A ROSA CELTA
7 Capítulo 6 - PERDAS E DANOS!
Notas iniciais

Alanna estava com os cabelos desgrenhados e as vestes molhadas. A chuva que caíra no caminho ajudara a sua fuga, assim como a ação de sua mãe. Conseguira despistar Algol e agora via-se frente a frente com o oficial romano. Elevou a cabeça e respirou fundo.
— Queria me ver, senhora, aqui estou. – disse Minos.
Ela enrubesceu, constrangida pela aparência e por não conseguir esconder o desespero, mas ainda assim, fitou Minos bem dentro dos olhos.
— Vim ver meu filho e pedir que me ajude a resgatar minha mãe.
Minos fitou Alanna com seriedade.
— Por favor, conte-me como tudo aconteceu.
— Antes, preciso saber se Albafica está bem e porque está aprisionado aqui.
O oficial hesitou um pouco, pensando na melhor maneira de tocar no assunto. Sua cabeça fervilhava com a notícia sobre o rapto de Bridget. Ela era sua protegida e seu rapto era um desafio claro a sua autoridade. Tinha que acabar, definitivamente, com aqueles rebeldes ou as consequências seriam graves.
— Seu filho está bem, houve um mal-entendido entre ele e o governador. Algo que será esclarecido e devidamente tratado.
— Não deve ter sido, somente, um mal-entendido ou Albafica não teria sido preso. — desafiou Alanna.
— Vamos dizer que houve um rompimento de certos limites entre os dois e isso acarretou consequências que eu, pessoalmente, irei cuidar. Dou-lhe a minha palavra.
O tom de voz e o olhar firme causou em Alanna um estranho conforto. Sentia que aquele homem não era como os outros romanos que conhecera. Havia nele um pouco de arrogância, mas o que se destacava era uma atitude altiva e honrada.
— Eu agradeço. Gostaria de ver meu filho.
Minos não gostava daquela situação, agir como se Albafica fosse culpado, porém mostrar um comportamento indulgente não era do seu feitio. No entanto, perante a coragem daquela mulher, decidiu agir com compaixão, fazendo sinal para que ela o acompanhasse.
— Por favor, siga-me.
Com um meio sorriso, ela obedeceu seguindo-o, enquanto observava aquela casa diferente, mesas e colunas esplêndidas, esculturas em mármore que pareciam pessoas vivas. Quando chegou até a peça pequena, Minos sinalizou para que o soldado permitisse a entrada de Alanna e ela franziu o cenho ao constatar onde Albafica se encontrava, mas seu rosto mostrou-se aliviado ao ver o filho.
— Albafica!
— Mãe. – disse ele aceitando o abraço apertado.
— Tive medo... medo que o tivessem machucado. – murmurou ela.
— Eu estou bem, mãe. Mas, o que aconteceu?
Os olhos claros o fitaram, aflitos.
— Sua avó estava comigo e vínhamos para cá, quando Algol e seus homens nos sequestraram. Ela os distraiu para que eu pudesse fugir.
Albafica retesou os músculos ante aquela resposta.
— Eu preciso falar com ele.
— Ele o considera um traidor, filho. Você precisava ter visto os olhos dele, estava transtornado. Não sei se ele o ouviria, agora.
O jovem druida calou-se, mordendo os lábios. Algol o tinha avisado e sabia que ele era homem de cumprir sua palavra. Precisava dissuadi-lo de enfrentar os romanos. Seria um massacre.
— Preciso convencer Minos a deixar-me falar com ele.
Alanna fitou os olhos do filho.
— Existe algo entre você e este homem... – sussurrou ela, mais afirmando que perguntando.
Sem poder negar, Albafica tocou-lhe o rosto.
— Eu não posso explicar, mãe. Nem eu mesmo sei o que acontece entre nós dois. Só sei que... quando ele me toca, meu corpo e minha alma parecem reconhecê-lo e desejá-lo de uma forma inexplicável.
Boquiaberta com aquela confissão, Alanna só conseguiu dizer:
— Você está apaixonado...
Confuso com os próprios sentimentos, Albafica se afastou um pouco.
— Não sei, isso é... É loucura, só pode ser.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Alanna e ela tocou a face do filho com ternura e medo.
