Notas iniciais
E aí gente, eu supostamente deveria ter postado esse capítulo no fim de semana, mas como eu não parei em casa no fim de semana, to postando hoje, enfim, espero que gostem, porque esse capítulo aqui ta bem especial :3 Beijo da Akira ^w^

Iwako

Já era tarde quando acordei com um cheiro de comida sendo preparada, um cheiro estranhamente familiar, na verdade. Abri os olhos imediatamente para poder me situar. A casa era coberta por shoji,— uma tela tradicional japonesa, feita com madeira e papel. — sim, eu conhecia aquela residência, era a casa dos Ishida.

— Iwako-san? — uma voz masculina e grave me chamou e eu pude perceber ao meu lado um rosto bem familiar.

— Kentaro? — respondi e um sorriso se formou no rosto do homem.

— É muito bom vê-lo aqui de novo, amigo — seu tom de voz era terno como o de um pai.

Ishida Kentaro é um homem grande e forte, talvez tivesse a minha altura, não que eu tenha prestado muita atenção, mas é fácil perceber quando alguém é tão alto quanto eu, afinal, é uma raridade.

— É bom vê-lo também. — Retribuí o sorriso. — Mas, por que eu estou aqui, afinal?

— Bem… — Ele coçou a careca. — Essa é uma história complicada, posso te contar, mas é melhor nos sentarmos para comer, enquanto isso eu te explico, além disso, a Yumiko está com saudades de você.

Assenti com um sorriso. Yumi-chan é esposa do Kentaro, os dois são cuidadores do templo. Assim como toda a família Ishida, que veio antes do próprio Kentaro, o casamento entre Yumiko e Kentaro foi arranjado, mas por sorte os dois sempre se amaram desde jovens e até hoje pode-se perceber o carinho entre eles.

Seguimos pelo corredor de madeira até chegar na sala de jantar, o kotatsu — uma mesa baixa, normalmente acompanhada por almofadas para sentar, tradicionalmente japonesa. Estava arrumado com pratos e travessas, uma delas estava com arroz e outra com salmão assado, podia ver um pouco de caldo também em uma tigela, mas não me interessou muito; pude finalmente perceber a própria Yumiko chegando com mais tigelas de comida nas duas mãos.

— Iwako-kun! — ela exclamou deixando rapidamente a comida na mesa e correndo para me abraçar. — Que bom que acordou, nós estávamos ficando preocupados…

— Preocupados? — a interrompi enquanto retribuía o abraço. — Por que estariam preocupados?

— Ora, você ficou inconsciente por dois dias, Iwako-kun, mas felizmente o Hiyato o trouxe e a Yue-san cuidou de você; foi um encantamento com flor de ameixeira, por isso seu corpo precisou de um certo tempo para se adaptar... Pelo menos foi o que ela disse.

Ao ouvi-la falar aquelas coisas eu lembrei automaticamente do dia que os youkai-lagarto me abordaram no templo, eu ouvi uma voz feminina muito familiar, mas não era a Yue e muito menos a Yumi; seria a… Aohono Michi?!

— Então quer dizer que eu não vou mais desmaiar? — Nos afastamos e ela sorriu.

— Ela também falou algo assim…

— Ela não nos deu muita informação — Kentaro completou. — O Hiyato-kun disse para você procurar ele assim que estivesse melhor, ele tem uma… informação importante para você.

Informação…? — tentei perguntar mas a Yumi me interrompeu.

— Enfim, a comida está pronta, vamos conversar, Iwako-kun, faz tempo que você não vem aqui!

A brusca mudança de assunto me fez ficar com olhar de paisagem por alguns segundos. A mulher que tinha por volta de uns quarenta anos me puxou pelo braço até uma das almofadas no chão para que eu pudesse sentar. Yumiko é uma mulher bonita, alguns fios de cabelo branco, mas mesmo assim, ainda parece jovem.

— Certo, temos aqui Takoyaki, Sukiyaki e Nikuman. São seus prediletos não é mesmo, Iwako-kun?

