A ROSA CELTA

1 Capítulo 1 PRÓLOGO


Notas iniciais
***Essa FIC é dedicada a Li chan, uma leitora atenciosa, cujos reviews são estimulantes e a forma amorosa com que ela recomenda as fics me fez atender a um pedido dela e escrever uma fic com o casal que ela ama. ***Mais uma vez, eu uso as minhas pesquisas para viajar um pouco na história real e acrescentar a "minha parte". * risos ***Espero que gostes amadinha e que os outros leitores também. Bjs e obrigada a todos!!

"Andei por tantos caminhos
tropecei em pedras,
me arranhei em espinhos
Combati vilões, dragões e minha sombra
Levantei a cada queda
Tua mão me amparou
Busco a Ti a todo momento
nada me desvia do caminho

Alma Celta

Bretanha, 78 D.C.

Era um final de tarde... No horizonte, o laranja e o vermelho mesclavam-se em perfeita sintonia. O som do mar parecia sussurrar seus segredos... Por isso, Albafica gostava de sentar-se naquela pedra e ouvir as ondas quebrando na rocha. Por um tempo, permaneceu ali sentindo a água fria respingar em seu rosto, até que uma voz ao longe quebrou o encanto.

Dhraoi! Sua avó chegou e a sua mãe o está chamando!

Albafica olhou para o jovem ofegante.

— Já disse para não me chamar assim, Breno. Ainda sou um aprendiz.

— Éduo disse que você tem grande potencial, então... já pode ser considerado como um deles.

Um suspiro escapou dos lábios desenhados e Albafica desceu da pedra. O vento agitou-lhe os cabelos que serpenteavam até a cintura com reflexos azulados. A túnica curta e a calça leve em tons sóbrios e justa ao corpo realçava o físico esguio do jovem, evidenciando a beleza exótica daquele que nascera diferente e se vestia diferente dos seus ancestrais que primavam pelas cores exuberantes e pela padronagem xadrez.

— Vamos. – disse ele sem entusiasmo.

Breno sorriu como sempre e colocou a mão no ombro do amigo.

— Desfaça essa cara, sua avó deve ter lhe trazido presentes!

Albafica elevou uma sobrancelha e nada disse. Sua avó, Bridget era descendente de Cartimandua, a rainha que fizera aliança com os romanos sem se importar o quanto isso custasse ao seu povo. Certamente ela viera cobrar e não trazer nada de bom.

— Esse seu entusiasmo é desconcertante. – disse, por fim.

O jovem sorriu ainda mais e murmurou algo que Albafica não compreendeu, mas deixou assim. No caminho, passaram pela arena, onde havia rapazes e garotas treinando, já que, na sua estrutura social, os celtas oportunizavam que ambos os sexos se tornassem guerreiros.

— Veja, lá está Rugonis! – falou Breno.

— Eu já vi. – respondeu Albafica, notando que havia um homem estranho ao lado do seu mestre de combate. – Quem será aquele homem junto dele?

— Ah, aquele cujos cabelos parecem fios de prata?

— Sim, sabe quem é ele?

— Não, ele deve ter chegado há pouco.

No exato instante, Rugonis foi orientar um jovem e Minos Thracius de Griffon olhou na direção de Albafica. Saltou-lhe aos olhos a imagem daquele jovem exótico que, à parte os trajes comuns e rústicos, possuía um ar nobre, sério e imponente.

Levando a mão ao punho da espada, observou-o passar notando o bracelete de ouro que adornava seu braço esquerdo e o contraste daquela joia em forma de serpente com sua pele alva. Nunca tinha visto um homem tão belo, cujos critérios convencionais não cabiam em uma avaliação mais apurada. O nariz era perfeito, a boca de traços finos e bem desenhada, os olhos, de um azul acinzentado, escuro e profundo, sobressaíam-se como duas safiras, aumentando a altivez daquele rosto oval.

Sorriu internamente ao imaginar que gosto teria aquela boca. Fazia muito tempo que não tomava um amante para si. A autodisciplina rígida e severa com que comandava suas tropas era a mesma que exigia de si mesmo. A XII Legião sob a sua liderança, conhecida por A Fulminata, era uma das mais letais devido ao rigoroso treinamento e exigência de um emocional forte e imperturbável. O surpreendeu o fato de aquele jovem despertar-lhe a luxúria de uma forma tão intensa e imediata.

Assim que os dois rapazes atravessaram o portão da arena, passando por ele e sua patrulha exausta, Minos manteve a expressão séria como cabia a um militar da sua patente.