— Sim, você está apaixonado, meu filho. Mas, tenha cuidado com o seu coração. Embora eu sinta que esse homem é diferente, ele é um romano e você é um druida. Os caminhos de vocês possuem muitas encruzilhadas.
Albafica não disse nada, apenas abraçou a mãe sentindo-lhe o aroma de ervas e flores nos cabelos molhados.
Minos havia saído e agora estava de volta, vestido a rigor. Ele colocou o elmo de bronze sobre uma mesa de mármore e adentrou o cubículo onde mãe e filho ainda conversavam.
— Estou saindo com a tropa. Iremos resgatar sua mãe, senhora.
— Deixe-me ir com você. – falou Albafica.
O oficial franziu o cenho como se o jovem tivesse falado algo insano.
— Você está sob custódia.
— Eu posso evitar uma luta desnecessária e fazer com que Algol repense suas atitudes.
O modo como Albafica se referiu ao picto, sugerindo que eram íntimos perturbou Minos. Ele sentiu a mesma vontade de dias atrás, quando teria matado Algol sem nenhum drama de consciência. Odiava aquele homem arrogante!
— Sinto lembrá-lo que não está em condições de agir como um homem livre. Eu cuidarei deste assunto. – falou Minos com um tom rude.
E pensar que achei que podia confiar nele! Recriminou-se Albafica em pensamento e ainda sentindo o gosto dos lábios e o prazer que as mãos de Minos lhe haviam proporcionado.
— Pois se vai me tratar como um prisioneiro leve-me para as celas comuns, não quero ficar neste cubículo!
Alanna olhou para o oficial e para o filho. Os dois se olhavam com animosidade, mas por baixo de tudo, havia uma tensão e uma energia que os conectava tornando o ar ainda mais pesado.
— Você ficará onde eu determinar. Ordenarei que preparem outro aposento da casa e assim, sua mãe poderá fazer-lhe companhia, enquanto eu trato disso. – falou o oficial com voz firme, porém menos rude.
Albafica suspirou e Alanna ficou próxima a ele.
— Acho que o oficial Minos tem razão, meu filho. Algol está transtornado e agora nos considera inimigos.
Minos não esperou que Albafica dissesse algo, virou as costas e se retirou.
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O ar frio da noite obrigava a todos usar mantos de lã grossa e a manter-se próximo ao fogo. As tochas brilhavam na escuridão quando Algol ficou em pé diante dos homens. Antes, eram cinquenta, agora já somavam quase duzentos. Nos rostos pintados, o líder picto viu a mesma chama selvagem do descontentamento.
— Ainda falta o clã dos Escotos disse ele. Quando eles se juntarem a nós, atacaremos o forte ao leste.
Houve gritos e batidas com os pés. A grande maioria vinha de clãs pequenos que haviam se embrenhado em florestas e montanhas para escapar do jugo romano.
Entre os celtas não havia uma hierarquia rigorosa, a liderança tinha de ser conquistada pelos atos de coragem e aquele que o fizesse tinha a lealdade da maioria. Esse era o caso de Algol que fora aceito pelos demais devido ao seu histórico como um feroz guerreiro e agora os reunia para assumir seu lugar.
Uma caneca de hidromel passeou pelo grupo e, cada vez que ela se esvaziava, outro a enchia e repassava. Assim, forjavam alianças e estabeleciam um voto de companheirismo.
— Albafica está preso. – disse Breno que estava sentado próximo a uma pequena fogueira, longe do grupo maior.
Algol encarou-o.
— Preso por quê?
— A matriarca é quem sabe. – respondeu o jovem.
O picto foi até Bridget que estava sentada sobre a pedra em que ele a deixara. Com as mãos amarradas às costas, impedindo-a de fazer qualquer movimento, ela continuava a olhar para aqueles homens com altivez e desprezo.
— Fale, mulher! Porque Albafica está preso?
— Se tivesse nos deixado falar, horas atrás, você saberia. Agora, não tem mais importância e não perderei meu tempo com um ignorante.
A atitude da matriarca deixou Algol com raiva. Sempre detestara aquela mulher e o sentimento só aumentava cada vez que tinha algum contato com ela.
