A Realeza
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Capítulo 5
Eu estava furiosa, meu corpo tremia por causa da fúria e os nós dos meus dedos estavam brancos.
Eu não havia percebido quando tempo tinha ficado naquela sala até perceber que já passara da hora do almoço, minha barriga estava roncando quando coloquei o primeiro pedaço do meu almoço na boca, minhas criadas tiveram de levá-lo até meu quarto, pois eu não conseguia nem sair da cama
Maxon nem se quer se deu ao trabalho de sair da sala ao lado para tentar me dar uma explicação. Ele tinha tudo sobre controle! Tudo estava planejado minuciosamente para a erradicação das castas. O que tinha dado de errado?
Eu precisava esvair minha raiva, também precisava sair logo daquele quarto. Eu precisava de algo para bater urgentemente. Eu sei que não é um verdadeiro ato de uma rainha, mas minha cabeça estava precisando disso, de algo para me tirar um pouco da rotina.
Pensei em ir andar a cavalo, mas me imaginei caindo do cavalo, e isso não foi lá uma cena muito bonita.
Pensei em ir nadar, mas alguma coisa havia mudado e agora o ar estava gélido.
Resolvi praticar o que eu mais gostava quando era uma Cinco: Tocar.
Meus dedos começavam a dar calos por causa das cordas do violino. Minha mão começava a ficar cansada, pois não praticava a tempos. A musica não saía como eu queria, não estava tocando no intuito de me manter calma. As notas saíam agudas e rústicas, o som não estava agradável, e por algum motivo, eu sentia algo estranho, uma sensação de que algo terrível estava por acontecer.
Um som agudo e estridente invadiu meu quarto, uma corda do violino arrebentou. Pulei para trás assustada com o barulho.
Resolvi ir até a gaveta onde guardava as partituras, me certificava de sempre manter uma corda extra para o caso de a outra arrebentar.
Fui até a cômoda do outro lado do quarto e peguei um alicate, comecei tirar a linha arrebentada. Mas uma rajada fria invadiu o quarto, eu nem mesmo havia percebido que deixara a sacada aberta. Fui até as cortinas a fim de fechá-las.
E aconteceu.
Como uma taça que se estilhaça quando se caí no chão, ou uma corda de violino que se arrebenta em uma nota aguda, fui atingida por uma sensação ardente no pescoço. Eu podia sentir a sensação fria e áspera da corda, que antes causava calos nos meus dedos, se apertar em volta de meu pescoço.
Não conseguia respirar, a sensação de minha respiração se esvaindo, e a única coisa que conseguia ouvir era o som das batidas do meu coração e de saltos batendo contra o chão.
Tentei lutar, chutava tudo á minha volta, meu vestido se enroscava em um par de pernas.
Não conseguia respirar.
Debatia-me.
Não conseguia respirar.
Abafava gritos.
Não conseguia respirar.
Minha visão ficava turva.
Tentava, mas não conseguia respirar.
Empurrei meu corpo para trás, e com um baque surdo, algo bateu na janela da sacada e espalhou cacos de vidros para todos os lados.
Caí no chão. Tirando a corda com cuidado do meu pescoço, tentei aproveitar o ar que agora –finalmente- invadia meus pulmões.
Alguém abriu a porta, ouvi um grande número de passos vindo em minha direção, alguém se agachou do meu lado e me puxou para seus braços, era uma sensação boa, que eu já conhecia. Mas minha visão não conseguia focalizar, minha mente ainda estava atordoada com o ataque.
Ficamos ali, sentados e abraçados. Quando minha visão não estava mais turva vi guardas saírem com uma criada algemada do quarto. Nossos olhos se encontraram e ela sorriu. Um sorriso sarcástico e cruel.
–Vai ficar tudo bem, querida. –Maxon passava a mão em meus cabelos.
–M-maxon? –Meus olhos encontraram os dele.
–Fique calma. Eu estou aqui.
Senti uma lágrima atingir minha bochecha, mas tinha certeza que não era minha, era de Maxon.
