A Rapariga do Elevador

1 A Rapariga do Elevador


Seus fracos dedos pressionando os inertes botões do elevador. Todas as manhãs, Isaac precisava de descer à cafetaria do Hospital de Nezca para tomar o seu merecido pequeno-almoço. Diagnosticado com uma intensa depressão, dormia e vivia lá, internado no incolor edifício, repleto de decadentes pessimistas e decadentes esperançosos. Esperança é fogo que aquece o coração dos oprimidos. Não tê-la é o mesmo que morrer.

Porém, Isaac não está em perigo. De vida, quero eu dizer. Isaac permanecia relativamente estável. Nunca esteve tão estável desde que chegou ao hospital. Tomava a sua medicação, duas vezes por dia, e vivia bem, vivia alegre. Vivia feliz. Mas vivia só. Muitos dos outros eram incapazes e inválidos, nenhum deles capaz de sequer comunicar uma palavra que fosse. Quer dizer, alguns conseguiam. Alguns dementes conseguiam-no em padrões loucos de elevada complexidade, simbólicos e obscuros, discursando através da voz de uma mente demente, única mente sua. A Isaac, essas saladas de palavras não chegavam e, por isso, adorava o momento de entrar no elevador.

Isto porque, no elevador, nunca ia só. Havia sempre alguém, uma jovem rapariga ruiva como ele, de olhos claros, que com ele partilhava a descida. Veio a correr hoje, julgando estar atrasada. A porta ia-se fechando aquando da sua chegada. Travou-a com o braço. Ela.

Ela disse-lhe "olá" com um sorriso jovial no rosto, um sorriso branco e reluzente. Ele respondeu-lhe com o seu próprio sorriso, sincero mas fragilizado pelas circunstâncias. Ela conversava com ele naquele seu tom característico: uma saudável mistura de amabilidade com um carinho incomum. Saudava-o e logo depois o presenteava com sua vasta lista de comentários positivos, algo cómicos. Assemelhava-se a uma juvenil encarnação do sol. E era o seu sol, era quase a luz responsável por mantê-lo vivo, ativo e confiante. Era a sua lua, era ela que alimentava os seus sonhos e lhe dava coragem para enfrentar o dia seguinte. Quando acordasse, ela estaria lá, no elevador. Juntos desceriam uma vez mais. Garantindo-lhe isso, garantiam-lhe o ar que respirava, a saúde, o mundo. Era ela que o incentivava a manter-se forte. Sem os seus conselhos, já há muito teria desistido da medicação. Sua reabilitação já não era um sonho mas sim uma verdadeira possibilidade. Tudo graças a ela, uma rapariga cujo nome nem sequer conhecia.

Eram muitos os andares que tinham de descer. E isso era fantástico. Muito era o tempo que tinham para dialogar. Lábios vermelhos e pálidos movendo-se em sincronia, numa dança harmoniosa ao som sinfónico da voz humana. O bater poderoso de corações em uníssono, duas almas contemplando-se mutuamente ao nascer do dia. Eram eles, Isaac e a misteriosa adolescente com a qual falava das mais diversas temáticas. Perguntara-lhe como estava a correr o tratamento. "A minha terapia está a correr às mil maravilhas" respondeu ele, sem mentir. Discutiram os tratamentos, os médicos, as enfermeiras, os pacientes, velhos e novos, as enfermidades, os sintomas, tudo. Não havia rédea que os contivesse. Aqueles olhos cheios de vida encontravam-se no tempo e no espaço, dois amigos aproveitando a presença um do outro.

Devia ter-lhe perguntado o nome. Devia tê-lo finalmente feito mas lembrou-se tarde demais, ela já havia corrido para a entrada do hospital. Estava atrasada, dizia ela. Será que trabalhava ali? Ela parecia jovem, bastante jovem. Talvez fosse um trabalho part-time ou semelhante. Não importava agora. O que importava é que o elevador havia chegado ao seu destino. A porta estava aberta, a rapariga havia saído. Estava novamente só, novamente com um único objetivo: tomar o seu abençoado pequeno-almoço.

