A República do Chope

10 Capítulo 10 - Proposta inesperada


- Até mais tarde Shaka! – Gritou Milo, mas uma sensação de que estava sendo observado o fez olhar para o prédio e flagrou Saga olhando na direção do amigo e, rindo, voltou para a quadra.

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O dia correu tranquilamente enquanto os cinco jovens estudavam cada qual em seus cursos. Afrodite, ao contrário do que imaginou, não recebeu tantas piadinhas e brincadeiras sem graça em função da brincadeira de péssimo gosto que Carlo fez. Só de lembrar-se do episódio sente seu sangue ferver de raiva. Mas não deixaria que isso abalasse sua vida, não mesmo! Iria seguir sua rotina normalmente, não sem antes planejar sua vingança, é claro.

Assim que o sinal tocou indicando o término da aula, Afrodite saiu sem falar com ninguém de sua turma, pois apesar de ninguém tê-lo provocado, sentia um olhar curioso para cima de si e isso o incomodava. Com a cabeça erguida, seguiu para o pátio onde encontraria seus amigos no lugar marcado antes das aulas começarem.

Shaka já estava lá, assim como Aioria e Mu. Assim que avistaram Afrodite, acenaram para que este se aproximasse.

- E então? Foi tudo bem? – Mu perguntou para Afrodite referindo-se sobre a aula, ainda sendo abraçado por trás pelo namorado.

- Sim, foi bem tranquilo. – Limitou-se a dizer.

- Ótimo. Então vamos? – Shaka pediu.

- E o Milo? – Aioria perguntou.

- Ele disse que iria depois. Primeiro foi buscar algo que esqueceu na casa do professor Camus. – Shaka disse sem se importar muito. Aioria riu.

- Ah é, a velha tática do objeto esquecido... – Todos riram do comentário de Aioria e seguiram para a República.

Ainda no campus, Milo estava sentado em uma espécie de bancada de concreto na portaria do prédio de literatura e artes, aguardando impaciente o professor Camus. Já tinha passado uma hora desde que as aulas terminaram e pelas informações que recebeu na recepção, já era para ele ter saído. O que será que ele ainda estava fazendo? Será que ele está resolvendo o problema do Afrodite? Milo pensava consigo mesmo enquanto aguardava. Mas um pensamento lhe aporrinhou, será que ele estava com o tal professor Saga? Não, Saga estava demonstrando claro interesse em Shaka... mas em compensação, também mostrou que a relação com Camus não é apenas mera amizade.

- Milo? – Camus chamou assim que percebeu a presença do jovem loiro.

- Ah, oi professor. – Disse saindo de onde estava e se colocando na frente do professor. Estava tão entretido com seus pensamentos que nem tinha notado o ruivo chegar.

- O que está fazendo aqui? Já está tarde, não era para você já ter ido para casa? – Camus perguntou curioso.

- Sim, eu devia mesmo. – Milo riu, um pouco sem graça. – Mas é que eu esqueci meu relógio na sua casa e pensei se você não poderia me dar uma carona até lá. – Disse tentando manter naturalidade. Camus perdeu alguns segundos tentando verificar a sinceridade na frase de Milo.

- Você tem certeza que esqueceu lá em casa? – Perguntou ainda em dúvida sobre as intenções do garoto. Era só o que faltava... receber flerte de um aluno!

- Tenho sim. — Milo confirmou.

- Hunn... está certo. Vamos. – Resolveu-se, se dirigindo até seu carro sendo seguido por Milo.

- Você demorou. – Milo comentou quando chegaram ao carro, só para quebrar o silêncio que se instalou entre eles. Camus o olhou estranhando o comentário enquanto pegava as chaves. – A moça da secretaria disse que sua aula terminou há uma hora e que você não teria mais aulas hoje. – Milo emendou.

- Eu estava resolvendo uns problemas. – Respondeu sem muitas delongas, entrando no carro. Milo entrou sentando no banco do carona, mas não se calou.

- Sobre o Carlo? – Perguntou um pouco também para saber algo sobre a brincadeira feita com Afrodite e não só para puxar assunto.

- Também. – Disse enquanto manobrava o veículo para sair da vaga. Não queria dar muito papo, ou qualquer coisa que desse um sinal errado para o aluno. É verdade que o garoto era muito bonito e atraente, mas ainda assim era um aluno e ele era muito rígido quando o se tratava dos assuntos da faculdade. Sempre manteve muito respeito não só pelos alunos como também pelos colegas de profissão, de modo que nunca ninguém duvidou do seu profissionalismo e de sua ética escolar. Milo percebeu o tom monossilábico do ruivo e não gostou. Esperou que ele saísse do estacionamento da faculdade e perguntou.

