Com a ajuda de meus Pokémons nós rapidamente conseguimos coletar a grande maioria das coisas de valor localizadas no primeiro andar da mansão. Eu ordenei a eles para focarem seus esforços em coisas pequenas como relógios e joias para podermos levar o máximo de coisas possível, em 15 minutos nós já havíamos acabado de coletar tudo de valor que estava no primeiro andar. Nós somos bons ou o que?

Eu estava usando sacolas de lixo que eu havia encontrado na cozinha para levar tudo, como elas eram grandes e resistentes, seu material era perfeito para carregar tantos itens pequenos sem rasgar.

—Vocês dois continuam tão ágeis como sempre! Vamos lá, estamos quase acabando, só precisamos checar os quartos do segundo andar e aí poderemos sair daqui — Sussurrei a eles enquanto subíamos as escadas. A luz da lua entrou por uma das janelas e iluminou o rosto de Kuro, mostrando um olhar claramente insatisfeito — vamos lá, não me olhe desse jeito, Kuro! Essa é a nossa chance de finalmente irmos embora dessa cidade maldita! Com todo esse dinheiro nós podemos viajar para longe daqui! Sem gangues enchendo o meu saco, sem ter que sobreviver nas ruas...

“Sem Kyla” pensei quase que instantaneamente. Tentei ignorar aquele pensamento (assim como a cara de choro de Kuro) antes que ele fizesse eu mudar de ideia. Sim, eu me sinto parcialmente culpado com a ideia de roubar alguém que me tratou tão bem quanto ela... Mas eu aprendi duas lições muito importantes enquanto vivia nas ruas, a primeira é que quando uma chance de roubar uma grande quantidade de coisas aparece bem na sua frente você não pode deixa-la passar. E a segunda lição é que ninguém nunca vai te ajudar de graça, nunca.

Então isso me levou a decisão de passar a perna nela antes que ela (ou alguém relacionada a sua família) passasse a perna em mim. Nada pessoal.

Após mais meia hora de pilhagem, eu estava levando nas costas uma sacola tão grande que eu poderia me passar de Papai Noel caso alguém me visse durante a noite, apesar de que isso seria impossível já que Kage usou o ataque Hipnosys no pequeno número de empregados que continuava na mansão durante a madrugada.

—Agora só falta um quarto, e então nós poderemos ir embora — comentei com Kuro enquanto encostava minha sacola na parede ao lado da porta que dava entrada ao maior quarto da mansão localizado no final do corredor — Vocês dois fiquem aqui fora, esse é o quarto de Kyla então seus Pokémons devem estar dormindo lá dentro, não quero que eles farejem vocês. Eu não vou demorar, só quero fazer algo...

Assim que eles concordaram eu usei a chave mestra que Kage roubou do quarto de empregados para entrar no quarto de Kyla. Apesar de ser o maior cômodo da mansão o quarto em si não era muito chique criando um contraste com o resto da casa. Era um típico quarto de uma garota adolescente, grandes armários ocupavam uma das paredes, o chão estava repleto de roupas usadas e coisas jogadas, o que mais chamava atenção no quarto era a enorme cama que ficava encostada na parede de frente com a porta.

A cama era a única coisa rosa de todo o quarto, ela tinha lençóis em volta de si mesma impedindo com que eu pudesse ver quem estivesse deitado lá e era tão grande que até mesmo um Tauros poderia caber nela. Estranhei o fato de que nenhum dos Pokémons de Kyla estavam lá, mesmo que ao lado da cama tivessem algumas camas menores feitas especialmente para eles. Eram algumas pequenas almofadas redondas feitas especialmente para acomodar o corpo de Pokémons de pequeno e médio porte.

“Devem estar em suas Poke-bolas... Eu acho” comentei comigo mesmo tentando me acalmar.

Continuei andando lentamente até a cama tomando todo o cuidado do mundo para não fazer nenhum barulho, algo que era difícil considerando que pelo caminho eu tinha que desviar de roupas e acessórios jogados pelo chão. Sério, dava para vestir todos os desabrigados da cidade com o tanto de roupa que tinha pelo chão, meu medo era de pisar em um dos vários montes de roupa em meu caminho e acabar achando um Rattata perdido.

