A República do Chope
9 Capítulo 9 - O primeiro dia de aula
Notas iniciais
- Certo, eu vou lá. – Mas antes que Mu fosse ao encontro dele, Aioria o agarrou num beijo quente e molhado na frente de todos, constrangendo o mais novo. Todos na sala ficaram em silêncio, assistindo aquela demonstração de posse do outro. O ariano depois de um tempo conseguiu enfim se libertar dos braços do namorado e foi até o banheiro ao encontro de Dite, enquanto seu namorado travava um duelo de olhares com Deba.
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Mu não esperou muito para ralhar com o namorado sobre a sua possessividade, principalmente quando estavam na frente de Aldebaran. Entendia os motivos para o leonino sentir-se enciumado, mas não queria alguém que o expusesse da forma como ele fez, beijando-o de forma calorosa demais, notoriamente para que todos vissem. Aioria por outro lado, não via nada de errado em mostrar para todos os amigos, e principalmente para Deba, que agora o ariano era dele e de mais ninguém!
- Não Aioria! Eu não sou uma coisa para ser seu! – Tentou explicar calmamente enquanto arrumava as coisas para ir a sua primeira aula.
- Eu não entendo... isso tudo só porque eu te beijei ontem? Ou será que você não queria que o seu grande amigo nos visse? – Aioria sabia que estava parecendo infantil, mas sentia-se inseguro com o relacionamento de seu namorado com Aldebaran. Insegurança que era agravada pela recente construída relação com o ariano, que estava ainda bem no começo. A essa altura ainda ter que disputar com o grandão estava minando seu já explosivo temperamento.
- Não é nada disso... – Mu tentava ser paciente, pois sabia que no fundo Aioria estava inseguro e, de certa forma, até entendi o porquê. Mas ele teria que saber que se quisesse ficar com ele, precisaria confiar. – Eu só não gosto que você me exponha dessa maneira, eu sou um cara tímido. – Riu de si mesmo. — Todos sabem que estamos namorando, não precisava de nada daquilo. – Disse levando suas mãos ao rosto do namorado e dando um singelo sorriso e um selinho no namorado, que soltou um muxoxo*, mas se tranqüilizou com as palavras do namorado.
- É, mas parece que Deba não percebe, ou se faz de desentendido... – O leonino aproveitou a proximidade do outro para abraçar-lhe a cintura e fazer manha. Mu riu.
- Está certo, eu prometo que vou conversar com ele e pedir que seja menos afetuoso comigo. Assim está bom? – O ariano enfim conseguiu convencer o namorado e se achegando um pouco mais, o beijou. Aioria aproveitou a iniciativa pouco comum e apertou-o ainda mais contra si, curtindo toda aquela proximidade gostosa do corpo do outro. Porém, o beijo durou pouco, pois logo foram interrompidos pelo pigarrear de Milo, que os encarava encostado a porta do quarto.
- Sem querer interromper, mas... estamos atrasados! – Disse rindo da face corada do mais novo.
- Já estamos indo. – O primo disse enquanto fazia caretas de desagrado para o escorpião sem que o namorado visse. Milo riu das caretas do primo, devolvendo-as com gestos obscenos.
- E como está o Dite? – Mu perguntou ainda de costas arrumando suas coisas.
- Está lá na sala. Um pouco desanimado, mas está bem. – Milo disse.
- Ah até agora não acredito em tudo isso! – Mu finalmente terminou de arrumar suas coisas e se virou para o escorpião. – Só espero que ninguém lá da faculdade tenha visto. – Pensou esperançoso.
- Acho que nem o Dite tem essa esperança... – Milo comentou enquanto ia para a sala encontrar Dite e Shaka.
