A Retribuição
9 Reunião Familiar
Notas iniciais
Londres, Inglaterra. 12 de Maio de 1900.
Esther estava varrendo a sala, a ponto de concluir sua faxina semanal, enquanto ouvia o triste violino que preenchia sua sala com uma melodia quase agonizante. Em meio ao arrumar dos móveis, Esther suspirava. Por um lado, ela se sentia agoniada com a melodia e certamente o estado psicológico de Holmes, mas por outro era bom saber que ele estava ao menos em casa, quando nos últimos dias desde o acidente com Mycroft era quase impossível vê-lo, tamanha era sua dedicação em encontrar quem provocou o acidente no Clube Diógenes.
Esther sabia que Watson estava em seu consultório, por isso decidiu vê-lo em momento oportuno. Quando soube que Mrs. Hudson tinha saído para fazer compras, ela decidiu que aquele era o momento mais que oportuno de vê-lo.
Quando ela entrou, só o que pôde ver foi à mesa do almoço, intocada, e o objeto de suas preocupações despojado no sofá, com o violino já afastado de si. Ele parecia fatigado, mas não drogado, o que deu a Esther certo alívio.
–Apenas em momentos de distrações eu uso drogas, não quando estou absorto em algo de naturezas tão extremas, você deveria saber. – como se pudesse fazer isto, Holmes corrigiu os pensamentos de Esther.
–Não se preocupe, da próxima vez eu olharei menos para a gaveta de seu criado-mudo. – confirmou Esther, sentando-se ao lado de Holmes. – Então, como andam as investigações?
–Caminhando lentamente. Nem mesmo o submundo do crime sabe explicar o que foi aquela bizarra explosão no Clube Diógenes. Refinei a lista de prováveis suspeitos, investiguei pessoas que poderiam desejar algum mal ao meu irmão ou a algum membro do clube, mas... Está tudo assustadoramente calmo. Não vejo nenhum movimento, nenhuma conspiração...
Holmes deu outra baforada em seu cigarro, refletindo.
–E como está Mycroft?
–Se recuperando. Acho que receberá alta semana que vem. Ele mal vê a hora de começar a trabalhar, se queixando de estar entediado e sentindo falta de seu tabaco.
–Que bom. Ao menos isso.
Holmes assentiu. Detestava mentir para Esther, mas era necessário. Tinha acabado de saber, em sua última visita à Mycroft, que o irmão tinha recebido um alerta da Agencia a respeito de uma estranha movimentação de russos pr Londres. Aparentemente, uma Fábrica de Parafusos recentemente incendiada tinha sido adquirida por um empresário daquele país e, por meio de um estranho tratado entre as duas nações, foi acordada o emprego de mão-de-obra russa para a fábrica, sob alegação de serem estes “trabalhadores especializados de meu país”. Ainda assim, a Agência de Inteligência não estava plenamente confiante disto. Coube a Mycroft investigar o assunto. Recebeu algumas vezes o diplomata russo, e sentiu que ele estava hostil demais, esquivando-se de dar maiores informações. A aparição repentina de um russo no Clube Diógenes com uma maleta grande demais para pertencer a um mero mecânico deixou Mycroft ainda mais alertado, e até mesmo um tanto maravilhado do quanto audaciosa era a pessoa por trás de tal empreendimento, capaz de preparar e orquestrar um atentado contra sua vida, em plena cidade de Londres e sem o menor pudor.
Mycroft sabia que o Duque Ivanov poderia estar envolvido e temia que essa investigação chegasse aos ouvidos de Esther, por isso, fez o que pôde para deixa-la em total ignorância quanto ao assunto. No entanto, seria difícil manter a Operação em segredo após este atentado. Esther Katz – ou Holmes, para os íntimos – ainda era um importante ativo da Agência em tudo que envolvesse a Rússia, graças aos anos de dedicação e apoio na investigação a possíveis agentes secretos russos infiltrados.
“Se Esther souber do que está acontecendo, meu irmão, ela não tardará em ir atrás do Duque. E ainda não temos certeza se ele realmente está por trás desta fábrica, ou mesmo deste atentado. Não podemos deixar que ela se exponha sem motivo.”
