Notas iniciais
Tenham uma boa leitura!!!! :DDD

Um belo bebê com fiapos de cabelos loiros e olhos tão castanhos que mais pareciam uma floresta na estação de outono, nasceu em uma pequena cidade de interior a qual já estava deserta, pois muitas pessoas preferiram refazer suas vidas na cidade grande. A cada dois anos uma mesma mulher com um elegante vestido vermelho fosco perguntava aos poucos residentes da cidade como estava o crescimento da criança. Muitos diziam que a criança tinha uma beleza exuberante, que não se parecia nem um pouco com a família, levando acusações à mãe de traição, pelo o marido sair de casa as pressas com a mala estufada de roupas e a mulher aos prantos no lindo jardim que tanto se esforçou para cultivar.

Quando a criança completou dez anos, a mulher de vestido vermelho fosco voltou, porém com a missão de levá-la para o seu verdadeiro lar de origem. Pois assim, a zero a ordenou, e como qualquer subordinado, deu a comprometer sua cor que completaria a missão.

O primeiro passo foi visitar as mesmas pessoas que conversava todos esses anos, mas não as achou. Temeu que talvez saqueadores tivessem passado pela cidade, mesmo colocando proteção para qualquer coisa que apresentasse maldade nunca entrar, mas nunca colocou um que proibisse Sallie de sair, o que poderia ter acontecido nos anos de intervalo. Sentiu-se aliviada assim que avistou a mãe da menina agachada lavando os braços ensanguentados em uma bacia no quintal da casa que morava, se aproximando aos poucos, o bastante para que a mulher a conseguisse ouvir, então deixou escapar.

— Como consegue aguentar esses ferimentos? Parece grave. — Apenas a observou, esperando ansiosamente por uma resposta.

— Por um filho, damos até o sangue.

— Ou até mesmo acabam em cinzas. — Disse em tom disfarçado. — Afinal, meu nome é Áurea. Sem delongas, sua filha apresenta algo fora do normal?

A mulher se desequilibrou e caiu sentada no chão, se agarrando as memórias que sua filha apresentava não ser uma criança comum como ela gostaria que fosse. Sem dizer uma palavra, apenas se levantou, ajeitou o vestido sujo de barro e molhado. Piorando a situação, esfregava os braços ensanguentados no vestido. Com a barra da vestimenta barrenta e com manchas de sangue, decidiu pegar o pano úmido que se encontrava perto do tanque que lava as roupas, quando pegou a blusa branca, imediatamente, percebeu que era uma roupa de bebê, de seu filho, que faleceu há poucos meses. Observou a pequena blusa por alguns minutos que em sua mente, pareceram meses em que ele viveu e relembrou o motivo de sua morte.

Enquanto segurava a blusa, sentiu todo o desespero e medo que seu filho passou. Culpa-se, por não ter chegado a tempo de salvá-lo. Em movimentos lentos e fortes, esfregou o pano úmido por todo o braço machucado — ainda subconscientemente pensando em seu filho.

Áurea a olhava com uma expressão incrédula e se perguntou o quanto aquela mulher era forte, pois aqueles não são ferimentos comuns. Lembrou-se do passado, quando aqueles ferimentos eram comuns por todo o seu corpo, e até hoje, sente como se seu corpo fosse explodir em chamas. Nunca entendeu porquê das crianças tem de nascer e conviver com pessoas comuns. Antes mesmo de conseguir perceber, a mulher já estava em pé a sua frente, a olhando cuidadosamente. Então Áurea decidiu também a observar, talvez achasse uma brecha na armadura da mulher, mas descobriu algo muito pior. A mesma já estava destruída tanto por dentro quanto aparentava por fora, decidiu olhar dentre a cortina dos sentimentos que a mulher tanto luta para esconder, a mesma nem imaginava que mais um pouco de desconforto, poderia imediatamente rasgar a cortina e deixar uma bagunça. No mesmo instante que decidiu sentir, não suportou por muito tempo, foram sentimentos de pura impotência e tristeza, porém avistou um pouco de conforto que mulher ainda possuía.

