A Rebelião
6 Aquele por trás das cortinas
23:40 horas, 2 de fevereiro, pátio da Nova Prisão da Ilha.
Um encontro inesperado acontecia no pátio interno da prisão. Uma dupla de adolescentes fantasiados estava frente a frente com um estranho de sobretudo e maquiagem. Nenhum dos lados sabia das intenções do outro. Não passava pela cabeça destes três que poderiam haver mais pessoas infiltradas na prisão.
Pouco antes, o jovem de sobretudo havia percebido uma movimentação na sala que estava do outro lado do pátio, e, conforme se aproximava da porta, notou que a mesma estava abrindo e avistou a dupla que saia. Ele rapidamente movimentou os dedos, sem nem levantar os braços, para criar duas mãos que saíram das sombras no chão. Cada mão atingiu um dos jovens com um soco no rosto. Quando percebeu que ambos estavam desatentos pelo golpe, esticou as duas mãos na direção do jovem vestido como se fosse um aviador, quando as sombras começaram a surgir do chão, movimentou os braços para trás, como se estivesse arremessando alguma coisa pesada. As duas mãos que surgiram, agarraram o jovem e o arremessaram na mesma direção que o movimento foi feito. O adolescente voou alguns metros, até bater com força na parede, que acabou parando a sua viagem.
Joshua saiu do estado de choque quando percebeu o que estava ocorrendo com o seu companheiro. Mesmo que o jovem possuísse a habilidade de voar, a surpresa por terem sido atingidos daquela forma foi o bastante para que qualquer um ficasse paralisado, mas isso não poderia acontecer com Joshua, pensou o adolescente. O garoto firmou os pés no chão e estalou os dedos da mão direita. Ele tinha certeza de ter isto os movimentos que o estranho fez com as mãos antes de atacar, tanto para dar os socos quanto para arremessar o adversário.
— Ei, cara! Você está bem? Se estiver, fica de pé, esse cara não vai ser moleza. – Gritava Joshua, buscando fazer com o que o outro entendesse a situação em que estavam.
O homem que controlava as sombras olhou para a situação do jovem que foi arremessado, rapidamente percebendo que ele ainda estava tentando processar o que aconteceu no momento anterior, não importava o que o outro gritasse para ele, ainda teria alguns momentos até que o garoto despertasse do transe em que estava. Assim, ele rapidamente voltou a sua atenção para o outro jovem e, enquanto caminhava calmamente para a localização do mesmo, movimentou os braços, como se estivesse levantando alguma coisa do chão. Ao terminar o movimento, duas mãos surgiram do chão, logo na frente do outro adolescente, e subiram, acertando um soco em seu queixo.
Joshua, em um raro momento genial, também percebeu este movimento e resolveu arriscar-se com um plano que poderia colocá-lo em vantagem, mesmo que somente momentânea. Antes que as sombras tivessem a chance de atingi-lo, o garoto posicionou ambas as mãos abaixo do rosto e ficou pronto para ser atingido. A pancada não demorou, mas foi mais forte do que poderia esperar. Mesmo pronto para o golpe, Joshua foi jogado para o alto, ele imaginou que seria atingido por mais alguma coisa enquanto estava no ar, mas, para a sua surpresa, nenhum outro golpe foi disparado em sua direção.
O adolescente voador finalmente estava recuperado da pancada contra a parede e do choque, mas, antes que fosse capaz de voltar para a luta, uma grande mão feita de sombras o segurou pela cabeça e o levantou, bem alto. O jovem tentou soltar-se dali, mas não era forte o bastante para isso. Foi então que ele pensou em usar o seu poder. O jovem usou o seu peso e a sua habilidade de voar para balançar, cada vez mais forte e tentando ir mais longe. Após quatro tentativas, finalmente conseguiu sua liberdade. O garoto voou uma boa distância antes de ser capaz de controlar a direção em que iria. Foi só então que ele pode voltar para ficar ao lado de Joshua.
A dupla organizou-se para que tivessem alguma chance de lutar contra aquela pessoa, mas, quando tornaram a olhar para ele, viram que a coruja que os ajudou anteriormente estava sobrevoando sua cabeça, acertando-o diversas vezes conforme suas asas batiam. O jovem parecia confuso, tanto por não ter percebido uma coruja por ali, quanto por estar sendo atacado por ela.
— Então essa coruja não está com ele também. – Disse o garoto flutuando. – O mistério da coruja não acabou...
A ave levantou voou após atrapalhar o confronto entre os jovens. Não se afastou muito dali, ficando sobre os galhos de um a pequena árvore que ficava neste pátio. Os três ficaram olhando incrédulos para a ave, que, em troca, os encarava calmamente.
— Se você tiver alguma ideia do que fazer, eu adoraria escutar. – Joshua procurava alguma coisa no pátio que pudesse mudar os rumos deste combate, mas nada parecia ser capaz de ajuda-los com a situação.
— Se quer saber, a única coisa que está passando pela minha cabeça é: estamos lascados! – Respondeu seu companheiro.
Contudo, todos começaram a ouvir fortes batidas vindo do maior prédio que poderiam acessar por este pátio. As batidas pareciam se aproximar da porta do prédio, elas também ficavam cada vez mais fortes. Quando uma poderosa batida atingiu a porta, ela foi despedaçada junto com pedaços da parede em que ela estava. Os três puderam ver um gigante sair correndo do prédio. Este homem corria com toda a sua velocidade na direção dos jovens, empunhando um grande cutelo.
Os três perceberam e gritaram juntos: – O Açougueiro!
— Agora lascou o que ainda não estava lascado! – Reclamou o jovem que flutuava, enquanto desviava do caminho do gigante.
00:10 horas, 3 de fevereiro, torre de segurança.
Um dos presos correu até o topo da torre para passar as últimas informações para as pessoas no comando da rebelião. Ele informava Munição com todos os detalhes que podia. Também contava sobre as novidades que ouviu enquanto fazia o caminho até a torre. Naquele momento três pessoas com habilidades especiais estavam dentro do presidio, mas o Açougueiro estava indo na direção deles e logo acabaria encontrando este grupo. Munição escutou tudo e fez um breve aceno para que o capanga saísse de lá. Enquanto o homem descia as escadas, o criminoso que estava no topo da torre puxou uma pistola da cintura e disparou contra o pescoço do outro. O criminoso caiu com o impacto do tiro e rolou por diversos degraus, parando quando seu corpo atingiu uma parede. Ele estava desacordado e ficaria lá até morrer por perda de sangue.
Munição fechou a porta da torre de segurança e voltou sua atenção para os outros que estava na sala. Encarou o homem que estava no comando por um segundo.
— Os irmãos Vince foram tirados pelo túnel leste e a equipe de demolição já cuidou para que o túnel não possa ser descoberto. Aquele cara que era da gangue dos Chineses Cegos, ele foi retirado também, uns caras com jeito de ninjas apareceram do nada e levaram ele daqui. O único problema é que eles mataram aquele japonês da Yakuza, o nome dele era Oda, não é?
— Não fico surpreso. As coisas ocorreram muito bem até aqui, com isso só tivemos uma perda entre aqueles que deveriam ser resgatados. Nunca achei que seria fácil tirar daqui esses asiáticos, eles se odeiam desde sempre... – O homem olhou para uma pilha de corpos em um dos pátios da prisão antes de continuar. – As gangues que não pagaram por nossa proteção também aprenderam uma lição valiosa hoje. Acho que amanhã vai começar uma guerra civil nesse país, nunca houveram tantas mortes de lideranças como hoje.
— Os acordos do seu irmão vão funcionar? Eu já disse que esse plano era o sonho de um megalomaníaco, mas... não achei que iriamos por isso em prática de verdade. – Perguntou Munição, enquanto arrumava a pistola na cintura novamente e ajeitava um rifle nas costas.
— Nunca duvide dele. Não esqueça que foi aquele homem que planejou os últimos vinte anos deste país. Na verdade, as vezes eu acho que ele planejou toda a nossa vida, desde a nossa infância.
— Ahn, gente, eu sei que sou só o Garoto Pólvora, que o meu trabalho era fazer as bombas que usamos hoje, mas... Isso tá começando a ficar assustador demais pra mim, quero dizer, bom... eu só quero voltar pra casa inteiro. – O jovem criminoso estava começando a exibir sinais do cansaço gerado pelos eventos dessa noite, e de todo o trabalho que tivera nos últimos dias.
