A Reacionária

5 A ASSIMETRIA DO CATIVEIRO



Fazendas das Indústrias Weber — Arredores de Viena.

O vento cortante que descia dos Alpes não foi capaz de resfriar a atmosfera sufocante que se instalou no pátio. O tempo pareceu dilatar. À distância, os demais guardas apoiavam-se em suas carabinas, observando com curiosidade o escrutínio silencioso da Senhora Weber. Heinrike permanecia estática, os olhos fixos em Lena de uma forma que ninguém conseguia decifrar. Lena, por sua vez, sustentava o olhar, embora o estômago revirasse em nós; o silêncio daquela mulher rica era mais perturbador do que os gritos enfurecidos de Andreas Weber ou o toque sádico do Ministro Günther.

Temendo que aquele transe precedesse uma ordem de execução ou um castigo público, Martha deu um passo sutil à frente. Com o corpo calejado e encurvado pelos anos, ela se posicionou parcialmente diante de Lena, um escudo humano e inútil contra os fuzis dos guardas e os caprichos da aristocracia.

Erich, percebendo que a imobilidade de Heinrike estava prestes a chamar a atenção dos oficiais na guarita, quebrou a quietude com sua voz militar regulamentar:

— Senhora Weber — ele anunciou, batendo de leve com os dedos na coronha da arma para fingir autoridade. — Esta é a subalterna Goldstein. A peça que a senhora solicitou inspecionar para o relatório de alojamento.

Heinrike não respondeu. A voz de Erich pareceu morrer antes de alcançá-la. Ela apenas desviou os olhos de Lena por uma fração de segundo, varrendo o restante da fila de prisioneiros e os soldados que aguardavam o espetáculo. Todos esperavam o protocolo habitual do Reich: o insulto, a humilhação pública, a intimidação que reafirmava quem era o mestre e quem era o animal.

Mais atrás na fila, a calmaria não era compartilhada por todos. Ilsa assistia à cena com os dentes cravados no lábio inferior, o rosto retorcido por uma fúria ácida. O ódio corroía suas entranhas. Para ela, Lena não passava de um estorvo, uma ameaça que atraía o perigo para o galpão. Por que os ministros iam atrás dela? Por que a dona da fazenda descia até a lama para encará-la? Por que o mundo inteiro parecia orbitar ao redor daquela Goldstein? Com um bufar violento, Ilsa agarrou o ombro do prisioneiro maltrapilho à sua frente, puxando-o pelo colarinho para sussurrar algo venenoso em seu ouvido, com os olhos fixos nas costas de Lena. A inveja ali era uma contagem regressiva.

De repente, sem proferir uma única palavra, Heinrike Weber virou-se de costas. Ela recolheu as bordas pesadas de seu vestido de seda com um movimento mecânico e defensivo, evitando meticulosamente que o tecido tocasse a lama contaminada do pátio. Escortada por Erich, ela começou a caminhar em direção aos portões da mansão, com passos rápidos, quase em fuga.

Martha permaneceu estática, os olhos estreitados acompanhando a retirada da patroa. Mas ela não olhava para a seda ou para as joias. Suas lentes de sobrevivente, treinadas nos campos de concentração, focaram em um detalhe que o xale de lã luxuoso falhara em cobrir por completo quando Heinrike ajeitou o passo: três manchas arroroxeadas, nítidas e profundas, marcavam a pele clara de seu pescoço. Marcas de dedos. Marcas de estrangulamento.

— Lena... — Martha murmurou, a voz quase sumindo no vento, os olhos ainda fixos na silhueta de Heinrike que cruzava os portões de ferro. — Você viu o pescoço dela?

— O quê? — Lena piscou, tentando recuperar o fôlego que o pânico havia roubado.

— Sob o xale, na lateral do pescoço... — Martha finalmente virou-se para Lena, e a gravidade em seu rosto era assustadora. — Aquilo são marcas de agressão recente. Dedos masculinos. Aquela mulher, Lena... com toda a prata e todo o ouro daquela casa, é tão vítima daquele monstro quanto cada uma de nós aqui embaixo.

