A Quase Raposa e o Cão de Pedra
2 Eu Já Falei O Quanto Tenho Medo De Escuro?
Notas iniciais

≺ Michi ≻
Oh não, desliguem isso. Pode quebrar, jogar no chão, ou até queimar, eu não ligo; só faz o despertador parar de tocar. Ah... Já vi que não vai rolar, não é?
Com isso, eu acordo para mais um glorioso dia da minha vida de espalhar felicidade pelo mundo, começando pelo meu despertador ― que agora ― se encontra no chão do outro lado do quarto, onde eu o atirei... mas isso não importa. E por falar em “glorioso”, hoje é segunda-feira, ou seja... Ah, por que eu levantei da cama mesmo?
Nah, vamos tentar pensar positivamente: o primeiro horário é de Língua Estrangeira, o que significa que eu tenho mais uns 50 minutos para “acordar”. Esse primeiro horário numa segunda-feira é o que me salva de não perder em alguma matéria importante, imagina se fosse Matemática? Arg, não quero nem pensar.
E é com essa motivação que eu levanto da cama e pulo no chuveiro, mais pra ficar um tempinho debaixo da água morna do que pra tomar banho em si. Assim que termino, visto o uniforme do Colégio Seikan: sapatos antiquados marrons ― que, na verdade, estão na porta de entrada ― meias pretas 4/8, saia marrom consideravelmente curta ― que eu tenho uma certa parcela de culpa quanto a isso ―, blusa branca de botão e algo parecido com um terninho de cor marrom com detalhes em vermelho com o escudo do colégio bordado no lado do peito esquerdo. Eu, pessoalmente, gosto muito desse uniforme, já que ele não me engorda e também dá um destaque bem legal ao meu cabelo ruivo-alaranjado comprido, que molda perfeitamente bem meu rosto levemente redondo com a franjinha e mechas de cabelo, uma de cada lado.
Sim, sim, eu sei que não é nada comum uma garota japonesa ter cabelos ruivos, ainda mais se tiver olhos azul-celeste ― o que, no caso, eu também tenho ― mas... fazer o quê? Minha mãe disse que eu puxei muito ao meu pai fisicamente. Ele era um estrangeiro vindo da Europa. Queria tanto saber como ele era... mas é impossível. Meu pai morreu há muito tempo em um incêndio na nossa casa quando eu tinha por volta de cinco anos. Não sobrou nada, nem mesmo uma foto. Ah, pensar nisso a essa hora da manhã é tão cansativo... Mas, bem, isso não importa. Não é como se eu tivesse algum complexo por causa disso nem nada. Eu nem lembro dele.
Dou uma última olhada no espelho para ver se o meu coque ficou decente e noto que as olheiras ficaram terríveis por ter ficado acordada a noite toda. Dirijo-me à cozinha. Lá, vejo a mesa posta com uma cesta de pães, queijo e suco, além de um bilhete da minha mãe:
“Tive que sair mais cedo! Problemas no escritório... sabe como é, né?
Deixei o café pronto para você
Bom dia, filha!”
Deixei um sorrisinho escapar do meu rosto, afinal isso é muito fofo da parte dela. Todos os dias, ela acorda mais cedo para se arrumar e colocar o café para mim, e acho que boa parcela do meu bom humor ― quando ele decide aparecer ― se deve a ela. E lá estava eu, pronta pra atacar os pães quando vejo o relógio da cozinha de canto de olho que… já são 6h40!
Danem-se os pães! Eu estou muito atrasada! Será que eu consigo chegar ao colégio em 20 minutos?! Oh, e hoje ainda é segunda, o presidente do Conselho Estudantil deve estar no portão do colégio para vistoriar os alunos...! Que droga!
Dei um gole no suco de laranja ― que delícia! ― e saio correndo para o quarto de novo para dar uma escovada meia-boca nos meus dentes e sair porta afora.
Não bastava eu ter uma pele pálida que quase reflete a luz do sol, ter um cabelo que chama mais atenção que uma placa “PARE” ou ter olhos tão bizarros, eu tenho que me atrasar quase que todos os dias, sair correndo que nem uma louca e chamar ainda mais atenção.
Mas, como sempre, eu prefiro fingir que não estou nem escutando. Geralmente, as garotas que se satisfazem falando comentários maldosos a meu respeito são sempre mais velhas ou pertencem a um grupo de amigos bem distante do meu, então eu realmente não ligo. Não que eu seja popular, e não sou mesmo, mas ter uns 2 ou 3 bons amigos para se confiar e um bom relacionamento com os colegas de classe é o suficiente para mim.
