A Questão de Delfos
10 Capítulo 9
Notas iniciais
8 de Agosto – 5 dias até as Idas de Agosto.
Nico havia ficado com o último turno de vigia. Eram 4h da manhã, ainda estava escuro e a previsão de partida deles era 7h. O semideus desembainhou a espada e sentou perto da vitrine. Tinha sido uma noite difícil, ele não tinha conseguido controlar os sonhos, acabou tendo pesadelos, a maioria tendo o Tártaro como cenário, cujas lembranças tinham sido reavivadas pelas Pligés.
Ele ficou sentado refletindo sobre os últimos dias. Gaia havia sido derrotada há pouco mais de uma semana, mas parecia que isso tinha ocorrido há meses. Muitas coisas aconteceram, principalmente em relação a ele. Nico estava se sentindo mal por ter tratado Will grosseiramente antes de dormir, não sabia por que tinha feito aquilo. Talvez por conta da conversa que Solace tivera com Afrodite mais cedo? O semideus desconfiava que as “dicas para a missão” não tinham sido o único tópico da conversa entre a deusa e o filho de Apolo. Conversas com Afrodite sempre, sempre tinham que ter o tópico “romântico” e isso, por algum motivo, deixava Nico desconfortável.
As horas passaram... Reyna levantou com os primeiros raios de sol, pegou um pacote aleatório de biscoito em uma prateleira, sentou ao lado de Nico e abriu a embalagem.
–Bom dia! – disse a semideusa, estendendo o pacote para Nico – Quer um?
Ele acenou que não e voltou a olhar para fora.
–Vai descansar um pouco antes de a gente sair. – recomendou ela.
–Por favor, não me peça para descansar também, só o Will já é o suficiente...
Ela abriu um pequeno sorriso.
–Ele consegue tirar você do sério, não é?
–Um pouco. Mas o problema não é ele. Todo mundo fica me pedindo para descansar, deitar um pouco, não me esforçar... Solace, Percy, Jason, você e até mesmo Annabeth!
–Só estamos preocupados com você, só isso. Acostume-se, amigos se preocupam uns com os outros.
Ela tinha razão. Entretanto Nico nunca tinha tido amigos antes (ou pelo menos ignorava os que tinha), então não estava acostumado a receber toda aquela atenção. Isso o tirava do sério e ao mesmo tempo o deixava triste, pois o fazia se lembrar de Bianca, que tinha sido a última pessoa a cuidar dele daquela maneira.
–Eu só queria que ele parasse um pouco. Está me deixando sufocado. Me sinto como se eu fosse um peso para missão, porque eu nunca posso fazer nada. Sempre tenho que ficar descansando.
–Bom dia, Sunshine! – disse Will, parecendo não ter ouvido a conversa – Espero que esteja com um humor melhor do que ontem.
Nico murmurou um pedido de desculpas, que não foi percebido pelo filho de Apolo, que passava novamente o relaxante muscular. Ele, então, pegou uma garrafa de suco e anunciou:
–Eu sei em que local de Mégara Ilítia está.
Nico desviou o olhar da frente do posto e olhou para o semideus, que bebia o suco em grandes e volumosos goles, fazendo um som alto – glup, glup, glup.
–Aonde? – perguntou Reyna, levantando uma das sobrancelhas.
–No templo dela! Mégara é uma das únicas três cidades-estados da Grécia Antiga em que Ilítia tinha um templo próprio. Fica ao lado de um templo de Hera, perto da entrada sul da cidade.
–Como você soube disso? – perguntou Nico, achando que algum outro olimpiano tinha auxiliado na missão. Porém, Will ergueu um guia turístico do Istmo de Corinto, onde ficavam localizadas as cidades de Corinto e Mégara. Ele passou o livro para os outros semideuses na página que mostrava um templo pequeno, mas muito bem conservado, rodeado de colunas e ao lado de ruínas do que parecia ser um templo maior.
–Se Afrodite falou que a deusa-parteira está em Mégara, acho que esse é o lugar onde devemos começar a procurá-la.