O jovem exótico olhou de relance para Minos, franzindo o cenho ao constatar que se tratava de um oficial romano.O estandarte exibindo a águia e as letras SPQR (Senatus Populesque Romanus — Senado e Povo de Roma) se mantinha altivo, reafirmando o poder conquistador daqueles homens e a vergonha de ter sido subjugado por eles.

Impassível, Minos acolheu o olhar sobre si. Sua túnica estava coberta de poeira, assim como seu elmo e o manto rubro. Haviam sido vários dias de viagem, com pouco tempo para paradas e muito menos para preocupar-se com a higiene. Quando Albafica desviou os olhos do corpo e tornou a encarar o oficial com um misto de desprezo e desafio, Minos deu um meio sorriso, achando aquela situação muito interessante. Mesmo estando a tanto tempo sob o domínio de Roma, aqueles selvagens ainda mantinham o orgulho.

Resolveu devolver o desafio, desviando o olhar do rosto para o corpo do jovem, deixando bem claro as suas preferências sexuais.

Albafica sentiu o rosto quente ao ser olhado daquele jeito ostensivamente malicioso. Ninguém jamais fizera isso!

— Então esses são os famosos legionários de Roma cuja intenção é civilizar a quem chamam de selvagens? – indagou com um tom de desdém. – Pois não demonstram a civilidade que tentam impor, muito antes pelo contrário, parecem se orgulhar em ser rudes e sem educação!

Os soldados atrás de Minos entenderam as palavras ditas em um latim perfeito. De imediato desmontaram e alguns desembainharam suas espadas.

— Como ousa, porco insolente?! – gritou um dos soldados da tropa.

Minos elevou a mão, silenciando seu comandado e contendo os ânimos dos soldados.

— Não julgue a todos por minhas ações, druida! A culpa é sua por ser tão... belo. – falou o oficial olhando-o, novamente de forma lasciva, parecendo não se importar com a ofensa.

Albafica arregalou os olhos. Ele não esperava que aquele homem soubesse identificar sua posição, nem que tivesse a coragem de continuar a olhá-lo daquele modo.

— Cão romano! – gritou Breno sacando um punhal que trazia junto ao corpo. – Albafica é um nobre e não vai ser insultado.

Um sorriso malévolo brincou nos lábios do oficial romano. Tinha plena consciência que não devia dar espetáculos como aquele, mas o que era a vida sem conflitos? Olhou para o jovem defensor que não passava de um rapazote. Apesar da afronta, simpatizou com a coragem e lealdade do jovem, pois era sabido que ninguém atacava ou insultava um oficial romano e ficava impune. Pelo menos não era um frouxo.

— Não, Breno. Não preciso que me defenda. – disse Albafica segurando o braço do amigo e fazendo-o baixar a arma.

O rapaz o fitou perplexo.

— Alba... ele não pode...

— Não. Obedeça.

Minos se aproximou de ambos.

— Vejo que, além de belo, é sábio como compete a um druida. Ambos estão sob a autoridade de Roma e eu a represento. Vou deixar passar, desta vez. Mas, saibam que eu poderia mandar açoitar os dois pela insolência!

Albafica sustentou-lhe o olhar sem demonstrar medo.

— Agradeço a sua magnificência. – disse num tom sarcástico.

Sustentando a expressão autoritária, Minos se afastou observando os dois seguirem em frente. Saberia mais sobre aquele jovem já que ser um oficial romano lhe garantia poderes e privilégios ali. Não precisava ter pressa, mais cedo ou mais tarde, submeteria o jovem druida aos seus desejos...

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Bridget, descendente da rainha Cartimandua da tribo dos Brigantes entrou no pequeno salão da habitação circular onde a lareira central continha um fogo baixo, tornando o ambiente quente. Olhou em volta procurando o neto, mas não o viu. Então se voltou para a filha.

— Então, Alanna, onde ele está?

Alanna torceu as mãos, de forma nervosa, e sorriu.

— Já deve estar chegando, eu mandei Breno ir buscá-lo.

A mulher madura, cujos cabelos brancos evidenciavam certa idade, não deixara de ser bela, apesar das rugas nos cantos dos olhos e boca. A túnica, ricamente adornada e as joias que usava confirmava sua posição nobre dentro do clã.

— Então sente-se, vamos esperar, embora paciência seja uma virtude que me foi negada mesmo depois de velha.

Alanna obedeceu, passando a ocupar um banco de madeira ao lado direito da cadeira maior reservada a sua mãe. Assim que ela se sentou, Albafica adentrou a casa, recebendo o olhar afiado da avó sobre si.

