A Questão de Delfos
14 Capítulo 13 – Reyna e o Primeiro Trabalho de Hércules
Notas iniciais
9 de Agosto – 4 dias até as Idas de Agosto.
Nico percebeu que algo estava errado quando o primeiro floco de neve caiu no para-brisa do carro, fazendo até mesmo Jules Albert ficar surpreso. O primeiro pensamento dos semideuses foi a misteriosa deusa menor que estava trabalhando com Píton. Ficaram tensos e atentos a qualquer aproximação estranha ao carro, que rumava rapidamente a Olímpia.
Quando o Motorista-Zumbi perdeu a entrada da estrada que levaria até a cidade onde aconteciam as Olímpiadas da Antiguidade, Nico realmente ficou muito preocupado.
–Jules?! – exclamou o Filho de Hades – O caminho para Olímpia era por ali...
O morto-vivo nem se abalou com os protestos de seu mestre.
–O que foi Nico? – perguntou Reyna.
–Jules Albert não está me respondendo!
–Peça para ele parar. – pediu Will.
O motorista estalou as mandíbulas.
–Como assim?! – questionou Nico que depois traduziu a resposta para os outros semideuses – Ele falou que estamos sendo esperados em outra cidade.
–Quem está nos esperando?
Mas Jules Albert não respondeu a Nico. Ele ficou calado até o final da viagem, quando descobriram o seu destino. Uma placa em grego dizia: Bem-Vindos a Nemeia.
–Nemeia... – disse Will – Não é essa a cidade onde Héracles matou o Le...
Ele não conseguiu terminar a frase. O carro foi arremessado para fora da estrada repentinamente, capotando três vezes antes de parar, de cabeça para baixo. O corpo de Nico doía, o braço de Jules Albert estava pendurado somente por um tendão meio apodrecido, Will gemia no banco de trás, enquanto Reyna já estava pegando sua lança e tentando sair do carro.
–Nico, você está bem? – perguntou o filho de Apolo.
–Sim. – respondeu, contrariado. Nico conseguiu soltar o cinto. – Jules, você está liberado.
O motorista saiu do carro, arrastando o braço e desapareceu na terra.
–O que aconteceu? – Will parecia um pouco desorientado.
–Fomos atingidos por algo.
Um rugido muito forte foi ouvido do lado de fora.
–Rápido! Temos que sair do carro. – gritou Reyna, já com metade do corpo para fora do carro – Está vazando gasolina, pode explodir a qualquer momento.
Nico conseguiu soltar o cinto de segurança e se arrastou até sair pela janela do motorista, puxando sua mochila junto. Will tentou fazer o mesmo pela janela de trás, mas não conseguiu.
–Minha perna está presa! – disse, fazendo força. Nico parou e olhou para trás.
–Pelos deuses! – exclamou ele ao ver o monstro que corria na direção do grupo. Um imenso leão dourado brilhante avançava rapidamente em direção ao carro capotado.
–Nico, tente soltar Will. Vou atrasar o leão ao máximo.
–Cuidado Reyna. Esse não é qualquer leão... Esse é o próprio Leão de Nemeia. Sua pele é impenetrável e suas garras mais afiadas que qualquer espada.
–Pode deixar! – ela contornou o carro e correu em direção ao monstro, que se aproximava rapidamente.
Nico se ajoelhou ao lado do carro. Will tentava puxar sua perna com as mãos.
–Não use seus poderes para me soltar, tá bom? Não precisa. Já estou conseguindo mover minha perna. Ela ficou presa no banco do motorista.
Eles ouviram um grito de Reyna. Nico levantou para ver se tudo estava bem. Reyna havia sido jogada no chão, mas logo se levantou dando dois mortais para trás.
–Temos que nos apressar, Reyna não vai conseguir segurar o Leão por muito tempo.
–Nico, tenta chegar o banco para frente.
O filho de Hades entrou novamente no carro e acionou a alavanca, puxando o banco para frente. Will gritou de dor. Nico parou.
–Continua, continua. – pediu com uma expressão de dor. Nico voltou a puxar o banco mais cuidadosamente. – Argh! Tá quase solta, me ajuda aqui Nico.
Nico saiu do carro novamente e puxou Will pelos braços, finalmente conseguindo soltar sua perna.
–Vai lá ajudar Reyna, já estou bem. – disse tentando se levantar, mas sem conseguir apoiar a perna direita no chão.
–Não vou deixar você perto do carro – resmungou Nico – Está vazando muita gasolina. Você não é o único que se preocupa com alguém.