Para falar a verdade, eu me considero muito sortuda no quesito amizade. Nana-chan e Subaru-san são duas amigas maravilhosas, e o Nishiki-kun e Kawada são sempre muito divertidos. Sem falar que eu tive a sorte de estar numa turma cheia de meninas bonitas, ou seja, eu não sou verdadeiramente um destaque. Embora ainda chame certa atenção.
Depois de uns bons 20 minutos correndo, eu cheguei ao colégio. Levei mais um minuto para respirar apoiada no muro da entrada, bem abaixo da grande placa metálica com os dizeres “Colégio Seikan”. Tentei ajeitar o meu cabelo completamente embaraçado, mas desisti e o prendi em um rabo de cavalo com o elástico que carrego sempre na bolsa. Arrumei a franja, que caia sobre meus olhos, e então atravessei o portão de entrada, cumprimentando o presidente do Conselho Estudantil.
Não que aquele fosse o meu lugar favorito no mundo, mas tinha que admitir que o Seikan era muito bonito. O prédio principal era todo trabalhado em cimento e tijolos vermelhos, dando um ar antigo e reconfortante. Em volta, algumas árvores e arbustos decoravam o pátio cinzento, onde alguns alunos ainda se cumprimentavam. Mais ao fundo estavam as quadras de futebol, vôlei e baseball, além de um ginásio coberto com uma quadra poliesportiva e também uma piscina para a natação. Por fim, tínhamos ao fundo um último prédio para os clubes do colégio, que variavam desde clubes esportivos a clubes de literatura.
O barulho do sino me arrancou dos meus pensamentos, e lembrei que estava atrasada. Junto com os outros alunos que ainda estavam do lado de fora, subi os cinco degraus da escada que nos levava para dentro do colégio. Automaticamente, me dirigi ao meu armário na entrada para trocar os sapatos comuns pelos sapatos brancos e padronizados do colégio, cuja única diferença eram as listras coloridas nas laterais para diferenciar as séries. A cor amarela era usada pelos estudantes do primeiro ano; a azul, por nós do segundo ano; e a cor vermelha era utilizada pelos veteranos do terceiro ano. Eu, pessoalmente, gostava muito mais do sapato do segundo ano, já que azul é a minha cor favorita.
Após calçá-los, segui pelos corredores que estava tão familiarizada. Passei pelo corredor do primeiro ano tranquilamente até chegar à escada que me levava ao segundo andar, que era o meu destino. Fui fazendo o meu caminho habitual até a minha sala 2-2 dando graças a Deus por ter chegado e finalmente poder sentar...
De repente, uma cabeleira de cor castanho-claro salta na minha frente antes mesmo que eu passasse pela porta da classe.
― Bom dia, Chibi-chin!
Sério, nunca entendi o porquê de gostarem tanto desse apelido, tenho ele desde os 8 anos...
― Ah, bom dia, Nanami... ― respondi de qualquer jeito e me joguei em minha cadeira, deitando a cabeça em cima dos braços apoiados na mesa.
Nana-chan deu dois passos para trás e fez pose de defesa. Ela costuma ser só um pouco exagerada nas reações físicas, o que a torna fofa e engraçada sem isso ser forçado.
― Opa, por acaso eu ouvi “Nanami”...? ― Ela me encarou, esperando uma resposta, e eu apenas balancei a cabeça positivamente. ― Aaah, me chamando pelo nome e não pelo apelido! Deve estar de mau humor... E por que está com olheiras?
Eu levantei um pouco a cabeça para olhá-la diretamente e falei com a voz mais fria possível:
― Porque alguém me fez ler o seu mangá shoujo favorito, que supostamente tinha um final emocionante... ― ia continuar, mas fui cortada antes mesmo de concluir a frase.
― Ah, não acredito! Você terminou?! Terminou mesmo?! Não é liiindo?! ― ela falava enquanto dava pulinhos de ansiedade.
― Lindo?! Nana, eu fiquei acordada a noite toda, louca para ler aquele maldito final, para descobrir que o principal morre!
― Sim, mas daí ele jura no seu leito de morte para a sua amada que eles iriam ficar juntos na próxima vida, com certeza! ― Ela juntou as mãos e as apoiou abaixo da bochecha esquerda, bem como uma menininha. Essa Nana... sem dúvidas, é uma romântica incurável! ― Sério, Chibi-chin, como você não achou esse final perfeito?
