A Prometida
19 Heaven
Notas iniciais
Sim, eu posso concordar que aquela ideia, plano, ou o que deseja chamar era realmente louca. Mas não seria ideia do Soluço se não fosse assim.
Éramos nove pessoas e existiam naquele momento exatamente nove bebês dragões. Já havíamos tido a prova de que eles não obedeciam ao alfa. Eles eram como posso dizer, independentes.
E essa era a nossa solução, mas também era o nosso problema.
–Será que posso dizer que essa foi uma péssima ideia? – Bocão perguntou.
–Ainda bem que eu nunca escuto – Soluço responde.
Eu rio. O dragão do Bocão não era um dos mais domáveis ali.
Íamos em direção a Berk por dentro de cavernas de gelo e outros atalhos. Mas eu estava concentrada em guiar os bebês na direção correta, antes que eu batesse nas paredes de gelo.
–Mas a Besta Implacável não vai controlar esses carinhas aqui Soluço? – Perna de Peixe perguntou.
–Eles são bebês, não obedecem a ninguém – ele responde.
–É, que nem a gente – Cabeça Dura disse.
Ele foi parar em uma pilha de neve depois disso e todos nós rimos.
–Então qual é o plano? – Bocão gritou, tentando ser escutado.
–Recuperar o Banguela e mandar o Drago para...
–Soluço! – eu chamei sua atenção, por isso ele se calou.
–Então, você entendeu – ele disfarçou.
Nada de palavras feias perto de mim. E, além disso, a mãe dele estava ali.
Bocão acabou batendo em um grande iceberg. No fim, a viagem foi um pouco conturbada. Os pilotos logo pegaram o jeito para domá-los, mas Eret e Bocão tiveram muita dificuldade em manter os pequenos dragões no curso.
Enfim percebi que estávamos chegando perto de Berk. Eu fui para o lado de Soluço.
–E então, esse é o seu plano realmente? – pergunto.
–Mais ou menos. Preciso que vocês distraiam de alguma maneira o Alfa. Qualquer maneira. Eu preciso que ele esqueça o Banguela.
–E o que você acha que poderá fazer? Ele ainda está sob o efeito da hipnose – lembrei-o.
–Eu sei que anos de treinamento não vão permitir que ele se esqueça de mim. Não uma segunda vez. Ele foi o primeiro dragão a ser treinado. Ele não se esquecerá disso também — eu sorrio.
Eu realmente acreditava que aquilo seria bem possível.
A névoa dissipou-se e pudemos avistar Berk. Vi o dragão alfa e todos os dragões em seu controle. Expulsei as lágrimas. Não quis incluir Tempestade e todos os outros dragões que amávamos naquele meio.
–Não – é a única coisa que consigo dizer.
–Ele pegou todos os dragões – Soluço diz, encarando os meus olhos.
–Soluço vai logo. Precisamos acabar com isso. Eu distraio o Alfa – digo.
–Você tem algum plano realmente? Sabe o que irá fazer?
–Tenho uma vaga ideia – eu sorrio desafiadoramente.
Ele olha profundamente em meus olhos, como se quisesse ter certeza que eu ficaria bem. Eu assinto com a cabeça e o vejo partir em direção ao Banguela. Virei-me para os outros da turma.
–E então, que tal uma Corrida de Dragões?
Olhei em direção ao equipamento que fazia as ovelhas voarem. Todos olharam na mesma direção e assentiram animados.
Nós descemos rapidamente. Graças à Thor havia algumas ovelhas por ali. O Perna de Peixe foi em direção ao instrumento que anunciava à ovelha negra.
Avistei Soluço passando em frente ao dragão Alfa. Laçamos a primeira ovelha nesse momento. Vi que isso desviou toda a atenção do dragão em relação ao Soluço.
Porém, quando ele se virou para nós, Perna de Peixe soprou a corneta. Íamos intercalando esse pequeno jogo, para distraí-los. Até que a ovelha negra entrou em ação.
Nós a jogamos e ela caiu no meio dos olhos do dragão. Ela foi descendo até o seu nariz, onde ele a expulsou.
–Dez pontos! – Melequento exclamou.
O dragão voltou a sua atenção para nós. Bati a mão na testa. Ele só metia a gente em encrenca. Perna de Peixe chamou a atenção do dragão para ele.