Acordei sentindo a respiração de Maxon contra meu corpo. Minha mão repousava em seu peito.
Eu estava tremendo e meu vestido estava totalmente rasgado de um lado.
Olhei para a direção onde o vento frio vinha. Vi que a porta de vidro e as janelas que separavam a sacada do quarto estavam quebradas.
No chão estava uma corda de violino com um pouco de sangue.
Passei a mão em meu pescoço e senti o sangue seco. Uma grande cicatriz em volta do pescoço começara a se formar. Por sorte o corte não estava fundo.
Usei meus braços de apoio para tentar sentar, mas meus braços cederam. Meu corpo estava fraco e a tremedeira continuava.
Maxon sentiu meu desconforto e acordou assustado.
– Oh, meu Deus, America. –Maxon me ajudou a sentar e me abraçou ainda mais forte.
Seu abraço era quente, mas ao mesmo tempo sufocante.
–Maxon, eu estou bem. Pode me soltar.
Maxon hesitou por um momento, mas depois se levantou e carregou-me até a cama.
Foi até a beirada da cama, pegou uma manta e me cobriu.
Fiquei olhando para Maxon, mas ele não retribuía meu olhar. Ele olhava fixamente para o chão.
–Maxon. –Chamei por seu nome. Ele continuou olhando para o chão. –Eu já disse que estou bem. –Tentei acalmá-lo.
Seus olhos fixos no chão.
Chamei novamente por seu nome.
–A última coisa que fiz antes do ataque foi falhar com a promessa que fiz a você. –Ele finalmente falou. Lágrimas rolavam por seus olhos agora.
Se fez uma pausa longa e silenciosa.
–Maxon. –Toquei sua bochecha. Ele recuou.
Respirei fundo.
–Maxon! –Peguei o seu rosto com as duas mãos. Seus olhos suplicavam por algo que eu não entendia.
Desta vez ele não ousou olhar para outro lado.
–Não foi culpa sua. Não se martirize. –Disse encostando minha testa na sua.
–Eu falhei com você, America. Eu pensava que tudo que eu estava fazendo era para te proteger, mas... –Ele suspirou desesperado. Engoliu o que quer que queria dizer e continuou. –Se algo acontecesse a você eu nunca iria me perdoar.
Consegui me levantar e o abracei. Foi um abraço tão puro e bom, como se não nos víssemos há anos.
–Eu amo você, America. E se o mundo acabar agora eu quero que essas sejam minhas últimas palavras. Eu morreria para te proteger.
–Nunca mais diga isso. Nunca mais. – O abracei ainda mais.
Ficamos abraçados. O sol já começara a se por pelo arco onde antes ficava uma porta de vidro.
Sentia que nada no mundo importava mais. Maxon não tinha culpa, a erradicação das castas não importava.
Já os rebeldes...
Alguma coisa me dizia que aquilo não foi apenas o ataque de uma criada insatisfeita.
–Foram eles, não é? –Perguntei para Maxon.
Maxon apenas assentiu e estremeceu em meus braços. Nunca o havia visto tão abalado.
–Eu fiz aquilo para te proteger, America. Proteger Illéa. –Maxon me soltou e olhou para meus olhos suplicando por perdão. –Eu iria perder as alianças com os outros reinos, se isso acontecesse, eu não teria guardas, suprimentos e segurança o suficiente para proteger a mulher e o país que tanto amo.
–Oh, Maxon. –Peguei sua mão. –Por que não me disse antes?
–Eu não queria te preocupar.
–Maxon. –Acariciei seu rosto. –Você não tem de carregar um país inteiro nas costas. Não cicatrize mais sofrimento. –Passei a mão em suas costas e senti Maxon se arrepiar.
Ele sabia do que eu falava. Ele não deveria ser um homem carrancudo como o pai.
–Eu sou sua rainha, Maxon. Você me deu a honra de ser sua escolhida. Eu o amo, e vou estar com você para poder governar o que é nosso de direito.
Fale com o autor