A Quase Raposa e o Cão de Pedra
6 E As Descobertas Não Param...
Notas iniciais

≺ Michi ≻
Estava andando pela rua com passos apressados, temendo que alguém me visse no estado em que me encontrava. Para a minha sorte, a rua estava consideravelmente deserta, sabendo que devia ser por volta das onze da manhã, já que o sol não estava em sua posição máxima. Céus, depois de um dia inteiro fora de casa, minha mãe devia estar louca me procurando. E isso porque ela ainda não me viu agora, com esse rosto estranho e roupas rasgadas sujas de sangue.
O que eu devo fazer? O que eu devo falar? Não quero assustá-la, mas, querendo ou não, foi ela quem se casou com um youkai. E deveria saber que teria uma filha hanyou. A menos que... que ela seja a youkai! Não, espera, no que é que eu estou pensando?
Decidi sentar na sarjeta da rua e respirar um pouco. Minha cabeça estava uma bagunça, eu me sentia estranha e o local onde o demônio sombra me atacou ainda incomodava, mesmo que já estivesse totalmente curado devido ao encantamento do Iwako-san. Toquei de leve na minha costela esquerda, que foi onde a maior ferida tinha sido aberta. Mesmo com a leve cicatriz na minha costela, mesmo com a blusa rasgada, mesmo com as manchas de sangue e sujeira... eu não consigo acreditar que tudo isso foi real.
Eu simplesmente não quero acreditar.
Levantei-me num pulo e pus-me a caminho da minha casa. Mais à frente, pude ver que a pequena rua em que andava finalmente dava para a avenida principal, uma das mais movimentadas, mas eu não parei de andar. Não ligava se as pessoas me vissem na forma em que me encontrava, se me achassem louca por estar descabelada e com a roupa rasgada ou o que seja; eu só quero voltar para casa e abraçar minha mãe. Eu só quero um lugar para me sentir segura de novo.
Dei mais um passo e finalmente estava na Avenida Khaosan Kyoto Guesthouse, a maior de Kyoto. Nas ruas, o fluxo de carros era intenso e parecia interminável. Nas calçadas, as pessoas andavam a passos largos e encolhidas, evitando ao máximo esbarrar umas nas outras. O movimento parecia com o de uma veia pulsante, parecia vivo. E, ao mesmo tempo, mecânico, já que todos ali não pareciam notar o mundo em volta, estavam presos demais ao costume de andar sempre pelos mesmos lugares. Eu também estaria assim... se as pessoas não estivessem atravessando o meu corpo.
Sim, isso mesmo, elas estavam passando por mim! A sensação era como entrar numa piscina, sentir-se atravessando algo. Era muito estranho. E o pior: era como se eu não existisse!
É como se eu fosse... um espírito...
Não, aí já é demais para mim. Por que ninguém me vê?! Eu simplesmente não posso viver invisível para sempre! Pensei que eu fosse uma hanyou, e não uma alma penada! Volta ao normal, Michi!, eu dizia para mim, mas não adiantava. Tentei me beliscar, gritar com as pessoas, me jogar na frente de um carro... Mas nada adiantava. Lembrei-me do Iwako-san dizendo que “só depende de mim”, porém não era bem o que estava acontecendo. Eu me esforcei ao máximo para mentalizar as diversas formas possíveis de fazer o meu corpo voltar ao normal, mas nada adiantava.
Ah, dane-se! É até melhor que ninguém me veja nesse estado ridículo, pensei. No mesmo instante, pus-me a correr pela avenida, e fiquei feliz ao descobrir que sou muito mais rápida nessa forma do que na forma humana. Ah, se eu soubesse que podia correr assim quando o demônio sombra apareceu... E então, como num filme, todas as loucuras que aconteceram de ontem para hoje passaram pela minha cabeça: o demônio, o Iwako-san, o oni, a velha, uma feira inteira de youkais... E agora eu, uma hanyou invisível. Isso é demais para mim, é demais para tão pouco tempo.
Não sabia ao certo porque, mas estava com muita raiva. Tinha vontade de jogar toda a culpa em alguém, mas nem isso eu podia fazer. Culparia a quem? À minha mãe, por nunca ter me contado que casou com um youkai? Mas há a possibilidade de ela nunca ter tido conhecimento disso também... Não, espera, aí também já é demais.
