A Proposta
16 O Dia Depois de Amanhã.
Notas iniciais
Bill abriu os olhos lentamente, sonolento. Piscou várias vezes antes que acordasse de fato. Porém, imediatamente após despertar, tateou a própria cintura atrás do braço do irmão. Estava ali. Um calor reconfortante tomou conta de seu peito e ele sorriu. Não havia sido um sonho.
Apenas após essa discreta euforia inicial, o vocalista tomou conhecimento de outra coisa em contato com seu corpo, pressionada contra sua coxa. Desfez-se do abraço tão rápido que o gêmeo acabou acordando.
– Bill...? O que você... – A voz embargada de sono do guitarrista parecia um grunhido.
– Tom, você está...
O de dreads entendeu e, envergonhado, girou o corpo ficando de costas para o maior.
– A culpa é sua. – Murmurou.
Bill ergueu o tronco para poder encará-lo e o encontrou com a face avermelhada e um bico simplesmente encantador.
– O que eu fiz? – Perguntou, deitando novamente e soprou de leve a nuca do mais velho, vendo os pelos se arrepiarem.
Tom virou de volta, olhando-o no fundo dos olhos com uma expressão zangada.
– Não me deu sossego por nem um segundo. Nem em sonho.
Bill abriu um sorriso realmente lindo e deixou o braço envolver o pescoço do irmão. Tom aproximou-se depositando um selinho suave, que rapidamente transformou-se em um beijo feroz, nos lábios do gêmeo.
O guitarrista segurou com força o rosto do outro entre os dedos e o puxou pra si, tentando avançar o máximo que podia dentro de sua boca.
Era tão estranha aquela necessidade que sentiam um do outro enquanto percorriam as mãos ávidas pelo pescoço, peito e cintura. Bill não admitiria nunca em sua vida, mas também havia sonhado com o irmão. Provavelmente não um sonho tão quente e intenso quanto o que Tom tivera, mas o suficiente para sentir um leve rebuliço de sensações durante a noite.
E agora, aquele amasso assim tão cedo, definitivamente não o estava ajudando a controlar sua crescente excitação. Só caiu em si quando sentiu a mão de Tom abandonar sua cintura e adentrar discretamente pela calça larga de pijama – que havia pegado do irmão – que usava.
– O que está fazendo? – Ele segurou o pulso do gêmeo e abriu os olhos para encará-lo.
– Hm, deixa de frescura, Billy. – Tom provocou, tentando se aproximar dos lábios do outro, mas este virou o rosto claramente irritado.
– Deixa de frescura? Tá achando que eu sou uma das suas vad... – Começou a dizer com a voz alterada, mas o guitarrista aproveitou o momento para finalmente pressionar sua boca contra a dele, fazendo-o se calar.
– Eu não disse nada disso. – Tom se afastou, olhando-o magoado. Abriu a boca para dizer alguma coisa, mas voltou a fechar. Suspirou fundo antes de conseguir articular exatamente o que gostaria de dizer. – Tá, eu vou ser sincero. Eu nunca fiquei com outro homem, Bill, você sabe disso. Eu... Eu não vou fazer nada de mais, só quero tocar você. Eu preciso saber se conseguirei levar isso adiante. Não quero descobrir tarde demais que nunca vou ser capaz de te dar prazer.
O vocalista sentiu o rosto esquentar diante daquela declaração tímida e cheia de significado. De certa forma, Tom tinha razão. E se, no fim das contas, ele sentisse nojo ao ser tocado por um homem? Balançou a cabeça ao perceber que estava realmente imaginando a hipótese de ter de abrir mão do que sentia por um motivo fútil como aquele.
– Bill? – O mais velho sussurrou, brincando com o elástico da calça do pijama.
– Uma condição... – O maior respondeu, sem ser capaz de encarar os olhos do outro e lentamente soltou-lhe o pulso. – Eu... Também quero tocar você...
Tom deu uma risada abafada.
Uma das mãos do rapaz de dreads adentrou tímida pela roupa que o outro trajava e ele pressionou levemente a coxa do irmão, sentindo-o arrepiar-se sob seus dedos. Com a outra mão, acariciava a camisa sobre o peito alvo.
A mão de Bill demorou-se sobre o ventre do irmão, sem coragem para sair do lugar. Foi apenas quando sentiu os dedos frios de Tom descerem por sua virilha que conseguiu reagir. Entretanto, ainda menos audacioso que o mais velho, arriscou-se a apenas toca, sobre o tecido do pijama, o volume nada discreto. Os dedos ainda tremiam.
Começou uma massagem lenta na região, medindo o tamanho do “acessório” do irmão e de sua própria coragem. Tom arfou, finalmente alcançando os pelos ralos do púbis do gêmeo. Sentiu-se corar violentamente.
