A ROSA CELTA
2 Capítulo 1 - INIMIGO MEU...
Notas iniciais

Alanna estava tão perplexa quanto o filho. Como sua mãe podia dizer aquilo com toda a calma e naturalidade?
— Mãe, a senhora não pode...
— Não posso o quê? Ser a única realista neste clã?
Os olhos azuis de Alanna estavam arregalados quando ela encarou a mãe, não encontrando nenhum resquício de arrependimento ou hesitação. O ambiente pareceu ficar mais denso e quente, quase sufocante.
— Realista? Ser realista é sugerir que seu neto se deite com um homem?
Bridget olhou para o fogo central que começava a fenecer. Em seguida, suspirou e tornou a fitar Alanna que mantinha uma expressão desesperada no rosto mignon.
— Você não enxerga além das suas emoções, Alanna. Por acaso, você acha que seu filho não manteve nenhuma relação com mulheres, até hoje, por timidez? Acha natural que um jovem de 19 anos se mantenha virgem?É tão claro como a água que o rapaz nasceu dhá biotáille e está na hora de usar seu dom! Você faz questão de não enxergar o óbvio! Aliás, foi essa cegueira que a conduziu para a tragédia.
Ouvir aquilo de sua mãe sem nenhuma compaixão fez Alanna sentir-se frágil e abandonada, mais uma vez. A tragédia a qual sua mãe se referia fora o estupro que sofrera pelo homem por quem se apaixonara, Marcus Vinícius, o belo soldado romano que a fizera sentir-se especial e desejada.
Jovem demais para perceber que ele só almejava seduzi-la, ela permitira que ele se aproximasse e acreditou que ele jamais se comportaria como um canalha. Quando ele a beijou com ardor, ela correspondeu, imersa no romantismo juvenil e em sua inexperiência. Então, Marcus tornou-se mais ousado e, quando ela pediu que parasse, ele mudou, tornando-se violento e possuindo-a contra a sua vontade.
Quando tudo terminou, ele ainda disse que a culpa era dela, porque ela o tinha provocado com a sua “falsa” inocência.
Ela ainda podia sentir as mãos calejadas apertando-a com força, a boca forçando a sua, o membro rijo machucando-a, ao ponto de deixá-la sangrando por dias e, finalmente, grávida...
Albafica olhou para sua mãe, vendo-a estremecer e conter as lágrimas. Uma raiva intensa despertou-o do silêncio que até então o fizera ouvir aquelas barbaridades de sua avó.
— Não quero ouvir mais nada sobre este assunto! Não serei seu instrumento, nem de ninguém! – disse Albafica olhando sua avó bem dentro dos olhos.
— Você não tem escolha, meu neto. Sua missão já começou!
O jovem druida não respondeu, apenas demonstrou sua indignação e deixou a avó sozinha. Saiu a passos largos, tomado por uma dor profunda e uma raiva, igualmente potente.
Em sua mente, as palavras duras de Bridget ecoavam como se a voz dela o tivesse enfeitiçado. Segundo ela, ele nascera um dhá biotáille ou dois espíritos. Isso significava que ele possuía as duas naturezas, a masculina e a feminina, em igualdade de força e poder. Neste aspecto, ela estava certa e ele o sabia. Não se sentia atraído pelas mulheres e nem fora tocado pelo desejo erótico como via acontecer com os demais jovens da sua idade.
Muitos dhá biotáille passaram a se prostituir, após o domínio e isso despertou-lhe um incômodo, pois, na cultura celta, as experiências e vivências sexuais não possuíam a conotação sórdida e perversa como via acontecer entre os romanos.
Não conseguia acreditar que sua vó lhe fizera tal proposta, ser um báid mhóir do oficial romano!
Rugonis observou de longe, vendo a aproximação de seu pupilo. O sol já havia se posto e uma grande lua cheia começava a despontar no horizonte. Sabia que algo tinha acontecido ao seu aprendiz somente pelo jeito de andar. Parecia que Albafica furava o chão com seus passos.
As tochas foram acesas em volta da arena e alguns guerreiros ainda treinavam em alvos de palha para aguçar a visão.
— Veio treinar a essa hora? – questionou o mestre de combate, já que Albafica sempre preferia treinar pela manhã.
Albafica o encarou e Rugonis não disse mais nada. Simplesmente, pegou a claíomh de dois gumes e atirou na direção de seu pupilo que, em completo silêncio, assumiu a posição de combate e os dois lutaram por meia hora.
