A ROSA CELTA
3 Capítulo 2 - A ROSA REBELDE
Notas iniciais

E quando o oficial romano achava que estava tudo decidido, Albafica se pronunciou:
— Minha vó pode solicitar sua proteção, oficial Minos. Mas, eu a dispenso. Não há motivo para que se preocupe, nosso clã saberá defender-se, honrar e conciliar os seus interesses com os de Roma.
Minos franziu as sobrancelhas, surpreso e irritado com o arrojo do jovem druida. Como ele ousava desafiá-lo sem o menor constrangimento? Seria por causa daquele selvagem pintado que o fizera sorrir daquele jeito?
— Meu neto! – a voz de Bridget soou um tanto aguda.
Albafica fez um gesto para que ela se calasse. Não havia em seu semblante a apreensão ou até mesmo a ira. Falava com uma autoridade que sua avó desconhecia até então.
— Não preciso que fale por mim ou por minha mãe, nem que solicite a proteção de Roma para esta casa. Somos perfeitamente capazes de cuidar da nossa segurança há séculos. A presença do oficial Minos na Bretanha pode ser aproveitada em assuntos maiores.
— Albafica, eu insisto que...
— Basta! – ordenou Minos, interrompendo a discussão dos dois. – Lady Bridget terá a proteção de Roma, quer você queira ou não. Se estiver disposto a abrir mão dela, druida, saiba que estará por sua própria conta e risco.
— Ele tem a mim e a meu clã. – completou Algol estufando o peito.
Minos olhou o picto com desdém. Sentia a afronta de Albafica como se tivesse sido ferido por uma adaga afiada, mas aquele picto o incomodava mais. Sentia uma vontade irresistível de matá-lo.
— Vejo que a sua bravura conveniente só se faz presente em momentos como esse. Gostaria de saber onde estava quando os icenos precisaram da liderança de uma mulher, porque os outros clãs, inclusive o seu, se eximia do conflito. – falou o oficial sem desviar o olhar, colocando nele todo o ódio que sentia.
Algol cerrou os dentes. O romano falava de Boadicéa, a rainha vermelha, uma guerreira formidável que combatera os romanos em repúdio a traição dos mesmos à aliança que seu marido fizera, anos antes. Como ele ousava fazê-lo parecer um covarde?
— Você não sabe do que está falando. – disse o picto, porém, antes que ele continuasse, Albafica se interpôs entre ele e Minos.
— Não estamos aqui para medir forças, nem trocar ofensas.
Minos não respondeu. Fitou Albafica com uma intensidade que mesclava ira e outro sentimento obscuro até para si mesmo. Então, após tensos segundos, o oficial se pronunciou:
— Cuidado, druida. Existe uma linha tênue entre orgulho e desrespeito. É bom que saiba muito bem o que faz e com quem se alia.
Ditas as palavras, Minos voltou-se para os demais:
— Agradeço o jantar. Amanhã cedo, o tribuno Radamanthys estará recebendo as cotas dos impostos devidos a Roma e eu estarei rumando para Coria.
Foi neste momento que um dos presentes se manifestou:
— Oficial Minos, por favor, interceda por nós junto ao tribuno. Os impostos estão muito altos. A quantidade de cereais solicitada ficou prejudicada com o excesso de chuvas e não teremos alimentos para os nossos filhos se tivermos que pagar o que Roma exige!
Minos olhou para Albafica e sorriu. Sim, ele tinha autoridade para fazê-lo. Era para isso que fora enviado, para impedir qualquer levante entre as tribos, gerenciar a reconstrução de Coria e fortalecer a autoridade de Roma na Bretanha.
— Peça ajuda ao seu druida e ao... picto, já que ambos são tão autossuficientes. – falou com desdém.
Assim que terminou, Minos saudou Bridget e deixou a casa. Todos permaneceram quietos, como se estivessem petrificados, até Algol elevar a voz num último insulto:
— Eu vou matar esse porco romano!
— Você já fez o bastante. – disse Bridget com um tom que denotava cansaço.
Albafica sentiu o olhar de reprovação sobre si. Aquele oficial romano era diferente dos outros que haviam estado ali. A despeito da arrogância própria dos romanos, ele era um exímio estrategista e liderava uma das legiões mais famosas de Roma, a Fulminata como fora nomeada por César. O estandarte, junto da águia, exibia o raio e o trovão, uma combinação das mais terríveis e belas da natureza.
