A Pick-Up do Márcio
2 Pandemônio
Notas iniciais
Como pode a pessoa demorar séculos no bebedouro, sendo que o motivo da demora nem era a sede em si, mas o ângulo que favorecia mais na hora da água vir de encontro à boca, sem molhar o cabelo? Pois é, Ineda, só você mesmo. E eu me arrependo profundamente de ter me oferecido a te fazer companhia nessa “bagaça” toda.
— Será que a madame poderia, por obséquio, apressar o passo aí? — perguntei impaciente, apoiando as costas na parede e cruzando os braços. — A Ana já deve ter feito xixi umas três vezes, lavado a mão mais cinco, e ainda parado pra ajeitar a franja. Por favor, né!
— Te acalma que eu to quase terminando.
— Terminando o quê, de cavar um poço? Porque, com essa demora toda aí não deve faltar muito pra chegar... sei lá... na China?
— