Acordei no meio da madrugada enquanto me revirava na cama tentando achar uma posição confortável para dormir, como meu quarto estava quente e os lençóis estavam encharcados de suor, isso se mostrou ser algo mais difícil do que o esperado. Nem mesmo com o meu pequeno ventilador ligado eu conseguia respirar de tão abafado que estava. Levantei-me da cama com a intenção de pegar um copo d’água na cozinha que ficava no andar de baixo, fui andando lentamente em direção da porta de meu quarto e a abri aos poucos, só para ser atingido por um calor infernal e uma onda de fumaça que preencheu toda minha visão. A fumaça acertou em cheio meu rosto de forma que eu mal conseguia respirar, cai de joelhos pressionando a camisa de meu pijama contra a boca na tentativa de impedir que a fumaça de sufocasse. Engatinhei para fora do quarto ainda sem entender nada e encontrei minha mãe se arrastando em minha direção com dificuldade, ela deixava um rastro de sangue atrás de si e seu rosto estava repleto de queimaduras.

—Gray… Corra! Rápid… —Antes que ela conseguisse completar sua frase, o chão do corredor do segundo andar despencou em baixo dela e seu corpo sumiu no meio das chamas. A memória do rosto apavorado de minha mãe fora marcada em minha mente e lá permanece deste então.

Desesperado, corri ao meu quarto novamente e tentei abrir a janela que ficava logo acima de minha cama, mas ela estava emperrada há algumas semanas e eu não tinha força o suficiente para abri-la. Quanto mais a fumaça preenchia meu quarto, mas fraco eu me sentia. A parte de ferro da janela estava tão quente que eu sentia minhas mãos queimarem ao tocá-la, porém aquela era minha única saída, precisava abrir aquela janela de qualquer forma!

De repente, uma explosão de chamas ocorreu logo a minha frente e o fogo preencheu minha visão, me deixando inconsciente.

Senti um arrepio quando uma gota d’água caiu em minha nuca, meu corpo tremia com o frio do inverno e minha barriga roncava de fome. Abri meus olhos lentamente, estava deitado em um banco de madeira ao lado de uma grande arvore na praça central de Metal City. Estávamos no meio de Julho então o inverno estava com força total naquela manhã, nem mesmo os grossos galhos da arvore conseguiam parar a neve de cobrir parte de meu corpo. Eu estava deitado com uma mão em baixo de minha cabeça e outra no meio de minhas pernas, a única fonte de calor vinha do cachecol que eu usava como travesseiro e do Pokémon que dormia entre minhas pernas.

—Hey, Kuro. Acorde, precisamos encontrar algo para comer. — Disse para o Sneasel que dormia comigo conforme me sentava e tirava a neve de cima de mim. — Você viu o Kage?

Ele apenas apontou para o chão enquanto esfregava seus pequenos olhos com suas garras, olhei para minha sombra e vi o corpo de Haunter sair dela aos poucos com o mesmo olhar malicioso de sempre. Levantei-me pesadamente com uma baita dor de cabeça e acabei tropeçando em um homem que dormia encostado no banco. O corpo dele apenas caiu para o lado o fazendo bater a cabeça em uma garrafa de vodka vazia, não sabia se aquele morador de rua estava morto ou apenas bêbado, não me importava muito com aquilo pra falar a verdade.

Essa era a sétima noite seguida em que eu tinha aquele sonho, onde eu revivia os momentos em que minha antiga e confortável vida foi por água abaixo. Eu já tinha tido esse sonho muitas vezes antes, porém nunca tinha acontecido tão frequentemente como agora.

Sim, minha antiga casa foi destruída em um incêndio há muito tempo atrás. Desde então eu venho morando nas ruas, tentaram me colocar em um orfanato ou outro após já que meus pais morrerem no incêndio, mas eu não consegui me adaptar muito bem. Digamos que eu não consegui aprender a ser um membro produtivo da sociedade como se era esperado de mim. Então eu simplesmente fugi daqueles lugares e passei a me virar sozinho. Até hoje não conseguiram descobrir qual foi o motivo daquele incêndio ter ocorrido, dizem que pode ter ocorrido um curto-circuito na fiação da casa ou algo do tipo, na época eu era novo demais para me preocupar com o que causou as chamas, o trauma de ter perdido tudo em uma noite faz com que todo o resto do mundo simplesmente perca sua importância.

Caminhei pelas ruas de Metal City sem encontrar ninguém, julgando pela falta de movimentação da cidade e pelo grande numero de lojas fechadas imaginei que ainda fosse por volta de seis da manhã. Parei na frente da vitrine de uma loja de bebidas e observei minha situação… Que deplorável. A imagem que vi no reflexo da vitrine foi a de um garoto de 15 anos, um garoto muito magro de aproximadamente 1,75 de altura com olheiras profundas e um olhar morto. Seu cabelo era preto e cobria seu rosto, mas não era longo o suficiente para chegar a seus ombros, seus olhos eram pretos da mesma cor de sua blusa de moletom velha. Ele usava uma calça jeans desbotada e um par de tênis all-star de cano longo por cima da calça, além de um cachecol vermelho sangue que era sua única roupa em boas condições, provavelmente pelo fato dela ter sido roubada recentemente de alguma jovem desavisada da cidade grande.

Sua pele era pálida, mostrando sinais de anemia e ele era coberto de sujeira vinda de uma vida nas ruas. Suas mãos estavam cobertas por um par de luvas velhas, o objetivo era usar aquelas luvas para esconder suas mãos deformadas pelo acidente de sua infância, mas até mesmo aquela luva já estava velha e cheia de buracos na ponta dos dedos, revelando partes de suas mãos cobertas de queimaduras. Ao seu lado estavam seus dois companheiros Pokémon, um Sneasel que tinha aproximadamente meio metro de altura e um Haunter que era um pouco maior e flutuava logo ao seu lado. O Sneasel era chamado pelo nome de Kuro pelo seu “treinador” e o Haunter era chamado de Kage. O garoto tinha costume de dar apelidos em outras línguas às coisas que ele se apegava, provavelmente por algum senso doentio de nostalgia.

Decidi parar de me analisar na terceira pessoa e ir ao centro da cidade a procura de alguma forma de conseguir comida, Metal City era a maior cidade daquela região então o centro sempre era bem movimentado independente do horário. No centro da cidade existiam estabelecimentos de todo tipo, bares, restaurantes, empresas e até mesmo um ginásio Pokémon. Eu nunca entendi muito bem o conceito de batalhas Pokémon. Pokémons são criaturas com um potencial tão incrível, usar elas em batalhas só por diversão ou esporte é simplesmente um desperdício.

Andei até chegar a um pequeno bar que estava abrindo naquela hora, o dono era um velhinho gentil que vivia me dando sobras de comida de vez em quando, ele dizia que sabia sobre a tragédia que aconteceu com minha família e não gostava de ver uma criança como eu morando sozinho nas ruas. Eu não acreditava muito naquele papo, se ele realmente se importava comigo me daria muito mais do que pedaços de pão velho. Mas é claro que eu não iria reclamar, quando se mora nas ruas você fica agradecido por qualquer coisa.

—E ai, seu velho gaga. Tem algo pra gente hoje? — Disse com as mãos no bolso, Kuro ainda estava bem sonolento então ele estava sentado em meu ombro, se agarrando ao cachecol conforme eu falava. Kage apenas flutuava ao meu lado, eu já tinha me acostumado a sua presença ameaçadora, mas a maioria das pessoas passava longe quando viam um Haunter flutuando por ai. E não, eu não usava pokébolas. Eu não tinha dinheiro para comprá-las e não queria guardar meus Pokémons em uma bolinha daquele tamanho, eu sei que elas são muito mais confortáveis para o Pokémon do que dormir em bancos de madeiras ou ficar escondido em minha sombra enquanto dorme, mas eu também não gostava de ficar sozinho. Principalmente durante a noite. Então eu apenas usei um par de poké-bolas para capturar-los e desde então nunca mais usei elas, a não ser quando eles precisavam passar no centro Pokémon.

—Hoje não garoto, tem uns caras estranhos que passaram por aqui agora a pouco, eles falaram que eu não deveria dar nada para vocês até você ir falar com eles. Eles ameaçaram machucar minha família caso eu não cooperasse, então eu não tinha como dizer não… Eles estão ali, vai logo resolver isso porque eu não quero ter problemas com ninguém dos Bulldozers. — Disse ele enquanto varria a frente de seu bar, logo ao lado havia um beco escuro para onde o velho apontou. Eu duvidava que um bando de idiotas como a gangue dos Bulldozers fosse machucar a família de um idoso, mas entendo a preocupação dele.

— Que saco… Volte para minha sombra, Kage. Vamos resolver isso logo.

Entrei naquele beco escuro com Kuro ainda em meu ombro e encontrei dois rapazes que pareciam ser um pouco mais velhos que eu. Eles usavam calças escuras, botas militares e blusas marrons. Bandanas marrons estampadas estavam amarradas em volta do rosto de cada um deles, deixando somente seus olhos à vista. Um terceiro homem apareceu as minhas costas, me cercando.

Esses eram membros da famosa gangue “The Bulldozers” uma gangue que tinha Metal City como base e usava Pokémons para realizar seus crimes. Sua influência era forte na cidade e existiam rumores que até mesmo o líder do ginásio Pokémon de Metal City tinha algum envolvimento com aquela gangue. A gangue era especializada em Pokémons do tipo Ground, então seus membros só podiam usar Pokémons do mesmo tipo (algo que eu acho muito idiota, se você me perguntar.)

—Nós já tentamos pedir com educação varias vezes antes, Gray. Entre para nossa equipe, um garoto habilidoso como você poderia se dar muito bem com a gente! Claro, você teria que se livrar desse Sneasel ridículo. — Disse ele com um olhar desagradável. — Mas ai você teria um Pokémon de verdade, como esses. — E então os treinadores abriram suas pokébolas, revelando um par de Geodudes logo a minha frente e um Krokorok as minhas costas.

—Hoje não, sei lá… Não acordei com muita vontade de me juntar a um bando de idiotas como vocês, quem sabe… Nunca? — Disse com um sorriso irônico no canto do rosto. — Kuro!

Apenas com aquele comando, meu Sneasel atacou. Por ele ser um tipo Ice, eu tinha a vantagem, então decidi ser o primeiro atacar mesmo estando em menor numero. Kuro pulou de meu ombro e usou Ice shard para atacar o Geodude logo a minha frente, o golpe super efetivo o desmaiou no mesmo instante. O outro Geodude usou tackle, mas Kuro foi mais rápido e pulou entre as paredes estreitas do beco para ficar acima de nós e ganhar uma vantagem sobre seu oponente. Assim que estava acima do Geodude, ele usou Icicle crash sem dar chances para que o Geodude pudesse desviar, fazendo assim com que ele também fosse desmaiado. O Krokorok recebeu o comando de seu treinador para usar magnitude, mas antes de conseguir atacar, Kage saiu das sombras e usou Lick para paralisá-lo e impedir seu movimento.

—Vocês têm razão em me querer em seu time, eu realmente sou bem impressionante. Mas eu nunca trocaria nenhum de meus Pokémons, nem me juntaria a um bando de idiotas como vocês. Agora se me dão licença…

Virei-me para sair do beco, mas logo parei. Percebi que eles riam por baixo de suas bandanas mesmo após terem sido derrotados. De repente, senti um tremor vindo de baixo de meus pés e um Drilbur golpeou meu Haunter usando Dig antes que ele pudesse reagir.

—Parece que você não é tão bom quanto imaginava Gray! — Disse o treinador que bloqueava a única saída do beco enquanto enrolava um pequeno cachecol azul em volta do Drillbur. Percebi que aquele era um item feito especialmente para Pokémons chamado de choice scarf, algo que faria o Drillbur ser mais rápido até mesmo que meu Sneasel. — Drilbur use Iron Head!

Eu estava com problemas. Iron Head seria um golpe super efetivo contra meu Sneasel, e mesmo que eu usasse um ataque com prioridade como Ice shard, o golpe não seria forte o bastante para desmaiar o Drillbur e salvar Kuro de ser derrotado.

Kuro estava se preparando para levar o golpe quando de repente uma onda de fogo preencheu o beco, assim derrotando o Drilbur e colocando os membros da gangue para correr. Estranhamente, o fogo não chegou nem perto de mim nem de meus Pokémons e assim que as chamas se extinguiram, eu estava sozinho no beco novamente. Olhei em volta e vi uma sombra estranhamente familiar correr pelo teto do bar mais próximo, não consegui identificar exatamente o que era aquilo, mas percebi que era um Pokémon quadrúpede e que ele definitivamente havia me salvado.

Sai do beco às pressas, passei no centro Pokémon mais próximo e após meu time receber o tratamento que precisava, voltei ao bar de antes, com algumas perguntas em minha cabeça e muita fome em meu estomago.