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Por sorte, a entrada mais próxima de Mégara era a entrada sul, eles não teriam que atravessar a cidade para chegar ao templo. Era bem cedo, ainda não havia um grande fluxo de turistas entre as ruínas. O carro parou em frente a um templo bem conservado, tal qual no guia que Will tinha consultado no posto de gasolina. Os semideuses desceram, Nico pediu para Jules-Albert estacionar o carro por perto.
Era um templo pequeno, redondo, com teto abobadado e colunas ao redor. A porta tinha uns 4m de altura e estava aberta, para chegar até ela era necessário subir uma escada de cinco degraus. Era feito de mármore (como quase tudo na Grécia), alguns pontos estavam rachados e duas colunas, caídas. Ao lado, um templo em ruínas se espalhava por uma área dez vezes maior, era o templo de Hera.
O grupo observou Jules-Albert se afastar e assim que sumiu de vista, um grito de dor saiu de dentro do templo. Eles sacaram suas armas e subiram correndo as escadas da construção.
–Pelos Deuses! – disse Reyna ao ver a cena. No centro do templo havia um tablado de pedra, onde uma mulher, ou melhor, uma deusa estava deitada, com as pernas dobradas. Ela parecia exausta. O chão estava manchado de dourado, Icor, o sangue dos Deuses. Ilítia segurava uma pequena trouxa de pano que se mexia.
Os Semideuses tinham acabado de flagrar o nascimento de mais um deles, um pequeno Semideus, filho de...
–Pelas barbas de Zeus! – disse Will ao perceber quem estava deitada na mesa. – Você não estava grávida ontem...
Afrodite se levantou parecendo já recuperada do parto.
–Você acha que eu andaria por aí carregando uma barriga enorme, querido? – disse sarcástica – Eu gosto da minha silhueta esguia.
Ilítia olhava assustada para o grupo de jovens, com o bebê no colo.
–Oh, minha senhora... Sinto muito...
–Pelo que sua tola? – ralhou Afrodite – Eu que os trouxe até aqui, só não contava com o péssimo timing deles. Pensava que chegariam mais tarde.
–Para que a senhora os trouxe para o meu templo?
–Precisamos saber onde a senhora escondeu o arquiteto Trofonius, o construtor de Delfos. – disse Nico.
–Eu não quero falar, eu não posso. Prometi que só revelaria sua posição para o senhor Apolo.
Ilítia correu com o bebê no colo até o outro lado do templo.
–Di immortales! Lá vai ela fugir de novo. – falou, decepcionada, Afrodite. – E levando minha filha dessa vez...
A deusa-parteira largou a filha de Afrodite em um berço de ouro, que estava no canto do templo. Um vendaval atingiu a construção, levando o berço embora e fazendo todos se abaixarem, na confusão Ilítia correu para uma das entradas secundárias, mas Afrodite bloqueou a saída.
–Por Zeus! Eu sou uma Olimpiana e ordeno que diga a localização do arquiteto!
–Minha senhora, eu não posso... Prometi revelar somente para o senhor Apolo.
–Lady Ilítia, sou Will, filho de Apolo. Estou liderando uma missão para resgatar Delfos e ajudar meu pai, mas isso só vai ser possível se encontrarmos o arquiteto.
Ilítia parou em estado de choque, olhou acusadoramente para Afrodite.
–Você está trabalhando para ela... Eu não acredito! Uma Olimpiana traindo seus pares.
A deusa do Amor olhou confusa e um tanto quanto inconformada com as acusações da deusa-menor.
–Bem que me avisaram que ela iria mandar pessoas para tentar me enganar. E eu descobri por fontes seguras que há um traidor no Olimpo que está auxiliando aquelazinha nos seus planos. Nunca imaginei que seria a senhora, lady Afrodite.
–Do que você está falando sua louca? – disse Afrodite pausadamente.
–Vocês nunca irão encontrar o arquiteto! Eu mesma o escondi depois de trocar a posição da Vélos Máti.
