A República do Chope
12 Capítulo 12 - O encontro no restaurante - Parte I
- Ah, então você armou tudo isso?- Brincou, fingindo irritação.
- Sim, eu fiz. Quando eu te vi me olhando daquele jeito, eu não me segurei. – Ele sorriu ainda mais vendo o outro corar. Mas acabou sorrindo também, o abraçando e esquecendo-se do mundo lá fora.
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Enquanto isso, fora da república, Milo e Camus acabavam de chegar à casa do aquariano. O caminho, depois da indireta descarada de Milo, transcorreu sem que eles falassem qualquer coisa, apenas com a música amenizando o clima de desconforto do professor. Milo, porém, ainda não estava satisfeito por aquele dia. Considerou que já tinha dado mostra o suficiente sobre o que queria daquele professor e já estava na hora dele se decidir sobre isso. Entraram e Camus logo perguntou.
- Foi aqui na sala que você esqueceu o relógio? – Correu os olhos pela sala e encontrou o pequeno relógio em cima da estante. Sorriu e foi até lá pegar o objeto. – Aqui está. – Entregou em mãos e olhou nos olhos do loiro.
- Obrigado. – Agradeceu, mas Milo não pegou o relógio de imediato. Apenas ficou encarando aqueles olhos tão profundos, tentando achar ali alguma coisa que mostrasse se aquele professor lhe era indiferente ou se, assim como ele, sentia alguma coisa. Mas aqueles olhos eram tão profundos que ele não conseguia ver nada além daquela sobriedade e distancia tão característica dele. Não conseguia definir e nem identificar nada naqueles olhos. Camus não fugiu daquele olhar que parecia querer invadir sua alma, e ao contrário do loiro, conseguia identificar e traçar com clareza todas as intenções do garoto. Como é transparente. O ruivo pensou, admirado em perceber no jovem tamanha transparência e nenhum resquício sequer que indicasse uma tentativa de esconder aquilo que sente. Era um jovem impetuoso, com muita energia e pouca cautela, até mais do que se costuma ver nos jovens de sua idade. Do tipo que se entrega de cabeça em aventuras perigosas sem medo de nada. Não podia negar, sua vitalidade transbordava mesmo no olhar analítico que lhe lançava. Ele cheirava a juventude, a hormônios, àquelas loucuras desenfreadas que só se faz quando se é jovem demais para se calcular os riscos. Tão intrigante e diferente de si, e talvez por isso, tão instigante e atraente. Aquela tentativa de se descobrirem poderia ter tomado muito tempo, mas nenhum dos dois percebeu. E um tanto frustrado, Milo acabou voltando seu olhar para o relógio, o tomando das mãos do ruivo.
- Me desculpe se eu te atrapalhei, mas... – Milo, já acreditando que não teria chances com aquele homem tão frio, começou a se desculpar sem graça, mas antes que pudesse concluir seu pedido de desculpas, Camus o interrompeu.
- Você quer almoçar comigo? – Perguntou tranquilamente, ignorando a surpresa do rapaz.
- O... o que? – Milo não conseguiu processar aquele convite. Como assim? Ele estava convidando-o para almoçar? Era isso mesmo?
- Perguntei se não quer almoçar comigo. – O ruivo repetiu, divertindo-se com a surpresa e o espanto do loiro. Milo, apesar de não ter entendido a repentina mudança do ruivo, aceitou na mesma hora, vai que ele desiste?
- Claro! – E sorriu um sorriso tão radiante, parecido com o de uma criança que acaba de receber o presente que mais queria. Camus riu mais uma vez, charmoso e inconscientemente seduzindo ainda mais a Milo.
- Então vamos? – Apontou com a cabeça para a porta.
- Vamos a um restaurante? – Perguntou. Estava achando que iriam almoçar na casa dele.
- Sim, você não vai querer que eu cozinhe para você, não é? – Riu da cara corada de Milo. – Vou te levar a um restaurante muito bom. – Começou a andar levando consigo Milo. Colocou a mão casualmente nas costas de Milo, aproximando-se da orelha dele para sussurrar-lhe: - Não se preocupe, relaxa, deixa eu te levar. – Milo se arrepiou imediatamente, e olhou para Camus que o encarava com um meio sorriso discreto. Sorriu também, parecia que as coisas finalmente estavam mudando.