O suor abundante molhava as roupas e, embora Rugonis fosse mais agressivo, Albafica se recusava a recuar e atacava com força até que, num acordo implícito e tão silencioso quanto o início da luta, ambos abaixaram as duas claimhte e inclinaram a cabeça um para o outro, reconhecendo a força e bravura do adversário.
— Quer falar agora sobre o que aconteceu?
— Porque acha que algo aconteceu? – desconversou Albafica, envergonhado de tudo o que havia passado junto da família.
— Essa expressão de raiva em seus olhos não é natural.
— Não foi nada, apenas preciso de um pouco de exercício. – disse o jovem dando de ombros.
Rugonis não insistiu, mas nunca tinha visto aquele lampejo de infelicidade nos olhos de Albafica. O jovem era quieto, sério, mas sempre altivo e pronto a cumprir seus deveres. Parecia que ele travava uma luta interna que o estava dilacerando.
— Tome. – disse o ruivo, estendendo um pedaço de tecido de algodão para seu pupilo. – Se seque e venha comigo, vamos beber um pouco de hidromel.
Albafica secou o rosto e inspirou fundo, enquanto Rugonis também limpava o suor do rosto, peito e braços.
— Obrigado, mestre, mas tenho de voltar. – disse o jovem. Não adiantava fugir, tinha de enfrentar sua avó e dar um basta naquela ideia louca.
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Refeito, após o banho, Minos recebeu uma mensagem. Ele sorriu ao tomar conhecimento do convite para jantar e de quem a enviara.
Decidiu vestir-se com esmero, escolhendo uma túnica branca curta, bordada em ouro na bainha e nas mangas, deixando seu corpo forte e esguio em evidência. Colocou uma corrente de ouro que trazia a insígnia identificando-o como oficial superior, um cinturão de prata e um manto vermelho preso aos ombros por broches de ouro que lhe conferia imponência. Ordenou que polissem seu elmo e espada de modo a ressaltar-lhes o brilho e quando os recebeu, era como se o próprio deus Apolo houvesse colocado sua luz neles.
— Parece que a sua presença causou certo alvoroço. – disse Radamanthys ao saber da mensagem recebida por Minos. – Um convite assim, em cima da hora. Devem estar curiosos a seu respeito.
Minos sorriu.
— Também estou curioso.
Radamanthys estava sentado diante de uma ampla mesa de carvalho, examinando os despachos que seriam enviados ao governador. A sala estava iluminada por candeeiros e os papiros estavam organizados por ordem de importância. Ele os lia, enquanto falava com Minos e bebia uma taça de vinho com especiarias.
— Você levará sua tropa?
— Não vejo necessidade. Amanhã sim, faremos uma vistoria em toda a cidade. Irei com meus homens até Coria.
— Quase não sobrou nada da arquitetura original, após a cidade ser totalmente queimada. – disse Radamanthys.
Minos sabia e parte da sua missão ali era reestruturar o lugar segundo as regras de Roma. Coria fora destruída como exemplo. A rebeldia do rei dos Lopocares atraíra a reação de Roma e uma batalha sangrenta varreu parte do pequeno clã, servindo de exemplo para os demais. Também sabia que o clã dos Brigantes tinha parentes ligados por casamento com reminiscentes do clã rebelde e deveria investigar estas relações.
— Bem, deseje-me sorte. – disse Minos.
Elevando uma sobrancelha, o tribuno sorriu.
— Como disse Júlio César, Alea jacta est!
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De volta para casa, Albafica desviou do caminho e até a floresta, onde havia um grande carvalho. Junto dele, um altar de pedra usado nos rituais agora proibidos pelos romanos. Ele passou os dedos nos desenhos em alto relevo, o sol, a lua e as estrelas... Lembrou-se das oferendas e das danças. Fechou os olhos e pediu aos espíritos da floresta e do carvalho que lhe dessem força. Precisava dela e muito.
Ao retomar o caminho e aproximar-se de casa, Albafica notou que havia iluminação extra, aroma de carne assada e som de vozes altas. Entrou devagar, porém sua presença foi logo notada por sua vó.
— Albafica!
A voz de Bridget soou alta e grave. Todos os olhares se voltaram para o jovem que parecia contrariado com aquela gente toda em sua casa.
— Peço que perdoem o meu neto, ele não pode ser avisado a tempo, mas é claro que ele irá preparar-se para recebê-los como se deve. – completou, ela.
Albafica estava suado, com alguns fios de cabelo bagunçados e a túnica rústica apresentava alguns respingos de lama e poeira. No entanto, a mesma expressão altiva e séria permanecia em seu rosto, enquanto era o centro das atenções.
— Não creio que a minha presença seja necessária. – disse ele, enfrentando a avó e olhando para Minos, como se ele não existisse.