- Fiz algo errado? – Perguntou olhando para o motorista que mantinha os olhos na rua.

- O que? – Camus realmente não entendeu o que ele quis dizer.

- Perguntei se eu fiz algo errado, algo que você não tenha gostado. – Milo especificou para não dar margem para dúvidas.

- Não. Por quê?

- Ah... parece que você não quer conversar... sei lá. – Disse desviando o olhar para a rua. Camus percebeu a frustração no rosto do jovem e, teve que concordar, ele estava sendo mesmo um tanto seco demais com o garoto.

- Desculpe, é só que não quero envolvê-lo no assunto do Carlo. – Disse, tentando redimir-se.

- Porque não? O Afrodite além de morar comigo é meu amigo, foi um fato que aconteceu na república da qual estou morando, não vejo porque não posso ficar sabendo alguma coisa das investigações. – Perguntou voltando seu olhar para ele.

- Eu sei. – Camus suspirou. – O problema é que seu amigo é apenas mais um na lista dos problemas envolvendo o Carlo. – Foi sincero.

- Como assim? – Agora foi Milo que estranhou.

- O Carlo já é conhecido aqui como um garoto problemático. Já fez várias brincadeiras desse tipo e estamos vendo certos padrões com as pessoas com quem ele brinca.

- Se vocês já sabem que ele faz essas coisas, então porque não fazem logo alguma coisa? Sei lá... expulsem-no! Mas alguma coisa tem que ser feita! – Milo dizia já inflamado de indignação.

- Não podemos. Temos que ter provas para acusar e punir um aluno.

- Ahh!! Mas aquela enorme foto não é prova suficiente?? – Perguntou mais indignado ainda.

- Infelizmente não. – Camus dizia calmamente. – Ele também aparece na foto e alega que também é vítima tanto quanto Afrodite.

- Ah... eu não acredito! – Milo rendeu-se, mas ainda indignado. – Ele disse isso? É muito safado mesmo!!

- Sim, ele disse. É um processo complexo, pois ele não se deixa pegar fácil, as brincadeiras dele não costumam deixar rastros fáceis que possam indicar que ele seja o responsável. – O aquariano considerou e Milo suspirou frustrado, percebendo a veracidade daquela frase.

- Mas tem que ter outro jeito... isso não pode ficar assim!

- Não vai ficar assim, não se preocupe.

-Como não me preocupar?? O Afrodite ficou muito mal, aliás, ele ainda está! Você imagina a vergonha que ele passou por causa dessa brincadeira estúpida!! As pessoas até disfarçam, mas dá para perceber o olhar de gozação que lançam! – Milo explodiu.

- Eu entendo tudo isso Milo, imagino que não esteja sendo fácil para ele, mas tente entender, estamos fazendo o possível! – Camus tentou se justificar.

- Eu... eu sei, me desculpe. Eu só... – Milo percebe que exagerou com o professor e se desculpa, meio sem graça. – É só que... isso me irrita.

- Tudo bem, eu sei. – Camus foi compreensivo, lançando até um sorriso para o garoto. – Você está muito envolvido, é natural que você se deixe levar pela emoção. Por isso que não quis envolvê-lo. Também me sinto mal pelo que Afrodite passou, mas temos que ser frios agora e agir com calma. – Explicou.

- É... você está certo. – O escorpião até concordou, mas não conseguia não se irritar pelo modo como as coisas estavam caminhando. Riu baixinho, mas acabou sendo ouvido pelo ruivo.

- O que foi? – Camus perguntou estranhando o riso.

- Não... é que eu não daria para isso. Eu não sou tão calmo como você. – Considerou. Camus acabou rindo também.

- Percebi. Você parece bem impulsivo.

- É sou mesmo. – Confirmou num tom orgulhoso, fazendo Camus rir mais.

- Isso nem sempre é bom garoto. Precisamos aprender a ouvir, a ser pacientes, ter serenidade, principalmente nas horas dos problemas. – Camus dizia como quem explica algo muito complexo.

- Você está falando igual ao meu pai. – Milo riu.

- Então, devia ouvir mais a voz da experiência. – O loiro o olhou com curiosidade.

- Você não é tão mais velho assim que eu para se comparar com meu pai. – Considerou.

- Eu tenho 29 anos.

- Um pouco mais que dez anos mais velho...

- E não é muito?