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- Alô? Professor Saga?
- Oi Shaka, sou eu. Pode falar.
- Olha, me desculpe estar te ligando, mas é que eu preciso muito falar com você. – Shaka, apesar de preocupado, mantinha a voz o mais natural possível.
- Não se desculpe, já disse que pode me ligar quantas vezes quiser. Mas me diga... aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu uma coisa sim, mas eu não queria falar por telefone. Tem como agente se ver?
- Claro que sim, mas tem que ser rapidinho, porque eu ainda vou dar aula à tarde!
- Pode ser aqui no bar da dona Gertrudes?
- Olha Shaka... eu confesso que por ai fica difícil. Eu estou um pouco longe e ainda tenho que dar aula. Você não quer almoçar comigo? Assim eu posso comer e te ouvir ao mesmo tempo! – Riu um pouco. Shaka hesitou um pouco, mas acabou aceitando.
- Está bem. Onde é melhor pra você?
- Anota que eu vou te dar o endereço. – E, depois de anotado, Shaka arrumou-se um pouco demais e foi até o restaurante indicado por Saga.
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- Nossa, mas aqui parece ser caro! – Milo comentou observando o requinte do lugar.
- Não se preocupe com isso Milo. – Tudo bem que Camus bem que poderia ter levado Milo a um lugar mais simples, mas sentiu uma vontade grande de impressionar o garoto. Reconheceu em si mesmo aquele sentimento tão juvenil e acabou rindo de si próprio. Mas que bobagem, Camus Verseau! Pensou consigo mesmo.
- O que foi? Porque está rindo? – Milo notou o riso de Camus e achou que ele estava rindo de si, deixando-o sem graça.
- Não é nada Milo, vamos nos sentar? – Perguntou indicando a mesa. Milo não falou nada, mas acabou se travando com a risada de Camus. – O que vai querer? – Perguntou depois que o garçom se aproximou.
- Ah sei lá, eu te acompanho. – A melhor forma de não pagar mico é acompanhar! Só rezava para ele não pedir nada estranho.
- Certo, nos traga bife com fritas e duas cocas. Obrigado. – Milo não conseguiu segurar o queixo, que caiu abismado com o pedido de Camus. Camus olhou para Milo casualmente e ao ver Milo assustado de boca aberta, começou a gargalhar. Não se importava com o fato de alguém estar olhando, era inevitável não rir muito da cara dele.
- Eu... eu não esperava que você fosse pedir isso... – Tentou dizer, corando ainda mais com as risadas do ruivo. – Você quer parar! Estão olhando! — Pediu num sussurro olhando para as outras mesas.
- Ah deixa eles pra lá... você não parece o tipo que se importa com o que os outros pensam! – Disse, assim que conseguiu para de rir, mordendo o lábio inferior achando a coisa mais linda aquele loirinho sem graça.
- E não me importo mesmo, mas... – Milo olhou para os lados, se sentindo acuado diante daquelas pessoas. Camus se recompôs, vendo como o garoto parecia incomodado com as pessoas e o lugar requintado demais. Talvez ele tivesse exagerado, afinal por mais arrogante e dono de si que ele pudesse ser, todo jovem sempre tem certas ressalvas, nem que seja um pouco, quanto à própria imagem perante os outros. E tinha certeza que seria pedir demais para ele ter uma atitude mais madura. – Me desculpe. – Pediu realmente constrangido.
O almoço, que deveria ser descontraído, acabou se tornando tenso demais para os dois. Ao menos a comida para Milo tinha se salvado, já que bife com fritas era a sua preferida.
- Eu fiz esse pedido, pois percebi que estava constrangido com o lugar, sem saber o que fazer. Me desculpe, não queria te deixar incomodado. – Camus tentou quebrar o clima.
- Eu não esperava mesmo que você fosse pedir isso. Obrigado por tê-lo feito, é meu prato favorito. – Sorriram na tentativa de ambos em amenizar o clima.
- Eu também gosto muito, sei que pareço muito sério, fechado e até chato, mas eu não sou tudo isso não. – Tentou argumentar.