De fato esses eram os meus pratos prediletos, e ninguém nunca os preparou tão bem quanto a Yumiko. Quando o templo foi atacado foi esse o casal que me salvou e me abrigou por um bom tempo, além de me alimentar. Eu realmente, devo muito aos dois.

Todos estávamos sentados ao redor da mesa nos servindo, eu estava morrendo de fome, afinal sou um koma-inu que não come há dois dias.

— Então, Iwako-kun, o que tem feito, conte-nos! — Kentaro, parecia animado enquanto levava um pedaço de salmão a boca.

— Estava procurando uma forma de ficar mais poderoso… Sabe, ainda quero vingar a morte da Sora e do Daisuke-kamisama — Forcei um sorriso enquanto colocava dois espetos de Takoyaki em meu prato. —, mas não sabia exatamente como conseguir isso, até conhecer a garota ruiva, ela me fez lembrar da Kasai no Hana; me fez lembrar que eu poderia usá-la ao meu favor… Se ao menos eu a encontrasse.

Percebi que o semblante dos dois ficou pesado, talvez um pouco descontente, mas não entendi exatamente o que aquilo significava.

— Então quer dizer que você não fez nada além de buscar uma forma de se vingar? — Kentaro prosseguiu.

— Do jeito que você fala, faz parecer muito mais grave — respondi de cabeça baixa enquanto pegava um pão nikuman.

— Talvez porque de fato seja, Iwako… — dessa vez era a voz da Yumi-chan. — Já parou para pensar pelo menos uma vez no que o Daisuke-kamisama diria?! Ele é o deus da proteção, não da calamidade.

Aquelas palavras eram fortes, e mesmo que não quisesse tinha de ouvi-las, nunca tive pais, mas acho que a sensação é muito parecida.

— Acontece, que eu estou morrendo a cada segundo que passa, eu não posso simplesmente abaixar a cabeça e aceitar tudo o que aconteceu comigo dez anos atrás… Eu ainda sofro por conta disso! — soei um pouco ríspido na ultima frase, mas logo tentei me corrigir. — Não posso deixar que meus últimos momentos de vida sejam em vão, eu vou morrer, mas morrerei sob a honra daqueles que perdi, Daisuke-kamisama e Sora merecem isso… Eles merecem.

O clima durante o almoço ficou meio pesado por alguns longos minutos, acho que tinham visto razão e verdade em tudo o que eu estava dizendo, mas a preocupação deles era plausível, não tinha como evitar. Estávamos quase terminando o almoço quando a Yumi-chan tocou minha mão, seu olhar era terno, era como se ela finalmente entendesse; levantei o olhar para o Kentaro e mesmo sério, pude perceber que havia carinho em seu olhar, eu devo muito a essa família e com certeza os pagarei um dia.

Depois de algum tempo, nossas conversas voltaram aos assuntos banais e mundanos que me intrigavam, como os amigos do Kentaro, a horta que a Yumi tinha plantado, como eles cuidaram do templo por todo esse tempo; esses assuntos me reconfortavam, além de trazer algum resquício de paz ao meu coração.

Próximo ao final da tarde, depois de ter passado um bom tempo com a família Ishida, pude finalmente seguir caminho até o restaurante do Hiyato. De fato eu já estava me sentindo muito melhor, o feitiço que a Yue havia feito estava tendo um resultado bom até então, não me sentia cansado, a cicatriz não doía mais e ao levantar a camisa podia perceber que o aspecto escuro e grotesco de antes não era mais tão visível assim; parecia que eu era capaz de qualquer coisa.

Segui o caminho de terra até finalmente adentrar a parte asfaltada da cidade, era uma rua vazia, talvez por ser a mais afastada dos centros comerciais, de qualquer forma; foi uma caminhada de quarenta minutos até finalmente alcançar o restaurante do Hiyato.