Os cinco amigos resolveram por bem irem juntos ao primeiro dia de aula. Eram calouros e com tudo o que aconteceu, era bem provável que recebessem trotes mais pesados. Principalmente Afrodite que, apesar de tentar demonstrar confiança, estava apavorado de enfrentar o campus. Agradeceu a todos os santos que conhecia pelos amigos estarem com ele, pois se não fossem eles, talvez não tivesse coragem de sequer pisar na portaria da faculdade. O caminho até lá foi relativamente tranqüilo, apenas com um ou outro que direcionava olhares para Afrodite, por vezes de pesar, outras de gozação. Mas com a ajuda dos amigos, o pisciano conseguiu levar bem aqueles olhares, com uma postura mais altiva do que de costume, apenas para disfarçar a vergonha pelo que aconteceu.
Quando chegaram ao campus, Mu abraçou o braço esquerdo de Dite, segurando sua mão. Dite olhou para o amigo e sorriu, reconhecendo o gesto de companheirismo e amizade. Seguiram com Milo, Aioria e Shaka ao lado. Logo que entraram os assovios e piadas já puderam ser ouvidos, mas continuaram em frente. O ariano percebeu que Dite suava frio e apertou-lhe ainda mais as mãos, como forma de demonstrar que estaria ali com ele. Ao chegar perto do prédio, porém, ouviram a voz de Carlo.
- Dite? – Chamou com aquele inconfundível sotaque espanhol. Afrodite tremeu com um misto de sentimentos que misturavam raiva, ódio, vergonha, humilhação. Milo e Aioria se colocaram na frente de Afrodite e numa postura ameaçadora, impediram a aproximação do outro.
- Não acredito que ainda tenha a coragem de tentar se aproximar dele depois do que fez. – Rosnou Aioria.
- Cai fora daqui! – Milo complementou. Os alunos já começavam a se aproximar em volta deles para observar aquele início de briga quando Carlo riu.
- Yo no sabia que estavas treinando perros ferozes, Dite... – Carlo provocou pouco intimidado com o olhar dos primos.
- Ora seu... – Milo já estava pronto para começar uma briga quando a voz de Saga o interrompeu.
- Parem com isso! – A voz grossa de Saga imediatamente fez com que todos o olhassem, principalmente Shaka, que ainda estava engasgado com a história que Milo contou. A proximidade do professor acabou afastando os curiosos que cercavam o grupo. – Eu não quero saber de briga por aqui. – Disse olhando para todos.
- Yo só queria hablar com mio amigo Dite, pero esses ai tentaram começar una briga. – Carlo disse dissimulado.
- Professor... – Milo tentou argumentar, mas Saga foi enfático, não deixando que o escorpião continuasse.
- Já chega! Vão para suas salas, o sinal já tocou. – Disse para o grupo. — E você Carlo, por favor, me acompanhe. – Disse virando-se para voltar ao prédio.
- Porque yo? Yo no fiz nada! – Reclamou o espanhol.
- Agora! – Não deixou que o outro reclamasse e, antes que entrasse, lançou um olhar misterioso para Shaka que o olhava incansável, numa análise tão minuciosa que deixou o professor intrigado e excitado. Um sorriso foi o suficiente para que Shaka soubesse que foi flagrado na análise, mas isso definitivamente não o intimidou. O indiano queria mesmo ser percebido, ser notado e assim quem sabe descobrir a veracidade da informação que recebeu do escorpião.
Com a pequena confusão abafada por Saga, os amigos se dirigiram para suas respectivas salas. É claro que antes, todos levaram Dite para a sua sala, levando os primeiros risos do dia ao pisciano que achava graça de toda aquela proteção dos amigos. Com a missão “completa”, todos os outros seguiram para suas salas, menos Shaka que ainda permanecia inquieto em relação à Saga e Carlo.
O indiano começou então uma busca pelo prédio tentando encontrar Saga e Carlo na sala dos professores do prédio. Aproximou-se o bastante e colou os ouvidos na porta, apenas para tentar escutar se eles estavam lá, aproveitando-se que o corredor estava vazio. As vozes não eram claras, mas pôde reconhecer a voz do geminiano, sem entender muito bem o que ele dizia. Ao ouvir um barulho vindo das escadas, resolveu se esconder entrando em uma das salas vazias. Ficou observando pelo vidro da porta, tomando cuidado para não ser visto.
