Não parecia Nova York. Entulhos formados por carros quebrados, corpos mutilados e armas quebradas estavam espalhados por todos os cantos, em alguns lugares até mesmo no meio da rua. Prédios inteiros, como o Empire State, pegavam fogo, parecendo piras gigantescas. Carros batidos uns nos outros permaneciam no meio de todas as ruas, como se o tempo houvesse simplesmente parado. Tudo estava silencioso, e sentia-se a presença da morte no ar que cheirava a fumaça e gasolina. Mas, de repente, como uma ironia macabra que veio para acabar com a monotonia agonizante daquela cidade, um movimento: um homem de jeans, jaqueta de couro e coturnos correu para trás de um muro pichado que estava pela metade segurando um rifle SG 550. Ofegante, ficou de costas para o muro, sua roupa empoeirada manchada de sangue e óleo. O homem tinha um brilho diferente nos olhos: quase como que de loucura, porém com um toque diferente, que não combinava com sua postura – medo, talvez? Ou seria mais preocupação?

Pegou sua arma, roubada do exército, e apertou-a contra o peito, como se esta fosse a única coisa que ele tivesse de importante no mundo. Bom, não estava errado. Enquanto tentava controlar sua respiração, algo acontecia do outro lado do muro: centenas de homens uniformizados, com os rostos absolutamente iguais, começaram a correr entre os carros que estavam parados no meio da rua. A quantidade aumentava gradativamente, até que em torno de duzentos homens, todos absolutamente idênticos, pararam em sincronia, apontando suas armas para o muro. Todos estavam sérios; seus rostos vazios não demonstravam emoção alguma, e seus olhos não tinham brilho. Treinamento alternativo, talvez.

O lugar ficou silencioso novamente. Ambos os lados esperavam o próximo movimento do adversário, porém não ousavam mexer um dedo sequer. Estavam estudando o ambiente, procurando passagens alternativas, lugares seguros. Porém, enquanto o homem de coturnos argumentava silenciosamente consigo mesmo, seu corpo indeciso de ir ou ficar, os outros se mantinham parados. Absolutamente imóveis.

O homem retirou seis granadas do bolso externo da jaqueta com as mãos trêmulas, puxou o pino de duas delas e jogou-as por cima do muro. Ambas as explosões foram sincronizadas, e os homens restantes começaram a atirar contra o muro, movimentando-se, procurando brechas que permitiriam a eles chegarem ao muro com segurança. O homem de jaqueta atirou o restante das granadas, uma após a outra. Quando ouviu a última explosão, saiu de trás do muro e começou a atirar em todos os que haviam restado, ao mesmo tempo em que se agachava e corria para detrás dos carros.

Tentou ao máximo gastar o mínimo possível de sua munição. Afinal, munições só poderiam ser achadas atualmente no último exército, e ele quase fora morto por uma metralhadora da última vez que voltara lá. Era realmente irônico, já que em outros tempos ele fora recebido como herói.

Até que se casou e a vida se ferrou de vez.

Um após o outro, os homens uniformizados caíam. Até que sobrou apenas um. Apenas mais um, ele pensou, e estarei a salvo pelo resto da minha vida. Resgatando as sobras do seu fôlego, levantou-se e atirou.

Porém, ao invés de um só, como era o previsto, ouviram-se dois tiros, quase que em uníssono. Aquela desgraça, ele pensou, com raiva, e uivando de dor. Tanto o homem de jaqueta quanto o homem uniformizado caíram. O homem, porém, começou a rir: um riso leve, largo, interrompido apenas por ocasionais tosses profundas. Mas depois de alguns segundos seu corpo ficou imóvel, e aquele rosto risonho, colado no asfalto, parou de se mover, deixando ainda um débil eco daquele riso no ar. O sangue jorrava livremente, abrindo espaço em sua camisa negra, indo de encontro com o asfalto frio, correndo livremente, preenchendo as crepitações e falhas, até que começou a misturar-se ao óleo que jorrava livremente de duzentas máquinas.

Duas espécies se extinguiam nesta noite.

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