Bill aumentou a pressão e a velocidade dos movimentos sobre a roupa do mais velho e o de dreads finalmente envolveu o órgão do outro em suas mãos. O maior emitiu um gemido surpreso e fechou os olhos, envergonhado.
Tom sorriu diante da reação do gêmeo. Beijou o topo de sua testa e começou a movimentar a mão de forma suave. Sentiu o menor afastar-se de seu membro e, timidamente, adentrar a mão por dentro de sua calça.
Logo masturbavam um ao outro em um ritmo calmo, mais preocupados em se explorarem do que darem asas aos instintos e vontades que os consumiam.
Bill mantinha o rosto escondido no peito de Tom, e esse acariciava seus cabelos com a mão livre. Emitiam gemidos baixos, controlados, envergonhados.
Era bom, realmente bom. Uma experiência muito mais nova para o vocalista – que nunca tivera nada tão íntimo com outro alguém – mas não deixava de ser igualmente única para Tom. Ser tocado por alguém que realmente gostava dava a tudo aquilo um ar mil vezes mais excitante.
Ter o mais velho gemendo próximo ao seu ouvido estava realmente dilacerando todo o bom senso que havia em Bill. O rapaz começou a aumentar gradativamente a velocidade de seus movimentos, sendo acompanhado pelo irmão.
– T-Toommy... – Bill chamou manhoso, gaguejando, quando percebeu que não agüentaria por muito mais tempo.
Assim o que o dreads voltou o rosto em sua direção, teve os lábios capturados em um beijo apaixonado. Entregaram-se, desmanchando-se um na mão do outro, gemendo longamente com as bocas coladas. Tom, sem querer, acabou batendo seus dentes contra os do mais novo. Riram.
Encararam-se de bochechas róseas e respiração descompassada. Bill voltou a se aninhar no peito do outro, escondendo o sorriso bobo que não queria deixar seu rosto. Tom o envolveu em um abraço.
– Bill... – o mais velho murmurou.
– Hmm...? – A resposta veio sonolenta.
O guitarrista não disse mais nada, o que forçou o outro a sair da posição confortável que tinha encontrado para poder encará-lo.
– O que foi? – O maior começou a ficar ligeiramente preocupado.
Tom desviou os olhos.
– Eer... Hm. – Enrolou e ganhou uma mordida no queixo como punição. Acabou por rir. – Idiota.
– Eu já estava quase dormindo, vai dizer que me chamou a toa? – O vocalista exibiu um bico dengoso.
– Não... Eu só não sei como falar. – O mais velho voltou a desviar os olhos e soltou um longo suspiro. – Enfim... Quer namorar comigo?
Bill ficou dividido entre a emoção e a vontade exorbitante de rir. Acabou soltando um gargalhar emocionado.
– Qual é a graça? – Tom ergueu o tronco, magoado. – Deixa quieto, eu não devia ter falado nada.
– Psiu, idiota. – O dono de moicano desfeito puxou o outro de volta para a cama e o beijou. – Estava rindo de como você ficou lindo e nervoso pra dizer isso. E eu quero, mais do que tudo, namorar com você.
As bochechas de Tom voltaram a adquirir a coloração escarlate e Bill o puxou para um novo beijo, que durou até o momento que adormeceram um nos braços do outro.
***
Viktor estava realmente furioso quando atravessou a entrada do hotel, quase quebrando a porta de vidro. Falou rápida e rispidamente com a atendente e acionou o elevador sem esperar uma autorização.
David havia marcado de encontrá-lo às 8h com os meninos para poderem ensaiar e finalmente gravar a última música. Já passavam das 9h30 e ninguém havia aparecido no estúdio.
A porta do elevador abriu, permitindo o acesso ao sétimo andar e o rapaz de mechas azuis ficou realmente surpreso ao dar de cara com todos – ou quase – da banda parados em frente a uma porta.
– Posso saber o que está acontecendo aqui? – Perguntou às costas de Thalita, quase matando a garota do coração.
– Céus, Viktor, de onde você veio? – Perguntou, com a mão no peito.
– Do estúdio onde, aliás, vocês deveriam estar. – Respondeu com um sorriso cínico.
– Ah, quanto a isso... – David interferiu. – Desculpe-nos, mas tivemos um contratempo.
– Que tipo de contratempo? – O rapaz ergueu uma sobrancelha.
Georg e Gustav trocaram um olhar cúmplice e então se voltaram para Thalita.
– Tom e Bill ainda não saíram do quarto...
– Vocês não têm as chaves? Por que não entram lá e pronto? – Viktor realmente não estava entendendo.
– O problema é o que podemos encontrar se abrirmos a porta... – O baixista respondeu ao olhar de dúvida do mixer.