— Olá, avó. Perdoe-me a demora. – cumprimentou-a, respeitoso.

— Olá, meu neto. – ela o saudou sorrindo e sinalizando para que se sentasse a sua esquerda.

Albafica obedeceu, estranhando a afabilidade da avó. Ela jamais lhe dera atenção quando criança. Chegou a acreditar que ela o detestava por completo, visto que com suas irmãs ela não era carinhosa, mas pelo menos era gentil e lhes trazia presentes.

— Deve estar se perguntando o porquê da minha visita e até mesmo do meu sorriso, não? – disse ela com um sorriso, agora de desdém.

Os cabelos da nuca de Albafica se arrepiaram, porém ele se manteve altivo e, aparentemente, calmo.

— Deve ser algo muito importante para que a minha presença seja notada e requisitada. – respondeu ele.

Alanna olhou-o estranhando a atitude do filho. Geralmente, Albafica era respeitoso e reservado. Por um momento, ela prendeu a respiração crente que sua mãe tivesse uma reação colérica, porém, ao observá-la melhor, notou que a expressão do rosto contraído se suavizou e ela gargalhou, surpreendendo-a.

— Ora, ora... O filhote tem colhões! Bravo! Cheguei a pensar que seria mais um frouxo com o rabo entre as pernas. Pois então, acho que chegou a hora de saber, exatamente, quem você é e o que seu clã espera de você.

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Minos chegou ao acampamento romano, a leste da cidade com o corpo dolorido pelo cansaço. Havia chegado à Bretanha há quase um mês e agradecia aos deuses por retornar a um clima frio. Comandar tropas na África havia sido um sacrifício, já que detestava o calor escaldante. Então, ao avistar as muralhas do forte, sentiu o cansaço desaparecer e ser substituído pelo orgulho de ser romano.

O retângulo perfeito formado pelo forte, cercado por um fosso profundo e vigiado por soldados atentos e bem armados o deixou, ainda mais orgulhoso. Recebeu os cumprimentos calorosos dos sentinelas, enquanto atravessava os portões com sua tropa. Lá dentro, encontrou uma arquitetura que tentava copiar uma típica vila romana. Desde o quartel-general com acomodações para os oficiais ao templo em homenagem ao deus Marte, protetor do Império e senhor da guerra.

Nas escadas do templo onde tremulavam todas as flâmulas e estandartes de cada esquadrão em serviço na Bretanha, estava o tribuno Radamanthys Domitius de Wyern, o segundo em comando depois de Minos.

Sua pequena tropa parou, em posição de sentido, diante do templo. Saudaram Radamanthys e foram dispensados. Minos saltou do cavalo e foi ao encontro do tribuno e amigo.

— Salve, Radamanthys! Antes de qualquer coisa, preciso de um banho.

Radamanthys sorriu.

— Já mandei que os escravos preparassem seu banho, assim que a tropa foi avistada na cidade.

— Vejo que ainda se lembra. – disse Minos colocando o braço por cima do ombro do amigo.

O tribuno lembrava e conhecia os hábitos de Minos. O amigo costumava banhar-se com frequência, mesmo sob temperaturas baixas e jamais fazia as refeições se estivesse sujo, a não ser em campanha militar.

— Ainda gosta de alternar o frigidarium com o caldarium?

— Mas é claro! Porque não gostaria? – questionou Minos elevando uma sobrancelha.

— Sei lá, a idade, talvez... – brincou Radamanthys.

— Até parece que não temos a mesma idade.

— É, meu amigo, 29 anos. Já estamos quase veteranos.

— Quanto a você, eu não sei, mas ainda tenho muito tempo pela frente.

Os dois riram e atravessaram um pátio interno, onde colunas de mármore sustentavam e adornavam as termas. Minos observou cada detalhe e sentiu orgulho do amigo. Nesse aspecto, Radamanthys era impecável, pois reproduzira o sistema hidráulico romano onde as bombas traziam água do rio mais próximo diretamente para as piscinas das termas.

— Marte seja louvado! Somente você, Radamanthys, construiria uma terma deste porte neste fim de mundo.

Radamanthys estufou o peito.

— Um pouco de civilidade mão nos fará mal!

As termas romanas possuíam o frigidarium onde as águas eram frias, o tepidarium, sala onde os banhistas se acostumavam com a mudança de temperatura, e o caldarium onde a água era quente. Radamanthys conseguira que tudo fosse construído à perfeição, acrescentando recintos para descanso e troca de roupa, um pequeno ginásio e uma sala para refeições como era em Roma.