O lugar estava lotado, na sua grande maioria por adolescentes entre quinze e dezenove anos, era estranho ver o Hiyato administrar tal lugar sendo que ele não aparentava uma idade muito superior a daqueles garotos e garotas; tudo bem que a forma como ele se apresenta para os youkais não é a mesma que ele se apresenta para os humanos; para eles, Hiyato tem a aparência de um homem gordo e baixinho de aproximadamente trinta anos, com certeza se aquelas meninas vissem o Hiyato em sua forma humana original, elas se tornariam clientes assíduas.

— Iwako-kun! — Pude ouvir o Hiyato do outro lado o balcão. Seu sorriso era zombeteiro como de costume. — Eu estou em um horário não muito bom, quando todos esses clientes saírem acho que podemos conversar.

— Esses são estudantes do Seikan, certo? — deixei transparecer um pouco de curiosidade.

— Eu sei o que está pensando. Não, a senhorita Aohono Michi não esteve por aqui hoje — brincou. — Na verdade, temos muito o que conversar, muito mesmo. Só tenha um pouco de paciência.

— Claro, sem problemas, eu nem estou morrendo mesmo, tenho o tempo que quiser.

Hiyato riu, mas logo voltou a atenção para seus clientes costumeiros, no caso, os estudantes. Todo aquele processo de “leva prato, recolhe prato, recolhe pedido e leva pedido” demorou quase uma hora, mas para quem tem quinhentos anos passou bem rápido. Estava na parte superior, numa espécie de quarto, sentado no sofá; o mesmo quarto que eu havia ficado da ultima vez que estive aqui, esperei que o Hiyato terminasse de arrumar as coisas na parte do restaurante para que finalmente pudéssemos conversar.

— É bom ver que você não está morto… — ele sorriu maliciosamente. — Pelo menos não ainda.

Esse gato me irrita profundamente.

— Vamos, diga-me logo o que tem para contar.

— Sempre direto… — ele comentou enquanto enquanto sentava-se numa poltrona à minha frente.

— É o meu jeito. — Sorri.

— Combina com você — ele brincou.

— Me tire uma dúvida, Hiyato. Quando você e a Yue me encontraram no templo… Aohono-san estava com vocês?

Ele me olhou de canto com um sorriso malicioso.

— Sim, ela estava, sim… Por quê?

— Nada, fico satisfeito que a tenham encontrado… Só achei estranho ela estar com vocês, pensei que ela não quisesse se envolver com o nosso mundo.

De fato ela não quer. — Sorriu mais uma vez se ajeitando na poltrona. — Mas pelo que pude perceber, talvez ela pense que deve algo a você, talvez por ter ajudado ela.

— Ridículo. — Um riso abafado escapou da minha boca. — O que ela poderia fazer por mim?!

Hiyato me encarou, com um olhar sagaz, um olhar que só ele conseguia fazer tão bem; me perguntava o que aquilo significava.

A janela estava aberta, logo podíamos sentir o tempo frio, a iluminação da rua era boa, quase me fazia esquecer que já era noite. Tudo estava calmo e silencioso.

— Enfim — a voz do Hiyato chamou minha atenção —, tenho uma mensagem da Yue-san para você a respeito do encantamento, basicamente o que você pode e não pode fazer e algumas coisas específicas que deve ter em mente. Resumindo: você tem que evitar encantamentos que envolvam uma segunda pessoa para ser concluído, por exemplo: todas as vezes que você tentou utilizar um feitiço que precisasse da Sora… Bem, você acabou desmaiando, então você precisa utilizar feitiços independentes, os quais você seja perfeitamente capaz de concluir sozinho, ao tentar usar um encantamento com a ajuda de um parceiro que não está mais lá, você termina por deixar que um excesso de energia vital vaze fazendo com que você desmaie, pelo menos foi algo assim que a Yue-san explicou.

— Mais algo que eu deva saber? — passei a mão pelo cabelo, tentando tirá-lo do rosto.