Lena ajeitou a postura. Aquelas palavras mudavam completamente a interpretação que teve da vinda de Heinrike: não foi uma visita para mostrar autoridade, mas curiosidade.

Mansão da família Weber – minutos depois

Ao cruzar o limiar da mansão, Heinrike fechou a pesada porta principal às suas costas, encostando o corpo contra a madeira lavrada. O coração martelava contra as costelas. Ela olhou para baixo e sentiu uma onda de repulsa ao ver o rastro de lama escura da lavoura impregnado nas solas de suas botas de couro legítimo. Aquela terra era o testemunho físico de onde ela estivera — e se Andreas descobrisse que ela descera até o galpão para ver a Goldstein, o aperto em seu pescoço na noite anterior seria apenas um prelúdio.

Com movimentos ágeis e desesperados, ela desfez os cordões, arrancou as botas e jogou-as diretamente na lixeira de ferro do hall. A governanta Ginevra surgiu do corredor de serviço, estancando ao ver o pânico nos olhos da patroa.

— Senhora Weber? — Ginevra sussurrou, assustada.

— Pegue isso, Ginevra — Henrike ordenou, a voz trêmula, apontando para o cesto de descarte. — Suma com essas botas. Leve-as para o incinerador dos fundos ou enterre-as fora do perímetro. Agora. Se o meu marido encontrar um único rastro de poeira daquele alojamento neste tapete... nenhuma de nós duas verá o amanhecer. Você me entendeu?

Ginevra engoliu em seco, recolhendo o recipiente com um aceno trêmulo de cabeça antes de desaparecer em direção à área de serviço. Henrike subiu as escadas descalça, sentindo o mármore frio contra os pés, sabendo que as marcas em seu pescoço ainda ardiam.

Gabinete do Ministério do Interior do Reich, Berlim — Naquele mesmo instante.

Longe da lama e do isolamento das indústrias Weber, a engrenagem burocrática de Berlim operava com a precisão fria de um relógio de metal. Secretários de farda cinza e assistentes de gabinete transitavam por corredores de mármore, empilhando pastas de registros civis, certidões de confisco e relatórios de inteligência sobre o paradeiro da linhagem Goldstein. Günther Von Bismarck estava obstinado. Sentado atrás de sua imensa escrivaninha de jacarandá, ele ignorava o café que esfriava na xícara, concentrado na cópia arquivada do pergaminho de condecoração de Wilhelm, datado da década de 20.

Com os olhos semicerrados, o Ministro leu os termos formais assinados pelo falecido marechal:

— “Outorgamos ao Capitão Wilhelm Goldstein a Cruz de Honra por sua bravura conspícua no comando da infantaria e por seu sacrifício inabalável na preservação das fronteiras nacionais. O Estado reconhece seu mérito heróico na estabilização da pátria durante os anos de provação que se seguiram à Grande Guerra. Que seu nome permaneça como exemplo de retidão e disciplina militar para as futuras gerações de oficiais alemães. Assinado: Paul von Hindenburg, Presidente do Reich.”

— São as palavras literais do Marechal Hindenburg, Herr Ministro — pontuou um de seus assessores seniores, postado de forma impecável ao lado da mesa. — O desfecho da ala Goldstein foi uma questão complexa... Uma tragédia lamentável, eu diria.

Günther recostou-se na cadeira de couro, deixando o papel sobre a mesa com uma lentidão calculada. Seus olhos não transmitiam fúria, mas a frieza de um enxadrista que avalia uma peça valiosa fora do lugar.

— Goldstein era um ativo militar extraordinário, uma peça de propaganda valiosa que o Partido teve de descartar porque ele escolheu a insubordinação ideológica em vez da sobrevivência — Günther comentou, a voz mansa, tipicamente diplomática. — Mas o sangue dele ainda carrega um peso institucional que Berlim não pode ignorar. Andreas Weber acredita que encerrou a questão naquela noite ao apelar para a nossa... conveniência financeira. Ele acha que a autoridade dele dentro daquela província é absoluta.