Essas palavras ecoavam na cabeça de Holmes. Ele precisava agir, mas com cautela. E isso requeria mentir para Esther. Da última vez que fez isto, nada de bom aconteceu, e ele quase a perdeu, mas seu irmão estava certo. Esther sempre foi muito impulsiva quando envolvia o Duque, e ele não poderia correr o risco de sua impulsividade pôr em xeque seu disfarce. Não depois de tantos anos.
De repente, Esther e Holmes ouviram a porta da frente se abrir de repente, e o som de uma movimentação do térreo.
–Quem será? Mrs. Hudson?
–Acho que não. Ela foi fazer compras para o jantar e não costuma esquecer nada.
–Fique aqui, Esther. Eu vou ver o que é.
Holmes levantou-se, pôs o terno e, para aflição de Esther, colocou a arma em sua cintura.
–Alguém que entra sem bater ou chamar não pode ser bem-vindo. – ele observou, em resposta ao olhar de Esther. – Fique aqui.
Esther ficou na sala, torcendo para que fosse apenas mais um cliente desavisado e angustiado ou mesmo que Mrs. Hudson tivesse sofrido um raro lapso de memória. Mas os passos, que indicavam pertencerem a mais de uma pessoa e cada vez mais se aproximavam da porta de 221-B, vinham acompanhados de vozes. Vozes masculinas, bem distintas e com um sotaque que denunciavam não pertencerem a Londres.
–Eu não esperava vê-los aqui... – ela reconheceu a voz de seu marido, em um tom surpreso. Certamente, não seria bom que ela fosse vista ali, sozinha, em seus aposentos, o que fez Esther se esconder no quarto de Holmes, observando pela fresta da porta, que mesmo fechada deixava escapar um pouco do que estava acontecendo na sala.
Ela percebeu que Holmes estava agitado, especialmente pela sua maneira de se deslocar pela sala. Agitado e um tanto embaraçado, como ela jamais o viu. Aquilo só a deixava mais curiosa em saber quem estava provocando essa reação de Holmes.
Um homem alto e um tanto musculoso, com ares de vivência no campo, passou conduzindo um senhor, de mais idade, que usava uma bengala. Esther não notou seus rostos a princípio, mas seus olhos se arregalaram com o que ela ouviu pela frente.
–Então, é aqui que você vive... – disse uma voz nitidamente idosa. – Parece que os rendimentos de detetive servem apenas para encher os olhos de leitores fantasiosos...
Não houve resposta.
–Papai, por favor, não comece... – respondeu o homem mais jovem.
–Estou surpreso em vê-lo depois de tanto tempo. – Esther ouviu a voz de Holmes, mais calma que seu estado de nervos anterior poderia denunciar.
–Eu lamento que nosso reencontro tenha ocorrido por estas circunstâncias, mano Sherlock. – ele disse, apertando-lhe a mão.
Esther paralisou-se. Irmão?! Então aquele era Sherringford, o irmão mais velho de Holmes e Mycroft. Com certeza ele estava ali devido aos últimos acontecimentos envolvendo Mycroft. E pelo andar da conversa, certamente o idoso na cadeira de rodas era seu pai. Isso a deixou mais curiosa para prestar atenção às visitas.
Embora tivesse o andar um tanto curvado, era notável que Siger Holmes era um homem alto, tão alto quanto Mycroft.
Tinha os mesmos olhos cinzentos, o cabelo grisalho, bastante calvo e um olhar imponente. Ele tinha um ar distinto, fidalgo, tal como Holmes dissera a Watson, ainda que estivesse aparentemente debilitado.
Sherringford era muito parecido com seu pai. Tinha o cabelo loiro – talvez, o mesmo loiro que Mr. Siger teve um dia -, os mesmos olhos cinzentos, como os de Sherlock e Mycroft, e uma boa forma física, ela notou, mesmo ele sendo mais velho que Holmes. Não era nem magricela, quanto Sherlock, nem gordo, como Mycroft. Na verdade, ela ousava pensar que ele tinha músculos por baixo do terno. Tinha o semblante queimado pelo sol e um jeito de quem estava sempre ao ar livre.
–Poderia me dizer o que fazem aqui? – Holmes perguntou.
–O que fazemos aqui? Por acaso acha que as notícias não chegam a Yorkshire, Sherlock? Já soubemos do que aconteceu à Mycroft.
–Papai insistiu muito para vê-lo no Hospital. Dizem que ele está à beira da morte...