— Se você quer saber se minha filha apresenta sinais de ser uma criança diferente, está enganada. Sallie é bela como qualquer garota de dez anos. Pele cheia de pequenos machucados por brincar bastante no campo e os cabelos sempre muito bem cuidados e brilhantes, pois trato dele naturalmente com plantas da região. Caráter de uma criança normal. Foram momentos difíceis desde o dia que ela nasceu, mas também teve pequenos momentos bons, e eu não troco esses momentos por nada nesta vida. Pelo fato dela ser minha filha, e uma ótima criança, não há nada de anormal. A única coisa de anormal que essa menina tem, sou eu, que a ama demais. Agora, volte em segurança. Adeus.

Áuera se surpreendeu com a resposta da mulher: tinha tantas coisas para dizer, mas não tem mais. Sempre pensou que pelo fato das determinadas crianças serem diferentes das outras, seus pais humanos nunca os amaria e muito menos cuidaria deles mais do que seis anos de idade. Muitas foram achadas nas ruas, até mesmo foram vendidas, e depois achadas em lugares onde ocorria a exploração de mão de obra infantil. Pouquíssimas foram achadas com oito anos ou mais com os pais que foram escolhidos. Passou a admirar aquela mãe, o pouco que ela disse sobre Sallie, Áurea garante guardar em sua mente pelo resto de seus dias.

— Senhora, me desculpe, mas você poderia me dizer seu nome? — Perguntou Áurea.

— Dorotéia Moon. Já acabou com o interrogatório? — Perguntou com irritação.

— Na verdade, sim. Agora vamos para o segundo passo.

Num instante Áurea balançou os braços e deixou os grandes braceletes dourados escorregarem até o pulso. Dorotéia olhou para os braceletes e depois para a expressão de Áurea, e rapidamente colocou as mãos a boca. Gritaria se pudesse, mas suas cordas vocais falharam.

— Parece que você entrou em um momento de pânico, mas por quê? Você por acaso sabe quem sou eu? — Áurea se aproximou de Dorotéia o bastante para poder sentir o hálito quente da mulher em sua orelha.

— Você é a mulher que passa nos noticiários todos os meses. A mulher que sequestra crianças. — Sussurra com esforço.

— Dorotéia, eu não sequestro ninguém. Apenas pego de volta o que nós emprestamos para vocês. E você apenas me reconheceu por causa do bracelete? — Se afastou da mulher, colocou as mãos na cintura e esperou uma resposta.

— Por mais que você seja bonita, sua aparência é comum. Cuidado para não ser assaltada, nos noticiários praticamente só filmam os seus braceletes. As autoridades podem fazer uma cópia perfeita, mas por algum motivo se encantam com os seus.

— É de se esperar. — Recuperou a postura e apenas ficou observando Dorotéia, que apesar de ter falado algumas coisas, parece que morreria de um ataque cardíaco no exato momento que terminasse de falar.

Enquanto ficavam em total silêncio, Áurea pensava em uma forma de conseguir levar Sallie sem machucar a mãe da garota, mas sabe que não será tão fácil. E também pelo fato de que não saberá qual será a reação da criança e em qual nível as habilidades dela estão. Isso torna tudo mais difícil, sabe que terá que conversar com Dorotéia para levar a menina de volta para o seu lar.

Áurea decidiu entrar na casa e ir direto para o quarto da menina. Observou o cômodo encantada pelos desenhos pendurados nas paredes de todo o quarto. Apesar de Sallie ter apenas dez anos, ela desenhava muito bem e em um dos desenhos, viu uma mulher idêntica a ela, o mesmo vestido e o mesmo estilo de cabelo. Tirou a folha da parede e voltou para o quintal ao encontro de Dorotéia, mesmo aquele quarto não significando absolutamente nada para ela, pois queria analisá-lo. Paredes desgastadas, pintadas de rosa, cortinas que de brancas ficaram amarelas, um baú de madeira onde ficavam os brinquedos que já estava vazio e também havia um tapete queimado mostrando a metade de uma rosa.

