A Quarta Onda
2 Descoberta

Jeremy Scott abriu os olhos depois do pior pesadelo que já tivera em toda a sua vida. Eu ainda estou vivo, pensou ele, tocando o próprio corpo como se não pudesse acreditar que tudo não houvesse passado de um pesadelo. Estou seco. Há alguns segundos estava ensopado e prestes a morrer afogado. Por um minuto, a mínima compreensão do ocorrido trouxe um alívio súbito e ele se permitiu projetar um pequeno sorriso...
...Que se esvaiu do seu rosto quase imediatamente ao se dar conta de que não havia sido apenas um sonho. Suas mãos encontraram uma lasca de madeira do tamanho de uma prancha de surf. A madeira na qual ele havia se agarrado para não morrer afogado. A madeira que havia salvado sua vida.
Então, rápida e dolorosamente, as lembranças do acidente atingiram-lhe trazendo de volta a cruel realidade da qual ele tentava desesperadamente fugir. Seus olhos pousaram no nome negro pintado na superfície branca da madeira. Le Brave. Uma súbita onda de horror tomou conta do seu corpo. Então é verdade. Nós naufragamos.
O primeiro sentimento foi choque. Depois veio a dor lancinante em sua cabeça embaralhando seus pensamentos. Seus músculos se retesaram e seus olhos arderam ao entrar em contato com o ar salgado proveniente da brisa marítima. Embaixo de si, a textura da areia quente e seca trouxe uma angústia inevitável.
O sol do meio-dia ardia intensamente em um céu azulado e sem nuvens. Apesar da visão um pouco embaçada, visualizou plantas tropicais por toda a costa. Sua enxaqueca era tão intensa que se manteve ali por alguns segundos, deitado no meio da praia até que pudesse reunir força suficiente para colocar seu cérebro no lugar. Sua boca estava completamente seca e com um gosto horrível. Jeremy não pode deixar de se perguntar por quanto tempo se manteve desacordado. O sol estava no alto, o que significava que era meio-dia. O naufrágio ocorrera no fim da tarde, então provavelmente houvesse passado um dia ou dois. Impossível ter certeza.
Jeremy levantou-se lentamente. Não tinha se dado conta do quanto seu corpo estava dolorido. A dor de cabeça provavelmente havia omitido todas as outras. Olhou para o mar, para além do horizonte. Vasculhou o céu por um instante. Lembrou-se da terrível imagem das nuvens negras que precederam a tempestade. Apesar de todas as provas, ainda possuía esperança de encontrar algum indicativo de que tudo aquilo não passava de uma peça pregada pela sua imaginação. No fundo sabia que era inútil. Contra fatos, não há argumentos.
II
Os destroços estavam espalhados por toda a praia. Milhares de fragmentos encardidos se estendiam até onde a vista de Jeremy alcançava. Quanto mais observava aqueles objetos cuspidos tão fervorosamente pelo mar a ponto de serem reduzidos a destroços, mais se perguntava como poderia ter permanecido vivo. Não acreditava em milagres, embora certamente aquilo fosse o mais próximo de um que veria em toda a sua vida.
Jeremy riu de si mesmo ao recordar em como sempre acreditou ter coragem suficiente para encarar os riscos de uma navegação. Nunca imaginou passar por aquela situação aterrorizante na vida. O som da onda batendo contra o navio. A madeira rachando sob os próprios pés. O navio se partindo em vários pedaços antes de afundar totalmente. Os trovões. Os gritos graves do capitão Lowe. O Capitão Lowe!
O pensamento veio tão depressa que o atingiu como uma pedrada. Onde estaria o capitão? Será que havia sobrevivido? Por mais que Jeremy quisesse, não conseguia de jeito nenhum acreditar que o capitão pudesse ter escapado com vida daquele naufrágio. Apesar de sempre ter sido um homem forte e resistente, o capitão já estava velho demais para aquilo, e os destroços a sua frente só aumentavam ainda mais sua certeza. Mas se ele mesmo havia sobrevivido, porque não o grande Lowe Brave?