— É tão altiva e inteligente... Talvez seja a oferenda que nos falta para agradar aos deuses e nos levar à vitória! – Coloquem-na na jaula! – disse ele com um prazer sádico fazendo-a levantar e empurrando-a em direção a dois homens corpulentos.
Breno arregalou os olhos, alguns murmuraram e outros gritaram satisfeitos. A jaula era um lugar de sacrifício, um costume antigo onde prisioneiros eram queimados como oferenda. Porém, Bridget era a matriarca do clã dos Brigantes e não uma prisioneira qualquer.
— Ela é a vó de Albafica. – falou Breno.
— E daí? – replicou Algol. – Essa mulher nunca gostou de ninguém. Se Albafica está preso é porque tem a mão dela em tudo isso.
— Mas... Mas isso colocará os Brigantes contra nós!
— Eles já estão, Breno. Escolheram se aliar ao inimigo e, não pense que ter sido criado entre eles o torna um Brigante! Veja o modo como ela nos olha, como se fosse superior a todos nós.
O jovem olhou na direção de Bridget com receio.
— Mas, mesmo assim, não acho certo. – disse ele, timidamente.
— Escute aqui! – disse Algol colocando as mãos sobre os ombros do jovem. – Precisamos expulsar esses romanos e deixar bem claro com quem os outros clãs devem se aliar! Se fraquejarmos agora, estaremos perdidos!
Breno encarou Algol e o brilho nos olhos do picto denotava que algo não estava certo. Ele parecia louco e tomado pela ira. O jovem concordou, por precaução. Quando tivesse a chance, acharia um jeito de avisar Albafica e talvez, acabar com aquela insanidade.
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A patrulha de Minos partiu rumo ao norte, desviando das florestas densas e das regiões desabitadas e cercadas por bosques. Sob o seu comando, o grupo vencia milhas e mais milhas com uma rapidez impressionante. Apesar da fibra e do destemor, o oficial romano enfrentava emoções inéditas dentro de si. Os lábios entreabertos do jovem druida, os ofegos baixos, o corpo se contorcendo sob suas mãos... Saber-se sendo o primeiro a apresentar-lhe os prazeres físicos o fez sentir-se poderoso, mas ao fundo desta sensação algo mais se insinuava, causando uma reviravolta em sua mente e em seus sentimentos.
— Senhor, os batedores voltaram! – falou um soldado.
Minos voltou sua atenção para o homem, deixando as divagações.
— Qual a situação?
— Disse que há pegadas de muitos cavalos em direção à floresta perto de Isúrio.
— Então vamos! Mantenham a posição de alerta.
A madrugada avançava e os soldados permaneciam vigilantes. Quando o sol elevou-se atrás das montanhas, Minos já havia avistado alguns sinais de fumaça, acima da copa das árvores, prova que fogueiras haviam sido acesas. Ele elevou a mão e chamou seu tenente.
— Albion, leve um grupo para o leste e espere o sinal. O restante, desmonte. – ordenou o oficial.
— Sim, senhor!
Os soldados desmontaram e Minos traçou estratégias para cercar Algol e acabar de vez com aquela resistência. Enquanto os soldados ouviam seu líder, na cidade, Albafica andava de um lado a outro no quarto amplo e confortável. Sua mãe permanecia sentada em um divã e, de vez em quando, um servo à mando de Radamanthys surgia perguntando aos dois se precisavam de alguma coisa ou se desejavam comer.
— Filho... – chamou Alanna.
Albafica a encarou.
— Eu preciso ir até Algol, mãe. Que espécie de druida eu serei se não puder apaziguar e evitar um massacre?
— Mas, como você sairá daqui?
— Vou precisar da sua ajuda. – disse ele.
Instantes depois, o tribuno Radamanthys adentrou o quarto.
— O escravo disse que queria falar comigo, senhora.
— Sim, gostaria de voltar para casa, pode solicitar uma escolta para mim?
— Tão cedo assim? Não gostaria de tomar o desjejum comigo?
— Agradeço a gentileza, mas preciso voltar. Todos devem estar preocupados.
O tribuno assentiu e foi chamar um soldado que estava à porta.
— Por favor, leve a senhora para casa. – disse ele.
O homem, prontamente obedeceu e Valentine, que antes fazia a guarda, substituiu-o.