O Ministro levantou-se, caminhando até a janela que dava para a imensa avenida da capital. Ele cruzou as mãos atrás das costas, o semblante impassível. A ideia de ser peitado por um fazendeiro enriquecido pelo sistema era um insulto que ele pretendia cobrar com juros.

— Deixemos que Weber desfrute da ilusão de que venceu a guerra contra mim — continuou Günther, olhando para o reflexo do vidro. — Vasculhem os decretos de herança, as leis de custódia de descendentes de traidores e os registros de Wittenberg. Eu preciso de uma brecha jurídica incontestável, um único memorando técnico que me dê o direito de confiscar a garota Goldstein para o patrimônio do Ministério do Interior. Quando o documento estiver assinado, Weber não terá respaldo legal para dar um único pio, sob o risco de ver seu consórcio têxtil ser dissolvido por quebra de segurança nacional. No final, Berlim sempre dita as regras.

Centro de Viena — Ao cair da tarde.

Enquanto Berlim movia suas canetas, Andreas Weber celebrava sua suposta imunidade no coração de Viena. O salão privativo do Kaiser Club exalava fumaça de charuto importado e o estalo seco das bolas de marfim na mesa de sinuca. O bar estava cercado; do lado de fora das vidraças coloniais, duas patrulhas da Gestapo com casacos de couro longos mantinham os fuzis em riste, isolando o perímetro para a elite econômica do Reich desfrutar da noite.

Andreas gizou a ponta do taco com uma calma arrogante, observando a disposição das bolas verdes antes de desferir uma tacada precisa. Ele estava cercado por três industriais de alto escalão e um major da intendência militar.

— Berlim pode latir o quanto quiser, meus caros — Andreas comentou, limpando o canto da boca com um lenço de linho após um gole de conhaque. — No final do dia, o Ministério precisa do algodão das minhas terras para fardar a infantaria no Leste. Günther von Bismarck sabe perfeitamente que o preço do meu silêncio é a autonomia das minhas cercas.

— O seu otimismo é invejável, Weber — comentou von Becker, um aristocrata de cabelos brancos, apoiando-se no parapeito enquanto observava o jogo. Ele deu uma baforada em seu charuto e lançou um olhar enviesado para o fazendeiro. — Mas a arrogância costuma deixar pontos cegos dentro de casa. Ouvi dizer que o Ministro esteve na sua mansão por estes dias. Há boatos na alta sociedade de que as coisas andam... instáveis sob o seu teto. Alguns oficiais comentaram que viram sua esposa, Heinrike, circulando perto dos portões hoje com um semblante um tanto... perturbado. Você tem certeza de que a sua blindagem cobre as indiscrições domésticas?

O estalo das bolas de sinuca cessou. O silêncio que se instalou no salão privativo foi cortante. O major da intendência congelou com o copo a meio caminho da boca, sentindo a mudança de pressão no ambiente.

Andreas Weber não se moveu por cinco segundos. Ele manteve o taco apoiado contra o chão de madeira, os nós dos dedos empalidecendo em torno do mogno. Lentamente, ele ergueu a cabeça. Seus olhos fixaram-se em von Becker com uma fúria gélida, destituída de qualquer amizade social. A menção a Heinrike e à soberania de sua casa era um insulto que beirava a traição.

— As engrenagens da minha casa, Becker, funcionam com a mesma disciplina militar que limpa as minhas terras — Andreas respondeu, a voz caindo para um tom perigosamente baixo, cortante como navalha. — Minha esposa conhece perfeitamente o lugar dela e o preço do silêncio. Sugiro que você se concentre na flutuação das suas ações siderúrgicas e deixe a Gestapo do lado de fora cuidar de quem fala demais sobre a família Weber. Ou eu posso esquecer a nossa parceria no próximo carregamento de suprimentos.

Becker engoliu em seco, erguendo as mãos em um recuo diplomático imediato. Andreas guardou o lenço, virou o restante do conhaque e largou o taco sobre o feltro verde da mesa. A paranoia acabara de ganhar um novo endereço.

Centro de Viena, noite — Dois dias depois.