- Não acho... eu gosto de homens mais velhos. – Disse e se recostou, sem se importar muito com o que o outro interpretaria da sua resposta. Camus o olhou de rabo de olho, mas nada falou. Aquilo teria sido uma cantada? Pensou, apesar de parecer, sua postura indicava que ele não estava cantando-o. Será que ele percebeu o que ele mesmo falou? Sem mais prolongar a conversa, seguiu para sua casa sem dizer mais nada.

- Se importa se eu colocar uma música? – Camus perguntou e Milo negou com a cabeça. Jazz, Milo sorriu discretamente, era bem a cara do ruivo.

Enquanto Milo seguia com Camus, os outros seguiram para a república. O caminho, tal qual na ida, foi relativamente tranqüilo. Algumas piadas e olhares, mas nada que não pudesse ser contornado pelo alto astral de Afrodite, que com a ajuda dos amigos começou a se recuperar e voltou a ter o mesmo brilho de sempre.

Porém, mesmo os risos e o ótimo papo com os amigos não foram suficientes para amenizar o impacto do que viram ao chegar à república. A imagem de Aldebaran limpando uma pichação deixou Afrodite desarmado. Não sabiam exatamente o que foi pichado, mas a sensação de que tinha a ver com o episódio com Carlo levou calafrios no pisciano.

- Ah oi galera! – Aldebaran cumprimentou assim que viu os moradores do local. – Poxa, eu esperava limpar antes que vocês chegassem, mas parece que não deu tempo não é? – Disse levando as mãos a cabeça, como se tivesse algo errado.

- O que aconteceu? – Afrodite perguntou, já temendo a resposta

- Nada não Afrodite. Às vezes acontece de vândalos picharem as paredes, isso acontece direto. – Disse tranquilamente.

- Aldebaran! – Chamou se aproximando dele. – Não minta para mim, eu vou acabar sabendo de qualquer jeito. – Disse olhando profundamente nos olhos do moreno, que ficou extremamente sem graça, rindo muito, coisa que sempre fazia quando ficava nervoso.

- Ahhh fizeram uma pichação te chamando de gostoso. Olha só, você está podendo hein! – Tentou rir mais alto, fingindo que estava tudo bem. Afrodite nada disse, mas a alegria de instantes atrás desapareceu. Sem dizer mais nada, seguiu para dentro da casa. Shaka também entrou, não sem antes agradecer a Deba.

Aioria, no entanto, olhou para o namorado, que mesmo contrariado acatou o pedido mudo do namorado. Aioria cumprimentou o grandão e foi para dentro, tentando se controlar por deixar seu namorado com o outro.

- Deba?

- Oi Mu, e aí como foi a sua aula? – Perguntou enquanto terminava de limpar a parede.

- Foi tudo bem, obrigado. – Disse e silenciou-se, tentando achar as palavras certas. – Bem legal o que você fez pelo Dite. – Achou que antes poderia agradecer pelo que ele fez.

- Ah que isso... acabou que nem consegui impedir que ele ficasse sabendo. – Deu um meio sorriso, um tanto frustrado por não ter evitado que Dite visse.

- Ele saberia de qualquer jeito, alguém iria fazer alguma piada sobre isso. Mas foi legal a sua atitude mesmo assim. – Disse sorrindo.

- Obrigado Mu. – Agradeceu voltando seu olhar para aquele que aprendeu a admirar pela pureza. O ariano, entretanto começou a se sentir incomodado pelo olhar do outro e emendou.

- Eu queria falar com você Deba... pode ser?

- Claro, eu já terminei aqui. – Disse enquanto ia até o bar conversar com o ariano. – Quer beber alguma coisa? Por conta da casa! – Riu gostosamente.

- Não, obrigado.

- Eu insisto, não faça cerimônia comigo!! – Pediu e nem esperou a resposta e já foi pegando um suco de laranja para ele que acabou aceitando.

- Não te ofereço uma cerveja porque se minha mãe descobre estou ferrado. – Sussurrou e riu como uma criança travessa. Mu riu junto. – Sem falar que suco de laranja é bem melhor para a saúde, não é? – Disse mostrando os bíceps.

- Tudo bem. – Disse enquanto bebia o suco.

- Então Mu... o que você quer falar comigo? – Perguntou enquanto sentava-se numa das mesas do bar de sua mãe.

- Bem Deba... é que, você sabia que estou namorando o Aioria?

-É, eu sei. – Disse enquanto bebia seu suco.

- Então... eu estou gostando dele, sabe? Ele é um cara muito legal e muito carinhoso... – Mu começou a dizer se sentindo um idiota, porque estava falando disso com ele?