Antes de conseguir resolver o meu conflito interno, eu cheguei em casa. Mesmo sendo bonita, era uma casa modesta de apenas dois quartos, com as paredes pintadas de creme e com detalhes em madeira. Respirei fundo e atravessei o portão da frente — finalmente, uma vantagem de estar nessa forma —, rezando para que, por algum motivo, toda essa confusão se resolvesse assim que eu entrasse. Mas as coisas só pioraram.
Do lado de fora, pude escutar uma pessoa correndo de um lado para o outro, falando angustiadamente com alguém ou alguma coisa. Uma pitada de ansiedade se espalhou pelo meu corpo, fazendo-me hesitar por alguns segundos se eu deveria entrar ou não.
—... O quê? Como assim?... — A voz da minha mãe soava fraca e rouca, e ouvi o barulho de algo caindo.
No mesmo instante, eu já estava lá dentro, atravessando todas as paredes que me apareciam até chegar à minha mãe. Finalmente a encontrei, sentada no meio do tapete redondo da sala, ainda com o terninho cinza do trabalho — todo amassado — e o crachá com o nome “Aohono Chiyo” gravado em azul. Ela estava sem os sapatos e com o celular na mão, encolhida, e com os cabelos castanho-escuros ondulados em corte Chanel mais bagunçados do que nunca. O que aconteceu com você, mãe?
Olhei para o relógio que ficava no alto da parede que tinha a pequena cômoda de madeira, onde colocávamos os porta-retratos. Céus, não são onze da manhã... são duas da tarde! Minha mãe devia estar quase louca atrás de mim. E mais: só de olhar para as suas roupas, dá para saber que ela esteve me procurando desde ontem, sem parar.
— Oh, Michi... — choramingou baixinho, como que numa prece — Eu já liguei para o seu celular, para as suas amigas, para o seu colégio... Onde você está...?
Ela levantou uma das mãos para enxugar uma lágrima que caía, e então pude ver melhor o seu rosto. Ele tem o formato de pêssego, o que a deixa com um ar de menina, mas, desta vez, não era assim que eu a via. O avermelhado em volta dos olhos mostrava que ela tinha chorado muito, as olheiras que acompanhavam mostrava que ela não dormiu bem. As marcas de expressão estavam cravadas em uma feição triste, preocupada.
Mãe... Não precisava se preocupar tanto, eu só sumi por uma noite, pensei, mas sabia que ela tinha razão em estar daquela forma, ainda mais se levar em consideração que ela perdeu o marido muito cedo.
Pensei em ir até ela e abraçá-la, mas assim que eu dei o primeiro passo, o celular começou a tocar. Ela tomou um pequeno susto, olhou o número e, ao ver que era desconhecido, franziu o cenho. Provavelmente, não queria atender a ninguém.
— Alô? — Sua voz ainda estava rouca, mas consideravelmente mais composta. — Quem fala?... Hm, e o que... O que disse?... Achou?!...— disse com espanto.
Ela estava tão atônita pelo que a pessoa no outro lado da linha disse que eu fiquei curiosa, e me ajoelhei ao seu lado para escutar a conversa. Mais uma vantagem de ser um “fantasma”.
— É... eu não sei bem com falar isso para a senhora, mas eu achei um caderno escolar na rua. — A voz do outro lado da linha era a de um homem que parecia estar bem nervoso. — Como já era tarde da noite, e...
— A menina?! Onde está a menina?! — Minha mãe falava tão rápido que quase engolia as palavras.
— Menina? Q-que menina? — disse, vacilante
— A dona do caderno! — disse minha mãe, impaciente. — Onde ela está?!
— Mas, moça... Não tinha nenhuma menina por perto... — respondeu, tímido. Minha mãe congelou. Era como se, para ela, o mundo tivesse parado. O homem, então, continuou: — Quando passei pela rua, ela estava completamente deserta. Foi então que eu vi um caderno caído bem no meio da rua. — Oh, droga! Deve ter caído quando o demônio sombra me atacou! — Vi que era escolar, e decidi levar para casa, já que não tinha ninguém por perto. Hoje de manhã eu vi que tinham dois números anotados no verso capa, então pensei em ligar, mas o único que atendeu foi o da senhora...
Minha mãe não respondia nada, apenas olhava para o nada com um rosto perplexo.
— Ei... Moça? Quer marcar um lugar para que eu devolva o caderno?
Ela apenas desligou o celular e continuou encarando o nada. As lágrimas voltaram a escorrer pelo seu rosto, mas a feição incrédula continuava a mesma. Depois de alguns segundos, ela fez uma careta de puro medo e gritou pelo meu nome repetidas vezes. Tentei abraçá-la, mas sempre acabava atravessando-a e caindo. Ela então se levantou e começou a andar de um lado para o outro, nervosamente.
— Pode ter sido um assalto, já que só o caderno estava no chão... Ou então um estupro? Sequestro? — falava sozinha, roendo as unhas da mão direita. Ela tinha esse péssimo hábito de mordê-las quando estava muito nervosa. — Ou será que... Akima...?
Pela primeira vez em anos, eu ouvi a ouvi falar o nome do meu pai — que era quase um tabu para nós. Aquilo me chamou a atenção, então eu me levantei e fui até ela, para olhar com ela reagia.
— Será que ele veio buscá-la?... — continuou sussurrando para si. — Não, ele não faria isso... Ele concordou em deixá-la comigo, então, provavelmente, se ele queria vê-la... — Subitamente, ela parou de andar de um lado para o outro e arregalou os olhos, como se tivesse feito uma grande descoberta. — Se ele não quer vê-la, mas sim levá-la, então...
Ela se interrompeu, franzindo o cenho. Mais uma vez, ela se encolheu em uma pequena bolinha.
— Maldito seja você, Akima! — gritou.
Vê-la daquela forma fez com que meu coração se partisse ao meio. Então, quer dizer que o meu pai é o youkai... Ela deve ter sofrido muito, para sentir tanto remorso. Naquele instante, eu passei a detestar o meu pai. Como alguém pôde ter a coragem de magoar uma pessoa como a minha mãe?
Numa última tentativa de confortá-la, passei meus braços em volta de seu corpo encolhido.
— Vai ficar tudo bem, mãe... — disse, mesmo sabendo que ela não poderia me escutar. — Vai ficar tudo bem.
— Oh, Michi... — Por um segundo, pensei que ela tinha me escutado, e estava prestes a gritar, mas então ela completou: — Mesmo agora, sinto como se você estivesse aqui, me confortando...
Mais uma vez, senti meu coração se despedaçar. As coisas não vão ficar assim, eu preciso fazer algo para concertar essa bagunça. Com as energias renovadas — ou quase isso —, eu me levantei e fui em direção à porta.
Iwako-san, querendo ou não, vai me ensinar a voltar ao normal.
— Onde diabos está o Iwako-san? — murmurei para mim, no meio da Rua Karasuma.
Eu já tinha procurado no templo onde nos separamos, em ruas estranhas... em todos os lugares prováveis — ou pelo menos para mim —, mas nada do Iwako-san aparecer. Minha última esperança foi voltar para o lugar onde nos conhecemos: a casa das hortênsias. Não era exatamente o lugar mais provável, mas já não sabia mais onde procurar.
Sendo assim, segui o caminho que sempre fiz para chegar em casa. Será que, desta vez, eu encontro um youkai no meu caminho?, perguntei-me internamente, pensando no pior, mas logo descartei essa ideia. Pelos deuses, eu lutei contra um oni esta manhã! Não que eu acreditasse cem por cento na história louca que vivi... não ainda. Com certeza, ainda preciso de mais tempo para maturar essa ideia.
Sem perceber, eu já estava na frente da casa com o canteiro de hortênsias — agora todas marrons e sem vida. Parando para vê-la melhor, era uma casa até bonita. Tinha um muro baixo de tijolos, e uma cancela de madeira para a entrada. Do lado de dentro, o jardim com grama bem baixa se alastrava na frente da casa, com um pequeno laguinho à esquerda e um caminho feito de pedras lisas, ligando a cancela até uma singela escadinha de madeira de três degraus. Acima estava a varanda também de madeira, e ao redor dela estava o canteiro de hortênsias. A casa em si era do estilo nipônico tradicional, com as paredes pintadas de branco, telhado encurvado para cima, janelas retangulares e detalhes trabalhados na madeira. Na verdade, era uma casa muito bonita.
Um barulho de água me chamou a atenção, fazendo-me olhar instintivamente para o pequeno laguinho à esquerda. Foi então que eu notei que havia dois peixes dentro deles. Mas não eram quaisquer peixes; eram duas carpas, uma vermelha e outra branca, ambas com uma mancha preta no topo da cabeça. Eles nadavam com tamanha graça e serenidade que não pude deixar de me aproximar para olhá-los mais de perto. Tudo bem que na noite que fui atacada eu estava “ocupada” demais para olhar a casa com atenção, mas... Como é que nunca a notei antes?