Ainda havia uma pequena fagulha de esperança. Ele tinha que achar o capitão. Tinha que sair dali o quanto antes, procurar ajuda. Seus lábios estavam rachados e sua boca muito seca. Não tinha idéia de quanto tempo se passara desde seu último copo de água. Com certeza havia ingerido água do mar, o que aceleraria ainda mais sua desidratação. Jeremy estava prestes a sair da inércia, quando se deu conta de algo que havia deixado passar esse tempo todo. Onde diabos eu estou? Ele sabia o quanto era bom em memorizar as coisas, principalmente lugares, mas aquela praia era completamente desconhecida, o que encheu sua cabeça de perguntas.
Seria a região leste da costa de White Rock? Não, impossível. O vilarejo litorâneo havia sido construído sobre uma costa rochosa onde as pedras possuíam uma coloração pálida, quase branca devido à alta concentração de um mineral específico. Fato que havia dado nome ao vilarejo. Em conseqüência, a areia também era esbranquiçada, de modo que as praias de White Rock eram únicas e inconfundíveis, já a areia na qual Jeremy pisava era comum.
Mas se ele não estava em White Rock, onde mais estaria? Será que a correnteza teria sido capaz de levá-los tão longe a ponto de jogá-los no continente de Amaryn? Jeremy sentiu um calafrio só de pensar nessa idéia. O continente de Amaryn era famoso pelas tribos canibalescas e outras bizarrices, de modo que se pudesse escolher, aquele seria o único lugar da terra no qual não desejaria ter naufragado.
E se estivesse em uma ilha? A idéia parecia perfeitamente possível, já que Jeremy sabia remotamente da existência de centenas de ilhas e arquipélagos localizados na fronteira do Mar de Prata com o Mar de Ferro. Ainda assim seria muito longe, não conseguia imaginar que tipo de furacão seria aquele capaz de jogá-los do outro lado do mundo. Embora ainda possuísse dúvidas, a ausência de qualquer coisa a quilômetros de extensão só fez com que suas suspeitas aumentassem mais. Mesmo as áreas mais conservadas e inabitadas da costa de White Rock possuíam equipamentos ou outras geringonças artificiais que apontavam a presença humana na região. Aquela praia por sua vez era completamente deserta.
Jeremy sabia que, independente de onde estivesse, deveria ir urgente em busca de água e comida antes que anoitecesse, já que suas tentativas de encontrar o capitão diante do que sobrou do Le Brave haviam se mostrado inúteis.
Vislumbrou a paisagem a sua esquerda. De longe, a floresta era um emaranhado de palmeiras e outras plantas tropicais que Jeremy desconhecia. Estava bastante distante do mar, cerca de dois ou três quilômetros, o que fez Jeremy pensar que talvez a maré pudesse estar baixa. Antes de seguir caminho, vasculhou o perímetro onde os vestígios do pesqueiro estavam espalhados e sem esperar, foi invadido por uma súbita tristeza.
Olhar para os destroços do que um dia havia sido seu local de trabalho preencheu o peito de Jeremy de uma angústia sem fim. Caminhou de um lado para o outro, desviando de lascas enormes de madeira de convés, ferro retorcido e farrapos de vela. Como aquilo havia acontecido tão rápido? Como a previsão do tempo que sempre fora tão precisa podia ter errado tanto a ponto de não prever a iminência de uma tempestade? De onde surgiram aquelas nuvens negras? Jeremy podia jurar que havia algo naquela história que não fazia sentido. Nem mesmo sua forte intuição, que desde sempre o ajudou a sair das mais mirabolantes situações, havia ajudado na noite do naufrágio.