O modo como Albafica o olhou fez Minos tensionar o maxilar, embora não demonstrasse ter sido atingido pelo desprezo do jovem druida. Dessa vez, a arrogância daquele garoto não o divertiu. O olhar cheio de desdém era uma afronta a sua posição. Buscando as palavras certas, o oficial romano falou com um tom irônico:
— Eu e Albafica já nos encontramos antes... Creio que agora invertemos a situação. Antes, era eu que estava sujo e desgrenhado por recém ter chegado à Bretanha, após uma longa campanha militar. Isso só vem a confirmar que os deuses tiram os seus cochilos, não é mesmo? Agora... nem por isso, devemos desprezar a sua companhia, pois creio que a presença de um druida é fundamental para nos manter na linha.
Os presentes no salão riram e o ambiente pareceu ficar menos tenso.
— Oh, mas que bom! – falou Bridget fitando Albafica que, por sua vez, buscou um difícil autocontrole para não criar uma situação delicada, naquele momento.
Nervosa, mas agindo rapidamente, Alanna foi ao encontro do filho, murmurando algo junto do ouvido do rapaz. Em seguida, os dois deixaram o salão.
Minutos mais tarde, Albafica retornou com os cabelos penteados em uma trança única e apertada. Trajava uma túnica azul clara e calça justa de lã marrom. Calçava botas de couro e usava o bracelete de ouro que o identificava como druida.
Minos sentiu uma fisgada no baixo ventre ao ver Albafica retornar. Apesar do jovem estar vestido de maneira simples, o oficial achou-o, ainda mais belo que qualquer um dos presentes, ricamente trajado. A abstinência de sexo estava cobrando seu preço. Apesar de tudo, sentia vontade de beijar aqueles lábios teimosos, desnudá-lo e lamber cada pedacinho daquele corpo antes de penetrá-lo fundo e prazerosamente...
Albafica ocupou seu lugar à mesa que fora arrumada em U. Não havia cadeiras e sim almofadas feitas de seda e couro. O aroma da carne assada se misturava aos pães de trigo e cevada, o carrageen, tradicional sopa de algas cozidas no leite de cabra, fumegava em meio aos cozidos de ervilha, amêndoa e outras iguarias.
Durante todo o banquete, Minos conversou, riu e disfarçou seu interesse pelo jovem druida, porém, quando podia, olhava-o discretamente e fantasiava algum momento erótico.
— A comida está do seu agrado? – indagou Bridget, perspicaz quanto ao interesse do romano por seu neto, porém, igualmente discreta.
— Sim. – respondeu Minos com um sorriso.
— Peço desculpas pelo meu neto. Albafica é inteligente e gentil, porém...
Minos encarou a anfitriã com interesse.
— Porém?
— Inexperiente com relação à diplomacia. Albafica passou a primeira fase da infância entre os Pictos e os Lopocares. Assim que nossa rainha Cartimandua aliou-se a Roma, mandamos trazê-lo de volta. Nosso sistema de educação prevê que um druida deve conhecer todas as facetas de seu povo, até decidir-se qual função exercerá.
— Gostaria de conversar com seu neto.
— Mas é claro! – disse Bridget chamando um servo e pedindo que levasse seu recado ao neto, do outro lado da mesa.
Quando Albafica recebeu o recado, sentiu o corpo tensionar de imediato. Não queria falar com aquele homem! Porque sua avó insistia nisso?
Alanna, que sentava junto do filho, cedeu lugar para que Minos viesse sentar-se e conversar. Quando o oficial romano se aproximou, Albafica não deixou de admirar-lhe a desenvoltura e beleza viril. Aquele homem parecia sempre à vontade, onde quer que estivesse. E tinha um olhar penetrante e um estranho magnetismo que o deixava pouco à vontade e irritado.
— Então, parece que nos reencontramos. Gostaria de conversar com você sobre a tribo que o abrigou, os Lopocares.
Com o cenho franzido, Albafica fitou-o bem dentro dos olhos.
— Porque eu? Certamente minha avó já deve ter lhe falado sobre eles.
— Conviveu com eles e deve ter relações entre os sobreviventes. Pretendo reerguer Coria e manter alguém de confiança responsável pela administração.
— Passei, somente parte da minha infância com eles. Depois, retornei para a minha família. Não posso ajudá-lo.
— Não pode ou não quer? – questionou Minos colocando a mão sobre a coxa de Albafica.
Perplexo com aquela intimidade, Albafica enrubesceu, sentindo a coxa queimar e o corpo todo estremecer. O que tinha aquele simples toque capaz de causar arrepios em sua pele e em suas entranhas?