Assim que eu me aproximei o suficiente para tocar o muro, a porta da frente se abriu, e uma mulher vestindo um kimono vermelho ligeiramente folgado apareceu. Por um segundo, eu me assustei e dei um passo para trás, mas logo lembrei que estava na forma de hanyou e relaxei. Já que ela não podia me ver, senti-me mais à vontade para analisá-la sem que ficasse estranho: era uma mulher jovem, provavelmente entre 20 e 23 anos, de pele alva e cabelos curtos tão negros quanto a própria noite, num corte irregular que deixava a parte da frente com mechas maiores do que a parte de trás.
— Perdeu alguma coisa aqui, mocinha? — perguntou a mulher. Como ela não podia me ver, eu olhei em volta procurando por outra menina, mas aparentemente não havia mais ninguém. — É com você mesma que eu estou falando, garota ruiva.
Ok, por essa eu não esperava. Arregalei os olhos e dei um passo para trás.
— Como... Como consegue me ver?
A mulher deu um sorriso levemente sombrio e desceu a varanda, vindo em minha direção. Eu recuei mais um passo.
— Não se preocupe, hanyou, eu não procuro vingança pelas minhas hortênsias — disse com suavidade.
— Tecnicamente, não fui eu quem destruiu as hortênsias — murmurei.
— Mas certamente foram as suas chamas azuis que as queimaram — rebateu, chegando à cancela.
Eu a analisei mais uma vez, tentando perceber se ela era uma ameaça ou não. Mas, depois de ser enganada por aquela velhinha na feira, sinto que realmente não devo confiar em ninguém.
— Você viu o demônio sombra me atacar?
— Certamente que sim. — Ela sorriu e apoiou o cotovelo na cancela.
— E não fez nada? — Sinto que deixei transparecer mais indignação do que gostaria, o que aumentou o sorriso da mulher.
— Não havia nada para ser feito. — Ela parecia estar se divertindo com alguma piada interna, o que me incomodava muito. Uma garota é atacada por uma sombra que saiu das suas hortênsias e não há nada para ser feito?! Qual é o problema dessa mulher? — Além do mais, uma hanyou crescidinha como você já deveria saber que não se deve andar por perto de zonas instáveis sozinha.
— Eu não andaria, se eu ao menos soubesse o que é uma zona instável — retruquei. — E mais, como sabe que eu sou uma hanyou?
— Um youkai não cairia num truque tão baixo quanto o de um akuryou, um simples espírito de essência má, mas um releshumano não teria força vital o suficiente para fazê-lo desprender-se do encanto das hortênsias.
Eu não sabia se ficava irritada por ela ter dito que eu fui besta por cair num truque baixo ou se ficava feliz por alguém ter finalmente me explicado por que eu fui atacada.
— Então... as hortênsias estavam prendendo ele, e fui eu quem o libertou? — perguntei apenas para ter certeza de que entendi e ela me confirmou com a cabeça. Sentia-me um pouco culpada pelas hortênsias.
Só tem um problema nessa história toda...
—... Como uma humana como você consegue me ver?
Ela se inclinou, apoiando a cabeça na mão que estava na cancela. Podia jurar que vi seus olhos faiscarem.
— Eu nunca disse que era humana.
Seu tom de voz gerou um calafrio nas minhas costas, e um flashback na cena com a velhinha na feira passou na minha mente.
— Olha, eu realmente agradeço por me perdoar pelas hortênsias, mas...
— Mas você quer descobrir logo uma forma de voltar à sua forma humana. — Ela me completou. Eu arqueei as sobrancelhas e ela rolou os olhos. — Vocês, hanyous, são sempre tão previsíveis...
— Espera, você sabe como fazer-me voltar à forma humana?
Ela assentiu e chamou-me com a mão livre para me aproximar. Mais uma vez eu sentia que estava fazendo uma coisa estúpida, mas mais uma vez eu não tinha outra opção. Fui até a cancela e parei à frente da mulher, do lado de fora. Só quando eu cheguei perto o suficiente é que eu notei que seus olhos eram de um tom de cinza quase que branco, e que ela tinha belos cílios compridos e espessos. Era bonito e amedrontador ao mesmo tempo.
— Mas saiba que tudo tem um preço.
— Ah, vocês youkais e essa mania de dizer que “tudo tem um preço”.
— Como se os humanos fossem muito diferentes — rebateu. A mulher notou que eu estava sem palavras, então continuou. — Não se preocupe, não pedirei muito por essa informação.
— Então... o que quer?
— Seu nome completo, e a sua idade.
A mesma coisa que a velha... Algo me dizia para não o fazer. Mas eu precisava saber como voltar ao normal.
— O que você faria com o meu nome e minha idade?