Só havia medo. Medo da morte. Medo de nunca mais poder ver sua amada Ênia. Medo de ser devorado pelo furacão que rodopiava furiosamente. Um medo tão imobilizador, extremo e desconcertante que ali, caminhando pela praia e ouvindo o suave chacoalhar das ondas, pareceu até estranho e exagerado. Incomum, pra falar a verdade. Quase como se alguém o tivesse implantado em sua cabeça a ponto de ter roubado todos os seus sentidos e o deixado sem reação, incapaz de ajudar o capitão enquanto houvera tempo. Ainda sentia uma pontada de dor no lugar onde o capitão o esmurrara tentando chamar sua atenção. Se ao menos eu pudesse voltar no tempo e ajudá-lo... Tarde demais, pensou ele, virando-se para a costa. Ao girar o corpo, um brilho intenso a poucos metros de onde estava chamou sua atenção.
Entre os destroços, um objeto espelhado refletia a luz solar exatamente na direção dos olhos do assistente. O que seria aquilo? Não me lembro de ter visto nada parecido no navio. Curioso, Jeremy andou a passos largos até o objeto.
Ao se aproximar do que pensava ser um espelho ou um pedaço de ferro, Jeremy tomou um susto. Uma caixa? Menor que uma caixa de sapatos, a caixinha era um cubo feito de um material que Jeremy julgou ser alumínio e estava tão polida que ele podia ver o próprio reflexo abatido em uma das faces. Desenterrou-a cuidadosamente da areia tomado pela curiosidade. De onde é que esse troço poderia ter vindo? Então se lembrou que o seu capitão um dia já havia sido um cientista renomado na capital e havia largado tudo para comandar o Le Brave. Talvez aquela caixinha fosse mais uma de suas esquisitices, embora Jeremy tivesse certeza de nunca ter visto algo parecido.
O pensamento trouxe de volta a tristeza que sentira momentos antes e Jeremy foi tomado novamente pelo pesar. Segurando a caixinha firmemente, observou-a melhor e percebeu que ela possuía inscrições gravadas por todas as superfícies, embora ele não tenha conseguido ler ou decifrar que língua era aquela. A caixa era perfeitamente plana em todas as seis faces, de modo que não possuía nenhuma trava ou fecho. Porque o capitão iria querer uma caixa que não abre? Tudo ainda era bastante estranho para Jeremy. Apesar disso, quanto mais girava a caixa nas mãos, mais certeza tinha de que aquilo deveria ser coisa do capitão Lowe. Resolveu então guardá-la como recordação, imaginando que aquele objeto talvez pudesse ter tido algum valor sentimental para o velho homem enquanto ainda era vivo.
Jeremy procurou um pedaço maior do que sobrou de uma das velas e amarrou-a de forma a parecer uma mochila. Juntou outros objetos que talvez pudessem ser úteis; Uma barra de ferro, tampas de acrílico, pedaços de madeira com os quais poderia fazer uma fogueira mais tarde e algumas cordas que amarravam as velas. Colocou-os dentro da mochila improvisada e em seguida colocou a caixinha lá dentro. Poderia avaliá-la melhor depois. Agora, precisava de água.
Dessa vez ele caminhou em direção a costa sem olhar para trás. Não deveria demorar mais um segundo sequer por ali. O sol já estava baixando rapidamente e algumas nuvens mais espessas a oeste fizeram seu coração acelerar. Não iria desejar estar perto do mar se outro furacão daquele porte aparecesse. O pensamento lhe trouxe arrepios.
No caminho até a floresta não conseguiu evitar pensar novamente na caixinha que trazia e no seu capitão supostamente morto. Mesmo depois de tudo aquilo, a ficha parecia não querer cair. O capitão nunca temia nada. Era o homem mais bravo e pacífico que Jeremy conhecia. Naquela noite do naufrágio, porém, ele estava tão aterrorizado quanto um garotinho indefeso. Não era uma coisa natural. Havia uma peça faltando.
Jeremy agora alimentava três certezas concretas em sua cabeça.
A primeira era a de que achar comida e água seria fundamental para a sua sobrevivência.
A segunda era a de que sua forte intuição começara a funcionar novamente, apontando algo extremamente errado naquela história toda de naufrágio.
A terceira e não menos importante era a certeza de que independentemente do que estivesse errado naquela história, mesmo que lhe custasse à própria vida, mesmo que fosse a última coisa que fizesse naquele lugar desconhecido, ele estava disposto a descobrir.
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