— Se você não fosse tão rebelde, eu teria vindo antes. — Desabafou para si mesma, observando o tapete.

Voltando para o quintal, Áurea levava em suas mãos o desenho que Sallie fez dela. Com o desenho como prova, pode levar a garota sem ter que matar Dorotéia. Mas por que não matar Dorotéia?

Primeiro: matar uma mulher de espírito tão forte não traria resultados bons para sua vida, que é longa.

Segundo: é a primeira vez que conhece a mãe de criação de uma das crianças.

Terceiro: gostou dela.

Quarto: a missão de matá-la não cabe a ela. Assim que colocou os pés para fora da casa, avistou Sallie atrás da mãe apenas segurando a barra do vestido, sem notar, sorriu e deu um pequeno olá em direção à garota, que continuou séria e escondida. Andando em direção à Dorotéia, apenas a entregou o desenho.

— Aí está a prova que eu não chego e saio raptando crianças por aí. Todas as crianças que eu busquei me conheciam e no fundo apesar de não entenderem para o que nasceram, sabem que precisam vir comigo. Se você preferir podemos tomar uma xícara de chá enquanto discutimos sobre isso. Brincadeira, eu não tenho tempo para isso.

— Ela também desenha grandes lobos e nem por isso sai montada em um por aí. Você não vai levá-la.

No mesmo instante, Áurea caminha em direção à criança e a pega pelo braço e a puxa, deixando Dorotéia imóvel pelo poder que cintilava dos braceletes. A criança, sem nenhuma reação, apenas sussurra o nome de sua mãe várias vezes. A mãe, aos prantos, gritava o nome da filha o mais alto que podia. Pedia para não levá-la embora, que a criança era tudo o que ela tem naquele momento. Áurea com o poder do bracelete a empurra para longe, mas devolve seus movimentos. Dorotéia tentava limpar as lágrimas com as palmas da mão, mas sujava mais o rosto do que limpava.

Em um instante de distração, Áurea a vê correndo o máximo que pode em sua direção, mas pelo cansaço acaba caindo aos seus pés. Ofegante, a mulher suplica para que deixe a sua filha viver em paz, mas Áurea apenas balança a cabeça em sinal negativo e continua olhando nos olhos da mulher.

— Se você levá-la, por favor, proteja Sallie com a sua vida. — Dorotéia cedeu, e apenas arrastou um dos braços machucados, fechou o punho e bateu várias vezes no chão.

— Você me pedindo isso ou não, é o meu dever.

— Eu gostaria de observar a sua jornada, Sallie, mas... Eu não posso. Perdoe a mamãe, eu nunca te abandonaria. — Dorotéia parou de bater o punho no chão e esticou o braço em direção à filha, que estava atrás de Áurea, com a expressão aterrorizada. — Apenas cresça saudável e gentil.

Antes mesmo, de Dorotéia conseguir levantar a cabeça para olhar nos olhos de Áurea, a mesma abaixou, olhou no fundo dos olhos da mulher e desculpou-se. No momento em que Áurea estava para se levantar, Sallie andou em direção à mãe, se curvou e a beijou na testa, em um curto período de tempo, todas as feridas da mulher se curaram, e as roupas mudaram, seus cabelos foram trançados, sua verdadeira pele veio à tona, e a verdadeira cor dos cabelos, o loiro dourado enferrujado.

Dorotéia se levantou, levou as mãos ao colo e com uma aparência impecável, apenas deu um sorriso de orelha a orelha para a filha. Áurea se surpreendeu e colocou Sallie atrás dela, caso algo acontecesse. Mas ao invés de tentar pegar a sua filha de volta, só a observou sorrindo, e a partir dali, sua pele branca como a neve foi se desfazendo em cinzas como toda a parte do corpo e se juntou ao vento e aos grãos de areia. Com o uivar dos ventos, deixou as suas últimas palavras:

— O melhor espera por você. Seja corajosa.

Notas finais
Espero que tenham gostado!!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.