A Profecia
2 II - Capítulo Primeiro
Notas iniciais
Draco Malfoy se encontrava deitado, desacordado, em um banco de praça. O negro terno o tornava quase invisível à madrugada, não fosse pela pele clara e cabelos platinados.
Levantou-se de súbito e olhou envolta, para então notar o lugar estranho em que estava. As memórias do que ocorrera antes de perder a consciência vieram à sua mente em milésimos de segundo.
Ao seu redor, uma lata de lixo e muitas árvores, também um outro solitário sentado no chão, fumando um cigarro. Seus trajes indicavam que era trouxa.
— Noite. — o homem disse entre uma tragada e uma baforada.
— Onde eu estou? — perguntou Draco, levando a mão à fonte para tentar aliviar a dor de cabeça e se sentando.
— Russell Square, Bloomsbury.
— Londres?! — o menino Malfoy replicou, assustado.
— Sim. Inglaterra… Reino Unido… Europa… Planeta Terra… — o trouxa respondeu, tentando fazer graça.
— Eu já entendi. — Malfoy disse baixo, porém cortante.
— Então, que faz aqui? — o homem perguntou, soltando a fumaça e tossindo um pouco.
Draco levantou-se e alisou seu terno, ignorando completamente a pergunta. Não tinha tempo a perder com trouxas, precisava entender o que havia acontecido para estar fora do mundo bruxo, quem quer que tivesse feito esta brincadeira de mal gosto, ou seja lá o que aquilo fosse, lhe pagaria.
— Noite! — o tal estranho tentou mais algum contato, e esta foi a última vez que se viram.
Ele se distanciou um pouco e foi para o meio das árvores para aparatar. Como num gesto automático e sem nenhum esforço, concentrou sua mente no destino, sua mansão em Wiltshire, e naturalmente embalou o corpo para penetrar no vácuo. Porém, para não dizer nada, o máximo que aconteceu foi perder um pouco o equilíbrio. Só. Tentou mais uma vez. Nada.
Então, com a varinha em mãos, pronunciou Lumos para que sua ponta se acendesse , mas nada aconteceu também. Era difícil de explicar, mas segurar a varinha parecia segurar apenas um pedaço de madeira qualquer, um graveto, não sentia mais a magia em seu sangue se distender para o objeto ao simples toque, como sentia desde que ele o escolhera.
Um pensamento horroroso lhe dominou a mente: Era Voldemort tão poderoso a ponto de poder bani-lo e tirar sua magia? Não, não era possível, a magia é algo orgânico, biologicamente intrínseco, além do mais, ele e a família eram importantes demais para se jogar fora, para se denegrir de tão grotesca maneira. Tinha inimigos também, é verdade, mas nenhum que fosse tão poderoso e audacioso para fazer isto…
Estava com raiva, mas a raiva não adiantaria de nada agora. Procurou ser estratégico, precisava encontrar alguma maneira de se comunicar e, mais que isso, voltar para acabar com a raça de quem quer que tenha feito isso. Não tinha como arrumar, de maneira alguma, uma coruja, ou uma vassoura, ou qualquer meio de transporte mágico que seja. O máximo que poderia fazer era tentar encontrar a cabine telefônica que era a entrada de visitantes do Ministério, se é que não havia sido fechada.
Perdido nestes pensamentos, deixou seus pés lhe guiarem pelas ruas, e agora, já fora do parque, caminhava por uma longa rua. Larga , ladeada por casas germinadas com portas em tons de branco, preto e vermelho, a rua estava deserta até onde a vista alcançava, e silenciosa também, não fosse por alguns gatos que miavam e reviravam o lixo, e certos cachorros que latiam raramente.
Sentia frio. Apenas um terno não era, nem de longe, o suficiente para enfrentar as noites londrinas. Continuava a andar, agora com o corpo mais encolhido, baforando nas mãos para aquece-las. O pobre menino Malfoy não sabia nada de conceitos físicos de bloqueio ou gasto de calor ou qualquer coisa parecida. A magia nunca faltara-lhe na vida.
Continuava a andar pelo asfalto liso, passando por árvores espaçadas, os poucos galeões e nuques nos bolsos tintilavam a cada passo, e assim ele ia.
O destino, como um bom dramaturgo, não anuncia as peripécias da vida. E dito isto, nosso protagonista avistou uma figura que conhecia de cara e de pulso, atravessando a rua para entrar em uma casa com muitas plantas na frente, de esquadrias e porta brancas e cor escura, que parecia um tanto quanto abandonada.
Malfoy parou abruptamente ao vê-la, mas já era tarde. O barulho que as solas de seus sapatos bem engraxados produziram foram suficientes para ela se virar e sacar sua varinha, atenta. Ele também o fez, por puro reflexo e blefe.
— Malfoy?! — ela se surpreendeu, franzindo a testa.
— Granger?! — ele respondeu, tão surpreso e enojado quanto ela.
— Se você tentar fazer qualquer coisa, eu juro por Merlin, não hesitarei em… — antes que percebesse, Hermione empunhou a varinha e se pôs em posição de ataque. Ela ofegava, estava com medo.
— Não seja ridícula. — seu tom era de completo deboche, numa descontração forçada. Ele se postara na mesma posição que ela, no lado oposto. — Se eu quisesse te capturar, já o teria feito há tempos.
— É isso que faz agora, não é? Uma marionete de Voldemort. Acovardados, você, sua mãe…
— Não toque no nome de minha mãe!! — ele foi para cima dela, enfurecido.
— ESTUPEFAÇA! — ela gritou, ameaçada.