Pôde ver Carlo saindo da sala e Camus entrando logo depois sendo acompanhado de outro rapaz, sendo recebido por Saga. Fecharam as portas, encorajando o loiro a ir novamente até lá e colocar novamente os ouvidos na porta, tentando ouvir o que eles falavam, mas não conseguiu entender muita coisa. Frustrado, se afastou um pouco da porta, olhando-a com atenção. Era de madeira maciça, por isso não escutaria nada além das poucas frestas da fechadura. Suspirou e finalmente desistiu, teria que descobrir de outro jeito.
Mas antes que ele pudesse sair do corredor, Saga abriu a porta e logo deu de cara com o loiro. O geminiano sorriu para o loiro, que o deixou sem graça.
- Shaka, o que faz aqui? – Perguntou ainda sorrindo.
- Nada... eu queria ir ao banheiro. – Mentiu descaradamente, fingindo naturalidade. Observou que Camus também saiu com o rapaz e olhando para Saga, disse.
- Vou levá-lo até em casa. – O olhar curioso que ele lançou para Saga não passou despercebido por Shaka.
- Vai lá... – Saga confirmou ainda rindo, esperando que eles saíssem do corredor para apoiar as costas na parede, ficando do lado de Shaka e cruzando os braços pretensiosamente, acenou com a cabeça a verdadeira direção do banheiro.
- O banheiro fica para aquele lado ali... – Disse enquanto mantinha um sorriso no rosto.
- Obrigado. – Disse fingindo que o olhava para a direção indicada.
- Esse não é o prédio de filosofia... não gosta dos banheiros do outro prédio? – Perguntou, tentando esconder o riso. Shaka voltou o olhar para o professor e, tentando manter a seriedade, respondeu.
- Ainda não tive o prazer de usá-los. Vim aqui para acompanhar o meu amigo Afrodite até a sala dele. Ele passou por uma brincadeira de muito mau gosto por aquele rapaz que você trouxe para cá.
- Carlo. – Saga complementou, tirando o sorriso da boca.
- Sim, esse mesmo. E tenho a impressão que Dite não foi o primeiro da lista de vítimas de suas brincadeiras de mau gosto.
- Sua impressão está correta, o problema é que não conseguimos provar que ele é o responsável por essas brincadeiras. – Optou por ser bastante sincero com aquele jovem que apesar da idade aparentava ser muito inteligente.
- Como não? Aquela foto não é prova suficiente? – Indagou inconformado, referindo-se ao imenso cartaz que foi colocado em frente à república.
- Não... ele alega que também é vítima. Como ele também aparece na foto, não podemos dizer que ele é o responsável.
- Ah... eu não acredito! – Shaka ralhou, afastando-se de Saga. – E o que vão fazer? – Indagou ao professor de braços cruzados. Saga arqueou uma sobrancelha, espantado em ver como aquele garoto era autoritário.
- Não se preocupe, vamos resolver isso. – Limitou-se a dizer. Saga estava cada vez mais atraído por aquele garoto. Sua inteligência, sua altivez, sua beleza estonteante eram um delicioso convite a Saga. Afastou-se da parede e felinamente foi se aproximando do indiano, que instintivamente recuou até encontrar a parede. Saga deu um sorriso sedutor e apoiando-se com as mãos ao lado da cabeça de Shaka, sussurrou-lhe no ouvido. – Alguém já te disse que você é muito mandão? – Sorriu ao vê-lo se arrepiar.
Shaka por um momento perdeu o raciocínio e ofegou, sentindo a proximidade de Saga o aquecer de um jeito que nunca tinha sentido. Viu saga se afastar um pouco e ficar a milímetros de seu rosto, enquanto observava calmamente todos os contornos daquela face alva, nariz arrebitado, bochechas vermelhinhas e aquela boca entreaberta, puxando o ar, gostosa, chamando-o para um beijo que não foi recusado pelo professor. Aos poucos, foi levando seus lábios até os do indiano, roçando-o de leve, vendo-o estremecer de leve.