Holmes negou. – Claro que não! O mano Mycroft está bem.
–Malditos jornais! De qualquer forma, você deveria ter nos avisado, nem que fosse por telegrama. Que espécie de filho é você?
Holmes bufou, nervoso. Esther podia sentir a raiva percorrer em suas veias, por algum motivo que ela não compreendia.
–Pare de torturar Sherlock, papai. Não vê que ele está tão aflito quanto nós? Olhe só para sua palidez, sua magreza, seus olhos cansados... Só Deus sabe o que ele está passando...
–Eu não tive tempo para avisá-los... Estou muito ocupado, investigando essa explosão. Mas afinal, porquê estão aqui? Pois eu conheço-te muito bem para saber que este é o último lugar que você gostaria de colocar seus pés. — disse Holmes ao seu pai, Siger. – Não com tantos hotéis em Londres.
–Eu insisti, meu irmão. Coisas estranhas têm acontecido em Yorkshire.
–Como assim, “coisas estranhas”?
Siger bufou, mau-humorado. – Pensei que fosse um detetive para constatar o porquê dessas coisas estranhas...
–Um detetive precisa de dados! – reclamou Holmes. – O que se passa, Sherringford?
O mais velho sentou-se. Para pasmo de Esther, ele tinha maneiras um tanto delicadas, embora sua aparência musculosa denotasse outra coisa.
–Este mês, eu tenho percebido pessoas estranhas ao redor da Manor Holmes. Já peguei três homens ao redor da casa. Um deles faz perguntas sobre você por Yorkshire. Perguntas sobre o seu passado.
Holmes ergueu uma sobrancelha, estranhando o caso.
–E isso não é tudo. Quando voltamos de uma consulta do papai, notamos que a casa foi arrombada. Não levaram nada, mas mexeram nos documentos. Entraram também em seu antigo quarto, mexeram em tudo. Pareciam procurar por algo.
–O que poderia ser?
–Se soubéssemos, não estaríamos aqui, perguntando a você! – reclamou o velho Siger.
–E... Durante uma noite... Eles invadiram a casa. Eu matei um deles.
Holmes pareceu pasmo. – Oh, Sherringford.
–Mas o outro está vivo, preso em Yorkshire. Fala um idioma estranho, não me pergunte qual é, porque não sei reconhecer um italiano de um espanhol. – continuou Sherrringford.
–O que andou fazendo, Sherlock? – perguntou o idoso Siger, com raiva na voz. – Falou mais do que devia a alguém?
Sherlock parecia horrorizado com o que seu pai estava insinuando.
–É claro que não!
–Está trabalhando em algum caso grande, envolvendo gente poderosa? Sabia que cedo ou tarde essa sua... “Fanfúrria” de detetive iria acabar por respingar em mim e em seu irmão.
–Pare com isso! O senhor não tem direito algum em se meter em meus negócios, nem mesmo opinar!
Siger suspirou. – Sabe que nunca me envolvi nessa sua “profissão”, exceto pelo caso do Moriarty...
Sherringford interferiu. – Pare com isso, papai. Ele está morto agora.
–E mesmo naquele caso, em que eu tive os meus motivos para não ver você envolvido, você pouco se importou com a minha opinião, com o que pensava...
–E eu não me arrependo, porque fiz algo que você jamais foi capaz!
Esther escutou o estalo de um tapa, deixando-a apreensiva.
–Insolente! Está vendo, Sherringford? Eu não sei o que fiz para merecer ter um filho tão... Tão...
–Pare com isso papai, apenas pare. – pediu Sherringford.
–O que foi? Está quieto por quê? Fale logo tudo que você sempre diz, moleque! – provocava Siger. – Ah, mas eu posso entender porquê você não irá despejar contra mim todos os meus erros... Há mais alguém aqui, não é?
Esther sentiu um sobressalto. Estava prestes a ser descoberta pelo sogro furioso. Mas ele não fez nenhum movimento para procura-la.
–Apenas a presença de alguém poderia explicar o seu súbito silêncio. Mas isso não importa. Eu e seu irmão Sherringford estamos envolvidos em suas artimanhas agora. Estão vigiando a fazenda, invadindo nossa casa... Não posso assistir a isso sem reação! – esbravejou o velho. – E eu quero que você tome uma atitude! Livre-nos desse transtorno em nossas vidas! Seja útil em alguma coisa e resolva essa bagunça. Agora, vamos embora, Sherringford.