- Fico feliz em saber disso. – Disse sorrindo de forma sedutora. Encararam-se por um tempo, como se para tomar coragem de falar algo que ambos queriam, mas alguma coisa impedia.
Ao fundo do restaurante, Saga chegava acompanhado de Shaka. Assim que o indiano correu os olhos pelo local, viu Camus e Milo numa das mesas.
- Aqueles ali não são o professor Camus com o Milo? – Perguntou para Saga que rapidamente olhou na direção indicada, reconhecendo o amigo.
- São eles sim. Vamos lá falar com eles. – Então os dois se aproximaram e só quando chegaram bem perto é que Camus percebeu a presença deles.
- Saga? – Camus murmurou surpreso pela presença dele.
- Olha só quem está aqui! – A voz de Saga quebrou completamente o olhar que Milo jogava para o ruivo. Eles se entreolharam. – Camus, que surpresa!! – Disse, colocando uma das mãos no ombro do amigo.
- Shaka? – Milo estranhou a presença do loiro com o professor.
- Essa definitivamente é uma surpresa muito agradável! Não sabia que estavam juntos.
- Só estamos almoçando, Saga. – Camus logo corrigiu.
- Ah claro! – Saga riu um tanto descrente. – Bom, infelizmente não poderei ficar nessa mesa com vocês. Já tenho uma mesa reservada, se eu soubesse que viria eu teria ligado para você, Camus. Seria ótimo almoçarmos todos juntos.
- Eu decidi de última hora. – Camus tentou justificar.O geminiano não se importou com a desculpa, fazendo um discreto gesto de que estava tudo bem.
- Bem, tenham um bom apetite! – Saga disse levando Shaka para a outra mesa. Milo suspirou aliviado e um pouco enciumado.
- Porque eu tenho a impressão de que ele flerta com todo mundo? – O escorpião perguntou irônico.
- O que disse? – O aquariano estranhou o tom de voz usado pelo loiro.
- Não é nada, é só que eu tenho a impressão de que o professor Saga flerta com todo mundo. – Resolveu comer, colocando um pedaço de carne na boca para não falar mais do que devia. O aquariano percebeu de imediato o ciúme de Milo e resolveu não alimentar, afinal eles nem tinha nada e ele já estava agindo dessa forma?
- Ele flertou com você? – Milo o encarou e estreitou os olhos, entendendo onde ele queria chegar.
- Não. Comigo não.
- Então não é com todo mundo.
- Ah você me entendeu. – Irritou-se e voltou a comer.
- Meu relacionamento com o Saga é muito superficial Milo, somos homens e nem sempre precisamos de romance para atender as nossas necessidades. – Camus disse indiferente, mal acreditando que estava falando daquele jeito com o garoto que nem conhecia direito. Bom, mas ele tinha a certeza de que algum comentário sobre seu relacionamento com Saga chegou aos ouvidos de Milo. Só isso explicaria a recente irritação dele com o amigo. O escorpião por sua vez ficou atônito, sem saber o que dizer. Não esperava que ele fosse responder de forma tão direta e sincera. Mas no final acabou rindo.
- Você não se cansa de me surpreender, não é? – Camus voltou o seu olhar para Milo e ambos riram.
Na outra mesa, Saga e Shaka também faziam os seus pedidos.
- Bem... espero que goste. É um lugar muito bonito e...
- E exagerado. – Shaka frisou. O geminiano sorriu.
- Você deve ser do tipo que gosta de comidas naturais.
- Eu prefiro sim. É mais saudável.
- Isso não será problema! A comida daqui é muito saudável também. Pelo menos todas as vezes que vim aqui nunca passei mal. – Saga riu. – Bem, mas não foi para falar de comida que viemos aqui. Você disse que queria falar comigo.
- Sim. Eu queria sim. – Shaka parou para pedir um suco. – Eu queria falar sobre o Carlo.
- Mas você é muito insistente. – Riu. – Já disse que estamos cuidando disso.
- Eu sei que estão. Mas...
- Mas o que?
- Eu fiquei pensando nos motivos para ele ter feito tal coisa. As coisas não estão fazendo muito sentido.
- A primeira hipótese é bulling, sem dúvida nenhuma. Porque acha que não fazem sentido.