Assim que cheguei ao pé da cama abri os lençóis lentamente e vi algo que esclareceu minhas dúvidas. Kyla dormia tranquilamente com todos seus Pokémons deitados a sua volta, seu Wartortle estava deitado entre suas pernas, a Delcatty estava alinhada ao lado de sua cabeça e havia um Eevee deitado entre seus braços que era novo para mim. Prendi a respiração por um instante apenas para me certificar de que todos estavam adormecidos. Assim que tive certeza, continuei a seguir meu plano e coloquei ao pé da cama todas as roupas que Kyla havia comprado para mim.

—Obrigado por tudo... Mas isso não é pra mim... Morar em um lugar como esse, usar roupas como essas, ter uma companhia como a sua... Eu não mereço nada disso, sou um ladrão, um covarde. Espero que um dia você possa me perdoar. — Sussurrei enquanto fechava os lençóis em volta da cama de Kyla novamente, eu sabia que ela não estava ouvindo, porém a culpa que eu sentia fez eu dizer aquilo de qualquer forma.

Por mais que eu tivesse planejado isso a dias atrás, meu coração doía tanto que eu mal conseguia respirar. Após alguns segundos, eu finalmente tomei coragem para me virar e sair do quarto, o único problema foi a Gothitelle que apareceu entre mim e a porta.

Congelei onde eu estava, ficamos nos encaramos por alguns segundos até que ela se aproximou de mim lentamente. Eu estava pronto para assobiar fazendo com que Kuro entrasse no quarto para me proteger até que ela estendeu os braços, entregando meu antigo cachecol vermelho.

— Isso... — Examinei detalhadamente o cachecol, vi que nas áreas onde Kuro e Kage haviam rasgado acidentalmente, agora tinham costuras que deixaram o cachecol com aparência de novo. As linhas usadas eram na mesma cor dele, em geral, toda a costura foi feita com grande cuidado — ... Kyla fez isso para mim?

O tipo psíquico que estava em minha frente apenas acenou com a cabeça. Aquilo mexeu tanto com minha mente que eu me senti até mesmo um pouco tonto. Aquilo era muito surreal para parecer verdade... Afinal, qual foi a última vez que alguém se importou comigo de verdade? Principalmente alguém educada que vem de uma família rica como ela.

Estava tão perdido em meus pensamentos que não reparei no copo de vidro que estava atrás de mim até ser tarde demais. Com uma pisada o copo se quebrou em baixo de meu pé direito acordando os Pokémons de Kyla, assim como ela

— Quem está ai?!? — Gritou ela ainda em baixo dos cobertores. Olhei de volta para a porta e vi que a Gothitelle não estava mais lá, corri para fora do quarto e fechei a porta em um instante. Consegui tempo o bastante para sussurrar novas ordens no ouvido de Kuro antes de voltar ao quarto o mais rápido possível, dessa vez Kyla e seus Pokémons estavam de pé olhando diretamente para mim assim que eu abri a porta — Gray?!? O que diabos você está fazendo aqui a essa hora? Aconteceu algo?

— Não... E-eu... — Gaguejei tentando encontrar palavras para me explicar. Kyla estava com seu típico pijama verde, mas mesmo assim se cobriu com o cobertor assim que eu acendi a luz. Pelo olhar assustado em seu rosto imagino que ela me via como um pervertido — Escuta, eu... Eu só queria falar com você.

—O que poderia ser tão importante que você precisaria vir falar comigo a essa... — Ela se interrompeu ao ver minhas roupas novas dobradas no pé de sua cama, ela me encarou e pareceu perceber o quão mal eu me sentia somente pelo meu olhar — Gray, por favor... O que está acontecendo aqui?

—Não é nada — Comentei tentando esconder meus sentimentos. Como sempre. — Você não entenderia nem se eu tentasse explicar o que está acontecendo em minha cabeça agora. Me desculpe, eu já vou.

—Espere — Disse ela se aproximando de mim. Seu olhar ainda demonstrava medo e ansiedade, mas mesmo assim ela se aproximou de mim aos poucos —porque você não tenta? Eu acho que tenho o direito de saber porque você invadiu meu quarto na madrugada — Comentou ela cruzando os braços

—Melhor do que explicar, o único jeito de você entender é se eu te levar naquele lugar...

—Não faço ideia de onde você quer me levar, mas se isso ajudar a te trazer paz — Disse ela saindo do quarto. Mesmo sendo de madrugada, ela parecia querer resolver isso logo — Sem contar que caso você tente fazer algo comigo meus Pokémons acabam com você.