–Está bem, papai. – disse o rapaz, após um suspiro. – Eu sinto muito, Sherlock.
–Pare de lamentar, Sherringford! – gritou o idoso. – Vamos!
Esther ouviu a porta bater com força. Ela esperou um momento, ainda constrangida com a totalidade de informações que tinha recebido daquela involuntária espionagem na vida pessoal de seu marido. Foi Holmes o encarregado de tirá-la de seu local.
–Pode vir. – ele disse, visivelmente envergonhado.
Holmes tinha o semblante pálido, de modo que seu rosto ainda ostentava levemente as marcas dos dedos de seu pai. Ele parecia tão atordoado quanto ela, imerso em vergonha, ainda mais porque Esther era capaz de entender completamente o porquê.
Holmes ficou em silêncio, quando ouviu passos na escada.
–Passos soturnos e discretos... Hunf... Já sei quem é.
De repente, cinco batidas ritmadas.
–Pode entrar, Sherringford. – ele disse, impedindo com um aceno que Esther se escondesse outra vez.
Era seu irmão mais velho, Sherringford, outra vez. O homem, um pouco mais velho que Mycroft, parecia surpreso em ver a presença de Esther, e imediatamente pareceu se conter, especialmente na postura.
–Sherringford. Vejo que conseguiu convencer nosso pai a esperar um pouco mais no cabriolé. Aposto que deu uma desculpa qualquer para isto.
O mais velho dos Holmes sorriu, levando sua mão até a mesa.
–Esqueci de propósito os óculos dele. E você sabe o quanto sou péssimo para achar as coisas, ao contrário de você e Mycroft... E ele não está na rua, me esperando. Eu pedi para que o cabriolé o deixasse em um restaurante aqui perto.
–Hum... – observou Holmes, surpreso com a rara perspicácia de seu irmão mais velho.
–Pois afinal, eu não poderia ir até Londres sem ao menos cumprimentar o meu irmãozinho devidamente. – ele disse, de maneira simpática. – E quem é esta senhorita?
–O nome dela é Sophie Sigerson.
–Sigerson? – Sherringford achou graça, e Esther sabia do porquê disso. – Nome peculiar este, minha cara senhorita. – ele disse, com malícia e diversão.
–Senhora. – observou Holmes.
–Oh, mil perdões. – pediu Sherringford, desajeitado.
–Não se preocupe, mano. Mrs. Sigerson é de perfeita confiança.
Os dois irmãos, que aparentemente se viam poucas vezes, tinham uma boa conversa ao redor da lareira, enquanto bebiam chá, acompanhados de Esther. Desde que estava casada com Holmes, Esther passou a adotar uma postura mais observadora a respeito do comportamento das pessoas, e ela pôde perceber que havia algo estranho com ele. Ele parecia se policiar o tempo todo, com algo que ela não conseguia compreender no início da conversa. Mas com o passar dos minutos, ao passo que o homem parecia mais familiarizado, ele estava adotando aos poucos um comportamento mais delicado. Sua maneira de dobrar as pernas, de segurar a xícara, de dobrar os braços e mesmo de rir. E Holmes não parecia nem um pouco surpreso com a atitude de seu irmão.
–Como andam os negócios, Sherringford?
–Oh Sherlock, ando tão preocupado com a colheita! O trigo está com o preço muito instável no mercado. Eu e papai estamos travando uma verdadeira batalha por bons preços. Mas porquê a pergunta, meu irmão? Nunca foi interessado pelos negócios de Yorkshire.
–Mas leio os jornais, e soube disso. Só espero que isso não consume o nosso pai, porque ele é um homem muito emotivo.
–Ao contrário de você, não é? Mas como anda seus trabalhos detetivescos, Sherlock? Muitos bandidos em Londres? – Sherringford deixou escapulir uma risada que Esther considerou um tanto afetada, mas logo voltou a sua postura contida.
–Sim, como em qualquer cidade.
Era perto das sete da noite quando Sherringford decidiu ir embora. Já estava escuro e ele sentia uma leve preocupação em caminhar pelas ruas escuras de Londres, embora Sherlock Holmes lhe assegurasse que não havia tanto perigo quanto ele imaginava.