— Bom dia, senhor. – falou o soldado com um tom respeitoso, porém seu olhar insinuava outra coisa.
— Bom dia, soldado. – respondeu Radamanthys com um meio sorriso.
Os dois olharam para a porta que acabara de fechar. Valentine sorriu, exibindo dentes pequenos e brancos, enquanto a língua passeava pelos lábios desenhados. Radamanthys perdeu-se naquele movimento e engoliu em seco quando notou que o soldado percorria o seu corpo com o olhar. Sentiu, novamente, aquela fisgada na virilha e fitou o soldado com uma luxúria explícita.
Perto dos aposentos, havia uma pequena despensa e o tribuno ordenou que soldado fosse verificá-la. O jovem obedeceu, antecipando aquele jogo de sedução que se iniciava ali... Verificou a porta dos aposentos e rumou para o local que lhe fora ordenado.
Quando Radamanthys adentrou o pequeno espaço, Valentine ousou tocar-lhe a mão e puxá-lo para si... Os olhos de Radamanthys vagaram cobiçosos, sobre o corpo de Valentine que respondeu ao olhar com um beijo ardente e sôfrego, ambos embarcando numa erótica e persuasiva entrega que fazia o tribuno esquecer tudo mais e querer possuir aquele soldado.
Radamanthys foi encostado na parede e Valentine esfregou os lábios nos dele, aumentando a excitação e os batimentos cardíacos do tribuno. Depois de invadir a boca sedenta com a língua, o soldado levou as mãos por baixo da toga, sorrindo ao vê-lo fechar os olhos e ofegar. Como um felino, Valentine cravou as unhas nas coxas grossas, fazendo Radamanthys abrir os olhos, e encará-lo. Com uma expressão maliciosa, ele se abaixou tomando o falo túrgido inteiro em sua boca. O tribuno mordeu o lábio inferior deixando escapar um gemido baixo... O soldado continuou sugando, lambendo e levando-o até a garganta com uma perícia que fazia tremer as pernas de Radamanthys.
O cheiro viril, o gosto, os sons emitidos pelo tribuno o excitavam e o soldado sentia um poderoso prazer em ver as expressões e ouvir os gemidos do tribuno que se esforçava para controlá-los, em vão.
Agarrado aos cabelos do jovem soldado, Radamanthys gemeu e se afundou na boca quente num ritmo cadenciado, sentindo-se tragado pela cavidade úmida, várias e várias vezes... Enredando-se num mundo de prazeres que há muito tempo não sentia.
Sentindo o gozo de Radamanthys se aproximar, Valentine abandonou o falo que pulsava, arrancando um gemido queixoso do tribuno. Olhando bem dentro dos olhos dourados, ele tomou, novamente, o membro na boca, fazendo Radamanthys sentir a respiração quente na virilha e na parte interna da coxa. Radamanthys mordeu o braço para não urrar enquanto o orgasmo vinha, estremecendo o seu corpo e arrancando um sorriso de satisfação do soldado.
Passando a mão nos lábios, Valentine sorriu malicioso e se levantou devagar, roçando seu corpo no do tribuno e fazendo-o sentir o quanto o deixara excitado.. Ofegante, o tribuno fixou os olhos semicerrados no soldado a sua frente.
— Eu vou querer mais que isso... Vou querer foder você, mas não aqui... – disse o tribuno.
Valentine sorriu.
— Às suas ordens, senhor... Mais tarde terei uma hora de folga.
O tribuno ainda estava com a respiração descompassada, o corpo oscilando entre a languidez pós-orgasmo e o desejo de sentir-se dentro do corpo do soldado. Porém, não podia render-se ao desejo como se fosse um jovem desvairado. Tinha trabalho a fazer e uma imagem a zelar. Além disso, precisava ver se o governador estava confortável e mantê-lo na linha.
— Pois bem... mandarei chamá-lo. Volte ao seu posto.
Valentine obedeceu, andando com garbo. Radamanthys pousou os olhos nas pernas fortes e foi subindo até as nádegas roliças que se insinuavam sob a túnica. Desejou que a vestimenta fosse um pouco mais curta, porém deleitou-se, mesmo assim naquele corpo firme e voluptuoso. Por Mercúrio e Vênus... esse soldado faz meu sangue ferver...