Os dias se passaram e a melancolia de Thomas era visceral. O rádio valvulado Telefunken sobre a mesa lateral era a única fonte de luz na penumbra da sala. Ele permanecia afundado na poltrona. As costelas imobilizadas sob camadas de gesso apertavam seu peito a cada respiração, o braço esquerdo descansava em uma tipóia rígida e o curativo na têmpora esquerda parecia pulsar no mesmo ritmo de sua dor. Ele estava quebrado por fora, mas o colapso real operava por dentro. A sensação de isolamento era asfixiante; fora destituído de sua própria investigação pelo homem que considerava um filho, com o consentimento silencioso de uma estrutura que jurara destruir o Reich.

Com a mão direita saudável, ele estendeu o braço, girando o seletor de baquelite. O chiado característico da estática preencheu o ambiente até que uma melodia clássica de cordas suavizasse o ambiente. Thomas soltou uma risada nasal, amarga. Sentia-se um fantasma trancado na própria fortaleza.

— Desgraçados... — resmungou para as paredes vazias.

Pelo canto do olho, notou um movimento na fresta da porta do corredor. Birgit, sua filha de cinco anos, observava-o com os olhos redondos, apertando um urso de pano contra o peito. O semblante rígido de Thomas desarmou-se instantaneamente. Ele forçou um sorriso leve e estendeu a mão boa.

— Venha cá, minha pequena Birgit... — chamou em um sussurro acolhedor.

A menina correu descalça pelo taco e envolveu a perna do pai em um abraço apertado, buscando o porto seguro que sempre encontrara ali. Thomas, ignorando a pontada aguda no abdômen, puxou-a com cuidado para o colo. Birgit deitou a cabeça contra o ombro direito dele, fazendo-o prender o fôlego por um segundo para não gemer de dor.

— Você é uma menina forte, sabia? O papai promete que nada vai acontecer com você. Nada — ele murmurou, beijando os cabelos finos da filha.

De repente, a música clássica desapareceu. O rádio cuspiu uma onda de estática violenta, seguida pelo clique seco de uma modulação forçada. Thomas franziu o cenho, tateando o botão para ajustar a sintonia, mas o chiado deu lugar a uma voz masculina, grave, cuja reverberação metálica denunciava o uso de um microfone militar de baixa frequência, transmitido de algum ponto móvel para evitar os rastreadores da Gestapo.

“...Atenção, cidadãos da Áustria Ocupada. Não sintonizem o medo. Rompam o silêncio que Berlim tenta impor às suas mesas. Chegaram a este comitê documentos fiscais e registros de transporte que provam o impensável: as Indústrias Weber estão sonegando mãos de obras das fábricas estatais de Berlim e descobrimos que aqueles que falam em pureza também negociam vidas “puras” sob as barbas do Ministério. Se o próprio Partido engole a própria pureza por marcos de prata, o colosso de ferro deles é feito de argila. Não percam a fé. Cada relatório desviado, cada recusa em se curvar é uma rachadura na muralha. A verdade está se movendo. Continuem lutando. Aqui falou... o Der Reak.”

O sinal foi cortado abruptamente, engolido por um zumbido agudo antes de retornar ao chiado estéril da estática.

Thomas arregalou os olhos, o sangue congelando em suas veias. O choque elétrico da adrenalina obliterou a dor física. Ele colocou sua filha no chão e tentou se levantar de uma vez, mas o equilíbrio falhou e suas pernas cederam, fazendo-o desabar de joelhos no tapete com um baque surdo.

— Papai! — Birgit assustou-se, estendendo as mãozinhas para tentar puxá-lo.

Jennifer correu da cozinha, largando o pano que trazia nas mãos ao ouvir o estrondo.

— Thomas! O que foi? O que aconteceu? — ela se ajoelhou ao lado dele, passando o braço por baixo de sua axila sadia para ajudá-lo a subir.

— Como... como isso é possível, Jennifer? — Thomas limpou o suor frio da testa, segurando o ombro da esposa com uma força desmedida, os olhos fixos no rádio como se procurasse o locutor ali dentro.

— O que houve?