― Simples: para mim, um romance tem que acabar em amor mútuo e realizável, e não em um amor impossível; um homem morto; uma mulher solitária de coração partido e uma promessa impossível de ser mantida ― bufei.
― Céus, você precisa muito de um namorado... ― ela murmurou.
Estava prestes a sentar mais ereta para retrucar quando um peso muito grande surgiu nas minhas costas. Literalmente.
― Mas que...?
― Booooom dia, Ichigo-chan! ― Uma voz animada e masculina soou nos meus ouvidos bem alto, quase me fazendo ficar surda.
Sem sombra de dúvidas, esse era o Nishiki-kun, fazendo o seu belo e “agradável” cumprimento de todas as manhãs.
― Sai, Nishiki! Tenho cara de cama pra você se jogar em mim?! ― esbravejei.
― Oh, ela está bem irritadinha essa manhã. Mas, por falar em cama... ― ele fez um tom de voz bem sugestivo e eu já sabia o que ele ia falar.
Nishiki-kun tem a mania de falar “vulgaridades” para abusar as garotas, como chamar para fazer coisas indecentes. Ele é um tarado de primeira, mas acho que é isso que o faz ser engraçado.
― Nem vem, seu porco. Hoje eu acordei de mau humor! ― Juntei todas as forças que tinha para tirá-lo de cima de mim e deu certo.
― Sabe, eu acho que meninas irritadas são bem mais sexys. ― Ele pegou uma mecha do meu cabelo e o alisou. ― Continue assim, Ichigo-chan.
Eu o empurrei para longe de novo, fazendo-o rir junto com a Nana-chan, que logo se tornou o próximo alvo. Enfim, todos os alunos chegaram e as aulas finalmente tiveram início.
O dia, no geral, estava ótimo, meu humor foi aos poucos melhorando e eu estava pronta pra voltar para casa... Mas a vida não é tão agradável assim.
― Ora, ora, ora... ― uma voz monótona e aguda veio de dentro do banheiro feminino assim que eu entrei. ― Se não é a Menina Estranha.
Um trio de meninas nojentas e metidas a besta, com mais pó na cara do que um traficante tem no bolso, surgiram de um dos cantos do banheiro. Aparentemente, elas estavam se olhando no espelho e retocando a já exagerada maquiagem. Arfei e dei meia volta com o intuito de sair. Meu xixi não vale tudo isso. Só que, assim que eu virei o meu pé para ir embora, uma delas foi mais rápida e fechou a porta, bloqueando a saída.
― Eh, então a rata está pensando em fugir? Que ingênua ― disse a garota mais maquiada, e que, por sinal, parecia ser a “líder”. Ela veio andando em minha direção e segurou meu cabelo bruscamente. ― Para um cabelo pintado e cheio de química, você cuida muito bem dele ― ela sussurrou de uma forma ameaçadora e então deu um puxão na mecha que segurava.
Dei um grito de dor, mas logo veio a outra lambisgoia com um bolo de papel toalha na mão e o empurrou dentro da minha boca.
As três começaram a rir freneticamente, o que me fez cuspir todo o papel e analisar a situação para ver em qual das três eu bateria primeiro. A da porta seria a mais lógica, porque aí eu fugiria rapidamente, mas a “líder” estava me tirando do sério. Também não ia aceitar o desaforo da lambisgoia que enfiou papel na minha boca de graça. Tudo tem um preço, não é?
― O que foi, Olho de Coruja? Não quer que a gente dê uma olhada no seu cabelo? Você parecia ter tanto orgulho dele...!
Dei um passo para trás e acabei esbarrando na parede, dando um pouco mais de confiança para que elas avançassem. Opa, isso é mau... Eu não posso fazer nada sério a elas no colégio porque não quero fama de barraqueira, mas do jeito que as coisas estão indo...
― Na verdade, não quero que cheguem nem perto. Sabe como é, dizem que inveja faz mal para a raiz ― tentei manter a voz o mais firme possível e dei de ombros, bem segura do que estava fazendo. Eu não farei nada, mas se elas começarem, aí já é outra história, certo?
― Como é que é?! ― A “líder”, por um segundo, pareceu um touro pronto para avançar na minha direção.
― É bem o que você ouviu, querida. ― Há–há, esse é um jogo para dois! ― E mais, não fique aí achando que sabe muito sobre mim, ou sobre o meu cabelo naturalmente ruivo.