—Entendido. — Falei saindo do quarto logo em seguida. Por sorte, Kuro havia seguido minha ordem e havia sumido, assim como todos os itens roubados. Kyla parecia disposta a me ajudar com o que quer que estivesse me perturbando, ao mesmo tempo, ela voltou a me olhar do mesmo jeito que ela me olhou no dia em que lutamos em baixo da ponte.

Saímos da mansão e andamos em direção ao bairro vizinho. Por estarmos em um bairro rico não tinha ninguém na rua durante a madrugada, algo que foi um alivio já ela ainda estava de pijama. Após uma longa e silenciosa caminhada, nós chegamos a uma área do bairro vizinho repleta de casas abandonadas e prédios que estavam em construção e pararam de repente.

— Este lugar... Eu lembro de ver notícias sobre aqui — Disse ela decidindo quebrar o silencio. Não era uma noite fria, porém pude reparar que seu corpo tremia um pouco já que seu pijama não foi feito para ser usado fora de casa — Um bairro inteiro iria ser construído entre essa cidade e as florestas, mas um acidente aconteceu e todas as obras foram interrompidas sem explicação... Porque você me trouxe aqui?

Eu andei até chegar nos escombros de uma das casas abandonadas e então me virei para encarar ela — Este é meu antigo lar. Esse... Monte de madeira queimada, é tudo o que eu tenho de minha antiga vida. Você quer saber porque eu te trouxe aqui? — Disse conforme me virava para encarar ela. Eu deveria estar com um olhar assustador já que os Pokémons dela tentaram parar meu avanço, porém a própria Kyla impediu eles de entrarem em meu caminho e continuou me encarando sem falar nada. — Quero que você entenda com quem você está lidando! Não importa o quanto você tente fazer com que eu mude, eu sempre... SEMPRE, irei ser um covarde que só pensa em si mesmo, um ladrão que apunhala os outros pelas costas — Disse entregando uma das joias que ainda estava em meu bolso de volta para ela — e alguém que não merece seu tempo. Eu sou como esse lugar, algo que poderia ter sido ótimo, mas foi destruído e humilhado por anos e anos e agora não tem mais salvação. Por favor, eu já te dei muitos problemas apenas em alguns dias... Obrigado por tudo que você fez por mim, mas eu não quero mais continuar dependendo de você.

Kyla não disse nada, apenas continuou me encarando enquanto eu passei por ela, andando em direção a floresta que levaria a cidade vizinha. Pelo menos se eu conseguisse sumir em outra cidade, Kyla ficaria com dó de meus Pokémons e os adotaria em sua mansão. Eles mereciam aquilo, não um treinador que tenta os abandonar sempre que tudo fica difícil. Eu nunca mais voltaria para eles.

Continuei andando enquanto me concentrava para não olhar para trás, tentava manter um rosto serio para impedir as lagrimas de escaparem de meus olhos. Me concentrava tanto em superar a dor que só percebi o barulho que se aproximava rapidamente de minhas costas quando já era tarde demais.

—SEU MENTIROSO!!! — Gritou Kyla enquanto dava uma investida em mim pelas costas. Ela me jogou contra a parede de uma das casas em construção e colocou o braço em meu pescoço —Eu não me importo o quanto você acha que é um problema para mim, mas não ouse dizer que você não quer mais continuar comigo! Eu vi em seus olhos durante esse tempo, você estava feliz! Mesmo quando eu ri de você no cabelereiro, mesmo quando eu comprei roupas para você, até mesmo quando seu precioso cachecol foi rasgado, sempre que você olhava para seus Pokémons e os via felizes você também sorria! Pare de mentir!

— Eu não estou mentido! — Disse enquanto segurava o braço dela, apesar de que mal conseguia respirar enquanto ela me enforcava — Eu nunca pedi para você me salvar das ruas! Eu nunca pedi para você me tratar... — Fui interrompido por uma joelhada no estomago.

—Talvez você não tenha me entendido direito... Pare de mentir para você mesmo, seu idiota! — E então ela me soltou, deixando meu corpo cair no chão — Se você acha que está sendo um peso para mim, eu entendo. Isso não quer dizer que eu concorde com esse pensamento... Mas eu entendo de onde ele vem. Agora eu quero que você olhe nos meus olhos e me diga, do fundo do seu coração, que você não se importa de abandonar Kuro e Kage. Ou melhor, que você não se importa de voltar para as ruas!