Enquanto isso, aproveitando a chance dada pelo desvio da atenção propiciada por sua mãe, Albafica usara da tática druida de deslocar-se silenciosamente. Assim que Alanna deixara o quarto, ele saíra pela janela, tomando o cuidado de deixar a cama preparada como se estivesse dormindo. A janela era alta, mas os celtas eram acostumados a escalar desde pequenos e não se constituía em um obstáculo. Aquele era um pequeno detalhe que escapara do seu guardião.
Com a graciosidade de um felino, Albafica saltou a janela e correu até os estábulos. Lá, se encontravam vários cavalos e ele procurou um que não tivesse a marca da legião. Havia um que estava em uma baia distante dos demais. Era um cavalo marrom e com uma vasta crina. Não tinha nenhuma marca e Albafica reconheceu o animal, bastante comum nas tribos dos pictos. Muitos aldeões pagavam os impostos ou ofereciam presentes ao tribuno doando os seus animais.
Inspirou fundo e se aproximou, tocando a cabeça do cavalo e murmurando palavras tranquilizadoras. Logo, pode montar o animal e rumar para as terras onde Algol deveria estar. Cavalgou com maestria, tomando atalhos e evitando lugares onde poderia ser visto.
Quando o sol já alcançava seu posto mais alto no céu, Minos já havia se certificado que Algol não tinha como escapar e, neste exato momento, Albafica chegava pelo outro lado, tendo uma vista do acampamento picto.
O jovem druida bateu com os calcanhares na barriga do animal e começou a descer a colina cercada de vegetação. A primeira coisa que enxergou foi a jaula de madeira com sua avó dentro e, sob ela, madeira para acender o fogo.
— Algol! – gritou ele.
O chamado atraiu a atenção para si e logo, cinco homens com suas fartas cabeleiras ruivas vieram ao seu encontro. O picto veio logo em seguida e, sem pestanejar, tomou-lhe as rédeas do cavalo, afastando-o do cerco dos demais.
— Você vem comigo. – disse ele e Albafica obedeceu.
Enquanto galopava colina abaixo, Albafica observou ao redor. Havia muitos homens ali e de diferentes clãs. Respirou fundo e olhou para o homem que conhecia desde a infância.
— O que pretende fazer?
— Vamos lutar contra os romanos.
— Algol, desista dessa loucura. Conseguiu juntar alguns clãs, mas isso não é o suficiente. Os romanos possuem experiência em combate, passam parte de suas vidas guerreando. Vai haver um massacre!
Um brilho cruel insinuou-se nas íris claras do líder picto.
— Vamos oferecer um grande sacrifício aos deuses! Eles nos guiarão até a vitória.
Albafica olhou para a jaula com o cenho franzido.
— Você não está insinuando que vai... Você não vai sacrificar minha avó!
— E porque não? Ela nem gosta de você, Albafica. Ela nunca gostou de ninguém.
— Você enlouqueceu? Eu... Eu não reconheço mais você! Onde está aquele que sempre foi meu amigo? – questionou o jovem druida.
— Você me faz essa pergunta, quando fui eu quem foi traído. – respondeu Algol desmontando e sendo seguido por Albafica.
— Eu nunca traí você! Porque insiste nesta versão das coisas? Nós temos uma história juntos, Algol. Por favor, me ouça! Solte minha avó.
Como se fosse duas pessoas distintas e estivesse em guerra consigo mesmo, Algol balançou a cabeça e, em seguida, surpreendeu Albafica dando-lhe uma bofetada violenta e inesperada que o fez tropeçar e bater com a cabeça em um dólmen que jazia solitário no local . O jovem perdeu os sentidos por breves segundos, tempo suficiente para Algol dominá-lo, amarrar-lhe as mãos e colocá-lo dentro de uma das tendas.
— Seu animal! O que pretende com tudo isso? – gritou Bridget ao testemunhar a cena.
Ignorando a fala da matriarca, Algol continuou:
— Breno! Cuide para que Albafica permaneça dentro da tenda!
O jovem que se aproximava ainda mais atônito com as atitudes de Algol. Sentiu-se péssimo em ter falhado. Devia ter encontrado Albafica antes daquele desfecho infeliz. No entanto, obedeceu a ordem, na esperança de ter um momento para executar seu plano de fuga.
