percebeu que na escuridão do cabriolé, havia uma pessoa. Antes que pudesse recuar, a porta foi bruscamente fechada e o cabriolé começou a disparar, facilitado pela rua deserta daquela madrugada de segunda-feira. Aquela era, sem dúvida, uma emboscada. Decidido a escapar dela, Reid tentou forçar a porta, mas teve seus movimentos interrompidos por um golpe forte na cabeça, que lhe fez perder os sentidos completamente.
Quando voltou a si, o inspetor sequer foi capaz de perceber quantas horas se manteve inconsciente. Sentiu um desejo impulsivo de se levantar, mas notou que estava amarrado a uma cadeira. Firmemente amarrado, com cordas constando três nós de marinheiro. Também estava amordaçado. Notou que o local que estava era escuro, com apenas uma porta à vista e a luz tímida de uma vela. Havia também o som quase insuportável de uma goteira.
Não demorou, entretanto, que alguém se manifestasse. Reid escutou uma voz masculina dizer alguma coisa em um idioma que ele desconhecia. Essa pessoa estava com o rosto coberto por uma bandana e usava uma espingarda, e o deixou sozinho por cerca de cinco minutos. Logo, um homem apareceu.
–Como vai, inspetor-chefe? – disse o sujeito, que Reid percebeu ser também estrangeiro. – Espero que minhas instalações não estejam lhe incomodando.
Reid permaneceu em silêncio.
–É uma pena que os negócios entre eu e você tenham começado desta forma, mas acredite, não havia jeito. Gosto de ser, digamos... “Persuasivo”, e um homem como você requer este tipo de metodologia. – o homem soltou um grunhido, outra vez em um idioma que Reid desconhecia, e o inspetor finalmente teve a mordaça retirada.
–Presumo que esta não seja uma maneira de me congratular, muito menos de me elogiar, seja lá quem o senhor seja. – respondeu Reid, em um misto de serenidade e rispidez. O homem assentiu.
–Não mesmo. Como disse, temos negócios a tratar. Eu vou direto ao ponto, inspetor. O senhor está de posse de algo que me pertence.
O inspetor franziu o cenho. – Poderia ser mais claro?
–Certamente. Estive fazendo uma pesquisa muito importante em uma Igreja em Sussex. Estou à procura de uma certidão de casamento entre um homem chamado John Sigerson e uma mulher chamada Sophie Evans.
Maldito seja! Então tudo isso se tratava de Holmes... Claro, esse segredo não poderia se sustentar por muito tempo.
E agora, ele pagaria por isso. Por saber demais.
–Parece que sabe do que estou falando... – deduziu o homem, com triunfo. Reid não mais respondeu, deixando o homem continuar. – Por fim, eu descobri que a certidão desapareceu, tal como encanto. Posso imaginar o porquê disso: parece que essa certidão é assunto restrito do Governo Britânico. Mas como deve saber, isso pouco me importa. Eu a quero de volta. Não apenas ela, mas outras coisas também.
–Eu não tenho nada...
Reid recebeu um soco em seu rosto. Ao voltar seu olhar ao sujeito, percebeu que ele mantinha o mesmo olhar sereno, mesmo depois de uma agressão.
–Se desejamos ser bons parceiros de negócios, é necessário que o senhor colabore. Poupe-me de sua ladainha, inspetor-chefe. Eu sei que o senhor tem documentos sobre esse John Sigerson.
Reid analisou o homem com cuidado. Ele era, sem dúvida, perigoso, e sabia muito bem quem era John Sigerson.
–Eu os quero para mim. O senhor me parece orgulhoso demais para queimar tão importantes provas. Eu sei que o senhor as mantém em algum lugar. Tudo que peço, portanto, é que faça valer o seu bom senso e me entregue esses documentos. Esta noite.
–Esta noite?! – perguntou Reid. – Mas...
O homem riu, provocadamente. – Acredita, Mr. Reid, que vou dar-te um prazo? Para que você dê um jeito de alertar seus amigos policiais? Não mesmo. O senhor me levará até esses documentos, onde quer que eles estejam, e será agora mesmo.
–E se eu me recusar?
O homem voltou a se tornar sério.
–Nós mataremos não apenas você, mas a sua família. Pense, caro inspetor: será que a vida de Sherlock Holmes, um homem arrogante, presunçoso, egoísta e mentiroso, vale mais que a vida de seu pequeno Eric? Ou de sua amada Norah?
Reid refletiu.
–Se eu entregar esses documentos, você me matará do mesmo jeito.
–É neste quesito que o senhor está enganado. Não percebeu que em nenhum momento eu me usei de meu nome? Eu estou lhe dando o benefício da ignorância a respeito de minha identidade justamente para poupá-lo. Os documentos de Sigerson são a única coisa que tenciono obter do senhor, não sua vida.
Aquilo era verdade, mas em parte. De fato, Jenkins estava se preservando para não matar Reid, pois ele era, afinal, um inspetor-chefe recém-admitido. Sua morte chamaria muita atenção, e Jenkins sabia que o sucesso de suas ações dependia da discrição.
Por fim, Reid deu um último suspiro.
–Está bem. Eu vou levar vocês até estes documentos.
Mina desativada de Winner. Redondezas de Londres, Inglaterra.