— RENNERVATE! — ele vociferou o contra-feitiço, esquecendo-se de sua condição.
Todos estes reflexos ocorreram muito rápido, mas ao fim, os dois pararam um da frente para o outro, as varinhas estendidas em posição de ataque, e nenhuma magia. A varinha de Hermione não emitira nenhum feitiço, e nem a de Draco, como este já sabia.
— O q-que… — ela gaguejava, surpresa.
"Ela também não tem magia!”, ele pensou. Os dois continuavam ali, estáticos, Hermione parecia tentar ligar os pontos, e Draco apenas esperava uma reação. Como se tivesse chegado a uma conclusão, ela levantou o olhar para ele, ameaçadora.
— O que você fez, Malfoy?! — ela perguntava num sussurro enfurecido. Ele não respondera, só a encarava. — O QUE VOCÊ FEZ?!
Ela avançou para ele, batendo, socando todas as partes do corpo que conseguia socar. Foi um impulso sem intenção de machuca-lo, mas sim de extravasar sua raiva. Draco empurrou-a e ela cambaleou para trás, mas voltou a socá-lo entre gritos.
— VOCÊS, VOCÊS MATARAM MEUS PAIS…
— Não encoste em mim com essas mãos imundas… — ele disse pela primeira vez, tentando contê-la
— CAPTURARAM MEUS AMIGOS, MEU NAMORADO, ME TRANSFORMARAM EM UMA FUGITIVA… — ela se debatia e gritava coisas que ele não queria ouvir…
— Fica quieta, maldita! — ele tentava segurá-la, mas ela era forte.
— UMA FUGITIVA QUE SÓ ESPERA PELO MOMENTO EM QUE A CAPTURARÃO E A MATARÃO… — …e tentava bater nele…
— Cale essa boca sua sangue ruim nojenta! Vai acordar a todos! — ele falava irritado, porém baixo, tentando fazê-la se tocar de que ela estava sendo completamente ridícula.
— E TIRAM MINHA MAGIA, A ÚNICA COISA QUE… — …e se desvencilhar.
— CALE A BOCA SUA SANGUE-RUIM! ME ESCUTE! — ele cortou o ar, vociferando e fazendo-a dar-lhe atenção.
Ela lhe lançou um último olhar furtivo, ofegante, e se soltou da mão que segurava seu pulso, virando-se de costas para se recompor. Muito ódio estava contido ali, não era do feitio de Hermione se descontrolar de tal maneira. À esta altura algumas luzes da vizinhança já se acendiam por causa da gritaria tão incomum na rua. Hermione entrou correndo para a tal casa ao notar a movimentação, seguida por ele, que não era bobo de ficar no meio da rua esperando pelo pior.
A casa era comumente trouxa, com um pequeno hall de entrada e logo a sala, com dois sofás, uma mesa de centro e um tipo de caixa que Malfoy reconhecia ser uma televisão. A sujeira no chão e o cheiro de velho e mofado davam a dica de que estava inabitada há muito tempo.
Hermione passava a mão devagar pelas paredes, como que para sentir cada memória que a casa carregava entrar pelas pontas dos dedos, arrepiar cada pêlo do corpo. Pareceu esquecer o que havia acontecido segundos atrás, numa pausa para admirar o cenário antes de continuar a peça. A madeira sob seus pés rangia, as partículas de poeira rodopiavam pelo ar, mas todo resto estava quieto, imóvel, para congelar nos objetos o tempo passado, distante e feliz.
Ela pareceu, repentinamente, sair de seu transe quando ele fez barulho ao esbarrar em um vasinho, e voltou-se para ele violentamente.
— Como ousa vir até aqui? — ela indagou, incrédula, como se a presença dele fosse a coisa mais repugnante e absurda que já vira na vida.
— Acha mesmo que eu quero estar aqui? Na imundície da sua família? — ele chiou de volta, dando um tapa naquele mesmo vasinho repulsivamente. Por sorte, atingiu o sofá ao invés do chão, como ele pretendia.
— Você é nojento, Malfoy. Um ser humano decente não entraria na casa das vítimas do próprio pai!… Saia daqui! AGORA! — ela mandou, apontando para a porta.
— Vá se ferrar, Granger. — e ele obedeceu, afinal, saindo da casa.
A rua estava ainda mais escura e fria, e Draco Malfoy se deu conta de que não tinha para onde ir. A sua riqueza, naquele lugar, nada significava. Absolutamente nada. Não sabia onde estava, nem para onde ir, nem como voltar, nem o que estava acontecendo, tremia de frio.
Chutou a lata de lixo muitas vezes, enraivecido, e praguejou o quanto sua disposição o permitiu. Depois aninhou-se em um canto obscurecido da frente da casa de Hermione Granger, e tentou ali se aquecer. Não queria estar lá, mas que outro maldito lugar naquela merda de cidade ele conhecia?
Sentado, tremendo, ele analisava sua varinha, tentava se concentrar, se conectar com ela. Fez isto por algum tempo, mas o frio piorava, e uma fina garoa caía. Tremia, as mãos e os pés gelados.
Em uma hora, não sentia as pernas e braços.
Em duas horas e quinze minutos, respirava com dificuldade, não sentia nenhum membro do corpo, e tinha certeza de que havia urinado nas calças.
Em duas horas, ou talvez três, dez ou quinze anos…ele não sabia muito bem. Sabia da noite, das estrelas, da música do Chapéu Seletor e da senha da Sala Comunal da Sonserina…isso ele sabia bem…
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