- Porque se colocar como vítima?
- Para evitar uma punição. Shaka, eu estou te achando estranho, o que aconteceu? – O loiro suspirou.
- Nada, só estou tentando entender as razões dele.
- Nem sempre dá para entender as razões de quem faz esses tipos de brincadeiras, talvez algum problema psicológico, eu não sei.
- Então se for Bulling, você acha que ele escolheu o Afrodite por ele ser gay e assumir publicamente?
- Sim, estamos trabalhando com essa hipótese. Inclusive nós já temos testemunhas do que ele fez.
- Testemunhas? – Shaka se assustou.
- Temos testemunhas que viram o Carlo levando Afrodite para o hotel onde as fotos foram possivelmente foram feitas.
- Bom, mas que eles estavam juntos já sabíamos.
- Sim, mas as testemunhas alegam que o grupo de amigos do Carlo também foi para lá. Agora temos que provar que esse grupo tirou as fotos e que Carlo não só sabia como arquitetou tudo isso.
- Isso não prova nada... os amigos dele podem ter armado isso contra ele! – Saga até parou de comer, surpreso com o que ouvira.
- Os amigos? E porque os amigos dele fariam isso?
- Eu... eu não sei, mas pode ser, não pode? – Shaka considerou e depois voltou a comer. Saga ficou encarando-o por um tempo, analisando todas aquelas coisas ditas pelo loiro.
- Estranho você achar que ele é inocente. O que aconteceu para você mudar de ideia?
- Eu não disse que ele é inocente.
- Como não?
- Eu só estou fazendo algumas considerações, já que você não me diz as outras hipóteses que vocês estão analisando.
- Outras hipóteses? Não temos outras hipóteses...
- Claro que vocês têm outras hipóteses... você disse que bulling era a primeira delas, sinal de que tem outras. – Disse olhando o professor com ar de vitória. Saga piscou algumas vezes e riu, olhando para os lados e levou as mãos ao queixo, divertindo-se.
- Está bem, eu tenho outras hipóteses.
- E porque não me diz? – Saga ficou olhando para o loiro e, se apoiando na mesa, aproximou seu rosto do loiro e sussurrou:
– Direi se você me disser o que aconteceu para você fazer todas essas considerações. – Shaka piscou algumas vezes encarando o professor. A verdade é que não queria falar nada sobre Carlo ter ido à sua casa. Saga riu um pouco. – Não me acha confiável para dizer o que está acontecendo?
- Eu não disse isso.
- De fato. Não disse, mas é o que está pensando. – E dizendo isso, Saga voltou a sentar-se normalmente e voltou a comer. Shaka hesitou, pensando no que diria.
- Está bem, eu digo. – Saga imediatamente parou de comer para prestar muita atenção no loiro indiano. – O Afrodite teve uma conversa com Carlo. E eu achei essa conversa muito estranha.
- Estranha como?
- Eu não sei explicar, ele não disse nada demais, tentou pedir desculpas. Eu achei isso estranho.
- Ele está tentando limpar a imagem dele.
- Com o Afrodite? Porque ele iria querer limpar a imagem dele com a mesma pessoa que, teoricamente, ele detesta só por ser gay?
- Exatamente por isso. O Carlo volta e meia tenta se passar por vítima. Eu tenho a impressão de que ele realmente tem algum problema psicológico.
- Então você acha que ele quer que até mesmo os gays pensem que ele é inocente?
- Sim, até porque se todos pensarem que ele é inocente, não aparecerá tantos indícios contra ele. Ora, quem melhor para atacar um gay do que alguém que visivelmente não gosta de gays? Se ele fosse visto assim, certamente ele seria o primeiro a ser visto como o baderneiro homofóbico da faculdade. Ele pode até ter problemas psicológicos, mas ele não é nem um pouco burro. – Saga concluiu, satisfeito com a expressão confusa que causou no loiro. – Não se engane com a sua postura de bom moço. Ele é bem ardiloso, sabe enganar muito bem. Não é a toa que não conseguimos pegá-lo.
- Eu não costumo me enganar. – Shaka tentou manter a naturalidade, mas as palavras de Saga o deixaram ainda mais confuso.
Continua...
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