— C-Como ousa? – falou com a voz abafada e trêmula, se afastando para o lado.
Minos sorriu, elevando as duas mãos.
— Perdão, foi apenas um gesto natural.
— Natural?! Ouse por a mão em mim, novamente, e vai perdê-la de forma natural, também.
O olhar agressivo do jovem druida só serviu para deixar Minos ainda mais excitado. Divertia-se com aquelas reações, porque parecia que somente ele era capaz de mexer com aquele rapaz.
Bridget notou o pequeno alvoroço e bateu palmas, atraindo a atenção para si.
— Atenção, todos! Hoje, em homenagem ao ilustre oficial Minos, teremos uma apresentação de música e dança.
Logo um pequeno grupo posicionou-se com estranhos instrumentos e a música começou. Um casal de jovens dançou, rodando e batendo com os pés e mãos. O clima ficou alegre e quente e todos aplaudiam e seguiam o ritmo da música com os pés.
Albafica permaneceu ereto e tenso ao lado de Minos que, por sua vez, aplaudia e sorria, como se nada tivesse acontecido. De repente, a porta central se abriu e um homem jovem com cabelos claros e longos adentrou o salão. Tinha a metade do rosto pintada de azul e usava um manto vermelho de lã e uma calça marrom justa ao corpo. As botas de couro eram altas e cobriam os joelhos.
O homem ignorou a todos e prostrou-se diante de Albafica.
— Meu senhor, vim vê-lo e colocar-me a sua disposição.
Minos franziu o cenho, olhando para Albafica que sorria como ele jamais havia visto. Sentiu uma irritação violenta e imediata, lamentando ter deixado a espada longe de si, pois aquele selvagem ousava mostrar-se com a pintura de guerra que já tinha sido relatada por aqueles que haviam enfrentado as tribos celtas.
Albafica se levantou e foi ao encontro do homem, ficando frente a ele e tocando-lhe os ombros, ainda com um sorriso nos lábios.
— Seja bem-vindo, Algol de Perseu! Sua presença é um bálsamo e uma alegria para mim.
No mesmo instante, o rosto de Bridget tornou-se tão rígido como uma pedra, assim como a expressão de Minos tornou-se ainda mais cruel.
O oficial não deixaria passar aquela afronta. Não ali!
— Está acontecendo algo aqui que eu não sei? – falou o oficial e sua voz ecoou por todo o salão.
Albafica virou-se para Minos e, em seu olhar havia um brilho de desafio.
— Algol é um grande amigo da tribo dos Pictos. Sua pintura corporal não significa que está em guerra e sim funciona como um adorno. A ignorância quanto aos nossos costumes faz pensar que tudo é uma ameaça, mas fique tranquilo, oficial. Algol veio em paz.
O oficial levantou-se da mesa. Já não havia mais risadas e a música cessara. Ele se aproximou dos dois, fitando-os com uma intensidade que foi devolvida pelo jovem picto. Ousado, Algol falou olhando Minos de cima a baixo:
— Vim colocar-me a serviço de um grande amigo, romano. Se eu quisesse matá-lo, não seria aqui, seria no campo de batalha.
Minos encarou-o. Algol era mais alto e corpulento, porém, isso não afetava o oficial romano. Estava tomado por uma ira visceral que fazia questão de manter sob rédea curta, pois ali não era o lugar para soltá-la como o faria o deus Marte. Fora da batalha, aprendera a usar da diplomacia e da autoridade, mas respondia às afrontas com punho de ferro. E mostraria isso àquele selvagem arrogante!
— Ouse me chamar de romano, novamente, e espetarei sua cabeça na entrada da cidade e levarei seu corpo de arrasto até a sua aldeia! – vociferou Minos com um tom frio na voz.
Nervosa com aquele imprevisto, Bridget agilmente foi até onde os três estavam, colocando-se entre eles.
— Senhores, não há motivo para uma contenda. Estamos em um jantar comemorativo em homenagem à chegada do oficial Minos Thracius de Griffon. E você, Algol, não precisa oferecer seus serviços para a proteção do meu neto. De hoje em diante, o oficial Minos nos honrará com a sua proteção.
Algol cerrou os dentes e Albafica fitou a vó com os olhos arregalados, como se ela tivesse feito uma revelação ainda mais terrível que aquela de horas atrás. Minos respirou calmamente e tornou a sorrir, vitorioso. Tomando a mão da senhora na sua, ele falou:
— Obrigado pela lealdade e honra, minha senhora. De hoje em diante, sua casa estará sob a minha proteção total.
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