Meu trabalho me faz feliz. A empresa, fica numa galeria em meu mesmo bairro de residência. Trabalho lá todas as tardes, e é caminho para minha mãe me deixar quando vai trabalhar. A galeria é ampla, limpa e bonita, com muitos jardins internos. O escritório é pequeno e aconchegante, com dois andares. Fico no segundo andar, quase sempre sozinha, e fico satisfeita de estar num ambiente que me acolhe. Minha chefe é muito gente fina, às vezes conversamos frivolamente, mas, como fico lá apenas 4 horas por dia, tento me manter calada e séria, o que não é tarefa difícil. Crescer me fez assim naturalmente, embora tenha umas pitadas de humor que aparecem aqui e ali.

Faço o trabalho burocrático – preencher formulários, verificar as solicitações de visto para outros países. Não acho chato, nem cansativo. Acho neutro e procuro aprender algo que pode ser útil para mim. Ao sair, fico perambulando pela galeria enquanto minha mãe não aparece para me buscar. Vi escritórios de advocacia, uma sala de co-working, uma loja de perfumes, e uma saleta de espera sem nada escrito. Dentista, talvez? Fui-me embora. Dias e dias se passaram, e eu sempre passando pela porta da saleta de espera e me perguntando o que era. Tudo sempre vazio e silencioso.

Até que, um dia, vi uma moça sentada lá. Logo tentei abrir a porta de vidro, ela abriu-a para mim.

“Oi”, eu disse, meio sem graça. “O que funciona aqui?”

“aqui é uma clínica de psicologia”, informou-me a garota, o cabelo pintado de uma cor diferente, não me lembro se era um tom de rosa ou verde clarinho. Agradeci e fui embora, apressada, pensando que a garota parecia um pouco triste. Acho que a gente não sabe o quanto alguns pensamentos perduram em nossa mente.

Àquela época, uns meses atrás, meu contrato na Viajantes era só de um mês. Em julho eu já não estava mais lá, nem em agosto. Agora, em setembro, minha chefe me chamou de volta. Umas semanas tiveram de passar até que eu notasse aquela saleta de novo, meio ofuscada pelo vidro fumê. Dias transcorreram até que pensei “foda-se, vou entrar”. Curiosidade latente. Seria um psicólogo ou uma psicóloga? Pelo vidro eu já via as cadeiras de espera, e, ao fundo, uma mesinha de criança, com umas cadeirinhas, umas revistinhas em quadrinho, uns brinquedinhos. Um sonzinho ecoava baixo pela saleta, músicas diferentes, de alguma rádio que não conhecia. Ao lado, uma porta branca. Bati e nada.

Em uma cômoda, revistas adultas e cartões de visita. “Jaci Mateus – psicologia e psicanálise”. Peguei o cartão, bati mais uma vez à porta. Sem resposta. Saí. Segurei aquele cartão por um bom tempo. Jaci Mateus. Seria homem ou mulher? Curiosidade latente.

Nunca estive em psicólogos. Confesso que a ideia me aterroriza um pouco. Por muito tempo mantive esse preconceito, essa ideia pré-acabada, de que um psicólogo não pode saber tanto assim para me ajudar; que mais fácil seria eu me ajudar, ou alguém que realmente me conheça me ajudar. Eu achava que o psicólogo não possuía nada, não oferecia grandes coisas, ou talvez eu pensasse isso simplesmente porque nunca me alonguei em pensar em psicólogos. Só sabia que era uma carreira desvalorizada financeiramente. E, aliás, eu sempre me gabei para mim mesma de correr atrás de curas para mim. Pedras, meditação, yoga, tarô, bíblia, i-Ching, frequentar as religiões todas para conhecer etc. são hábitos que mantenho e não vou me abdicar deles. A espiritualidade e a fé são parte grande de mim.

Mas a ideia, só a ideia, de compartilhar coisas privadas com alguém além de minha mãe e do papel me dava arrepios. E, agora, após vislumbrar essa saleta, eu havia percebido o motivo de ela me atrair tanto: é que preciso perder os medos. Agora, muito mais do que antes. O teatro me ensinou isso, mas não sei se incorporei. Ainda fujo de muita coisa, ainda penso demais antes de me lançar. E, agora, essa saleta estava aí, bem na frente do meu escritório de trabalho, para me provar que chegou a hora. Experimentar mais uma coisa.

Entrei, no outro dia, novamente. Saleta vazia. Bati com força na porta branca dessa vez. Nada. Sentia o coração batendo no pescoço. Bati de novo. Uma garota abriu. Seria a mesma de antes, de uns meses atrás? O cabelo era cheio de mechas verdes, ela usava óculos redondos.

“Oi. Será que há alguém aqui para me atender?”

“Sim, ela tá lá em cima. Pode subir.”