Após banhar-se na água fria, Minos deitou-se para que os escravos massageassem suas costas e pernas doloridas, esfregando óleos e unguentos. Em seguida, mergulhou nas águas escaldantes do caldarium.

— Bem, Radamanthys, faça-me um relatório do acampamento. Suas cartas não disseram muita coisa. Quando cheguei, encontrei certa resistência por alguns... – disse o oficial com uma expressão genuína de prazer em meio ao vapor.

— Resistência?

— Um jovem insolente que nem se parece com os nativos daqui, ousou me desafiar.

— Quem?

— Parece que ouvi o outro chamá-lo de Albafica.

— Ah, Albafica. – completou o tribuno. — Ele pertence à casta nobre daqui. Está sendo preparado para ser um...

— Druida. Eu reconheci o adorno em forma de serpente. Aquele druida que é aliado de Roma, Éduo, usa um bracelete igual.

— Não deve se preocupar com ele. Dos selvagens que temos que lidar, ele, pelo menos, é inteligente e está sendo iniciado. Como bem sabe, os druidas são sábios.

Minos olhou para o amigo com o cenho franzido.

— Qual o problema, Radamanthys? Será que o posto administrativo o tornou ambicioso e pouco cuidadoso?

Foi a vez de o tribuno franzir o cenho.

— Para ser sincero, Minos, este posto não me agrada. Sou um guerreiro e passar a maior parte do meu tempo resolvendo contendas entre aldeões e camponeses ignorantes me é, extremamente, tedioso. O clã ao qual Albafica pertence possui uma aliança com Roma. Eu já o questionei, várias vezes e não encontrei um traço sequer de rebeldia, a não ser que ele é um jovem ávido por conhecimento e todos o respeitam.

— Você o conhece bem, então... Já foi para a cama com ele? Pelo que vi deste lugar, existem muitos jovens apetitosos. Resta saber o quanto custa.

— Mas é claro que não! Apesar da beleza exótica do rapaz, deixei meu gosto por homens para trás. Resolvi que produzirei um herdeiro, então estou à procura de uma mulher, agora.

Minos fitou Radamanthys com desconfiança, depois soltou uma sonora gargalhada.

— Está bem. Vamos, estou faminto.

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Bridget nunca fora o tipo de mulher nutridora e com instinto maternal que se dizia “nascer” com as mulheres. Amava a filha, mas a mantinha distante por achar que o excesso de sentimentalismo atrapalhava a vida e suas decisões.

Quando Alanna fora violentada por um soldado romano, ela mesma dera a filha uma infusão contendo as pétalas e espinhos da rosa diabolus, uma flor venenosa usada para matar ou, em doses controladas, para o aborto. Entretanto, daquela vez, a infusão falhou e a criança nasceu. Diferente de todos, o menino a quem deram o nome de Albafica continha, em si, a doçura da filha e o veneno silencioso que simbolizava bem a personalidade taciturna do neto.

Ela fitou o jovem que permanecia com uma expressão atônita, após o seu relato.

— Pois bem, agora você sabe quem é. Éduo o ensinará e você aproveitará seus ensinamentos com seu corpo, alma e espírito. Você será como a rosa diabolus, bela e suave por fora, mas venenosa por dentro. Sob a sua liderança, nosso clã unirá as demais tribos e juntos, nos livraremos do jugo romano!

Alanna levou a mão ao peito, enquanto Albafica franziu o cenho.

— Seu sonho é grandioso, avó. Mas, não creio que eu seja o homem certo. Quem seguirá um líder cujo sangue pertence ao lado conquistado e, ao mesmo tempo, ao conquistador? O que acabou de revelar é que sou um pária, um amaldiçoado que foi concebido em um estupro! Procure outro, talvez alguém das tribos mais selvagens que ainda contenha em suas veias, o puro sangue dos nossos ancestrais.

— Não seja tolo, rapaz! É exatamente por sua herança, que poderá nos levar à vitória. Não estou falando de enfrentamento imediato, nem de força bruta. Estou falando de inteligência e sedução. Você encontrou um oficial romano, ainda agora...

— C-Como sabe?

A mulher sorriu.

— Eu tenho a visão. Este homem é importante e o deseja. Satisfaça-o e teremos parte de Roma em nossas mãos.

Nunca! Albafica não soube se pensou ou gritou em voz alta. Mas, de uma coisa, ele tinha certeza, jamais teria algo com aquele homem.

Notas finais
Beijos e agradecimentos a todas que passarem por aqui, seja comentando ou silenciando. Amo vocês! XD *Dhraoi = Druida