Assim que o jovem o deixou, Algol foi até a jaula de madeira, olhando com um prazer doentio, bem dentro dos olhos de Bridget, enquanto carregava a tocha acesa para dar início ao sacrifício. Esperou que ela implorasse ou fraquejasse. Entretanto, a matriarca, apesar do terror que sentiu, acolheu seu destino com a cabeça erguida.
— Que os deuses a recebam, Bridget do clã dos brigantes! – gritou Algol, enquanto acendia as toras de madeira debaixo da jaula.
— Amaldiçoado seja, Algol dos Pictos! – gritou ela, enquanto as línguas de fogo queimavam a madeira e a fumaça a abraçava como um manto.
O espetáculo horrendo criou uma atmosfera de quase histeria. No interior da tenda, Albafica abriu os olhos, estonteado. Sentiu algo quente escorrer do supercílio direito e, ao tentar tocar o ferimento, constatou que estava amarrado com uma tira de couro. Por alguns instantes, pareceu que aquilo já acontecera, então se deu conta que estava em outro lugar e com outras pessoas. Respirou fundo e fechou os olhos, tentando assimilar os acontecimentos. Então, ouviu um grito e, em seguida um sussurro... Perdão, meu neto. Perdão!
— Não! – gritou abrindo os olhos mesmo com o sangue escorrendo pela face.
Posteriormente, tudo aconteceu tão rápido que Albafica sentiu como se tivesse sido arrancado da realidade e levado para outro espaço-tempo. Ele sentiu o cheiro de carne queimada e ouviu o grito de guerra dos pictos e seus aliados.
Logo, o som do metal, e o relinchar dos cavalos foram compondo uma cena trágica e sangrenta que ele não podia ver, nem participar, mas conseguia sentir com todas as fibras do seu ser...
Quando Breno entrou, instantes depois, Albafica sentiu uma contração nas entranhas.
— Você não... Não diga que está com ele. – falou o druida.
— Ele convocou todos os pictos, mas não concordei com nada disso. Ele queimou sua avó, ignorando as opiniões contrárias. Ele é o líder, agora. – disse o jovem com os olhos cheios de lágrimas.
Albafica apertou os olhos, ele ouvira os gritos, as vozes, tudo... Sua cabeça latejava, mas nada disso tinha importância. Falhara em impedir a loucura de Algol. Sentia como se suas vísceras estivessem queimando também. Não servia para ser um druida!
— Vamos, eu vou tirá-lo daqui! Algol está lutando com os romanos, mas eu conheço uma passagem. – disse Breno.
Quando o jovem se preparava para sair e levar Albafica, uma espada cortou parte da tenda e um par de olhos violáceos se revelou como pedras preciosas em um garimpo.
— O que está fazendo aqui? – gritou Minos, atônito com aquela cena.
Albafica não respondeu e Breno se colocou na frente dele, enfrentando-o como na primeira vez em que tinham se encontrado.
— Não permitirei que o machuque!
— Afaste-se! – ordenou Minos ao mesmo tempo em que empurrava Breno e ficava frente a frente com Albafica.
O jovem druida não esboçou nenhuma reação, apenas ergueu a cabeça, o sangue escorrendo, os olhos quase fechados... Seus lábios tremeram e ele vacilou.
— Não quero que mais ninguém morra por minha causa. Eu fugi... pensei que poderia evitar tudo isso.
Ao ouvir a fala dolorida e o desapego de Albafica, Minos sentiu a cólera se extinguir e tudo o mais desaparecer. A dor do druida o perturbou e ele cortou a tira de couro, libertando-lhe as mãos com rapidez. Em seguida, rasgou um pedaço de seu manto e o comprimiu sobre o ferimento que sangrava acima do olho esquerdo de Albafica. Fez tudo em silêncio sob o olhar atento de Breno.
Albafica olhou na direção da jaula carbonizada. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto e ele apertou os olhos, mais uma vez. O oficial suspirou quebrando o silêncio:
— A culpa não é sua. Eu devia ter protegido a sua avó e acabado com aquele selvagem. Eu falhei!
Albafica encarou-o, a dor expressa nos olhos marejados.
— Era eu quem devia estar naquela jaula...
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