— O relatório Weber... Como o Der Reak teve acesso a isso? Eram confidenciais! Estavam trancados no cofre da promotoria e na subfrequência da Orchestra! Quem vazou isso para uma rádio clandestina? — a voz dele subiu, misturando pânico e indignação enquanto ele se arrastava em direção ao aparelho de telefone na parede.

— Quem é Der Reak, Thomas? O que isso significa? — Jennifer perguntou, observando o marido erguer o gancho telefônico com os dedos trêmulos.

— Não importa quem ele é, Jennifer! O que importa é que esses documentos não poderiam ter vazado. Vou ligar para o Franz, vou exigir uma reunião com o conselho da Orchestra... Alguém abriu a boca!

— Thomas, pare! — Jennifer deu um passo à frente e pousou a mão firme sobre o gancho do telefone, abaixando-o antes que ele pudesse discar. Seus olhos não tinham a fúria da noite anterior; tinham uma exaustão profunda, uma aceitação melancólica. — Eles te afastaram do caso. Esqueça isso. Por favor... Deixe que eles se matem em Berlim.

— Por que você não consegue entender a gravidade disso, Jenny? Se as Indústrias Weber caírem por um vazamento da resistência antes que possamos extrair aquelas pessoas... o governo vai passar um trator por cima daquela fazenda para apagar as provas!

— Eu entendo as consequências, Thomas! — Jennifer rebateu, a voz perfeitamente controlada, fria e realista. — Mas e nós? Se você continuar se envolvendo o trator vai passar em cima de nossa família. Todos os heróis que tentaram peitar o Partido de peito aberto hoje estão debaixo da terra ou vivem escondidos nos porões da Hungria ou da Suíça com identidades falsificadas. Eu não quero um mártir na minha sala.

— Jenny, eu estive lá. — Thomas gritou, a voz falhando pelo esforço, os olhos marejados de frustração. — Eu pisei naquele maldito campo. Eu vi o que Andreas Weber faz com os seres humanos sob a conivência dos ministros. Eu vi o desespero nos olhos daquela gente. Como eu posso simplesmente me sentar aqui, tomar meu café e fingir que sou apenas um funcionário exemplar do Reich? Só estar cansado dessa crueldade diária não é o suficiente para você agir?

Jennifer deu um passo atrás. Ela olhou para o rosto inchado do marido, para o braço imobilizado e para a paixão obsessiva que queimava em seus olhos. Não havia mais espaço para discussões, gritos ou proibições.

— Chega — ela sussurrou, desviando o olhar para a janela, onde a neve começava a cair sobre Viena. Sua postura relaxou, destituída de qualquer resistência. — Não vou mais falar nada. Minhas palavras não são nada para você.

Thomas engoliu em seco, o peso da resignação da esposa atingindo-o mais do que qualquer argumento. Ele deu um passo à frente, aproximou-se com dificuldade e tocou os lábios na bochecha dela em um beijo terno, silencioso, que carregava um pedido mútuo de desculpas.

Jennifer não se afastou com raiva, mas retirou-se lentamente em direção ao quarto, os passos pesados carregando o fardo de quem aceitara o destino iminente.

Thomas soltou o ar dos pulmões, o braço saudável caindo ao lado do corpo. Ele olhou para o telefone e desistiu de discar; Franz e a célula já deviam estar lidando com o próprio pânico. Birgit continuava sentada no tapete, observando o silêncio dos pais com a seriedade de quem compreendia o perigo sem entender as palavras. Thomas caminhou até a filha, ajoelhou-se com dificuldade e a puxou para um abraço apertado, fechando os olhos enquanto uma lágrima serpenteava seu rosto.

Fazenda das Indústrias Weber, arredores de Viena — Naquela mesma noite.

O vento uivava entre as frestas de madeira da guarita elevada, trazendo o cheiro gélido da geada que começava a cobrir os campos de algodão. Erich mantinha o corpo encolhido dentro do casaco militar pesado, os olhos varrendo mecanicamente o pátio deserto iluminado pelos refletores. Sob o balcão da guarita, o chiado abafado de um rádio portátil emitia uma transmissão clandestina em frequência filtrada. A voz do Der Reak reverberava no cubículo:

“...Por mais cruel que o inverno do regime pareça, segurem suas posições. Estamos na antessala de uma ruptura. O silêncio deles não é força; é o medo do que está por vir. Nós iremos vencer desta vez...”