E Minos parecia ter aquelas duas forças dentro de si, como se ambas fizessem parte da sua natureza e personalidade. Para os celtas, o raio era personificado por Taranis que, ao atingir o Carvalho unia o céu e a terra, transformando os pedaços do tronco fulminado em poderosos amuletos de proteção. E quem os protegeria daquele romano, se esta mesma força residia nele?
— Nós daremos um jeito. – disse o jovem.
— Que jeito? Vocês dois ofenderam um oficial romano nesta casa! Sorte eu ter pedido proteção antes que vocês pusessem tudo a perder. Mas, não pensem que aquele homem esquecerá esta afronta. – disse Bridget.
— Isso mesmo! Agora seremos penalizados. – disse outro.
— E porque temos que nos submeter? Vamos matar este porco e toda a sua corja!- vociferou Algol.
O olhar de Bridget recaiu fulminante sobre o jovem picto.
— Se dependermos de você, estaremos mortos na próxima estação! Quando irá aprender que não podemos usar de força bruta contra os romanos? Quantos precisarão morrer para que isso entre na sua cabeça pequena?
— Não somos fracos, apenas desunidos. E essa sua fala mostra isso. Vou provar que estou certo e vou matar aquele oficial! – falou o picto fazendo menção de se retirar.
Albafica acompanhou-o, sentindo- se cansado. O céu, antes estrelado, agora estava coberto por densas nuvens, anunciando que logo choveria.
— Pode pernoitar aqui, se quiser. – disse o jovem druida.
Algol voltou-se para Albafica com um brilho diferente nos olhos claros e, sem que o jovem druida pudesse impedir, beijou-o nos lábios. O impacto daquele ato fez Albafica recuar com o cenho franzido, enquanto o picto sorria.
— Sempre desejei fazer isso... Eu o desejo, Alba.
A confissão daquele que era seu amigo e o beijo que ele lhe dera, fez Albafica refletir sobre si mesmo.Sempre tivera estima e amizade por Algol, porém jamais sentira outra coisa senão amizade e lealdade. O encontro dos lábios fora algo insípido, enquanto o toque do romano em sua coxa o desestabilizara de tal modo que todo o seu corpo estremecera. Havia algo de errado consigo!
— Algol, sempre fomos amigos e é o que seremos para sempre. Eu não sinto desejo por você.
— Você aprenderá... – disse Algol se aproximando, novamente.
— Não. Por favor, não insista com isso. – falou Albafica impedindo-o de tocá-lo.
O jovem picto deu um meio sorriso e se afastou.
— Preciso ir. Voltaremos ao assunto depois que nos livrarmos dos romanos. Terá notícias minhas.
Albafica tentou sorrir, mas sua expressão parecia mais uma careta. Quando Algol sumiu na escuridão, ele retornou para o lar que estava silencioso e sem vida, assim como o braseiro apagado e repleto de cinzas frias.
Os trovões ressoaram, ao longe e logo, entre raios e vento forte, a chuva desabou. Na penumbra de seu quarto, Albafica jazia em um catre de peles macias. Com os olhos abertos e fixo no teto, sentia-se apreensivo. E, embora já tivesse se passado horas depois do confronto com o oficial romano, ainda tinha vívido em sua mente o olhar que ele lhe lançara e o tom ao chamá-lo de druida.
Sua vó e sua mãe já haviam se recolhido e nada lhe disseram. Ele teria que achar uma solução para o problema que criara e o faria, nem que isto lhe custasse humilhar-se.
Fechou os olhos e concentrou-se no som da chuva caindo. A tempestade parecia uma extensão de seus conflitos interiores e, logo, os dois pareciam um só. Cedendo ao cansaço físico e emocional, ele adormeceu...
De repente, viu-se aos pés do grande e velho carvalho que resistia ao vento com seus galhos frondosos. Um raio rasgou o céu, fulminando um dos seus galhos e a luz revelou a face do oficial romano, olhando-o com uma luxúria desconcertante.
Albafica sentiu os joelhos tremerem... Minos parecia fazer parte do trovão e do raio, se aproximando dele sem que pudesse recuar. A boca do oficial desceu sobre a sua e, diferente do beijo de Algol, o que ele sentiu foi seu sangue ferver, como se estivesse tomado por uma febre intensa.
