Dimas

Ela não precisava se anunciar. Sabia que ela estava me observando fazia um tempo. Eu reconhecia aquele perfume doce e suave em qualquer lugar. Geralmente eu não gostava de ser observado tocando. As pessoas tem a mania de julgar quem não está na pele delas e não entendem os sentimentos dos outros. Mas Ayla não, desde que fosse ela que estivesse presente eu não me importava que apreciasse minha música. Mesmo que achasse que realmente estivesse bem escondida e que só assim eu tocaria pra ela.

Ayla era como a própria melodia, tinha seu próprio ritmo, era autentica, autoritária quase sempre. Gostava de estar no controle da situação, podia ser fria e calculista quando pressionada mas tinha um lado alegre e sonhador que só mostrava pra quem confiava muito, e isso incluía apenas eu e Loire. Por um lado eu me sentia mal por ela não conseguir se expressar com todo mundo, mas por outro, ficava feliz por ela me considerar seu porto seguro, ser aquele a quem ela recorre nos momentos de maior necessidade, e isso, isso ela fazia apenas comigo. No fundo eu sabia que não era por não confiar em Loire, mas sim pra poupar a pequena de ter conhecimento de seus pesadelos e tormentos que sempre a acompanharam desde criança.

Assim que escutei passos parei de tocar imediatamente, não podia ser Ayla, ela era silenciosa como um gato, às vezes não sabia como ela conseguia. Não, devia ser outra pessoa, parei e escutei atenciosamente e reconheci a voz no mesmo instante. Loire tinha o dom de aparecer em momentos inusitados, como quando eu estava aos beijos com Jade na varanda do casarão e ela apareceu de repente ou quando eu e Mark, um garoto do orfanato, estávamos vendo a mais nova edição da revista Playboy e ela simplesmente queria saber porque nós estávamos vendo revista de biquínis femininos – isso porque ela não chegou a ver o que a aguardava nas páginas seguintes – enfim, a danadinha era esperta além de tudo.

E o que ela fez a seguir não me surpreendeu tanto quanto o esperado. Ela tinha aprontado de novo. Quando você pensa que o arsenal de pegadinhas de Loire está vazio, ela vai e te apresenta um novo e atualizado manual de pegadinhas para pessoas inúteis e debochadas, que segundo ela, eram todas as pessoas do orfanato com exceção a mim e Ayla.

E o que mais eu podia fazer? Incentivava é óbvio. A vida de uma criança nesse lugar era deplorável demais para ela viver sem pegadinhas. Quando escutei o genuíno pedido de desculpas, pois Loire era assim, quando as consequências de suas atitudes atingiam alguém que não somente ela, ela se remoía com a culpa, não consegui ficar calado:

— Ahh não se preocupe Tigrinha, vamos poder acampar essa semana, mandou bem Loire!

O sorriso que seguiu daquela menina, compensou o sermão inteiro que eu ia escutar de Ayla por ter, mais uma vez, instigado Loire a continuar a se meter em encrenca. Mas eu não ligava, ter aquelas duas, era ter tudo pra mim.

— Dimas, vamos acampar mesmo? Já sei, eu fico encarregada da fogueira e de pegar os cobertores, você e Ayla ficam responsáveis pela comida e pelas histórias antes de dormir. É isso não é?

— Pode apostar Tigrinha!

Nesse momento, olhei para Ayla que estava com os cabelos negros e longos soltos, despenteados como sempre estavam, o que dava a ela um ar de rebeldia, a pele pálida em contraste com o verde da floresta e aquele sorriso bobo, que sempre preenchia seus lábios quando via a felicidade de Loire. Assim que seus olhos negros como a noite encontraram os meus, quem ficou com um sorriso bobo fui eu. Ayla tinha mania de se menosprezar, mas era a garota mais linda que eu já havia conhecido. Mesmo que fosse quase como uma irmã. Quase.

— Inspirada hoje? – falei, apontando a tela e as tintas

— Ahh claro, uma aventura selvagem com muitos pernilongos e comida fria sempre instiga algo dentro de mim voltado para a arte. – ela respondeu sarcasticamente e no mesmo minuto caímos na gargalhada.

Eu as amava e faria de tudo para sempre sorrirem desse jeito.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.