A Renegada
1 Capítulo 1
Ayla
6:00 em ponto. Hora de levantar. Essa era a rotina a qual estávamos submetidos no orfanato Criança Feliz, localizado numa fazenda longe de qualquer civilização. Mesma ladainha todo santo dia. Meninas aprontavam o café da manhã, limpavam os banheiros, organizavam os dormitórios, varriam e deixavam brilhando cada pedacinho daquele prédio velho caindo aos pedaços, enquanto os meninos ficavam com as tarefas externas, como podar arbustos e manter a grama aparada. O pior? Tudo devia estar pronto até o meio dia, quando Madame Mocréia, digo, Madame Matilde passava para fazer a inspeção, e colocava defeitos onde só ela via, e óbvio, podia nos punir de “acordo”. Entre seus castigos, o que ela mais gostava, era nos fazer tentar alimentar Zebu, seu bode de estimação, o qual ficava querendo nos cabecear a todo momento, tirando boas gargalhadas da “doce” senhora.
Eu odiava cada parte daquela existência miserável, afinal o que tínhamos feito de tão ruim para suportar aquilo? Ahh sim não tínhamos pais. Fomos largados à mercê dos cuidados de uma cobra peçonhenta que fazia de nossas vidas um inferno tudo porque os adultos que nos geraram não tiveram responsabilidade suficiente para nos criar. Tudo, porém, se tornava “menos pior” graças a Dimas e Loire, os únicos amigos que eu tinha feito em todos aqueles anos.
Dimas e eu fomos largados às portas do orfanato na mesma noite, quando ainda éramos bebes. Viemos sem roupas nem cobertores, acompanhados apenas de um colar com um cristal e um dragão ao redor. Loire veio um anos depois e desde então não nos separamos mais. De fato, tentávamos fazer todas as nossas tarefas o mais rápido possível para podermos passar o resto do dia na companhia um do outro.
Estava quase terminando de limpar a última latrina, quando a última pessoa que eu queria ver no momento apareceu. Jade era aquele tipo de garota popular de qualquer escola que mantinha amigos por perto para ser cada vez mais conhecida e não porque valorizava a companhia das pessoas. E sim, devo admitir, ela era linda. Tinha um corpo com curvas de dar inveja, cabelo ruivo cacheado e olhos de um azul tão profundo que faziam você desviar o olhar caso ela estivesse te mirando. Coisa que estava acontecendo nesse exato momento.
— Se eu não te conhecesse Ayla, diria que você nasceu para limpar privadas asquerosas, pena que nem elas merecem ter que suportar toda a sua atenção – disse ela com aquela voz insuportável e sotaque arrogante.
— Concordo plenamente com você Jade, afinal elas preferem ter uma igual por companhia. Talvez devesse tomar o meu lugar e se sentir em casa querida.
Geralmente eu tentava controlar minha língua, mas ela já estava passando dos limites nos últimos dias.
Ela me lançou aquele olhar de quem ia me atacar a qualquer momento, mas apenas disse — Avise Dimas que eu estarei esperando por ele no quarto ao lado da sala principal hoje a noite, temos assuntos pendentes a acertar. Se é que me intende... – deu uma piscadela antes de sair e me deixou sozinha novamente, com apenas minha raiva como companhia. Sim, esqueci de comentar que a minha maior rival e Dimas estavam tendo um caso.
Assim que terminei meus afazeres, perdi tempo apenas passando no dormitório para pegar minha tela e a paleta de tinta a óleo e fui correndo para o alto da montanha que ficava à leste do casarão do orfanato. Lá era o nosso ponto de encontro desde que me conheço por gente. Dimas, Loire e eu costumávamos arrumar qualquer desculpa para poder ir para lá, principalmente quando Loire fazia alguma de suas pirraças com as outras crianças do orfanato e Madame Matilde nos obrigava a dormir fora do casarão por uma semana. Era lá que íamos acampar, afinal era o melhor lugar para apreciar o céu estrelado e para ter uma vista privilegiada dos vales ao redor. Posso afirmar com certeza absoluta, a única parte boa de morar no fim do mundo com uma Mocréia como tutora e uma Piranha-ferrugem como colega de quarto, era aquela montanha. E Dimas e Loire claro.
