A Recém-Chegada
6 Acabo indo para o tal Acampamento depois de muita insistência
Notas iniciais
PoV. Silena Callegari
Nico olhava para minha mãe paralisado. Se eu estivesse em seu lugar, faria o mesmo... Ainda assim ele resolveu continuar:
– Seu pai... – ele falava as palavras com cautela.
– O que tem ele, Nico? Fala de uma vez! – eu já estava perdendo a pouca paciência que tenho.
– Não se atreva a continuar, garoto! Não vou falar de novo... – minha mãe estava com uma carranca tão grande que me fazia querer saber para onde fora a beleza de seu rosto: os olhos cinzentos, a boca volumosa, a pele bem cuidada e o cabelo escuro e bonito que acompanha o conjunto. Pela primeira vez, eu tive medo da minha própria mãe.
– Ela tem o direito de saber! É o destino dela, Sra. Callegari!
– Ah, eu já entendi tudo... Você também é um deles e quer levá-la até lá! Não permitirei. – ela dizia como se “lá” fosse o pior lugar da face da Terra.
– Eu vou protegê-la... Se ela permanecer aqui, vai ser perseguida por eles! Quanto mais ela se aproxima de descobrir, mais forte seu cheiro fica. Até porque ela é filha de um dos Três Grandes, estou certo? – ele falava com uma determinação incrível, como se soubesse que venceria no final a qualquer custo.
– Sim, você está. – ela suspirou.
– O que está acontecendo? Por que alguém me perseguiria?
– Você não vai contar... – minha mãe falava, mas antes de concluir o que estava falando cortei:
– Você vai deixá-lo contar tudo, sem protestar em momento algum. Certo, mamãe?
Ela me fitou, parecendo estar em transe.
– Claro filha... É claro. – ela balbuciou, hesitando um pouco em fazê-lo.
Geralmente, quando me esforço muito, faço valer minha vontade. Acho que sou boa com palavras.
– Nico, por favor, prossiga.
– Eu não sei outro jeito de lhe dizer isso, mas seu pai é um deus grego, um de verdade. A Grécia existe até hoje: O Olimpo, os semideuses e, claro, os monstros. Respondendo sua pergunta, monstros perseguiriam você sem pensar duas vezes. Tem um lugar onde semideuses como nós recebem treinamento para controlar seus poderes. É o único lugar seguro para gente como a gente e...
– O.K. Nico, devagar. Respira. Acho que eu vou tomar uma água com açúcar... Quer um também? Você está precisando...
Isso é muito louco. Mas, vindo de uma garota que tem visões, isso deveria soar previsível. Ainda assim, estou perdida. Informação demais... Enquanto eu cogitava ir até a cozinha, ele me parou.
– Você sabe que é verdade, não sabe? É a única explicação lógica. TDAH, para que você sobreviva em batalhas... Visões e... Você tem dislexia?
– Não. – isso tudo é muito, muito estranho.
– Mas deixe-me adivinhar... Você lê grego antigo com facilidade, não é?
– Sim, mas... Mãe, isso é verdade?
– Ah, filha... Sim, realmente, eu deveria ter percebido desde o momento que conheci o seu pai. Nossa família tem sangue grego naturalmente, você sabe disso. Aquelas histórias que eu te contava para dormir, tudo é real. Eu sempre soube... Mas quando seu pai me contou quem ele era eu não deixei de amá-lo. Só tive medo. Ele não impediu a morte de Alice... Claro que isso é coisa dos gregos. Isso me fez ficar revoltada, eles não querem saber quem é culpado ou inocente... A nossa advogada simplesmente largou o caso dizendo que a culpa não era da equipe médica... No mínimo estranho, não acha?
– Mãe, se aquele é um lugar seguro... – eu estava chocada, triste, curiosa...
– Você não vai. Ponto final. Esqueça tudo isso. – ela dizia com firmeza.
– Ela tem uma família esperando por ela no Acampamento. Você tem irmãos, Lena. – ele apontou para minha mãe – Você não pode afastá-la da própria família — disse calmo, ainda com aquela certeza de que venceria.
– Eles são só meio irmãos. Não contam. – ela disse com desdém.
– Sim, eles contam. Eu quero conhecê-los e vou para o Acampamento, mãe.
– Você não vai. Já para o quarto! – ela disse extremamente irritada e com o rosto em cólera.
–Quando vai deixar de mandar nas minhas escolhas? É a minha vida. Eu já tenho quase dezessete anos! Já passou pela sua cabeça que o fato de eu não ter amigos é por atitudes iguais a essa? Você não pode me proteger de tudo!– eu não pensei muito no que ou em que tom falava. Apenas me concentrava em colocar tudo o que sentia para fora.
Ela por fim deu um longo suspiro e assentiu.
– Eu sei... Você tem razão, mas... Eu só não quero perder você também! – ela soluçava prestes a chorar.
– Ah, mãe... Eu sei, eu sei... – abracei-a forte por alguns instantes, sentindo-me um pouco culpada por ser tão dura com ela – Mas se faço mesmo parte disso, vai ter que me deixar ir. Assim que eu aprender a me defender destes monstros, posso voltar para casa e tudo voltará ao normal, você verá! Eu tenho uma família lá, eles cuidarão de mim...
– Já vi que não terá jeito... Eu sabia que esse dia chegaria! – ela soluçava ainda mais.
Pegou uma mala de viagem que já estava preparada. Adicionou um embrulho amarelado e desgastado pelo tempo, juntamente de uma carta em igual estado de conservação.
– É melhor que vá, antes que eu mude de ideia, e olha que estou cogitando isso! – ela forçou um sorriso – Você será a melhor guerreira de todo o Acampamento. Eu amo você.
Ficamos abraçadas por um longo tempo, até que ela resolvesse me soltar.
– Vocês precisam de carona até Long Island?
– Não, eu posso usar as sombras para levá-la, está tudo bem. – garantiu Nico.
– Sombras? – De que deus você é filho, Nico? – ela perguntou curiosa.
– Hades. – murmurou.
– Ah!
– Mãe, como você sabe onde fica o Acampamento? – perguntei incrédula.
– Quíron, o responsável pelas atividades, sempre me fez propostas para que eu a enviasse para lá... Mas eu, é claro, sempre recusei. – ela disse em tom convencido.
– É claro. – murmurei revirando os olhos.
Nico abriu uma espécie de portal escuro e estendeu-me seu braço, depois de me ajudar com minha mala. Murmurei um “Eu te amo” para ela enquanto via tudo tremular e escurecer, mudando de forma. Em poucos segundos estávamos diante de uma floresta, de frente para um grande portal com uma placa grande. Nessa placa, havia inscrições gregas: estas diziam “Acampamento Meio-Sangue”.
Notei que Nico apoiava-se um pouco em um grande pinheiro arfando de cansaço.
– Você está bem? – perguntei preocupada.
Ele assentiu.
– Às vezes estas viagens me deixam um pouco cansado, mas não há com que se preocupar... Você está pronta, Lena?
– Estou sim! – menti.
Por fora calma, por dentro tendo um ataque.
Respirei fundo, fechando os olhos.
Atravessei o alto portal, meus pés amassando as folhas secas caídas ao chão e fazendo certo barulho.
Vamos lá, pode ser que tudo corra bem não é? Ou não, na pior das hipóteses.
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