A Besta Implacável soltou gelo em cima dele. Prendi a respiração.
–Eu estou vivo! – escutei seu grito animado e sorri.
Corremos todos em direção à Vila propriamente dita. Infelizmente o dragão já tinha voltado a sua atenção para Soluço.
Me juntei aos outros, ao lado de Valka. Vi Soluço estender a mão para Banguela. Não podia ouvir o que ele dizia. Mas sabia que Soluço estava treinando novamente o seu dragão.
–Você consegue Soluço – eu disse mais para mim mesma do que para qualquer outra pessoa.
Não vi exatamente o que aconteceu depois disso, pois foi rápido demais. Observei Drago caindo de Banguela. E Soluço pulando em queda livre atrás do seu dragão. Eu sorri.
–Ele conseguiu. Ele conseguiu! – eu exclamei.
Valka sorriu ao meu lado. Vi que Soluço havia conseguido montar em Banguela. E Drago na Besta Implacável.
Soluço deu a volta na vila e os dois passaram por nós em velocidade absurda. Todos os berkianos gritaram.
–Pega ele Soluço! – eu gritei. Quis que ele pudesse escutar.
Ele pareceu vendar o Banguela com uma fita vermelha. Comecei a ficar nervosa. Normalmente os planos do Soluço são um tanto suicidas.
–Vá pegá-los – Valka diz ao meu lado.
Sorrio para ela. E então eu vejo a Besta Implacável lançar gelo sobre eles.
–Por favor, vocês tem que estar bem – eu disse a mim mesma.
Vi apenas Banguela voando com a cauda automática. Não avistei Soluço em lugar algum. Fiquei sem ar.
Vi uma estranha fumaça verde em cima do dragão. E então algo explodiu. Vi Drago em queda livre em direção ao chão. E vi Soluço, com a sua roupa de voo.
Respirei mais aliviada, porém esse alívio durou pouco. Eles estavam indo em direção à cauda do dragão, que caía com o impacto.
Observei Banguela empenhar-se para alcançar Soluço. Algo parecido com isso havia acontecido na vez que Soluço perdeu sua perna. Ele havia me contado.
–Vocês conseguem – Valka disse ao meu lado.
–Eles sempre conseguem – eu digo para acalmá-la. E talvez acalmando a mim mesma com isso.
Soluço monta novamente e eles estavam salvos. Eles pousaram na areia, perto de Drago. Os pilotos e eu fomos em direção aos dois.
Vi tarde demais a Besta Implacável aproximando-se dele. Olhei para cima e perdi a voz por um minuto. Ela iria atirar nele.
–Soluço! – eu gritei o mais alto que eu podia.
Mas o meu grito fora tarde demais. Ele soprou gelo sobre Soluço. Banguela pareceu ser atingido também. Eles estavam mortos.
–Não, Soluço! – Valka correu em direção ao bloco de gelo.
Eu não sabia como era respirar mais. Não podia controlar as minhas lágrimas e nem queria. Eu cambaleei por um momento.
Queria ir até onde Soluço estava. Nunca acreditaria que ele estava morto. Nunca. No entanto não conseguia mais avançar.
Ele era a única pessoa que eu tinha. Ele era quem eu amava incondicionalmente. Eu não poderia perdê-lo também. Preferia morrer a não tê-lo comigo.
Porém minhas pernas estacaram. Meu rosto estava banhado de lágrimas.
Escutei então o barulho do Fúria da Noite. Havia apenas um Fúria da Noite em Berk. E ele era o Banguela.
Olhei instantaneamente para o bloco de gelo. Ele estava ficando azul. Ele iria explodir. Valka afastou-se do bloco rapidamente. E ele explodiu.
Banguela surgiu, protegendo Soluço com suas asas. Ele estava azul. Rugia para a Besta implacável. E parecia com raiva. Com muita raiva.
Soluço levantou-se cambaleando um pouco. Valka e eu corremos até ele.
–Ele está desafiando o Alfa – Soluço disse. Assenti com a cabeça.
–Para te proteger Soluço – Valka completou.
Observamos Banguela atingir o dragão com seus tiros de plasma. Ele rugia e parecia realmente uma guerra entre eles.