Um arrepio subia pela base da espinha, enquanto o romano tocava-lhe a língua e descia a mão até seu sexo. Neste momento, enquanto sentia um prazer desesperador, um trovão ensurdecedor rompeu o ar, desfazendo o rosto de Minos e tragando-o para fora daquela voragem...
O jovem druida acordou trêmulo e suado. O vento forte uivava e trovões pareciam rugir tão perto que foram capazes de despertá-lo do sono profundo.
Albafica sentiu seu corpo latejar. Uma ereção dolorida se formara e ele praguejou, desestabilizado com aquele sonho terrível e com as reações que seu corpo desconhecia.
Levantou-se de imediato e, sem pensar, deixou a casa, se permitindo ser açoitado pela chuva forte. Os pingos de água batiam em seu rosto, chicoteando-o. Com o coração apertado e a mente confusa, tudo o que Albafica queria era compreender o que estava acontecendo consigo. Ele elevou a cabeça e gritou até sentir a garganta doer. Depois se deixou cair de joelhos e implorou que os deuses acabassem com a sua loucura.
0000****0000****0000
Minos estava tão irritado que não fora para a casa de imediato. Descera do cavalo e adentrara o casebre utilizado como o lugar de diversão para os soldados. Ali se podia beber e ser distraído em troca de algumas moedas de ouro.
Tinha que pensar no que faria dali para frente. A afronta de Albafica não podia ficar impune, ele precisava aprender que medir forças com um oficial romano, era o mesmo que afrontar Roma, ou seja, uma temeridade a ser evitada.
No entanto, surpreendia-se consigo ao admirar a rebeldia do jovem druida. Diferente da avó, que se desmanchava em falsos agrados, ele não fazia questão de esconder o que sentia e pensava a respeito do domínio romano. Isso era um problema, mas também mostrava que o druida não era dissimulado como os demais.
Já havia lutado e convivido com toda a espécie de homem. Alguns escondiam o que pensavam para não desagradá-lo ou por temê-lo. Outros agiam falsamente, elogiando pela frente, enquanto conspiravam pelas costas. Roma era um lugar onde se podia aprender muito sobre poder e corrupção e este aprendizado o tornara forte e senhor do seu destino.
A risada de três mulheres que, sentavam no colo dos soldados e deixavam-nos tocá-las em seus seios fartos, fez Minos interromper seus pensamentos. O jovem a sua frente olhava-o, insistentemente. Tinha cabelos escuros e dentes bonitos. Com um meio sorriso, ele se aproximou com a túnica aberta deixando à mostra o peito liso e sem pelos.
— Soube que os romanos apreciam um dhá biotáille... Se quiser, posso agradá-lo por três moedas de ouro. – disse o jovem, olhando o oficial romano com interesse.
Minos elevou uma sobrancelha.
— E o que significa um dhá biotáille?
O jovem sorriu.
— Alguém capaz de servir como homem e como mulher.
Ao responder, o jovem virou de costas, exibindo as nádegas apertadas sob a calça justa. Tinha um belo corpo e usava roupas surradas, porém limpas.
Minos analisou-o, admitindo que já estava na hora de acabar com aquela abstinência sexual. Talvez, depois de foder pudesse pensar melhor sobre a estratégia a ser seguida.
— Como se chama, dhá biotáille?
— Aiacos.
Largando a pequena ânfora de vinho, no qual bebia no gargalo, Minos fez sinal para que o jovem o acompanhasse. Nesse instante, uma chuva forte desabou, acabando com os planos do oficial de fodê-lo atrás do casebre.
Grande parte dos romanos não se importava de foder em público, os bacanais se constituíam em um costume considerado muito salutar. Ele, porém, já tinha esgotado a sua cota nesta prática. As orgias e o excesso de comida e bebida já não eram tão atraentes como no passado.
— Creio que vai ficar para outra vez. – disse o oficial. – Vamos entrar.
O jovem olhou-o, decepcionado.
— Não me importo de fazer na frente dos outros. – disse ele pegando a mão do romano.
— Mas, eu me importo.
Ditas as palavras, Minos desvencilhou-se do jovem notando seu descontentamento.
— Bem, já que terei de esperar passar esse aguaceiro, façamos outro negócio. – disse o oficial.
— Que negócio? – perguntou o jovem, entusiasmado.
— Quero que me conte tudo o que sabe sobre Albafica, o druida.
— O que quer saber sobre ele?