A cafetaria do edifício era consideravelmente enorme. Paredes de um branco sujo, mais para o amarelado, delimitavam um recinto onde trágicos prisioneiros de suas próprias mentes consumiam carnes, vegetais e, por vezes, em dias santos e feriados, fabulosos queques coloridos e guloseimas. Em número muito limitado, claro. Queques de qualidade são caros.

Não demorou muito a terminar o seu rápido pequeno-almoço. Não podia beber café. A cafeína poderia ser nociva tendo em conta a sua condição. Uma tosta e um copo de leite bastaram. Isaac sempre foi daqueles homens que se contentam com pouco. Sempre gostou de se ver dessa forma, como se de um mártir ou de um herói se tratasse, um herói cujo sacrifício lhe valeria a mitificação. Caso a vida não lhe trouxesse a apoteose, talvez o fizesse a morte.
Não demorou muito tempo a terminar todas as refeições do dia. Não demorou muito tempo a terminar o dia em si.

Aquando da chegada da noite, ninfa eterna dos visionários e sonhadores, dormiria um sono pesado no interior do pequeno cubículo a que chamava "quarto". Era este um efeito dos muitos efeitos secundários recorrentes do uso de antidepressivos: cansaço na hora de dormir. Talvez nem fosse secundário mas sim propositado, sendo que um comum sintoma de depressão é a irregularidade em conseguir adormecer.

Nessa noite, seu onírico estado divagava sobre mundos e fundos, vagueava por dimensões e universos acima da vontade humana. Pálpebras cerradas ao luar, brilho noturno acariciando-lhe os cabelos. Dormia como pedra, já morta sem ter nascido, naquela confortável cama. Sobre aquele colchão já muitos se apagaram, já muitos cederam às garras do oblívio. Mas Isaac não sabia disso. Ainda bem.


Eles não querem saber de mim. Ninguém quer. Colocaram-me aqui porque não me querem. Tenho de sair, eu preciso de sair, de voltar lá para fora, de viver. Eu preciso de viver. Quero a minha vida de volta. Os meus sonhos, os meus objetivos. Todos destroçados por causa disto. Por causa disto. Nem faz sentido. Não consigo fazer com que faça sentido.

A manhã seguinte repetiria a manhã anterior. Dia após dia após outro dia semelhante.


Só queriam livrar-se de mim. E conseguiram. Foram bem sucedidos. Por que raio haveriam de me querer? Nem eu me quero. Nem eu me quero.

Cada início de dia lhe marcava mais um pequeno-almoço. Cada pequeno-almoço representava uma nova viagem de elevador. E cada viagem de elevador a significava a ela: a estranha rapariga ruiva de olhos claros.


Matem-me, por amor de Deus. Matem-me. Eles não me deixam, mas eu quero. Por amor de Deus, eu quero. Mata-me, mata-me.

Em breve, passaria a noite. Um novo dia.


matamatamatamatamatamatamata

A aragem matinal beijava-lhe os queixos no seu carinho natural. O fresco da renovação do tempo, frescura trágica inevitável. Suas costas levantando o pesado fardo da sua existência física. Mente fixa no futuro. É um novo dia.
Arranjou-se, preparou suas vestes de paciente para o dia especial. Hoje seria a sua consulta semanal com o psiquiatra responsável por avaliar os seus progressos. Estava a melhorar a olhos vistos e o doutor notava isso. É claro que notava, é para isso que lhe pagam. Enfim, consulta. Não podia chegar atrasado. Tinha de transmitir uma boa imagem de si, de preferência sã.

Seus sapatos devagar se encontravam com o chão, passo a passo. O horizonte aproximava-se com o passar dos instantes. O elevador estava cada vez mais próximo. Ele abriria a porta e ela estaria lá. Abriria o elevador e lá estaria a sua amiga ruiva de olhos claros. Lá estaria ela.

Mas não estava. Desta vez não.

Primeiro, ficou incrédulo. Depois, despreocupado. Talvez estivesse atrasada, fosse para o que fosse. Só estava atrasada, pensava ele. Pobre iludido.

Lá foi ele, só e apenas só, até ao consultório do médico.

—Olá.

—Bom dia.

E deu-se uma consulta.

