A Realeza
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Capítulo 4
Maxon chegou no quarto na manhã seguinte. Ele me olhou de cima a baixo enquanto me trocava.
Ele chegou mais perto e depositou um leve beijo em meus lábios. Logo depois deitou cansado na cama. Caiu igual um boneco e logo depois seus olhos se fecharam. Ele nem se deu ao trabalho de desabotoar o blazer ou tirar os sapatos.
Quando eu o vi ali, caído de cansaço, resolvi não acordá-lo. Eu sabia que teria que aguentar todos dizendo: “Vossa Majestade, gosta destas cortinas?” “Majestade, quer que lhe sirva o café no quarto?”. Mas o palácio precisaria de mim até Maxon acordar.
Vesti o primeiro vestido que ganhei na Seleção. Um vestido florido e rodado. Peguei uma fita azul de cetim na gaveta e prendi meu cabelo em um coque. Coloquei também a linda pulseira azul turquesa que Maxon havia trazido para mim em sua viajem á Nova Ásia.
Eu estava parecendo a antiga America. A garota pobre que havia conseguido entrar em um concurso que já havia se iniciado com o fiasco de sua rude apresentação ao Príncipe Maxon.
Me lembrei da terrível cena. Na manhã seguinte á aquela terrível apresentação, eu havia acordado com olheiras de tanto que havia chorado na noite passada. E eu pensava que Maxon me mandaria para casa e que provavelmente encontraria Aspen com outra garota.
Mas agora... Tudo esta tão diferente. Eu tenho uma coroa na cabeça agora, não só um laço de fita. Eu tenho Maxon agora, não apenas a idéia que seria enxotada. Eu era uma rainha agora, não apenas a America de casta 5.
–Não faça isso comigo, America. –Olhei de canto do olho e vi que Maxon me espionava enquanto tentava não cair no sono novamente. Ele estava deitado em uma posição cômica. –Se você continuar tão linda, vou ter que me acostumar a não dormir mais.
Corri até ele e o beijei no rosto. Depois levantei da cama e comecei a andar em direção á porta.
Passei pela porta escritório de Maxon, que ficava do lado de nosso quarto, já estava descendo as escadas quando ouvi um alvoroço vindo de dentro do quarto, no começo pensei ser as criadas que estavam limpando o escritório, mas depois percebi que as vozes eram grossas e diziam palavras rudes.
Entrei no cômodo e me deparei com quase uma dúzia de homens com terno e gravata quase se estapeando, os homens apontavam os dedos nos rostos uns dos outros e a maioria estava vermelha igual a um pimentão. Vendo aquela cena fiquei muito nervosa. Era aquilo que Maxon tinha de aturar o dia inteiro?
Eles não notaram minha presença até que fizesse um barulho com a garganta para chamar a atenção dos brigões.
As vozes cessaram e todos os olhos me olharam com os olhos arregalados. Eu batia os pés impaciente e coloquei as mãos na cintura. Eles ajeitaram seu ternos e um deles fez um grunhido assustado com a garganta e olhou apreensivo para seus “amigos”.
Todos eles fizeram uma reverência e voltaram a me olhar assustados.
–Vossa Majestade, o que aconteceu com Vossa Excelência rei Maxon? — Um deles perguntou depois de fazer um chiado com as narinas ao ser empurrado a frente por um dos outros homens.
–Ele esta descansando. –Disse com um tom de voz grave, para que eles parassem de importuná-lo.
–Mas, mas. –O outro homem disse engasgando e depois engoliu a pesada saliva. –Vossa graça, precisamos de uma audiência de emergência com a Realeza.
Todos eles abaixaram os olhos, como se estivessem com vergonha, todos eles estavam suplicando pela presença de Maxon. Mas se eles achavam que eu não conseguiria resolver seus problemas, eles estavam muito enganados, era minha primeira chance de agir como uma rainha.
–Pois bem. –Andei até a cadeira de Maxon que ficava na cabeceira de uma enorme mesa e me sentei. Todos me olharam como se aquilo fosse a maior a ousadia a ser cometida, como se aquele ato fosse preciso ser sentenciado com uma pena altíssima. –Vocês terão uma audiência com a Realeza.
No começo eles me olharam hesitantes, começavam a passar os dedos pelas golas apertadas da camisa e até mesmo olhavam apreensivos um para o outro. Mas como se estivessem participando de uma maratona, começaram a pegar suas pastas e começar a tirar centenas de papeis de dentro delas.
Eles colocaram os papeis na mesa e sentaram nos outros lugares á mesa.
–Rainha America. –Um homem que tinha a voz mais firme se sentou do meu lado disse. –Você precisa fazer primeiro o juramento solene antes da reunião.
–Oh, claro. –Eu não sabia que juramento ele estava falando, ele somente estendeu seu braço e eu coloquei meu braço em cima do seu, os outros que estavam á mesa fizeram o mesmo gesto.
–Apenas repita comigo. –O homem sussurrou.
Eu afirmei com a cabeça e ele começou a dizer:
–Como contato real de Illéa.
–Como contato real de Illéa. –Repeti.
–Como porta voz do povo de Illéa e governante suprema desta corte.
Repeti suas palavras. Confesso que estremeci ao perceber as responsabilidades que eu estava carregando ao dizer aquelas frases.