— Tudo. Conte-me o que sabe e, se for relevante para mim, ganhará três moedas de ouro.
Na manhã seguinte, havia um cheiro de terra molhada no ar, os arbustos e árvores verdejavam e as estradas estavam enlameadas, enquanto o sol brilhava contra o fundo azul do céu.
Minos despertou com dor de cabeça, havia bebido demais, enquanto ouvia o jovem contar-lhe sobre Albafica. Algumas coisas ele já sabia, mas o fato de ele ter sangue romano o surpreendeu, assim como o fato de o jovem jamais ter tido relações, seja com homens ou mulheres. Aiacos dissera que, sem que o próprio Albafica soubesse, era chamado de o druida virgem e que essa condição fazia com que alguns o temessem e acreditassem que ele não era humano.
Para retirar o torpor do corpo, Minos tomou um banho gelado e foi ter com Radamanthys antes de juntar-se a sua tropa e rumar até Coria.
— E então, como foi o jantar? – perguntou o tribuno.
— Até certa hora, agradável. Depois, péssimo.
— Conte-me com todos os detalhes.
O oficial relatou tudo, deixando Radamanthys intrigado. Ele não entendia a aversão de Albafica por Minos, assim como também estranhava a atitude fleumática do amigo. Orgulhoso, Minos jamais deixava passar uma ofensa, mas parecia que com o jovem druida, era diferente.
— O que pretende fazer? – questionou Radamanthys.
— Tenho certeza que Albafica o procurará.
— E?
Minos sorriu, maquiavélico.
— Você o receberá e o mandará para mim. Veremos até onde vai o orgulho deste druida.
— E se ele não ceder como você espera?
— Então ele sentirá o peso da mão de Roma.
0000****0000****0000
Albafica acordou cedo e deixou a casa. Sua mãe e sua avó ainda dormiam e ele não fez questão de acordá-las. Pediu a um dos servos que as avisasse que ele saíra e tomou o rumo da casa do tribuno Radamanthys. Nunca o havia visitado sem ser chamado, mas a situação exigia uma ação de sua parte.
O amplo saguão da casa do tribuno era amplo, com móveis, tapetes exóticos e peças de arte muito diferente do que se encontraria em uma casa celta. Albafica observava a tudo, desde as pinturas nas paredes que mostravam cenas de caça e do cotidiano dos nobres romanos, às colunas estranhas que deixavam aquela construção bastante alta.
Após meia hora, Radamanthys surgiu e pediu que Albafica acompanhasse até um pátio interno onde havia um jardim bem cuidado, cheio de flores e plantas exóticas. Esculturas que mostravam o corpo nu e perfeito de homens e mulheres entremeavam os caminhos no jardim até revelar uma fonte de mármore com água cristalina.
Embora não compreendesse a ótica romana de reproduzir de forma artificial o que podia ser encontrado abundantemente na natureza, Albafica admirou a capacidade de criar e administrar toda aquela estrutura.
— Por favor, sente-se. – disse o tribuno apontando para um banco de pedra junto de uma roseira branca.
Albafica obedeceu e Radamanthys deu-se conta que aquele jovem estava cada vez mais belo e, portava-se com uma timidez que lhe acrescentava um charme especial.
Assim que os dois se sentaram, duas escravas vieram ao seu encontro trazendo uma bandeja com frutas, vinho e queijo. Radamanthys serviu-se de vinho e ofereceu uma taça a Albafica que aceitou, mas bebeu, apenas, um pequeno gole.
— Então, o que o traz a minha casa? – perguntou o romano.
— Já deve estar sabendo que tive um desentendimento com o oficial Minos. Recusei a proteção dele e agora temo que ele revide sendo inflexível quanto à cobrança de impostos. Gostaria de pedir-lhe uma revisão destas taxas, tribuno Radamanthys.
Radamanthys franziu o cenho. Aquele jovem possuía uma crueza de princípios que o deixava transparente a quem o conhecia. Como alguém podia ser tão direto e tão... inocente, ao mesmo tempo?
— Há de compreender que uma decisão deste porte não pode ser tomada sem a opinião de Minos de Griffon. Ele veio consolidar a política de Roma e eu não posso desconsiderá-lo tomando decisões sem o seu aval.
— Ele recusará se eu pedir. Posso, ao menos, pedir que interceda?
— E porque eu faria isso?