Eu pensei que ela ia estourar pra cima de mim com essa última provocação, mas ela me surpreendeu. Dando apenas um sorrisinho sínico de canto de boca, a “líder” tirou da bolsa o batom carmesim ― uma cor horrorosa para se pôr num batom, por sinal ― e virou-se para o espelho para deixar os lábios mais vermelhos do que já estavam.
― Então... ― Ela se virou lentamente para me olhar nos olhos da forma mais fria possível ― quer que eu te mostre o quanto eu te conheço?
Apenas levantei uma sobrancelha para ela, mas isso foi o suficiente para fazer seu sorriso se espalhar pelo seu rosto nojento. E então, de forma quase que cerimoniosa, ela se inclinou na pia e começou a me desenhar no espelho usando o batom carmesim.
― Feia... com uma franja horrorosa... e mal cortada! Bunduda! Cabelo de palha com barro! ― Ela foi comentando cada parte do desenho, e parecia estar se divertindo muito. ― E é claro... Olhos de Coruja! ― Finalmente, concluiu fazendo dois círculos gigantes que mal cabiam no pseudo-rosto que ela fez. Ficou ridículo.
E eu teria rido muito daquele pobre desenho deplorável, se não fosse pelas duas lambisgoias, visivelmente inspiradas pela líder, que tiraram seus respectivos batons das bolsas e começaram a escrever coisas horríveis no espelho sobre mim. E uma das idiotas, a que deveria estar na porta, deixou a passagem livre para eu ir embora, mas...
Quer saber de uma coisa? Eu teria aturado o desenho. Só que, agora, eu já perdi a paciência.
Peguei as duas que estavam mais perto de mim pelos cabelos e bati a cabeça delas uma na outra, jogando-as no chão depois. A líder ficou petrificada na hora ― geralmente, não esperam que numa briga de uma contra três a menina em desvantagem reaja; uma pena que a menina seja eu ― e isso me deu tempo para arrancar o batom dela e borrá-lo pelo seu rosto.
― Prontinho, agora você está perfeita! ― falei com a voz mais amável que consegui e sorri delicadamente.
A líder ainda estava atônita, o que me deixou extremamente feliz e pronta para ir embora, mas então as duas que estavam no chão me surpreenderam batendo com alguma coisa realmente dura nos meus joelhos. Com essa, eu caí no chão e as três saíram correndo do banheiro.
― Vadias... ― praguejei.
Decidi esperar mais um pouco no banheiro, só para ter a certeza de que não me esbarraria de novo com aquelas meninas ridículas. Não demorou nem 5 minutos para uma professora vir correndo para o banheiro procurar a culpada por “fazer tanto mal por inveja a três amigas que estavam inocentemente se arrumando no banheiro”. Eu não tive como escapar, já que eram três testemunhas contra mim, e vivemos num país supostamente democrático, então eu fiquei responsável por limpar “os meus erros marcados no vidro”. Pelo menos eu tive permissão para pôr um pouco de gelo nos joelhos, que estavam doendo como o inferno. Daqui que eu deixe o gelo um pouco na perna, procure os materiais de limpeza e termine o serviço... Ah, vou avisar a minha mãe que chegarei um pouco mais tarde.
No final das contas, acabei saindo do Seikan por volta de cinco e meia da tarde. E isso é uma porcaria. Minha casa é relativamente perto do colégio, não precisando pegar o metrô para chegar até lá, mas ainda assim algumas ruas são um pouco desertas. Eu não acho que seja uma boa ideia andar por elas enquanto está escurecendo, sozinha e com o uniforme de colégio. Mas eu não tenho escolha, tenho?
Depois de um bom suspiro, saí do portão do Seikan e segui em direção à minha casa. Não vou mentir, eu até gosto de andar na rua, ver as pessoas andando e acompanhar um belíssimo pôr do sol. Isso, claro, se eu não estivesse ocupada demais praguejando aquelas três vacas até a 7ª geração. Oh céus, será que vão ter boatos amanhã? Ou então será que agora eu vou ser um alvo por tempo integral? Ah, ser uma adolescente é tão difícil... Acho que vou considerar aquela ideia de pintar o cabelo mais a sério. Se bem que aí eu vou estar dando motivo àqueles que dizem que o meu cabelo é pintado. Que droga!
Mas, epa... Quando foi que essa rua ficou tão estreita e deserta? E que calafrio estranho, esse que eu acabei de ter. Oh, que incrível, essa casa possui um canteiro belíssimo cheio de hortênsias! Hm, mas é estranho. Elas geralmente costumam florescer no período de chuvas, por que será que essas já desabrocharam? E com um tom tão intenso de azul...