Enquanto recuperava o folego comecei a pensar em como meus Pokémons estavam agora... Lembrei da cara que Kuro fez quando eu disse que nós iriamos embora, lembrei da cara de felicidade que ele e Kage fizeram quando eu mostrei que eles poderiam dormir em uma cama pela primeira vez em suas vidas. Esse tempo todo, eles nunca me questionaram. Independentemente de onde eu fosse, eles sempre estiveram ao meu lado e mais uma vez eu estava deixando eles na mão... Pensar naquilo ocupou meus pensamentos de tal forma que eu não me lembro de quando exatamente comecei a chorar.

—Me diga algo, Kyla — Disse em meio a lagrimas — Porque você se importa tanto comigo? Nós estamos brigando no meio de um bairro abandonado enquanto o sol começa a nascer... Porque você passa por tudo isso por mim? Eu sou uma bagunça, meu corpo é deformado, minhas morais são erradas, minha mente está em farrapos...

—Eu sinceramente não sei. A única coisa que sei é que eu cresci em uma família rica com muitas oportunidades e pouco amor, enquanto isso muitas pessoas tiveram que crescer lutando apenas para sobreviver, sem oportunidade alguma... Tem algum problema eu querer salvar pelo menos uma delas? — Disse ela oferecendo a mão para mim, eu a aceitei e levantei enquanto esfregava os olhos — Outra coisa, pare de falar tão mal de você mesmo. Não sei exatamente o que aconteceu, mas duvido muito que seja sua culpa que sua família morreu. Você pode sim se tornar uma pessoa melhor, Gray... Apenas deixe eu te ajudar com isso.

—E o que você ganharia com isso?

—Primeiramente, um saco de pancadas novo — Disse ela dando um peteleco em meu nariz e um sorriso de canto de rosto —sabe, nem todo mundo gosta de tirar proveito dos outros, esse mundo é horrível e nós somos seres imperfeitos. Mas essa vida tem uma quantidade infinita de coisas boas que fazem valer a pena estar vivo! Você vai aprender isso e muito mais se vier comigo.

—Agora eu me sinto um verdadeiro idiota por deixar meus sentimentos e incertezas tomarem conta de mim...

—Ah você é um baita de um idiota mesmo, pelo menos isso você sabe. Mas não se preocupe, pois a partir de amanhã você se transformar em um campeão! — Disse ela passando seu braço em volta do meu.

O sol nasceu enquanto nós voltávamos para a casa de Kyla, pessoas começaram a sair de suas casas e eu pude ver cada uma delas nos olhando de canto de olho pelo fato de Kyla estar andando por ai de pijama colorido. Mas isso não foi um incomodo, eu usei essa caminhada para esclarecer algumas coisas sobre mim. Sobre como eu perdi minha família, sobre as fugas que eu tive de diversos orfanatos, sobre todos os pecados que cometi enquanto crescia nas ruas... Se ela fosse mesmo cuidar de mim, era justo que soubesse exatamente quem eu era.

Ela apenas me ouviu na maior parte do tempo, nos momentos mais difíceis ela segurava minha mão fazendo com que eu tivesse a coragem suficiente para reviver aqueles momentos. Pela primeira vez em minha vida eu me sentia como um humano, do tipo que as pessoas sentem falta... Devo admitir que isso era um conceito novo para mim.

Assim que chegamos a mansão Kuro e Kage correram para me abraçar. Eu havia pedido para que eles seguissem minhas ordens e se escondessem, mas imagino que a preocupação deles comigo era tão grande que aquilo era impossível.

Pelo menos minha primeira ordem foi seguida, Kuro foi rápido o bastante para devolver todos os itens roubados a seus antigos lugares. Não estava perfeito, obviamente. Por algum motivo havia um anel de diamante sobre o lustre da sala. Mas ele fez o seu melhor, eu não poderia pedir por Pokémons melhores do que esses.

Naquele momento em que eu abraçava meus Pokémons eu olhei para Kyla que apenas me olhava com um olhar satisfeito. Como se estivesse pensando “ele finalmente entendeu o que eu queria dizer”

Pela primeira vez em minha vida, meu próximo objetivo estava claro em minha mente. Não era algo como “lutar pelo pão de cada dia” ou “roubar o restaurante novo do bairro vizinho”. Não... dessa vez meus pensamentos eram claros e altos. “Independentemente do que aconteça, eu me tornarei o melhor treinador Pokémon da região de Allianza. Pelos meus Pokémons, pelos esforços de Kyla e mais importante... Por mim mesmo.”