– Como assim o q... AAH. Então aconteceu? Por isso que a manchete de todo o maldito jornal ontem eram vocês... – Sua expressão se iluminou, e então ele voltou a exibir um sorriso cruel. – Mas temos um trabalho a fazer e o tempo é curto. Se vocês não querem entrar, podem me entregar a chave que não tenho problema nenhum com um pouco de sexo ao vivo.
Todos, SEM EXCEÇÃO, gostariam de jamais ter precisado ouvir uma coisa desse tipo.
A loira, que a essa altura já exibia uma tonalidade muito além do considerado vermelho, entregou a chave nas mãos do mixer e todos deram um passo para o lado, abrindo a passagem.
Viktor destrancou a porta e a abriu, mas a cena com a qual se deparou era muito diferente do que esperava.
Era como se fossem duas crianças que passaram a noite longe dos pais. Bill escondia o rosto no peito de Tom, com os braços presos a sua cintura e tinha a cabeça envolvida pelo mais velho. As pernas de ambos estavam flexionadas e trançavam-se. Exibiam uma expressão serena, como pequenos anjos que haviam encontrado a tão sonhada paz.
– Era isso que estavam com medo de encontrar? – O homem deu um sorriso sincero, satisfeito.
Georg desviou os olhos da cena, envergonhado, mas não pode se impedir de sorrir internamente, feliz por encontrar os amigos bem.
Tudo estava em ordem, afinal.
***
– Tom, já pensou em desfazer as rastas e pintar o cabelo? – Bill comentou, sentado de frente para o irmão e ao lado de Gustav, no sofá do estúdio.
– Não vai acontecer. – O mais velho respondeu, deitando a cabeça no encosto da poltrona e suspirando.
Céus, ele estava morto. Passaram a manhã toda ensaiando dezenas de vezes a música que Bill havia composto. Finalmente haviam terminado, estava tudo pronto, agora bastava que fosse feita a mixagem e masterização, mas isso dependia unicamente de Viktor.
O problema agora eram os repórteres. Desde o momento em que pisaram fora do hotel estavam sendo perseguidos. Receberam até alguns comentários ácidos e cheios de malícia por conta do mixer, devido a isso. David resolvera convocar uma reunião entre os integrantes da banda para decidirem o que fazer, mas ainda não havia aparecido.
– Por que, não? – O de moicano voltou a insistir na pergunta.
– Eu gosto dos dreads.
– Relaxa, Tom, mulher é assim mesmo. É só você dar uma brecha que elas já acham que podem tomar conta do seu visual. – Georg falou para o amigo e imediatamente recebeu uma travesseirada de Bill.
– Quem te viu, quem te vê, Georg. – Gustav não pôde deixar de comentar.
– Se não pode vencer, junte-se a eles. – O baixista deu os ombros.
– Cheguei! – David emergiu no meio da sala, acompanhado por Viktor e Thalita. – Então, arranjamos uma forma de ganhar tempo.
– Fan service. – A loira disse, arrastando um banquinho para o meio da sala, pra que pudesse olhar para todos os meninos. – Achamos que essa é uma boa desculpa para dar aos repórteres, pelo menos por enquanto.
– Não podemos simplesmente dizer a verdade? – Tom se ajeitou na poltrona.
– Seria ótimo que pudesse, mas infelizmente isso significaria nunca mais voltar para a Alemanha ou colocar o pé em países como Itália, Polônia, Reino Unido, Austrália, Estados Unidos e Canadá. E, como gerente de marketing, garanto que isso é péssimo pra banda.
– Droga... – O guitarrista abaixou a cabeça, apoiando os cotovelos sobre os joelhos.
– Isso é coisa séria, garotos. – David disse, sentando no braço do sofá, ao lado de Bill. – Vocês podem realmente ser presos por isso.
– Vocês viram a quantidade de garotas que saíram do show, ontem? Vocês precisam lembrar que o incesto é visto como algo realmente doentio para algumas pessoas. – Thalita acrescentou e Tom percebeu que Georg desviou rapidamente o olhar. – É um dos maiores tabus da sociedade.
– Eu sei disso, apenas não gosto da idéia de que ter ficar escondendo. – O rapaz de dreads disse, ainda desconfortável com a situação.
– Eu não me importo, Tom... – O vocalista falou, chamando a atenção de todos. – Eu... Eu também não gosto de ter que esconder, mas se eu tiver que fazer isso pra poder continuar com você... Eu não ligo.
– GRAÇAS A DEUS que meu trabalho com vocês termina hoje e não vou ter que ficar assistindo a essa melosidade o tempo todo. – Viktor falou e saiu rindo em direção a varanda. – Aliás, é melhor vocês se decidirem logo, porque eu to achando que esses caras vão começar a escalar as paredes a qualquer momento.
– Okay, okay. Foi apenas fan service, então. – Tom concordou, contrariado.