- Você está gostando mesmo dele? – Aldebaran pareceu surpreso.

- Sim, Deba. Estou. Está surpreso?

- Ahh... bem, é que... vocês se conhecem há tão pouco tempo, sei lá.

- Sim, nos conhecemos há muito pouco tempo mesmo. Mas mesmo assim eu gostei dele, foi rápido, mas foi verdadeiro. E eu tenho certeza que ele também gostou muito de mim.

- Ah sei... – Disse de forma natural.

- E o Aioria é um cara muito ciumento...

- É, eu já percebi. – Deba riu alto.

- É... – Riu também. – Ele tem muito ciúme, mas principalmente de você.

- Hunn... – Não foi exatamente uma surpresa para Aldebaran. – Eu já desconfiava. Ele não gosta muito de mim, não é? — Perguntou com um tom pesaroso.

- Não acho que seja isso. É só que ele não gosta do seu jeito comigo. Você é tão alegre, extrovertido, ele tem a sensação de que... de que você...

- De que estou dando em cima de você? – Completou.

- É... – Confirmou corando.

- Ahh... bom, ele não deixa de ter razão, não é? – Sorriu e olhou nos olhos do ariano. – Eu também teria ciúmes de mim mesmo. – Sorriu galanteador, deixando Mu ainda mais sem graça.

- Arr.. err.. bem Aldebaran... – O ariano se confundia sem conseguia formular nada para dizer. Afinal as suspeitas de Aioria tinham sentido.

- Calma... relaxa. – Disse percebendo o constrangimento do outro. Aproximou-se mais e ficou ao seu lado e olhando em seus olhos, disse: – Olha, eu não vou mentir para você. Você é muito lindo e... eu me sinto atraído por você. Não vou te enganar dizendo que estou apaixonado. Mas não nego também que você mexe comigo. Mas não se preocupe, eu sei respeitar quando a pessoa está com outra. – Disse e pôs sua mão em cima da de Mu que se encontrava apoiada na mesa.

- Obrigado. – Tentou sorrir, mas estava sem graça demais, principalmente com a aproximação dele.

- Ele disse que gostava muito de você? – Deba perguntou.

- Ah... sim, por quê?

- Ah sei lá... eu não acredito muito nesse lance de “gostei de cara”. Nunca pensou que ele pode estar... sei lá, deixa pra lá. – Disse enquanto dirigia um olhar vago para a mesa.

- Você acha que ele está me enganando?

- Não!! Não foi isso o que eu disse... – Tentou consertar. – Eu é que não acredito em..., tipo, amor a primeira vista, sabe?

- Mas ele não disse que me amava...

- É, mas “gostar muito” é quase um “eu to apaixonado”. E eu não acredito nisso assim tão rápido.

- Bem... eu acredito nele. – Foi enfático.

- Isso é que importa no final das contas. – Sorriu disfarçando uma pontada de decepção.

- Deba... eu queria pedir que, considerando esse ciúme todo dele, que você não fosse assim tão...

- Carinhoso?

- Evasivo... que evitasse certos comportamentos que possa gerar ciúmes nele.

- Tudo bem, se é o que você quer...

- Eu quero sim.

- Mas... eu posso te pedir uma coisa antes?

- O que?

- Um beijo. – Aldebaran sequer titubeou ao fazer o pedido tão inesperado, mas tão inesperado que Mu acabou se engasgando com o suco que tomava.

- Como.. como é? – Perguntou incrédulo enquanto tossia.

- Um beijo. – Repetiu e se aproximou da orelha do outro para sussurrar-lhe. – Só um beijo na boca.

- Só?! – Perguntou assustado. – Mas eu acabei de falar...

- Eu só quero um beijo, não quero que você vire meu namorado. – Argumentou.

- Sim, mas eu tenho namorado, eu estou compromissado!

- Mas eu não estou pedindo que você termine com ele, eu só quero um beijo, aqui, agora. Ele nem vai saber...

- Ele não vai, mas eu vou! Francamente Aldebaran! Eu não sou desse tipo não!

- Eu sei que você não é de trair. Não considere isso como traição, e sim como um presente para um amigo, ou uma despedida de alguém que te quis desde que te viu, mas que não vai ter a chance de estar com você. – Argumentou galante.

- Não! Eu não quero te dar esse.. “presente”. Agora eu vou indo porque o Afrodite deve estar precisando de mim! – Disse um pouco irritado pela proposta e se levantou.

- Eu não quis te ofender Mu. – Disse vendo-o se afastar. Riu, agora que se declarou, não iria desistir tão fácil. Ao menos um beijo teria.

Continua...