O clique seco de uma bota estalando na escada de madeira fez o estômago de Erich girar. Com um movimento rápido e preciso, ele girou o botão do aparelho, cortando a transmissão antes de deslizar a mão para o coldre da pistola. A silhueta de outro guarda da fazenda emergiu na abertura do alçapão.

— Noite difícil, Schulz? — o homem perguntou, revelando o sobrenome de Erich, soprando o ar frio das mãos enquanto se acomodava no banco de madeira.

Erich relaxou os ombros, embora o pulso continuasse acelerado. Ele soltou uma risada ríspida, fingindo a camaradagem típica dos quartéis.

— Não suba desse jeito de novo, Meyer. Quase te confundi com uma sombra da resistência e te dei um tiro de aviso. — Riu Erich.

— Desculpe, camarada. Não vou mais brincar com a sorte — o soldado riu, jogando as costas contra a parede. Ele abriu a mochila de lona e puxou dois charutos baratos, seguidos por uma garrafa de aguardente de batata. — O turno da madrugada pede um combustível. Aceita?

— Estou de plantão, Meyer. Sabe o regulamento sobre álcool e tabaco no posto.

— Esqueça o regulamento, Schulz. Só estamos eu e você aqui em cima. A menos que os grilos aprendam a falar o dialeto de Berlim e decidam te denunciar ao feitor, ninguém vai suspeitar de nada — Meyer zombou, estendendo a garrafa após puxar a rolha com os dentes.

Enquanto os dois soldados compartilhavam o calor da bebida na guarita, o terror se movia silenciosamente pelas sombras do alojamento comunitário.

Três silhuetas avançavam pelo corredor estreito entre os beliches: um oficial da guarda interna, caminhando com a precisão mecânica de suas botas de feltro para não despertar o galpão, acompanhado por Ilsa e o prisioneiro de confiança com quem ela havia sussurrado dias atrás. O silêncio ali dentro era quebrado apenas pela respiração pesada das dezenas de cativos que dormiam exaustos.

O guarda estancou diante do beliche de Lena. Sem a menor hesitação, ele ergueu a lanterna militar, jogando o feixe de luz branca e violenta direto contra os olhos fechados da jovem.

— Lena Goldstein? — o soldado indagou, a voz baixa e cortante como uma lâmina.

Lena sentou-se no colchão de palha em um sobressalto, o coração disparando enquanto tentava cobrir os olhos da claridade cegante. Ao recuperar a visão, deparou-se com o cano da carabina e o semblante triunfante de Ilsa parado ao lado do oficial.

— Olhe embaixo da cama dela — Ilsa instruiu o guarda, a voz destilando uma urgência venenosa. — Vá direto no fundo.

O soldado agachou-se, os joelhos estalando contra o assoalho imundo. Suas mãos tatearam a escuridão sob a armação de madeira até encontrarem a mochila de lona gasta de Lena. Com um puxão ríspido, ele abriu o zíper e despejou o conteúdo no chão: um alicate de pressão pesado, um rolo de arame galvanizado e um mapa topográfico detalhado de todo o perímetro da fazenda, com as rotas de fuga marcadas a lápis.

— Isso... isso não é meu — Lena balbuciou, o sangue sumindo de seu rosto enquanto olhava para as ferramentas de sabotagem. — Eu nunca vi isso na minha vida.

— Eu vi com meus próprios olhos ela escondendo essa mochila no dia em que Klaus foi executado — Ilsa interveio, dando um passo à frente, os olhos brilhando de malícia. — Provavelmente os dois planejaram a fuga juntos antes dele ser pego. Fiquei com medo de reportar antes porque temia pela minha vida, senhor, mas aí está a prova material. Ela é uma sabotadora.

Lena encarou Ilsa com um pânico paralisante. Ela não precisava de explicações; sabia exatamente o que o regime reservava para quem tentava romper as cercas. O guarda guardou a lanterna, avançou e cravou os dedos no braço de Lena com uma força brutal, arrastando-a para fora da cama como se estivesse lidando com uma peça de gado insubordinada.