Agradeci e entrei. Pela porta branca, finalmente. Era uma mulher, então. Do corredor, estreito, ecoava música, de novo. Subi umas escadas estreitas e ouvi, ainda, outra música. Não identifiquei nenhuma das músicas, o coração acelerado de querer saber o que havia após as escadas. Ou pela quantidade de café que tomei na firma (sempre coloco mais pó que água). Mais um corredor e uma porta aberta. Anunciei minha presença, com medo sei lá de o que.

“Oi, com licença, boa tarde”

“Olá, boa tarde”

Jaci surgiu. Meio gorda, ela sorriu largamente para mim e me convidou a entrar em seu consultório. Os dentes da frente eram separados e eu via a gengiva. Fui ficando progressivamente mais ansiosa à medida que me apresentava a ela. Na prateleira, muitos livros, alguns de Freud em evidência. Sentei-me num divã, percebi que meu sonho meio secreto era sentar num divã, acho. Olhei para o lado e vi mais mesinhas e cadeirinhas e brinquedos de criança.

A sala era aconchegante, mas eu me sentia suando de calor. A sala era cheirosa também. Ela se escorou na própria mesa.

“Você quer começar agora?”

“Não, agora não dá tempo, estou esperando minha mãe que vai me buscar”

Olhei pela janela, em vão, pois as persianas cobriam qualquer visão da rua. Ela me notava, e se aproximou. Sentia que ela me estudava, cada movimento, cada virada no olhar, o jeito de pronunciar as palavras. Será que ela já sabia de mim coisas que nem eu sabia? E aí percebi mais um medo. Ela me denunciar para mim mesma. Olha, você é assim por isso e por isso. Não. Eu decido o que eu sou e por que sou.

Confessei a ela que nunca havia feito terapia e queria saber como funcionava com o método dela. Psicanálise, pensei, com um pouco de preconceito, ela vai querer me segurar lá o resto da vida. E a resposta dela de fato não foi tão motivadora.

“Vai depender mais de você do que de mim. Pode ser por algumas semanas, alguns meses, seis meses, ou até dois anos”

Lembrei-me que um dos motivos para rejeitar terapia antes era esse: essa necessidade deles em nos segurar em seus consultórios. Ouvi histórias de pessoas que iam durante anos e anos. O conceito me parece cansativo. Primeiro, porque essa pessoa, por mais que possua uma boa metodologia, amplos estudos, alto conhecimento dos pacientes, não parece ser necessária durante anos. Conheci um psicólogo uma vez que me disse “o ideal é tratar um problema pontual do paciente, e dar alta. Eu sou a favor de dar alta o quanto antes”. Obviamente, ele não tratava seus pacientes com a psicanálise. Infelizmente não poderia recorrer a ele, já que éramos amigos, e nos beijamos por diversas vezes. Um bom rapaz, e eu me sentia à vontade perto dele, embora soubesse que ele já estava tentando me encaixar nas teorias e nos artigos científicos que ele lia. No final das contas, disse minha mãe, condenando minha escolha ao marcar uma consulta com a Dra. Jaci, “quem resolve a vida da gente é a gente”.

É verdade, e sempre será. Mas estou afim de outro ponto de vista sobre a minha vida. Ela não vai me “resolver”, até porque não acho que precise ser resolvida. Acho que, no final das contas, só preciso de alguém que vá ouvir umas coisas minhas que não compartilho. Pensando bem, é uma liberdade. Poder falar o que quiser para um estranho? É formidável. Um estranho especializado nisso, que pode me julgar depois, ou não, mas esse não é o papel dele. E é isso que me atrai. Quero ver o que esse tipo de papel tem a me oferecer, e o que pode sair de uma relação como essa. Quero ser provocada.

Talvez ela não me provoque. Ou talvez o faça e eu só o sinta depois de algum tempo. Ou talvez eu não fique satisfeita. Estou pronta, de qualquer maneira.

Saí do consultório, tendo marcado consulta com ela, para hoje. Ao sair, encontrei-me com a garota que havia aberto a porta para mim. Com o rosto inchado e vermelho, fones de ouvido, ela me olhou profundamente, passando a mão com força no rosto. Não deu para esconder a tempo. Saí, perguntando-me o que aquela mulher falou para essa garota. Fui para o lado de fora, e continuei a observá-la. Queria dar um abraço nela, perguntar o que houve, oferecer um copo d’água. O coração voltou a bater audivelmente. Vi Jaci saindo pela porta, passando pela garota e não a olhando, como se nem existisse mais. Saiu e rumou à doceira ao lado da galeria.

Achei intrigante que não parasse para consolar a sofrida paciente. Senti-me provocada, já com essa atitude. Estou agora com coragem. O coração bate mais fraco, e eu olho para a janela do consultório dela de minha mesa, enquanto penso que quem vai provocar sou eu.

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