— Não se preocupe. Lembra aquelas bombas especiais que você fez? Elas já estão no lugar e eu estou com o detonador, vou ativar isso quando estivermos fora daqui e essa cidade vai cair. – O homem falava enquanto caminhava até a porta da torre. – Agora vamos. Sei que ainda temos algum tempo, mas em breve a nossa carona vai chegar na área de descarga de caminhões e eu quero garantir que teremos espaço para que ele “estacione” aqui.
Os homens desceram a torre em silencio, até que começaram a ouvir um som de confronto. Um confronto que parecia de grandes proporções.
— Munição, como estão as armas? Não deram muita munição pra você, não é? – O Garoto Pólvora queria puxar assunto para poder esquecer um pouco do conflito que poderia alcança-los em breve.
— Garoto, você não faz ideia do motivo de me chamarem assim? – O homem puxou a pistola da cintura e mostrou o pente vazio, para em seguida atirar duas vezes conta um preso que estava observando o pátio de uma das janelas. – Eu sou a munição das minhas armas! Enquanto eu estiver vivo, sou capaz de usar qualquer arma sem precisar recarregar ou qualquer coisa.
O jovem pareceu genuinamente surpreso e resolveu guardar para si as outras perguntas que passaram por suas cabeça. Aquela não era uma boa hora para discutir com os outros homens do grupo.
Assim que chegaram ao prédio principal, foram recebidos por integrantes de uma das gangues que foram formadas pelos criminosos mais simples daquela prisão. Eles não estavam entre aqueles que seriam soltos originalmente, na verdade, eles eram alguns dos mais dispensáveis de toda a prisão. Munição chegou a buscar sua arma na cintura, mas foi impedido pelo líder do seu grupo, antes que começasse um massacre.
— Eu entendi o que está acontecendo aqui! Sei que tem uns grandões sendo soltos agora, e que peixes pequenos que nem a gente só está sendo usada. E, sabe, não gostei nada disso. – O homem que tomou a frente do grupo parecia ser o líder da gangue, ele vestia um uniforme do presidio feito em pedaços e estava com diversos cortes no rosto. Ele também parecia ter uma tatuagem cobrindo metade do rosto, mas no momento não era possível distinguir o que essa tatuagem representava.
— Me desculpe, meu bom amigo. Não tinha a intenção de irritá-lo com minhas ações. – O homem por trás da rebelião aproximou-se do grupo de braços abertos, com uma expressão amigável no rosto. Mas isto mudou quando o outro homem estava ao alcance das suas mãos. O pobre homem nem teve tempo de entender o que aconteceu, ele fora atingido por um golpe em seu peito que o fez perder todo o ar dos pulmões e cair de joelhos. Para então olhar enquanto os dois capangas que estavam mais próximos terem seus pescoços quebrados e morrerem lentamente, deitados no chão. Os outros membros dessa gangue saíram correndo quando perceberam a gravidade da situação. Infelizmente, para eles, Munição estava ali. Ele utilizou o seu rifle para eliminar qualquer testemunha deste confronto, ele disparou exatamente um projetil para cada membro da gangue, atingindo diretamente seus corações.
Garoto Pólvora parecia em choque com a velocidade e violência deste confronto. Mesmo possuindo habilidades únicas, ele sabia que estava muito abaixo dos níveis dos homens que estava acompanhando.
— Ora, meu bom amigo, desculpe se lhe deixei sem palavras. É um efeito muito comum entre as pessoas que se apresentam a mim desta forma. Mas acho que não tive a oportunidade de me apresentar formalmente, eu sou o Barão! – O rosto do outro homem contorceu-se em pavor ao ouvir este nome, ele até mesmo tentou correr, mas estava sem forças para tanto. Contudo, o Barão logo acabou com seu sofrimento, ele torceu o seu pescoço com tanta violência que acabou fazendo com que a cabeça do homem desse um giro em cento e oitenta graus.
— Agora que nosso caminho está livre, vamos até a área de carga do depósito.
Fale com o autor