Em um reflexo desesperado, Lena olhou para o lado. Martha continuava dormindo profundamente no beliche adjacente, o corpo cansado demais para acordar com o murmúrio. Quando seus olhos voltaram para o corredor, encontraram o semblante de Ilsa, que exibia um sorriso disfarçado, saboreando a vitória de ter eliminado o estorvo que ameaçava o galpão. O homem que a acompanhava mantinha a cabeça baixa, recusando-se a encarar a garota que haviam acabado de condenar.

Lena foi empurrada para fora do alojamento, com o cano da arma pressionando suas omoplatas.

Na guarita elevada, Erich Schulz conversava com Meyer quando o movimento no pátio chamou sua atenção. Ele se aproximou da fresta da janela de observação e congelou. Através do vidro empoeirado, ele viu Lena sendo escoltada sob a mira de um fuzil em direção à casa principal. Seus nós dos dedos apertaram o parapeito com tanta força que a madeira estalou.

— O que será que aconteceu ali embaixo? — Meyer comentou, encostando a garrafa nos lábios e olhando distraidamente pela fresta. — Mais uma que vai conhecer a vala antes do amanhecer.

Erich não respondeu. Sua mandíbula travou em uma rigidez absoluta enquanto a tensão transformava seus músculos em aço. A engrenagem havia quebrado antes do tempo.

Lena foi arrastada pelos degraus de mármore da Mansão Weber. Ao cruzar o hall de entrada, o barulho das botas do guarda ecoou pelas paredes altas. Na penumbra da sala de estar, a governanta Ginevra estancou com uma bandeja nas mãos, os olhos arregalados de horror. Mais acima, na balaustrada da escadaria, Heinrike Weber, que descia silenciosamente para o salão, parou. Seus olhos castanhos fixaram-se em Lena, e o pânico mútuo uniu as duas mulheres em um segundo de absoluto silêncio antes de a prisioneira ser empurrada para dentro do escritório particular.

A porta de carvalho foi fechada atrás deles.

Sentado atrás de sua imensa escrivaninha, Andreas Weber lia os jornais da noite, com o semblante obscurecido pelas notícias de Berlim. Ele ergueu os olhos lentamente ao notar a interrupção.

— O que significa isso? — Andreas indagou, a voz áspera e pausada.

— Senhor Weber, encontramos estes itens ocultos nos pertences da subalterna Goldstein — o soldado colocou as ferramentas e o mapa sobre o jacarandá da mesa. — Tudo indica que ela era a mente por trás da tentativa de fuga de Klaus. Ela estava conspirando contra o perímetro.

Andreas correu os olhos pelo alicate, pelo arame e fixou a atenção no mapa detalhado da fazenda. Um silêncio mortal desabou sobre o escritório por longos dez segundos. Lentamente, um sorriso frio, desprovido de qualquer traço de humanidade, desenhou-se nos lábios do fazendeiro. Ele olhou para o soldado.

— Entendo perfeitamente. Deixe a Goldstein comigo. Vocês fizeram um excelente trabalho, podem retornar ao posto de controle.

— Sim, senhor.

O guarda bateu os calcanhares e retirou-se, fechando a pesada porta e deixando apenas o som do ferrolho se encaixando. Lena estava sozinha na sala com o seu maior algoz.

Andreas Weber levantou-se de sua poltrona de couro com uma calma deliberada. Ele caminhou contornando a mesa, os sapatos brilhantes estalando no chão de madeira até parar a poucos centímetros de Lena. Ele se inclinou ligeiramente, forçando-a a encarar seus olhos sádicos, com uma quietude que fazia o ar sumir dos pulmões da garota.

— Então... eu estava certo a seu respeito desde o início, senhorita Goldstein — ele sussurrou, a voz macia e terrível. — Você realmente achou que o sangue do seu pai herói te tornaria inteligente o bastante para fugir de mim?

Ele estendeu a mão para a gaveta da mesa, e o estalo metálico que se seguiu fez o coração de Lena parar.