Nico franziu a testa. Vélos Máti significava a Flecha do Olho. Parece que a missão de Will tinha ficado mais difícil, cada uma das três flechas tinha um alvo específico, ele não poderia atirar a esmo, sem pensar. Ele trocou rápidos olhares com Will, que parecia ter chegado à mesma conclusão. Reyna, entretanto, percebeu outro ponto da fala de Ilítia.
–Foi você quem escondeu as flechas?
–Claro que sim, a pedido de uma mensageira de Apolo.
–Mas se as flechas foram escondidas a pedido de Apolo, porque nesse exato momento a flecha de Corinto está sendo guardada por Sísifo, um dos inimigos do Olimpo e aliado de Gaia? – gritou a deusa do Amor.
–Sísifo? – Ilítia pareceu ter sido atingida por uma rocha. – Vocês estão tentando me enganar! Claro que não, Selene disse claramente que a flecha de Corinto estava sendo protegida pelas Caçadoras de Ártemis, mas que a de Delos estava desprotegida demais e tinha que ser levada para a grande cidade do Oeste.
Selene, aquele nome despertou alguma lembrança desconfortável em Nico, ele não tinha certeza se ela era uma amiga. Afrodite olhava irada para Ilítia, os semideuses conseguiam sentir o poder emanado da deusa, ela então explodiu:
–Ilítia sua estúpida! Delos é uma das poucas áreas da Grécia que estão sob controle Olimpiano! Selene era aliada de Gaia, não de Apolo! Ela tentou sumir com Hélio no verão do ano passado, se não fosse Percy e Annabeth sacrificarem seu encontro romântico, não sei o que poderia ter acontecido.
Nico então se lembrou da história, no dia do aniversário de dois meses de namoro de Percy e Annabeth, Selene sequestrou Hélio, que nada mais é do que o próprio Sol. Se eles não tivessem encontrado Hélio antes do amanhecer as consequências teriam sido terríveis.
Mais uma vez Ilítia pareceu ter sido pega de surpresa.
–Ela te enganou.
–Vocês é que estão tentando me enganar. Preciso avisar ao Olimpo sobre você lady Afrodite. – E dizendo isso, sumiu em uma nuvem de talco para bebê.
–Acho que vocês já têm as informações necessárias. – falou a deusa do Amor – Agora eu preciso voltar ao Olimpo e desfazer esse mal entendido... Ilítia me tira do sério.
Ela sumiu e o templo ficou insuportavelmente tomado pelo cheiro de Chanel nº5.
O grupo remanescente se entreolhou.
–O que acabou de acontecer aqui? – perguntou Will.
–Descobrimos várias informações importantes da missão. Primeiro, as flechas têm nomes, cada uma delas tem um alvo específico. – disse Nico.
–Como assim? – perguntou Reyna, que não fala nem entende grego.
–A flecha de Delos, que foi movida para “grande cidade do Oeste”, é a Vélos Máti, que eu tenho que acertar no olho de Píton. – explicou Will para a romana – Deve ter ainda a Vélos Stóma, que devo acertar na boca e a Vélos... Como é ventre em grego mesmo?
–Koiliá. – respondeu Nico – A Vélos Koiliá, que deve atingir o ventre de Píton. E essa é a ordem certa, olho, boca e ventre, não é?
–Sim, pelo menos foi nessa ordem que meu pai atirou em Píton. Vamos repetir para não ter erro.
–Outra coisa que descobrimos, a segunda flecha está perto do arquiteto Trofonius, no Oeste. – concluiu Reyna.
–E há alguém trabalhando junto com Píton... – lembrou Nico. – Como já tinha visto no meu sonho. Uma mulher perigosa, que duvido que seja Quione, como pensa Annabeth.
–Sim, quando Ilítia acusou Afrodite de estar trabalhando para alguém, ela não parecia estar falando de Píton e sim de outra deusa ou ser. – Will sentou em um banco perto de onde eles estavam.
–Vamos, temos que ir para Corinto. – Reyna marchou para fora do templo, junto com os outros dois semideuses.