–Bom saber que você se importa comigo. – falou Will, abrindo um pequeno sorriso.
–Vamos, vou deixar você em um lugar seguro. Perto daquela árvore está longe o suficiente.
Mais um rugido forte fez os garotos olharem em direção ao Leão de Nemeia. Reyna circulava o Leão, em posição de ataque, como haviam feito tantas vezes os gladiadores no Coliseu ao lutarem com leões normais para o divertimento do público e às vezes do próprio Imperador Romano.
O suor escorria pelo rosto da semideusa, enquanto ela pensava no que faria para derrotar o famoso Leão de Nemeia. Sua lança não adiantaria, nada conseguia perfurar a pele dourada do monstro. Sua memória trabalhava, tentando lembrar como Hércules havia derrotado o Leão, mas as aulas sobre monstros que havia tido na Legião teimavam em fugir de sua memória. Fez uma rápida oração para Belona, sua mãe, antes de investir mais uma vez em seu inimigo.
Reyna correu e saltou por cima do Leão de Nemeia. No momento em que seu salto atingiu o ápice, ela foi impelida contra o lombo do monstro por uma força invisível. O leão rugiu forte, enquanto corcoveava e pulava tentando arrancar a semideusa que se segurava com força, tentando montar o Leão de Nemeia como se fosse um touro de rodeio, com somente uma mão, já que na outra continuava a segurar sua lança. Entretanto Reyna levou um susto ao perceber que não segurava mais sua lança e sim um pesado manto de veludo roxo, parecido com a toga de Pretora que usava em Nova Roma.
–O Manto de Belona. O manto sagrado de minha mãe. – constatou em voz alta, finalmente lembrando como Hércules havia matado o monstro, ele havia asfixiado o leão com as próprias mãos. Lógico que Reyna, mesmo sendo uma excelente guerreira e muito forte, não tinha nem 10% da força de Hércules, considerando que ele havia desviado o curso de um rio com somente a força de seus braços e dominado Cérbero segurando as três cabeças, uma contra a outra, somente com suas mãos. Reyna nunca conseguiria sufocar o animal com as próprias mãos como fizera o herói, mas sua mãe havia lhe dado a arma perfeita: seu manto sagrado.
O tecido era mágico e impossível de ser rasgado. Reyna chegou para frente, tomando muito cuidado, pois o Leão de Nemeia ainda pulava, e virava a cabeça tentando alcançá-la. Em um movimento rápido, Reyna jogou o tecido para frente, com as pontas opostas firmemente enroladas em ambas as mãos, passando o manto pelo pescoço do monstro como uma coleira e puxando forte para trás. O Leão travou. Fez força para frente, tentando se desvencilhar do nó, se ergueu sobre as duas patas, fazendo Reyna quase ser jogada no chão, e de repente explodiu em uma nuvem de areia.
Uma garra do Leão de Nemeia caiu sobre o monte de areia. Era dourada, brilhante e muito afiada. Reyna a pegou e guardou em seu cinto.
–Pelos deuses Nico, não podia ter vindo um pouco mais rápido? – reclamou quando o filho de Hades finalmente se aproximou.
–Will estava com a perna muito machucada, não conseguia andar sozinho. Não podia deixá-lo perto do carro. Ele está naquela árvore, precisamos ver o que faremos agora. Estamos sem carro e fora da rota do nosso destino.
–Parece que seu chofer nos trouxe para uma armadilha Nico.
–Não. Isso eu tenho certeza. Jules Albert é plenamente confiável. Temos que ir a Nemeia, estamos perto da cidade. Alguém nos espera lá.
–De qualquer forma precisaremos ir a Nemeia, precisamos de um carro para Jules Albert dirigir, ou nunca chegaremos a tempo a Delfos, principalmente por que ainda temos que achar uma flecha e o arquiteto.
Quando se aproximaram da árvore ouviram um gemido de Will.
–Will? Está tudo bem?
–Acho que não. Posso ter quebrado meu tornozelo.
Reyna olhou preocupava para a perna do filho de Apolo, que estava extremamente inchada.
–Preciso dos suprimentos que estão na mala do carro, vou fazer uma tala. Nossa melhor opção é passarmos a noite aqui. Um de vocês pode ir até a cidade tentar alugar um carro... E Nico, é melhor não usarmos mais o seu motorista, ele nos atraiu para uma emboscada.
–Não atraiu não. – Nico defendeu um pouco irritado – Jules Albert nunca faria isso. Ele é servo de meu pai, nunca me... Nos colocaria em perigo. Se ele nos trouxe até aqui é porque tem algum motivo muito importante.