— Sim. — Ele confirmou com a cabeça. — Não abuse de sua transformação, quando está na forma de koma-inu você precisa se esforçar muito e isso acaba mais uma vez forçando a energia vital para fora do seu corpo. Sempre que puder, mantenha a forma humana, ela é menor e mais simples, você não precisa de muita energia vital para manter-se de pé nela. Ah! Por fim, mas não menos importante, esse feitiço precisa ser renovado a cada dois meses, caso contrário os seus problemas vão voltar totalmente, desmaios, dores, perda excessiva de energia vital, enfim. Tudo isso só faz com que sua morte seja menos dolorosa, Iwako-kun, mesmo que retarde a saída de energia do seu corpo, sua morte é de fato inevitável.

— A menos que eu encontre a Kasai no Hana — retruquei.

Ao dizer isso pude perceber que o Hiyato tentava terrivelmente, conter um sorriso em seus lábios, mas infelizmente ele não conseguiu.

— Do que diabos você está rindo? — O encarei confuso.

— Nada, só que é engraçado — ele respondia entre risos.

— O que é engraçado?

— É que... — tentava conter a gargalhada aos poucos — Michi está com a Kasai.

E nesse exato momento, eu não sabia o que fazer, mas não vou mentir que a vontade de socar o Hiyato era grande. A informação veio como um turbilhão em minha mente e eu fiquei por alguns minutos o observando a minha, enquanto se divertia as minhas custas. O que diabos aquele gato estúpido estava falando?

— Então você quer que eu acredite nessa história que a Aohono-san está com a Kasai no Hana?

— Iwako-kun — Ele tentou finalmente parar de rir —, se você vai ou não acreditar, é um problema único e exclusivamente seu, sinceramente, eu não me importo, mas sim, a Aohono Michi está com a relíquia. Yue descobriu que a luz estranha que a cartomante viu refletir na alma da Michi, na verdade era a própia Kasai. A relíquia foi selada na alma dela, por alguém cujo poder está muito acima do que podemos imaginar.

— Digamos que eu acredite nessa história, você suspeita de alguém que possa ter selado essa relíquia?

— Não sabemos isso ainda. — Ele tentou fazer uma pose mais séria, mas foi em vão. — Mas, acredito que a Yue-san esteja procurando fontes a respeito disso, sobre quem dentro do clã das Kitsune era responsável pela Kasai no Hana. De qualquer forma, pedi que um informante nos notificasse caso descobrisse algo.

Pude sentir meu peito transbordar de esperança, era uma sensação que há tempos não vivenciava: a relíquia do poder ilimitado estava na mesma cidade que eu.

— Só tem um problema: como eu vou conseguir essa relíquia? Sabe que eu não gosto de matar humanos, não sabe, Hiyato? — relaxei com a notícia boa que acabara de receber.

— Bem, aí é que está o problema, Iwako-kun… — Sua postura finalmente assumiu uma forma mais séria e isso me preocupou. — Você não pode matar a Aohono-san. Se o fizer, a alma dela iria para outro plano levando junto a Kasai.

— Então quer dizer que não posso matá-la?! Bem, acho que isso é um alívio afinal de contas. Mas eu tenho que ficar de olho nela.

— Sobre isso eu posso ajudar: você poderia trabalhar no restaurante, já que ela tem o costume de passar aqui no final da aula.

— Eu aceito, não é uma má ideia… — pensei por um instante.

— Bem, é, mas não é só isso.

— E o que é? — tentei não ser ríspido.

— Você não apenas “não pode, matar a Aohono Michi”... — ele suspirou. — Você não pode permitir que ela morra. Iwako-san, você tem que protegê-la até o fim; até que possamos retirar o selo em sua alma.

Encarei ele por alguns segundos. Foi então que pude perceber a seriedade do que o Hiyato acabara de dizer, meus olhos se arregalaram e meus ombros assim como meu maxilar, tensionaram. Eu tenho que proteger Aohono Michi…

Notas finais
É isso aí gente! Espero que tenham gostado da surpresa :3 Até o próximo capítulo O/