Bem, que seja. Tenho que ficar atenta agora com essa rua, não posso deixar nada me distrair. Vai que do nada... Epa, o que foi isso? Esse barulho, parece que latas de lixo foram derrubadas!
É agora que as aulas de corrida em Educação Física têm de ser úteis!
Depois de alguns quarteirões, decido parar um pouco. Ok, Ok, você já correu bastante, Michi..., tentei me acalmar, mas ainda assim estava muito nervosa. Será que tem alguém me seguindo? Ah, acho que estou vendo animes de terror demais...
Ei, espera, eu não acabei de passar por essa casa com as hortênsias? E aquele beco... Ah, as latas de lixo estão derrubadas! Meu Deus, que droga, eu dei uma volta! E com isso, eu corri mais uma maratona; só que dessa vez, pegando um caminho diferente. Pronto, agora eu acho que está tudo... bem...
A casa com hortênsias estava bem na minha frente. De novo. Não é possível, eu tomei outro caminho! Como é que eu voltei aqui de novo?! De uma forma ou de outra, já é a terceira vez que eu passo por aqui. E sem eu notar, o céu já havia escurecido por completo.
Um terrível calafrio atravessa o meu corpo, desde o couro cabeludo até as solas do meu pé, e então eu soube: alguma coisa estava errada e eu quero ir para casa.
Pensei em, ao invés de seguir em frente, voltar e sair daquela situação tenebrosa, mas logo descartei essa opção quando eu vi o que estava atrás de mim: todas as luzes dos postes estavam desligadas e a escuridão, que se alastrava pelos becos e esquinas, parecia ter vida própria. O meu sensor de perigo já estava quase explodindo. Se tem uma coisa que me dá tanto medo quanto ventríloquos é o escuro. Ah, e quadros antigos também.
Um barulho grotesco, como um grunhido bem grave, ecoou pela rua escura, e aquilo foi o suficiente para me fazer sair correndo que nem louca pela direção oposta.
Por favor, que eu não acabe voltando lá...
Por favor, que eu não acabe voltando lá...
Por favor, que eu não acabe voltando lá...
Sem pensar, comecei a correr de olhos fechados pela rua sem curvas, fiz todos os tipos de reza que eu conhecia até me atrever a abrir os olhos mais uma vez.
Lá estava ela, aquela bela casa com um canteiro cheio de hortênsias floridas fora de época. Hortênsias: as flores que, segundo lendas, aprisionam espíritos vagantes; e lá estava eu, na frente delas... Pela quarta vez.
Antes mesmo que eu conseguisse terminar a minha última reza aos deuses, uma sombra do breu mais denso do que o da própria noite transbordou pelo canteiro, logo abaixo das malditas hortênsias, que... estavam maiores?
Eu me sentia paralisada, não me movia de jeito nenhum. Tinha ciência da sombra que agora subia e se estirava bem na minha frente, mas ainda assim estava petrificada. O que fazer? Para onde correr? Olhei em volta e tudo estava um da cor de alcatrão. Enquanto isso, a sobra na minha frente já tinha se transformado num... num... Mas que droga é essa?!
O que eu via na minha frente era um ser preto, que parecia um ser humano sem a pele, apenas com os tecidos musculares à mostra. Ele chegava facilmente aos dois metros e cinquenta. Tinha um rosto triplamente mais estranho, com os olhos do tamanho das palmas da minha mão saltando das órbitas. O nariz era praticamente inexistente, se não fosse pelos três furos que ele tinha no meio do rosto. Ele tinha uma careca horripilante e uma boca... Gente, aquilo dali pode ser considerado uma boca?!
E foi aí que a criatura grotesca que nem deveria existir ― não, sério, com a existência daquilo era possível?! ― deu um grunhido agudo e avançou na minha direção. Só então meu cérebro voltou de “standby” e eu me toquei de que aquilo era real. Aquela criatura existia mesmo e ia me matar!
Dei um grito de volta e me virei para correr, seja lá qual for a direção. Mas quem disse que dava? Aquele bicho era cem vezes mais rápido do que eu e me alcançou antes mesmo que eu conseguisse dar cinco passos. Ele me agarrou pelo tornozelo e me atirou contra uma parede. Por sorte, eu consegui evitar que a minha cabeça batesse diretamente, mas ainda assim, meu ombro doeu como se um carro o tivesse atropelado.