Em determinado momento, quando Banguela rugiu, todos os dragões, que sobrevoavam Berk, foram para o seu lado. Ele havia libertado todos os dragões.
Ele desceu até Soluço. Ele montou e juntos encararam Drago.
–Está vendo só Drago? Isso é que é ganhar a lealdade de um dragão! – Soluço grita. – Que isso acabe. Agora.
–Nunca! – Drago gritou. – Vamos!
A Besta Implacável abriu sua boca para armar fogo. Mas antes disso Banguela o atingiu. E em seguida todos os dragões.
Banguela pôs-se em posição de ataque. E então atingiu uma bola de fogo dentro da boca do grande dragão. E ele, enfim, caiu no mar.
–O Alpha, protege a todos – Soluço diz.
Havia um novo Alpha. Havia Banguela. Que estava disposto a tudo para proteger o seu humano. E todos os dragões.
Drago sumiu na água, juntamente com a Besta Implacável. E os nossos dragões pousaram em Berk. Corri em direção de Tempestade.
–Tempestade! – gritei. – Que bom que está bem.
Acariciei sua cabeça. Ela estava bem animada por me ver ali. E eu ainda mais por vê-la bem.
Soluço pousou no meio da praça. Quando ele desceu de Banguela, todos o aplaudiram e comemoraram.
E eu vi a maior demonstração de carinho entre os àqueles dois. Inconscientemente sorri. Eles sempre protegeriam um ao outro.
Caminhei em sua direção. Ele havia falado com Eret e no momento estava falando com sua mãe. Mas quando Valka me viu, sorriu e afastou-se. Revirei os olhos e sorri.
Abracei-o tão forte, que acho que acabei o machucando. Ele acariciou os seus cabelos. Segurei as lágrimas em meus olhos. Algumas rolaram sem que eu pudesse evitar.
Ele encarou os meus olhos ao nos separarmos.
–Eu pedi que não fizesse coisas arriscadas – eu disse.
–Se me lembro, prometi ficar longe do fogo, não do gelo – ele disse.
Eu dei um leve tapa nele. Ele sorriu e me beijou. Nada mais importava agora. O mundo podia acabar. Enquanto eu estivesse com ele, tudo poderia acontecer e eu não me importaria. Era o meu paraíso.
Valka me abraçou depois de eu e Soluço nos separarmos. E então avistei Gothi. Ela encarou Soluço. Ele virou-se para olhar em meus olhos. Assenti com a cabeça e sorri.
Ele ajoelhou-se em frente à Gothi. Ela desenhou o símbolo da liderança de Berk em sua testa. Bocão aproximou-se de nós e olhou para Soluço.
–O líder voltou para casa – ele gritou.
Todos aplaudimos. Soluço era nosso herói. Nosso líder. Quem nos salvou tantas vezes.
Mas quando ele olhou em meus olhos, confirmei o que sempre soube. Ele era apenas um menino inseguro de 20 anos. Que não sabia do que era capaz. Mas que tentaria ser sempre melhor.
Ele nunca mudaria quem ele era. Também sempre soube disso.
Quando ele sorriu para mim, confirmei que ele estava disposto a enfrentar suas responsabilidades. Sorri de volta.
Enquanto ele estivesse comigo, estaria bem. E sorriria...
Esta é Berk.
Um pouco surrada, maltratada e coberta de gelo, mas é o nosso lar. É a nossa casa.
Aqueles que nos atacaram são implacáveis e loucos. Mas aqueles que nos tentaram nos deter? Ah, são mais loucos ainda.
Nós podemos ser poucos em número. Mas nós defendemos uma coisa muito maior do que os que se opõem a nós. Nós somos a voz da paz. E pouco a pouco nós vamos mudar esse mundo.
Porque sabe, nós temos uma coisa que eles não têm. Ah claro, eles têm exércitos, eles têm armas. Mas nós? Nós temos os nossos dragões.
Soluço S.S. III
I've been waitin' for so long
And love is all that I need
And I found it there in your heart
It isn't too hard to see
We're in heaven
Eu estava esperando tanto
E amor é tudo o que eu preciso
E encontrei em seu coração
Não é tão difícil de ver
Que estamos no paraíso
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