— Porque não pretendo mendigar e sim fazer uma troca. Podemos fornecer outro tipo de serviço, algo que seja vantajoso para Roma e, ao mesmo tempo, não nos mate de fome.
Os olhos dourados do tribuno brilharam.
— E o que você sugere?
— Ferraduras para os cavalos. – respondeu Albafica.
— Nada de espadas e lanças?
— Temos uma tradição em proteger os animais e podemos prolongar a vida útil dos seus com ferraduras para proteger suas patas. Cavalos de batalha são tão ou mais importantes que armas.
Radamanthys sorriu, analisando o jovem druida. Sim, ele podia ser tímido, mas era de uma inteligência superior, do tipo profunda e silenciosa.
— Pois bem, falarei sobre a sua proposta com o oficial Minos.
— Eu agradeço. – disse Albafica.
O tribuno estendeu-lhe a mão, recebendo um aperto forte que o fez sorrir, outra vez. Quando ambos desfizeram o contato, passadas forte denunciaram a chegada de alguém. Era Minos adentrando a casa com o ombro encharcado de sangue. As escravas se alvoroçaram, enquanto ele praguejava e continuava caminhando a passos largos.
Radamanthys e Albafica o olharam, ao mesmo tempo e o tribuno adiantou-se, indo ao encontro do amigo.
— Está ferido? O que aconteceu?
Minos deu-se conta da presença do tribuno e do druida. Seu olhar recaiu sobre Albafica que parecia uma das belas esculturas do jardim. Se não fosse a situação delicada, estaria deliciado em saber que sua previsão se concretizara e que o druida tivera que engolir o seu orgulho.
— Sofremos um ataque próximo à Coria. O bosque próximo à entrada da cidade escondia rebeldes e sofremos uma saraivada de flechas. Mas, passada a surpresa, dominamos o inimigo e deixamos os corpos empalados e expostos como aviso. Os soldados que foram feridos estão sendo tratados. Isso é, apenas, um corte superficial. – disse Minos retirando a túnica e olhando para o ombro.
— Um ataque? Assim, tão próximo? – questionou Radamanthys.
— Eram selvagens com a pele coberta de tinta azul escuro. Certamente, estes não a usavam, apenas, como adorno, embora eu possa estar sendo ignorante, não? – respondeu o oficial encarando Albafica.
O jovem druida ficou olhando para o torso atlético de Minos e sua boca secou. Havia um corte no ombro e o sangue rubro escorria em um tom vivo. Quando as escravas trouxeram água quente e panos limpos, Albafica as dispensou e ele mesmo foi limpar o ferimento de Minos, para surpresa do oficial e do tribuno.
— O que pensa estar fazendo? – falou Minos.
— Fique quieto. Estou limpando o ferimento.
Radamanthys deu de ombros e Minos pegou o pulso de Albafica, impedindo-o de continuar. O oficial continuava sangrando e havia raiva em seus olhos violáceos.
— Veio conferir se o seu amiguinho fez um bom trabalho?
— Falou que usavam tinta azul escuro. É a marca dos caledônios. Os pictos usam azul claro ou vermelho. — falou Albafica sem demonstrar medo.
Mesmo irritado, Minos percebeu que o druida estava falando a verdade. Sentiu uma forte fisgada no braço esquerdo, cuja mão apertava o pulso de Albafica e franziu o cenho. Sentou-se em um divã e suspirou.
O jovem druida aproximou-se, novamente, e começou a limpar o ferimento. Após fazê-lo, buscou a bolsinha de couro que sempre trazia por dentro da túnica e retirou um pequeno punhado de musgo. Cuspiu nele e misturou-o até virar uma pasta cinza-esverdeada. Rasgou uma tira de tecido, depositando a pasta na mesma e, em seguida, atando-a no ferimento de Minos.
— Deixe dois dias sem molhar e procure não mover muito este braço.
O oficial olhou para Albafica e, de repente, começou a enxergar tudo duplo. Uma forte pressão na cabeça e enjoo atacaram-no, ao mesmo tempo.
— O- O que você f-fez? – balbuciou Minos, tentando se levantar e caindo sobre o divã.
Albafica olhou para Radamanthys e, em seguida para o oficial. Sua mente trabalhou rápido, pois aquele ferimento não era tão profundo ao ponto de fazer um homem forte como Minos, desmaiar. De imediato percebeu o que acontecera.
— Rápido, acho que ele foi envenenado! – gritou o druida.
Fale com o autor