– Certo, temos algumas entrevistas para dar, então. – David se levantou, indo em direção a porta.
***
Foram quase 4h de entrevistas para seis diferentes emissoras, a maioria com o mesmo tipo de pergunta. Quando, como, por quê.
Contaram a mesma história, que não era exatamente mentira. Disseram que encontraram na internet uma série de imagens e textos fazendo referencia a um possível relacionamento entre os dois, e então, unicamente para agradar a esse público, se beijaram sobre o palco.
Se acreditaram ou não, eram outros quinhentos, mas ninguém parecia muito disposto a discutir depois da afirmação veemente de Tom “É, Bill pode parecer muito uma garota, mas ainda não faz meu tipo” seguida de uma mordida sugestiva no piercing e uma olhadela de lado para a apresentadora ou qualquer garota na platéia, dependendo do lugar em que estivessem.
Entretanto, ainda havia uma pessoa com quem conversar, uma pessoa com que nenhum olhar sedutor ou mordida no lábio seria capaz de enganar. Simone.
– O que é que vocês estavam pensando quando fizeram aquilo? – A mulher no outro lado da linha tinha a voz severa, e estaria estrangulando o filho, se pudesse. – O que as pessoas vão dizer? Vão são homens! São irmãos! Meu Deus, Tom, você não percebe o quão errado isso é?
– Eu já falei que foi só encenação, Simone. – O rapaz de dreads respondeu com a voz firme, enquanto caminhava sem rumo pelo saguão do aeroporto, mas em seu interior sabia que não poderia enganá-la. E nem queria.
– Você acha mesmo que eu vou acreditar nisso? – Ele ouviu um longo suspiro. – Você, Tom, justamente você, beijaria outro homem só porque um grupo de garotas doentes acha isso bonito?
– Olha como fala! – Ele já estava cansado daquela conversa.
– Olha você como fala, Tom! Eu sou sua mãe e o mínimo que você poderia fazer é ser sincero comigo. – A voz se descontrolou por um instante e a mulher parecia chorar. – Onde foi que eu errei na criação de vocês...?
– Ah, você não pode estar falando uma coisa dessas... – Tom sentou no primeiro banco que viu pela frente, sem reparar de fato que Bill e o Georg estavam logo ao lado. Enterrou o rosto nas mãos, também querendo chorar. – Onde foi que você errou? Eu e Bill não nos drogamos, não fazemos porra nenhuma de errado... Já conseguimos dinheiro suficiente pra passar o resto da vida sem trabalhar e você me vem com “onde você errou”?
– Meu filho, vocês são irmãos! Será que você não entende isso? É errado. É PECADO, TOM.
– Eu não sei que tipo de deus poderia impedir uma coisa como o amor... – Ele murmurou para o aparelho que foi imediatamente retirado de suas mãos.
– Eu vou falar com ela. – Era Bill.
– Não! Você não precisa ficar ouvindo as coisas que ela está falando. – O mais velho tentou pegar o celular, mas foi empurrado de volta para o banco.
– Eu quero falar com ela. – O de moicano sussurrou contra seus lábios e então pressionou a boca na dele. – Não é justo que só você passe por isso.
Bill se afastou, indo em direção as paredes de vidro que os separavam da pista de pouso.
– Estava com saudades, mãe.
– Bill...? Será que você poderia devolver o telef...
– Não, eu quero falar com a senhora. – Ele a interrompeu. – Fui eu quem começou tudo isso... Eu amo o Tom, mãe, mais do que eu deveria amar, eu sei. Eu não ligo se é errado ou não, me faz bem e é isso que importa.
– Será que nenhum de vocês dois tem um pingo de juízo? – Simone já se sentia derrotada. Sentia-se fracassada como mãe. – O que as pessoas vão pensar...?
O rapaz sorriu.
– E desde quando o que pensam de nós faz alguma diferença?
A mulher deu uma risada cínica.
– E quando isso acabar, Bill, o que é que vocês vão fazer? Você sabe, relacionamentos terminam o tempo todo... Ainda mais essa... “coisa” de vocês... – Despejava veneno nas palavras. – O que vão fazer depois que der errado?
– Não importa o que vai acontecer depois. – A voz de Bill veio seca. – O que importa é cada segundo que passamos juntos agora.
No banco a alguns metros atrás, Tom permanecia sentado, tocando com a ponta dos dedos os lábios, como se ainda pudesse sentir o beijo do irmão.
– E aí, cara, como é que você está? – Georg perguntou preocupado, sentando-se ao lado do amigo. Sabia que a discussão com a mãe não tinha sido nada fácil.
O guitarrista ergueu os olhos na direção de Bill, que ainda falava ao celular, com uma postura e classe que ele próprio nunca teria. Sorriu.
– Eu não poderia estar melhor.
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