Os óculos do médico, outrora repousando sobre o nariz adunco, eram agora manuseados pelas suas delicadas mãos. O psiquiatra era notavelmente jovem. Tal facto, de início, provocara determinadas dúvidas ao pobre e ressequido Isaac. Porém, agora que já estava habituado ao rapazito prodígio, confiava-lhe toda a sua sanidade, literalmente. Os seus conselhos sempre lhe foram preciosos e havia qualquer coisa na sua voz que não conseguia explicar muito bem. Era como se algo...

—Estava a perguntar?

—Eu? Ah. Sim...

Como fazer a pergunta. Como estruturar a maldita questão. Era só uma dúvida, só curiosidade. A consulta propriamente dita já havia passado.

—Eu...

—Sim?

—Eu...

A sua voz. Aquela voz de médico. Ele...

—Eu...

Fazia-o falar. Obrigava-o.

—Eu preciso de lhe perguntar algo.

Todo o medo, todo o nervosismo, se dissipou naquele preciso instante.

—Força. O que tem a perguntar-me senhor Hopkins?

Isaac Hopkins. Grande nome.

—É sobre uma rapariga.

—Hm... essa não é propriamente a minha área de estudo...

—Eu sei, eu sei. Mas é muito importante, ela tem-me auxiliado durante todo o processo de reabilitação.

—E quem é ela?

—Pois... não sei. Não faço a mínima ideia. Mas talvez o senhor...

—Iago. Dr. Iago.

—Sim. Desculpe. Talvez o Dr. Iago a conheça. Ou talvez a tenha visto, talvez tenha ouvido falar dela.

—Como é ela?

—Bem... é ruiva, tal como eu, e tem uns olhos extremamente claros. É pele é assim para o pálido, os lábios são vermelhos e vivos e...

De súbito, interrompeu-se. A repentina reação do médico, o seu esgar de surpresa e perplexidade obrigou-o a travar a sua linha de pensamento. Em vez de optar por retomar o raciocínio, perguntou-lhe o que se passava. Porquê essa reação?

—Mas, senhor Hopkins... isso não é possível.

—Como assim?

—Essa jovem... certamente não a deve ter visto no elevador.
Estas palavras inesperadas inflamaram a indignação.

—Porque não? É claro que a vi! Ela tem falado comigo todos os dias, tem-me ajudado a ultrapassar a depressão...

—Depressão? Do que está a falar, Hopkins?

—Do meu diagnóstico, claro!

—Hopkins, você foi diagnosticado com stress pós-traumático.
Como assim? Algo não... algo...

—O que quer dizer com isso, doutor?

—Refiro-me ao acidente, Isaac. Não é possível ter visto essa rapariga no elevador.

—Porque não?

—Porque a sua filha se suicidou nesse mesmo elevador há precisamente dois anos devido a um extenso historial de ansiedade e depressão.

A minha filha? Não a posso ter visto? A minha filha? Ela...

—Não... eu...

—Perdoe-me, Isaac. Não queria ter sido tão direto. Você parecia-me tão bem. Pensava que tinha finalmente conseguido ultrapassar o trauma. Parece que não. Talvez isto seja tudo um efeito secundário dos...

—Não. Não se preocupe. Está tudo bem.

Foi nesse momento que, algo atónito e vazio, olhou através da janela incolor do consultório. A luz do sol incidia sobre o hospital numa potência fora do comum, podia tratar-se de um bom presságio. O céu estava tão azul. Os jardins que decoravam o pátio também eram claramente visíveis. As relvas aparadas, os arbustos verdejantes tomando a forma de imóveis animais, as árvores de fruto, as flores multicoloridas florescendo aqui e ali...

E, no caminho de pedra que delimitava os jardins, onde muitas outras pessoas passavam indo e vindo do edifício, ela sorria. Ela estava lá. Ela estava lá e olhava para a janela, sorrindo. Sempre sorrindo. Seus olhos encontraram-se com os dele. Um encontro premeditado, talvez. E acenou-lhe, ela acenou-lhe dando um pequeno pulo de íntima felicidade. A minha filha, ela é linda, ela é...

Uma lágrima decaía sobre o seu rosto aterrorizado, tão triste e feliz ao mesmo tempo.

A minha filha...

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