- Professor... – Shaka enfim conseguiu se pronunciar, levando suas mãos até o peito dele o afastando e, com muito custo, afastá-lo. – Eu preciso ir... para minha aula. – disse antes de se afastar ainda mais, praticamente correndo até a escada.
Saga voltou a encostar as costas na parede, já sentindo o volume da calça lhe apertar. Sorrindo levou os dedos à boca, lembrando do quase beijo que daria no loiro se ele não tivesse fugido. Permitiu, pelo menos agora, que ele fosse. Não queria assustar o garoto, mas que com certeza da próxima vez, ele não teria escapatória. Tomaria aquele loiro para si, mas ainda teria tempo para isso. Enquanto isso curtiria esse jogo de sedução que para Saga, era tão gostoso quanto tê-lo.
Para Shaka, entretanto, o quase beijo não foi assim tão prazeroso. Assustado com o poder que aquele homem exercia sobre seu corpo, juntou todas as forças que tinha e fugiu dali, por mais que isso deixasse transparecer insegurança e medo. A verdade é que Shaka era metódico demais para se deixar envolver por um homem que claramente flerta com Deus e o mundo. Recusava-se a ter algo com um homem que não via nada além de seu corpo, um mero objeto do prazer carnal. Não! Para Shaka, o sexo não devia ser tratado com a banalidade que homens como Saga tratavam. Sua educação, sua cultura, sua mente o impediam de ver essas relações fugazes do ocidente com bons olhos. E sabia bem que, apesar de seu corpo pedir pelo corpo do professor, essa relação não seria tratado pelo outro com a devida importância pelo geminiano.
Não que Shaka pensasse no amor como a um casamento eterno. Mas seu corpo era o templo do seu espírito e não poderia deixar que paixões ilusórias ofuscassem o verdadeiro objetivo da relação a dois, a elevação e a libertação da consciência e não o ofuscamento dos instintos animais. O envolvimento entre eles certamente seria de um intenso orgasmo, como quais os animais no cio. Mas era um homem e devia se comportar como tal, elevando seu espírito mesmo quando da prática do sexo, afugentando o lado animalesco que se escondia dentro de cada um de nós, para que assim não se perdesse em meio a ilusões e era por isso que não poderia se entregar assim tão fácil a esse sentimento que, tinha que admitir, era poderoso.
- Shaka? – A voz de Milo fez com que o indiano acordasse de suas reflexões. – O que faz aqui?
- Eu? Eu estava no banheiro... e você? – Perguntou tentando disfarçar sua perturbação.
- Minha primeira aula será na quadra. Você está bem? Está vermelho! – Milo perguntou, preocupado.
- Estou bem sim Milo. Não se preocupe. Escuta, temos que pensar em alguma coisa. Se bobear, aquele Carlo ainda vai ficar impune. – Disse desviando o assunto.
- É, eu também acho. Mas o que podemos fazer?
- Eu ainda não sei. Mas hoje mesmo vamos pensar no que fazer, assim que chegarmos a casa.
- Bem, só se for mais a noite, porque depois da aula vou à casa do Camus. — Shaka arqueou uma sobrancelha.
- O que vai fazer lá?
- Esqueci meu relógio na casa dele... – Justificou.
- E porque o professor não te entregou aqui na faculdade? – Shaka perguntou curioso.
- Porque ele não sabe que eu esqueci lá... – Milo riu sem vergonha e então o indiano entendeu tudo, rindo do amigo.
- Só você mesmo Milo... – Riu enquanto se dirigia enfim para a própria sala de aula.
- Até mais tarde Shaka! – Gritou Milo, mas uma sensação de que estava sendo observado o fez olhar para o prédio e flagrou Saga olhando na direção do amigo e, rindo, voltou para a quadra.
Continua...
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