Eu tentei me colocar ereta de novo, mas a dor no ombro estava insuportável. Bem, como um bom cavalheiro, a criatura delicadamente me agarrou pela cintura ― os dedos dele eram tão compridos e distorcidos que davam uma volta quase completa ― e me atirou para cima, como se eu fosse apenas um brinquedinho. Quando eu estava prestes a atingir o chão, ele me pegou de novo, sem se importar se as grandes garras que ele tinha nas pontas dos dedos iriam me fatiar toda, o que aconteceu com a região das minhas costelas e braços; meu ombro já estava dormente de tão dolorido.
A criatura repetiu a sequência de jogar-e-pegar mais duas vezes, até que o sangue que escorria da minha costela esquerda o fez parar. Não que estivesse jorrando sangue, porque a unha não chegou a penetrar em mim, mas minha pele estava bem arranhada. Senti a minha blusa umedecer e o meu desespero aumentar aos poucos. Enquanto ele me segurava forte com uma das mãos pendendo a, pelo menos, um metro e meio do chão; a outra mão “brincava” de passar as garras pelo meu rosto e pescoço sem arranhar, apenas para ver as minhas lágrimas escorrerem mais desenfreadas e o suor fluir mais intenso.
Eu não sei mais se o que eu sentia era medo, angústia, desespero ou ódio... Talvez fosse tudo isso junto. Ou, talvez, fosse um sentimento completamente novo. Era como uma explosão que acontecia dentro do meu peito, e se espalhava por todo o meu corpo através das minhas veias. Era como se o fogo que queimava ardente bem fundo do meu corpo tentasse escapar, por todas as partes. Quanto mais esse sentimento devastador tomava conta de mim, mais a criatura medonha grunhia e me apertava, como se quisesse espremer tudo que eu tinha pelos meus poros.
Aos poucos, eu ia ficando tonta e fraca. O breu em volta invadia meus olhos, e eu já não enxergava mais nada... Nada além daqueles olhos brancos no meio, avermelhados em volta e que saltavam em minha direção.
Não... eu não quero morrer.
É só um sonho, é tudo uma ilusão...
Não, a dor é intensa demais. É real.
Não é justo.
Eu só tenho 16 anos, tenho ainda tanto para fazer, para ver, para conhecer...
Eu não quero ir.
Não quero morrer...
...Ao menos, não quero morrer olhando para essa coisa grotesca.
Onde estão as belas hortênsias? As culpadas disso tudo... Malditas flores, pelo menos me deem uma última visão bonita...
Mas elas não estavam mais lá. Ou melhor, estavam, mas queimavam sob uma gloriosa dança de labaredas azuis. Era um fogo puro que as queimava, que fazia com que as flores, aos poucos, fossem completamente transformadas em cinzas. Bem feito.
Mas assim, eu perco a minha última visão confortante; algo que acalmasse meu espírito. Procuro envolta, loucamente, atrás de algo que pudesse me fazer pensar que, ao menos por um segundo, nada daquilo estava acontecendo. Estava quase desistindo, pois a coisa preta estava mais agitada depois que as hortênsias foram queimadas. Talvez tenham algum tipo de ligação?
Agora ele me sacudia com violência, e várias foram as vezes que eu me esbarrei no chão e nas paredes. Eu não tinha força nem mesmo para gritar. E por que iria? Quem iria me escutar...?
Foi então que a criatura subitamente parou e encarou a esquina atrás da bela casa das hortênsias. De relance, pude vê-lo perfeitamente parado, como uma pedra: um homem que aparentava ter uns 20 anos, de pele alva e cabelos acinzentados encostado no muro assistindo a tudo pacificamente.
Parte de mim queria esganá-lo por não fazer nada. Parte de mim entendia que ele, assim como eu, era apenas um homem impotente perante a essa criatura demoníaca. Parte de mim não entendia por que ele estava tão tranquilo. Parte de mim estava envergonhada por me apresentar nesse estado para um homem tão bonito. Parte de mim se perguntava se eu já estava morta e se ele podia realmente nos ver.
Mas nenhuma dessas partes foi vitoriosa.
Eu não tinha mais força para muita coisa, muito menos para raciocinar com lógica. Então, nos últimos segundos que me restavam de consciência, nossos olhares se cruzaram. Eu não fui capaz de fazer mais nada além de abrir um sorriso casto, mas grande o suficiente para deixar escapar um líquido de minha boca, que não sei se era saliva ou sangue. E aí seus olhos se arregalaram e eu soube que ele podia nos ver.
Deve ter sido... uma cena perturbadora.
Fale com o autor