–Adeus, Mrs. Sigerson. Fico lisonjeado em conhece-la. – despediu-se Sherringford, graciosamente, enquanto beijava a mão de Esther.
–Eu lhe acompanho à porta, meu irmão.
Enquanto os dois Holmes desciam as escadas, Esther se perguntava: o que diabos ele quis dizer com “fico lisonjeada em conhece-la”? Será que ela deixou escapar algo? Ou Holmes lhe revelara a respeito de seu casamento secreto?
–Agora é esperar pelo bendito cabriolé. – observou Holmes.
–Espero que cuide bem dela, Sherlock.
Holmes voltou-se para seu irmão, e ao perceber o olhar de segundas intenções em seu rosto, ele ruborizou-se imediatamente.
–Não é necessário ser detetive para saber quando um homem e uma mulher estão juntos, meu caro Sherlock. Além de quê, não podemos nos esquecer de que o sobrenome dela é “filho de Siger”. Eu me lembro de que você chegou a usar esse seu sobrenome em uma correspondência, enquanto estava na América.
–Sim, Sigerson foi um sobrenome artístico que eu usei por algum tempo. – contraiu-se Holmes.
–Aposto que era ela que estava escondida em seu apartamento, não é? Meu pai também percebeu a presença dela. Ele comentou comigo do lado de fora que só uma ratazana judia seria capaz de se esconder com tamanha proeza.
Holmes suspirou de desgosto. O tempo não tinha amenizado o velho preconceito contra os judeus que seu pai tanto gostava de alimentar.
–Eu também percebi, mas não que era uma judia, mas uma mulher. Mas posso afirmar que assim a notei porque eu reconheci o perfume. Uma autêntica fragrância parisiense, suave e aveludada. Uma senhora de bom gosto, esta.
Enquanto embarcava no cabriolé, Sherringford tocou Holmes no braço.
–Se um dia todos tiverem de saber disso, não deixe que meu pai estrague tudo. É o que ele fará quando souber que ela é judia.
Com um aceno, Holmes se despediu de Sherringford, enquanto avistava a carruagem se embrenhar pelas ruas de Londres. Assim que o cabriolé já estava longe de suas vistas, ele voltou os olhos para sua janela. Esther estava ali, observando a tudo. Ele não pôde deixar de observar o quanto a amava. Ela não era, pela racionalidade, a mulher mais bonita que conhecera. Outras ocupavam esse patamar, até mesmo Irene Adler. Mas havia algo em Esther que ele não sabia explicar, algo que o deixava fascinado, que lhe despertava sentimento como o desejo, carinho, afeto, que nenhuma dessas mulheres o tinha alcançado desta maneira. Esther era diferente de todas elas. Holmes sabia de seus defeitos, de modo que ela não era algo idealizado – não como da maneira que ele enxergou Adler durante muito tempo – e mesmo conhecendo até mesmo o que de pior havia nela, ele a amava. Além disso, ambos tinham muitas coisas em comum. Ao ve-la ali, próxima do vidro de sua janela, observando o movimento da rua — ele sabia da habilidade das mulheres, que as possibilitava prestar atenção a tudo em uma visão panorâmica – ele chegou a mais óbvia das conclusões.
Ele não poderia desejar outra mulher.
Esther ainda estava em sua sala quando Holmes subiu. Ele deu-lhe um sorriso rápido, e ela respondeu, em compreensão. Ambos sentaram-se lado a lado, no sofá. Despreocupados com a possibilidade de serem vistos e ignorando qualquer perigo disto, Esther apertou-lhe a mão carinhosamente, num raro momento afetuoso que ambos permitiam-se.
Olhando para Esther, recostada em seu peito, Holmes pensava.
Há algo de podre no Reino da Dinamarca. E esta a frase que me vêm quando penso nos últimos acontecimentos... Minha família, mesmo aquela desconhecida do grande público, sendo investigada... Meu passado, mesmo o mais profundo, sendo revirado... E meu irmão sofre um atentado audacioso... Há alguém tramando contra nós, Esther. Meus instintos dizem que há. Sou um homem lógico, mas ainda assim eu tenho que ouvi-los em algumas ocasiões. E eu sinto que há uma tempestade se formando contra mim e você.
Fale com o autor