–O que Nico diz faz sentido, Will. – concordou Reyna – talvez seja melhor irmos até a cidade, se realmente tem alguém nos esperando aqui é lá que teremos mais chances de encontrá-lo.
–Eu não vou conseguir caminhar até a cidade agora. Somente daqui a algumas horas, se eu conseguir fazer uma tala.
–Vou ir pegar a sua mochi... – antes que Reyna conseguisse terminar a frase o carro explodiu. Nico e Reyna se jogaram no chão, por instinto. Se levantaram assustados.
–Oh Deuses! Obrigado pela ajuda... – reclamou Nico, sarcástico, para os céus.
–Agora mesmo que fica impossível eu chegar até a cidade. Preciso pelo menos de ambrosia ou néctar, e talvez, com sorte, possa caminhar amanhã. Nico, você tem algo em sua mochila?
Nico era o único que havia pego a mochila ao sair do carro, pois ela estava ao seus pés no banco da frente, Will e Reyna haviam colocado as deles no porta-malas.
–Tenho alguns pedaços de ambrosia e dois vidros de néctar.
–Acho que é o necessário para eu melhorar. Se tudo ocorrer como o planejado, meu tornozelo estará curado antes de chegarmos a Delfos. Se eu tivesse pegado minha mochila... Eu tinha um cataplasma que curaria em horas.
–Um carro parou na estrada. – Reyna chamou atenção. Se colocaram atrás dos arbustos, não queriam ser perturbados por mortais, que provavelmente iram querer leva-los a um hospital. Não tinham tempo para isso. Mas os semideuses ficaram surpresos com quem havia saído do carro.
–Srta. Dare, cuidado! – gritou o motorista, vestido em um terno – O carro pode explodir, está pegando fogo.
–Rápido, rápido. Temos que ver se não há feridos!
Rachel descia rapidamente o declive que tinha entre a estrada e o carro acidentado. A Oráculo do Acampamento vestia, a despeito da neve que insistia em cair, um leve vestido florido de verão e usava óculos escuros. Ela também parecia estar morena, suas sardas tinham praticamente desaparecido, como se tivesse pegado sol por muitos dias.
–Pelas cuecas de Hades! – disse Nico, sem acreditar no que estava vendo. – A Oráculo estava de férias!
–Na praia! – completou Will, com uma pontada de inveja.
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Percy estava somente a alguns metros da esquina, ele virou e se deparou com o seu medo mais profundo, o pior de seus pesadelos. Annabeth estava estirada no chão, imóvel, com um terrível ferimento na barriga.
–Annabeth! – gritou Percy, correndo. Ele se ajoelhou e colocou o corpo sem vida de sua namorada no colo. – Não, não, não! Fala comigo, por favor.
O filho de Poseidon acariciou de leve os cabelos loiros macios, ele chorava muito. Não havia o que fazer. Annabeth estava morta.
–Percy cuidado! – ele ouviu um grito estridente vindo do outro lado da rua, logo em seguida uma faca voou por cima de sua cabeça, acertando em cheio o ser que estava seguindo Percy. Icor, o sangue dos deuses, manchou a calçada e um uivo de dor pode ser ouvido por todo aquele bairro. Com o susto, Percy caiu para trás, soltando o corpo de Annabeth.
–Phobos! – disse ao constatar que o deus do Medo era o seu perseguidor. Ele então olhou para o outro lado da calçada para ver quem havia salvado sua vida. Seu coração praticamente falhou. Annabeth corria em sua direção, viva e muito preocupada.
–Ah, garota! – gritou Phobos, irritado e ao mesmo tempo decepcionado. – Você estragou minha brincadeira e ainda me acertou com uma faca. Você sabe com que está lidando, filha de Atena? Você é fácil de combater.
O deus ergueu as mãos e Annabeth parou no meio da rua aterrorizada.
–Percy! Aranhas... – falou com um gritinho fino.
–Pare com isso Phobos! – gritou raivoso, pegando a Contracorrente e avançando contra o deus do Medo.
–Ah! Que romântico! – caçoou ele, ao mesmo tempo que se defendia do ataque de Percy – Pena que minha mamãe está ocupada na Grécia, bem longe para não poder ajudar seu casalzinho preferido.
Phobos era filho de Ares com Afrodite, assim como seu irmão Deimos.
–Venci seu pai em um duelo quando nem sabia lutar com uma espada direito. O que acha que vai acontecer com você, Phobos, agora que eu tenho alguns anos de prática?