Ela deu seu sorriso sombrio mais uma vez.
— Para responder-lhe, o preço aumentaria.
Eu entrei em um dilema interno. Parte de mim gritava de uma vez o meu nome e idade, ansiando ver a minha mãe de novo e poder abraçá-la de verdade. Mas outra parte queria correr para bem longe daquela mulher, que parecia ser bem mais ameaçadora que a velhinha. Cada milésimo de segundo era uma tortura mental, um impasse que parecia que não iria se resolver nunca. Eu realmente não quero cometer o mesmo erro. Mas também quero muito voltar ao normal.
— Michi — falei num sussurro.
— O que disse?
— Aohono Michi, 16 anos — falei mais alto. — Agora me diga, como eu volto ao normal?
Ela arqueou as sobrancelhas — provavelmente, não achava que eu fosse dizer-lhe — e se estendeu numa postura mais ereta, mas depois voltou ao normal.
— Feche os olhos. — seu tom de voz passou para um mais calmo e relaxante. Meio relutante, a obedeci. Assim que eu os fechei, senti dois dedos encostarem na minha testa. — Agora, lembre-se de quando era humana, das coisas que fazia, de como o seu rosto era...
Deixei que sua voz guiasse minhas memórias, fazendo com que diversas cenas do meu cotidiano passassem pelas minhas pálpebras fechadas. Senti um ardor confortável percorrer o meu corpo, como se eu estivesse tomando banho de sol.
— Pronto, pode abrir.
Uma vez abertos, meus olhos buscaram rapidamente analisar minhas mãos, depois minha costela ferida, cuja cicatriz permanecia, mesmo que bem mais “apagada”. Depois, minhas mãos correram para o meu rosto, para os meus olhos, e depois para a minha boca — agora, sem caninos pontiagudos. Ao julgar pela feição presunçosa da mulher, o que quer que ela tenha feito deu certo.
Eu era uma humana outra vez.
— Como você conseguiu me transformar? — perguntei, animada com o sucesso.
— Eu? — Ela colocou uma das mãos na boca para abafar o sorriso. — Não fui eu quem te transformou, para falar a verdade. Foi você mesma.
Demorei alguns segundos para internalizar o que ela tinha acabado de falar.
— Como... Como assim? — Estava sem palavras. Depois de todo aquele drama, ela me diz que não fez nada?
— A única coisa que eu fiz foi fazer com que você acreditasse que iria funcionar, e então deixar que o seu corpo tomasse o controle. — Ela parecia estar se divertindo muito com a situação, como se estivesse ensinando um truque de mágica para uma criança. — Tudo que você precisava era acreditar que podia.
Depois de tudo isso... eu me senti incrivelmente idiota. Eu podia ter me virado sozinha. Da próxima vez, vou tentar até que dê errado, antes de procurar por alguém.
— Se era algo tão bobo assim, porque não simplesmente me disse de uma vez? — bufei. — Acho que a troca que fizemos não foi muito justa.
— Ganhar confiança é uma tarefa mais difícil do que pensa, Aohono-san. — Sua postura subitamente tornou-se mais rígida, e o olhar, mais penetrante. — Tanto para com os outros quanto para com você mesma. A troca foi completamente justa.
— Eu conseguiria fazer isso se você apenas me dissesse que...
— Não, você não o teria feito — ela me interrompeu. — Por que confiaria nas palavras de uma estranha quando sequer confiava em si mesma?
Essa frase foi como um balde de água fria. Eu queria rebater, dizer que ela estava errada, que eu não era daquela forma... Mas eu não pude. Não pude porque ela estava certa. E aquilo era uma vergonha.
Ela estava prestes a me falar alguma coisa quando uma música tradicional japonesa tocada por uma flauta começou a tocar. Eu olhei em volta, procurando por alguém passando com um celular ou qualquer coisa que tocasse música, mas mais uma vez não havia ninguém. E então, de uma das mangas do kimono vermelho, a mulher tirou um celular e o atendeu. Por algum motivo, isso parece tão estranho...
— Você de novo?... Hm, eu entendo... Ah?...
Como ela estava ao telefone e eu já não tinha mais nada para fazer ali, apenas me curvei em agradecimento, e ela assentiu. O gesto pode ter sido levemente rude para com a moça do kimono vermelho, mas eu realmente não queria esperar mais nenhum segundo. Eu estava louca para voltar para casa e ver como estava a minha mãe. Virei-me e segui a caminho de casa, quando a escutei falar:
— Então você ainda não tinha percebido que o Iwako está morrendo?
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