–Vamos ver qual surpresa Sísifo está preparando dessa vez. – disse Nico, ao descer a escadaria, seguido de perto por Will.
Jules-Albert já os esperava, como um bom chofer, com as portas do carro abertas.
–Nos leve para Corinto, Jules. – ordenou o filho de Hades. O motorista-zumbi assentiu, estalando de leve a mandíbula.
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O sol recém surgia no horizonte, jogando seus primeiros raios sobre a cama de Percy, quando ele foi acordado por insistentes batidas na porta. Ele levantou meio zonzo, olhou para os lados, limpou a baba que escorria no queixo e murmurou:
–Ahhn?
Annabeth entrou, completamente vestida e parecendo já estar acordada a algum tempo.
–Se arrume, vamos partir para uma missão.
Essa frase foi equivalente a um mergulho no mar, Percy acordou instantaneamente e saiu desenfreado pelo Chalé 3 procurando coisas para a missão.
–Vamos ir ajudar o Nico e Will?
–Vamos ajudar Nico e Will sim, mas não vamos nos juntar a eles. Vamos descobrir informações. Eles estão preocupados com Delfos, nós vamos nos preocupar com Despina. Ela está armando contra o Olimpo, segundo o sonho de Nico. Nós dois iremos colher informações e ver como podemos impedi-la.
–Ah! Isso parece chato...
Annabeth revirou os olhos.
–Com o mundo do jeito que está Percy, pode ter certeza que entraremos em algumas batalhas com monstros.
O filho de Poseidon abriu um grande sorriso, que nem uma criança de 6 anos quando abre um presente e descobre que ganhou o que queria.
–Sr. D. conseguiu uma autorização do Conselho Olimpiano para nós termos uma conversinha com Quione. Ela talvez tenha alguma informação sobre Despina. Temos que ir para...
–Quebec?
–Não, eu estava errada. Quione está presa na Fortaleza de Éolo, junto com Bóreas.
Percy soltou um gemido de insatisfação.
–Éolo? Por quê? Ele vai tentar nos matar...
–Não vai. Somos enviados do Olimpo, não somos semideuses em missão.
–E isso muda alguma coisa? – perguntou exasperado.
Annabeth riu, enquanto ajudava a dobrar algumas camisetas.
–Temos que levar suprimentos, temos que estar preparados para seguir pistas.
–Que tipo de pistas?
–Que possam ajudar a deter Despina ou ajudar Will, Nico e Reyna.
Após terminarem de arrumar a mochila de Percy, eles seguiram para a Colina Meio-Sangue, onde Quíron esperava pacientemente em sua cadeira de rodas.
–Como vamos até a Fortaleza de Éolo?
–Bom... – disse Annabeth olhando para trás. – Se lembra da Biga Voadora? A que causou a disputa entre o Chalé de Ares e de Apolo?
–Sim... – disse Percy – Clarisse cedeu a carruagem para Will e seus irmãos no final da guerra.
–Exato. Acontece que eu pedi a biga emprestada para Will, para procurar por você no Grand Canyon, quando eu encontrei Jason, Piper e Leo. Só que na volta sofremos um acidente e a biga ficou destruída. Will ficou furioso e eu me comprometi a concertá-la para ele. Porém, com a guerra contra Gaia, a busca por você e tudo mais o projeto foi atrasando...
–Annabeth! – gritou uma voz. Os dois viraram, o queixo de Percy caiu.
Quatro pégasos carregavam uma carruagem novinha. Ao contrário da Biga, que era aberta na parte de trás, a carruagem tinha uma forma oval, sendo circundada completamente por anteparas de madeira e bronze celestial. Butch, o filho de Íris, conduzia a carruagem, confortavelmente sentado, em frente a uma central de controle (com GPS e outros aparelhos úteis). Tinha sido um dos últimos projetos de Leo, que teve que ser terminado pelos seus irmãos do Chalé 9.
–Bom... – continuou Annabeth – Depois de um tempo, pedi para fazerem algumas modificações e melhorias. Recebi o aviso que tinham terminado ontem à noite.