A subida era íngreme e o calor do sol nas minhas costas me fazia cansar facilmente. Logo avistei as damas da noite, flores que eram facilmente confundidas com jasmins, e muito raras na região. Confesso que eu era fascinada por ervas e plantas medicinais, mas eu não fazia ideia como aquela espécie havia se instalado por ali. Da onde estava, eu podia escutar o choro delicado do violino e assim que transpassei o pequeno riacho que ali começava, o avistei. Dimas tinha 19 anos, a mesma idade que eu, porém era um pouco mais alto. Tinha cabelos tão loiros que por vezes, à luz da lua, pareciam brancos. Possuía feições delicadas, sobrancelhas arqueadas e olhos de um tom azul acinzentado que deixava qualquer garota babando, como geralmente acontecia. Ele era lindo confesso, mas era como um irmão pra mim, estava sempre lá para me acalmar e me ajudar nos momentos em que eu entrava em crise.
Ele era um musico nato, tinha um imenso talento com o violino, por vezes ficava do por do sol até altas horas da madrugada compondo, dizia que era quando se sentia mais à vontade para criar. Porém suas musicas eram sempre tristes e reflexivas. Eu entendia porque, afinal éramos iguais, liamos a alma um do outro. Eu sempre sentia a sua musica e ele a aura das minhas pinturas.
Fiquei parada por um momento, desfrutando da melodia chorosa e intensa, calorosa e fria ao mesmo tempo, até que fui pega de surpresa pela pestinha que eu mais amava nesse mundo. Loire. 13 anos. Era uma garota de cabelos escuros e curtos e olhos amarelados tão intensos que me faziam divagar às vezes, e me davam a impressão que mudavam de cor com a presença da luz. Tinha um humor peculiar, nunca dava pra imaginar o que se passava naquela cabecinha. Por vezes estava alegre e brincalhona, pregava peças e divertia todos ao redor, mas por vezes ficava tão quieta e sombria que apenas eu e Dimas conseguíamos conversar com ela. Não sou médica, não ainda pelo menos sonho com isso em um futuro próximo, mas desconfiava que Loire fosse bipolar e ela precisava de mais atenção que as outras crianças, e por isso estávamos sempre lá por ela.
— Aha!!! Espiando Dimas novamente não é? — Sussurrou ela – Sabe que ele não gosta de ser observado por gente de fora enquanto está tocando...
— Primeiro eu não sou gente de fora e segundo eu não estava espiando, eu estava esperando a senhorita, onde foi que se meteu dessa vez ein? – Tentei despistá-la da minha pequena infração na privacidade de Dimas, ele realmente não gostava de ser pego de surpresa.
— Adivinha? Madame Mocréia ataca novamente!! Eu juro que não estava fazendo nada de mais, só colocando um bocadinho inocente de pó de mico no meu armário e sem querer caiu um pouco nos sapatos do Jake e ele ficou sapateando por ai e adivinha, quem leva o castigo sou eu. EU!!
— E você foi punida por isso? — interrompi
— Não claro que não sua boba. Continuando, ai eu fui explicar a situação pra Madame Matilda mas ela teve a cara de pau de me chamar de criança mentirosa e birrenta acredita numa coisa dessas? Foi ai que magicamente, um pouco do pó foi parar dentro das calças dela, e quem ficou piruleteando por ai foi ela. Foi então que ela me acusou de perturbar o bom andamento das normas de conduta do orfanato e blá blá blá.
—Resumindo?
— Sem jantar e três dias fora do casarão. – disse ela com verdadeiro pesar- Sinto muito Ayla.
— Ahh não se preocupe Tigrinha – disse uma voz a frente – vamos poder acampar essa semana, mandou bem Loire!
O som do violino tinha parado em meio a nossa conversa e eu nem tinha percebido, foi somente quando ele falou conosco e saiu de trás dos arbustos que percebi que havia escutado tudo que havíamos falado.
...
Notas finais
Deixem nos comentários a opinião de vocês. Qualquer critica ou sugestão é bem vinda ;)
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