–Eu prometo valorizar meu povo, meu país, e minha pátria.
–Eu prometo valorizar meu povo, meu país, e minha pátria. –Meus dedos tremiam, mas não deixei que ele percebesse minha fraqueza.
–Fazer o que a realeza e a corte julgam certo é sempre o melhor caminho para manter Illéa em um bom patamar.
Repeti novamente suas palavras, a pressão carregando meus ombros.
–Obedecer às leis e fazer boas escolhas é o meu dever.
–Obedecer às leis e fazer boas escolhas é o meu dever.
Os homens bateram palmas e gritaram três vezes:
–Para sempre, Illéa.
Eu os acompanhei, pois entendi aquilo como um gesto de amor e de promessa por Illéa.
Depois disso se fez um minuto de silêncio, mas logo depois uma discussão calorosa começou, eles falavam todos juntos e na maioria das vezes eu não conseguia entender.
Até que ouvi o som de um martelo batendo na mesinha atrás de mim, lá estava Carter, ele segurava o martelinho. Imaginei que agora que ele era assessor de Maxon, podia pedir ordem á mesa.
–Lorde Campbel, fale, por favor. –Carter disse enquanto passava o olho por sua prancheta.
–Vossa Majestade, estamos tendo problemas no Sul por causa da baixa qualidade nos produtos importados, a maioria dos alimentos não esta vindo em bom estado. Gostaria de ter uma audiência com o seu governante de importações imediatamente! –Um homem baixinho e bigodudo contou o que estava acontecendo no Sul.
Me lembrei de Maxon ter comentado sobre esses problemas no Sul antes mesmo de nos casarmos, mas a corte estava tão preocupada com os rebeldes que não tiveram recursos para fazer a vontade de Lorde Campbel.
–Isso já deveria ter sido resolvido, vá procurar o assessor imediatamente. –Dei minha decisão final.
–Obrigado, Vossa Majestade. –O rechonchudinho saiu da sala á passos pequenos.
Depois disso ninguém mais se manifestou. Eu não sabia se eles gostavam de se reunir só para ouvir os problemas das outras dinastias ou se não queriam me contar o que estava acontecendo.
–Não acho que vocês fizeram todo aquele alvoroço por causa de produtos estragados.
Eles se entreolharam nervosos. Quando eles viraram os rostos foi a gota d’água.
Me levantei em um pulo e apoiei as mãos na mesa.
–Eu sou a rainha de vocês! Eu quero e posso saber a verdade.
Me arrependi por ter sido tão rude e fútil. Era a primeira vez que eu dizia aquelas palavras em voz alta “eu sou a rainha” , mas por incrível que pareça minha voz saiu mais firme que eu imaginava.
–Estamos tendo problemas com os rebeldes novamente. –Um homem foi corajoso o suficiente para se levantar e dizer em voz alta.
Ele pode ter sido forte o suficiente para isso, mas entrei em choque quando ouvi as palavras. Minha boca secou, meus dedos começaram a tremer e eu caí sentada na cadeira.
–Eles são diferentes dos outros rebeldes, Majestade.
Eu não conseguia me mexer, só conseguia pensar nos monstros que levaram muitas pessoas que eu amava.
–Eles estão fazendo pequenos ataques, na maioria das vezes levam 5 crianças e 5 mulheres, esse é o padrão deles.
–Pequeno... –Disse num sussurro, ironizando o que o homem achava “pequeno número”.
–Estamos reforçando a guarda em todas as províncias. Só queria saber se temos a permissão de avançar caso tenhamos que lutar.
–Os ataques ocorreram aonde? –A única coisa que queria saber era se meus antigos vizinhos e meus amigos ainda estavam bem.
–Os ataques têm ocorrido em todo o país, não achamos ainda um padrão.
–Pelo menos agora será mais fácil os identificarmos, agora que não temos as castas para dividi-los.
Ouvi uma risada abafada e eu entendi quase de momento.
Os murmúrios se cessaram e eu olhei para o homem que dizia sobre os rebeldes.
–Vossa Majestade, sinto muito dizer, mas a erradicação das castas foi cancelada por tempo indeterminado. Ordens do rei.
Juro que naquele momento senti meu coração se despedaçar. Mas logo depois aquele sentimento foi se transformando em fúria.
A porta do escritório se abriu e Maxon entrou. Ele agora estava arrumado e sorriu quando me viu sentada em sua cadeira.
Todos se viraram e fizeram uma reverência a Maxon. Já eu me levantei e comecei a andar calmamente em direção ao Maxon.
Parei de frente para Maxon. Mantive minha cabeça alta e minha voz firme.
–Um rei sempre cumpre suas promessas, não é verdade? –Ironizei e coloquei meu dedo indicador em seu peito. Senti seu corpo se contrair enquanto ele tentava parar de gaguejar.
Saí da sala sem esperar que ele se explicasse e bati a porta atrás de mim. As lágrimas começaram a rolar. No fundo eu esperava que Maxon viesse atrás de mim e me dissesse que aquilo era mentira. Mas Maxon não veio.
E dessa vez eu não estava sozinha. Eu tinha o peso da culpa de não ter tirado aquelas pessoas daquela miséria.
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