A escuridão tomava conta das cabeças de Edmund Reid e dos capangas que lhe faziam escolta. Cada vez que descia aquele túnel, acompanhados daqueles dois marginais encapuzados, que mesmo descendo as escadas insistiam em apontar uma arma para sua cabeça, alertando-o para não fazer qualquer “gracinha” e descrevendo em alguns detalhes como poderiam matar sua esposa e filho. O sangue de Reid fervia com as provocações, mas o inspetor mantinha a calma.
–Espero que saiba o que está fazendo, Reid. Do contrário, pode se declarar um homem morto. – gritou Jenkins, o líder dos capangas, de cima do túnel.
–Ouviu o que ele disse. Sem surpresas. – desafiou um deles.
Quando finalmente chegara ao fim do túnel, no solo da mina de carvão desativada, Reid apontou para um local.
–Aqui. – ele disse, apontando para o local onde estava a suposta caixa. A caixa que continha não apenas o grandioso segredo de Sherlock, mas também provas concretas.
–Ótimo. – disse o capanga satisfeito. Ele pegou uma pá e a atirou para Reid, que a pegou desajeitadamente. – Agora, cave.
Reid pareceu revoltado, mas escondeu sua irritação. Silenciosamente, começou a cavar no local que tinha dito. Estava a cerca de cinco palmos, e sua inabilidade com a tarefa fazia tudo ser ainda mais demorado.
–Ande logo, porque eu não tenho a noite toda! – ele exclamou.
Reid continuou, procurando manter a calma. Finalmente, a pá bateu em algo sólido. Era a caixa, já um tanto suja e envelhecida. Ele se agachou e retirou com as mãos o excesso de terra que ainda lhe cobria. Quando a caixa já estava em mãos, recebeu um soco nas costas e teve a caixa tomada.
–Finalmente... Veremos qual era o maior segredinho de Sherlock Holmes... – disse o homem, abrindo a caixa com ansiedade. O outro capanga tratou de escoltar Reid.
–Sim... Documentos... John Sigerson.. Sophie Sigerson... É, parece que o senhor fez mesmo um bom trabalho. Uma pena que a Scotland Yard sempre tenha sido reticente com sua promoção. – riu o jornalista.
Um dos encapuzados imediatamente gritou, para os capangas que estavam do lado de cima: “encontramos as provas!”. Um grito de satisfação foi escutado. Apesar disso, Reid parecia tranquilo.
Reid reconheceu a risada do encapuzado de imediato.
–Arnold Albin? – ele perguntou. O encapuzado revelou seu rosto.
–Acertou em cheio, inspetor...
Rei franziu o cenho. Albin era um dos piores jornalistas de Londres. Escrevia a um jornal sensacionalista, e lhe causara problemas dezenas de vezes, inclusive no caso de Jack. Vê-lo ali, a zombar de si, causava-lhe náuseas. Aquele jornalista estava lá certamente para proliferar a notícia de Holmes tal como peste em um cortiço.
O jornalista continuava a analisar o conteúdo da caixa, com interesse crescente, até soltar uma exclamação de surpresa.
–Espere... O que mais tem nesta caixa? O que é isso em hebraico? Isso... Jack, o Estripador?
Ao perceber que o capanga que lhe vigiava ficou surpreso e curioso com a menção do assunto, Reid se aproveitou da brecha e lhe desarmou, dando-lhe um gancho e o empurrando contra a parede, deixando-o instantaneamente. Com a mesma agilidade, ele tomou o revólver que estava no coldre, e o sacou imediatamente contra Arnold. Aturdido, Arnold também sacou seu revólver contra Reid.
–Jack, o Estripador, era um homem chamado Lewis Stewart. Um herdeiro, um homem rico que ficou seduzido pelas idéias de uma seita com raízes judaicas. O homem cometeu os assassinatos e dilacerou suas vítimas, porque estava absorto em seu fanatismo. Ele já está morto.
–Interessante. – disse Arnold Abin. – E por quê está me dizendo isso?
–Por quê isso seria o que você descobriria com este diário, se tivesse mais tempo de vida.
O jornalista franziu a sobrancelha, de repente. Percebeu, então, que seu ambiente era, na verdade, uma imensa armadilha, repleta de barris de pólvora da qual Reid lhe atraiu.
–Se der um passo, eu atiro. – ameaçou Reid. – Esses barris estão repletos de pólvora, e uma mera faísca fará tudo explodir.
A testa de Arnold estava reluzente de suor.
–Sabe, eu deveria ter reunido todas essas provas e posto fogo, como tinha pedido minha esposa, mas eu sou um tremendo teimoso... Eu ainda penso que, um dia, eu poderia revelar a verdadeira identidade de Jack sem causar dano a inocentes. Acho que sou um sonhador por pensar que o mundo pode se tornar um lugar melhor e que pessoas como os judeus poderão ser aceitas em nossa sociedade, como iguais. Mas então, aparecem pessoas como você, perseguindo e matando pessoas sem a menor compaixão, e eu vejo o quão grave foi o meu erro. Eu sou incapaz de consertar o mundo, mas ao menos posso torna-lo um lugar melhor para viver para pessoas como o meu filho.
Reid aproximou seu revólver de um dos barris.
–Seu maldito bastardo... Você irá explodir essa merda de qualquer jeito, por isso me contou a verdadeira identidade de Jack. – disse o bandido, assustado.
Reid apenas sorriu, depois de, ao mesmo tempo, mover seu dedo, acionando o gatilho, e fechar seus olhos, numa fraca tentativa de sentir menos dor quando tudo fosse pelos ares.
O som do disparo sequer foi ouvido, abafado por uma sonora explosão que ecoou por toda a Londres.
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