–Acho que descobri como vamos até o Colorado...
–A fortaleza não está mais em Pikes Peak, está em Miami. – Só faltou Percy dar cambalhotas de felicidade, Annabeth sabia que essa informação ia deixar o seu namorado feliz. – Éolo normalmente passa o mês de Agosto lá, por causa da temporada de furacões.
–Me mantenham informado. – pediu Quíron – Eu também entrarei em contato caso chegue alguma informação nova.
O casal subiu na carruagem nova, Butch explicou rapidamente os controles para Annabeth. Muitas coisas eram muito parecidas com o Argo II, como os controles de Nintendo Wii. O filho de Íris, então, se despediu e desceu, indo parar ao lado do Centauro.
–Oi chefe! – disse Blackjack, que era um dos quatro pégasos – Tem um torrão de açúcar aí?
–Oi, cara! Fico feliz que vai fazer essa viagem com a gente!
–Oi, Blackjack. – cumprimentou Annabeth. Blackjack resfolegou, fazendo uma reverência com a cabeça.
–Vamos lá Chefe?
–Ela que tá no comando. – respondeu, olhando para Annabeth.
A semideusa, então, apertou os comandos e os pégasos começaram a andar, puxando a carruagem, até que com um leve solavanco, as rodas deixaram de tocar o chão. Estavam voando, Percy então percebeu o perigo.
–Não se preocupe, Percy. Senhor Zeus vai permitir que você passe tranquilamente nos domínios dele. – falou Annabeth, parecendo ler seus pensamentos. – Vamos lá pessoal. Velocidade máxima!
Os pégasos aceleraram o galope e o bater das asas, a paisagem começou a ficar borrada ao redor da carruagem, Percy sentiu uma pressão em seu estômago. Tudo estava passando tão rápido que ele não conseguia distinguir onde estavam. Os computadores de bordo também não ajudavam, o pontinho que representava a posição deles no GPS passava pelo mapa de modo tão acelerado que não era possível ler os nomes das cidades. Passaram uns bons minutos nessa situação, que era somente um pouco mais agradável do que viajar nas sombras.
Annabeth então deu o comando para os pégasos pararem. A paisagem se tornou mais nítida, o Sol brilhou forte, fazendo Percy começar a sentir calor. Um inconfundível cheiro de mar tomou as narinas do semideus, fazendo-o pensar que seu pai estava à bordo. Ao olhar pela lateral, viu o mar bem azul das águas Caribenhas que banhavam Miami. E flutuando acima da cidade, completamente incompatível com a paisagem e, ainda assim, não parecendo chamar atenção dos mortais, estava a Fortaleza de Éolo.
A carruagem se aproximou cautelosa, por conta dos diversos objetos que começaram a voar por todos os lados. Pedaços de papeis, propagandas, cartas, tickets de estacionamento, dinheiro, pequenos objetos e até guarda-chuvas. Tudo o que se perde no vento em algum momento chega até as mãos de Éolo.
A fortaleza ficava acima de uma rocha lilás, do tamanho de um estádio, porém bem menor que o Olimpo. Uma grande muralha de bronze, coberta de tubos (por onde entravam os objetos perdidos), circundava toda a extensão da enorme pedra. Dentro havia uma enorme cidadela, rodeada de colunas gregas e coberta por um incontável número de satélites, antenas e parabólicas.
A entrada principal estava aberta e foi para lá que Annabeth apontou a carruagem. Pousaram bruscamente, fazendo os pégasos relincharem em protesto. Uma aurae, uma das assistentes de Éolo, se aproximou.
–Olá, bem-vindos. Senhor Éolo os aguarda ansiosamente.
–Que mudança de recepção... – murmurou Percy, levando uma cotovelada de Annabeth. Na última vez que eles vieram à Fortaleza de Éolo, no aniversário de dois meses de namoro, as auraes haviam cercado e desarmado os dois semideuses.
Caminharam por extensos corredores até entrar na antessala do estúdio onde Éolo apresentava seu programa “Tempo a cada doze minutos!”.