–Meu pai sabia que não podia te matar sem sofrer consequências terríveis. Zeus queria você vivo, para te destruir pessoalmente. Infelizmente você conseguiu provar que não tinha roubado o Raio Mestre, se você não tivesse devolvido o Raio teria sido muito mais divertido.
–Por que está nos atacando agora? – perguntou Annabeth, se colocando ao lado de Percy. – Está trabalhando para Despina?
O deus gargalhou, uma sensação terrível de medo subiu pelas gargantas dos semideuses.
–Vocês não sabem de nada, os próprios Olimpianos não sabem de nada... Parece que dessa vez finalmente o plano de derrubar Zeus e sua corja dará certo.
–O que você quis dizer com isso? Quem é que está conspirando contra o Olimpo?
–Não posso dizer. – disse soltando um risinho malicioso – Mas o seu poder faz Cronos e Gaia parecerem bebês recém-nascidos. Ops, falei demais! Agora terei que matar vocês...
O deus menor pulou em direção aos semideuses que desviaram. Milhares de aranhas surgiram dos bueiros e prédios ao redor, fazendo Annabeth titubear, Phobos aproveitou para atacá-la, mas Percy a defendeu.
–São apenas ilusões Annabeth. – falou, afastando a lâmina de Phobos da direção dela. Annabeth finalmente se mexeu, pulando por cima do deus do Medo e o acertando nas costas, enquanto ele lutava com Percy.
–Arghh! – gritou de dor, quando mais Icor se espalhava pelo chão. – Pensava que era filha de Athena, a deusa da guerra justa, garota. E até onde sei atacar um inimigo nas costas não é nada justo. Você está merecendo um castigo para aprender.
Ele apontou a mão para Annabeth. Ela gritou e se encolheu no chão. Percy não sabia o que Phobos estava fazendo Annabeth ver, mas tinha que fazê-lo parar logo. Provavelmente era algo relacionado ao Tártaro, pois logo a semideusa começou a gritar desesperadamente por Percy.
–E então, você não quer ir abraçá-la? – sugeriu maldosamente.
–Só depois de acabar com você!
As espadas se encontraram fazendo um grande estrondo.
–O que pensa em fazer comigo semideus? Não se esqueça que eu sou um deus imortal.
A raiva de Percy aumentou quando Annabeth começou a se debater e a chorar, ainda gritando por ele. Tudo o que o filho de Poseidon queria era correr e abraçá-la, dizer que estava tudo bem, mas antes tinha que derrotar o deus menor. A raiva crescia cada vez mais, fazendo Percy aumentar a intensidade dos ataques, conseguia sentir a pressão subindo em seu crânio. De repente um barulho de explosão surgiu do lago ao lado deles. Blocos e mais blocos de gelo foram lançados no ar, quando uma enorme coluna de água se ergueu e veio em direção a Phobos, atingindo o deus do Medo em cheio e o prendendo em um grande, turbulento e gelado cubo de água. Para completar, sem aviso nenhum, um raio atingiu o cubo de água eletrocutando o deus, que caiu no chão após ser libertado em uma forte cachoeira.
Percy ouviu um grande grupo se aproximando por trás dele, mas ainda prestava atenção em Phobos.
–Você tem amigos poderosos Jackson. Pode ter me derrotado agora, mas lembre-se que quando a Grande Noite finalmente chegar, meu poder fica muito mais forte, afinal a Noite é escura e cheia de terrores.
Phobos, então, desapareceu. Percy correu para o lado de Annabeth, que já parecia estar melhor, estava sentada sendo auxiliada por...
–Thalia?
–Eu mesma... – disse a Caçadora filha de Zeus. – E de nada por ter te ajudado a finalizar com o filho mimado de Ares.
–Ah! Obrigado pelo raio... – agradeceu. Logo depois se abaixou para falar com Annabeth – E você? Está bem?
–Melhor agora. Phobos é cruel, o estranho é que Deimos não estava com ele. Normalmente eles são inseparáveis.
–O importante é avisar lady Ártemis que Phobos trabalha para Despina. – disse Thalia.
–Ele não trabalha para Despina. – interrompeu Annabeth. – Phobos disse que ele e Despina trabalham para alguém muito poderoso, mais poderoso que Cronos e Gaia juntos.
–Ele também me falou algo muito estranho. – lembrou Percy – alguma coisa a ver com como ele vai ficar mais poderoso quando chegar a Grande Noite, ou algo do gênero.
Annabeth e Thalia se entreolharam.
–Isso precisa chegar nos ouvidos dos Olimpianos agora. – disse a Caçadora. – Vamos voltar para o nosso acampamento, lá irei mandar uma mensagem urgente para minha senhora.
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