–Café, chá, biscoitos? – ofereceu a aurae.
–Não, obrigada.
–Por favor, entrem sem fazer barulho, estamos entrando no ar. – disse outra aurea, provavelmente a assistente pessoal de Éolo, que os esperava em uma porta.
Éolo estava já posicionado em frente a uma grande tela azul, com um grande fone de ouvido na cabeça e o pointer na mão direita. Uma dúzia de monitores mostrava o Senhor dos Ventos em frente a um grande mapa dos Estados Unidos com nuvens e “sóis” espalhados pelos estados americanos, indicando a previsão do tempo. As figuras trocavam a cada segundo. Uma voz vinda de alto-falantes anunciou:
–E agora, o Tempo a cada doze minutos! Eis o nosso homem do tempo do Canal do Tempo Olimpiano: Éolo! – Éolo sorriu para a câmera.
–Bom dia Olimpianos! Sou Éolo, o Senhor dos Ventos, com o Tempo a cada doze Minutos! Como é possível visualizar em nosso mapa, nós temos uma área de baixa pressão atmosférica na região do Golfo, trazendo fortes chuvas para Nova Orleans... Espere um pouco, Dionísio pediu para ter Sol em Nova Orleans e pediu o fim da área de baixa pressão, parece que vai haver um festival de jazz ao ar livre... Poseidon quer tempo aberto na Costa Oeste, com ventos fortes e constantes para favorecer um campeonato de surf. Mas Deméter pede chuva forte para o preparo para o plantio de trigo e ruibarbo. Então... Como é que fica? Poseidon ameaça lançar um grande furacão que acabará com as plantações da Costa Leste... Deméter cede, Sol e ventos fortes para a Costa Oeste.
Percy e Annabeth, ao contrário da primeira vez, não ficaram surpresos ao ver Éolo fazer 50 previsões para cada localidade. De repente Éolo ficou tenso e confuso.
–Há um pedido para intensas geadas em todas as regiões do mundo. – ao dizer isso, todos os “sóis” e nuvens da tela desapareceram, dando lugar a floquinhos de neve. Éolo franziu a testa. – Quem fez esse pedido? – perguntou para o nada. Quando obteve a resposta através do fone que usava, exclamou com os olhos arregalados:
–Pelas cuecas de Hades! Ela voltou... – O Senhor dos Ventos ficou pálido. – Senhores, teremos que interromper nossa programação. Voltamos em breve, porque tenho certeza que tudo mudará... – disse murcho, ao invés de enérgico, como sempre faz.
–PHTHINOPORON! – gritou Éolo, um vento gelado soprou e fez surgir uma bela mulher vestida com uma túnica cinza-gelo. O ambiente ficou frio. Percy passou os braços ao redor de Annabeth e a trouxe para perto de si. Phthinoporon era a Horae do Inverno, o espírito da natureza responsável pela estação gelada.
–Sim, senhor Éolo. – disse com uma voz fria, fumaça saiu de sua boca (como normalmente sai da nossa, quando está muito frio).
–Ela voltou. Despina... Ela voltou. – disse Éolo.
A Horae soltou um rosnado, mas sua expressão ficou impassível, como se estivesse congelada.
–Por isso viemos, senhor. – disse Annabeth.
–Ah! Vocês também voltaram... – finalmente percebendo os semideuses. – O casalzinho favorito de Afrodite. Creio que conseguiram achar Hélio aquele dia?
–Sim, senhor. Selene realmente era a culpada.
–Vocês vieram por causa de Despina?
–Sim, queremos conversar com Quione, já que ela foi quem deteve Despina na última vez, claro que com a ajuda dos senhores. Se também tiverem algumas informações...
–Algumas informações? Temos várias. E a mais importante delas: Despina fica mais poderosa quando as coisas estão fora do lugar. E o mundo inteiro está bagunçado por causa da Mãe Terra, ou seja...
–Despina está muito forte. – concluiu Annabeth.
–Muito forte e provavelmente tem um plano. – disse a Horae Phthinoporon.
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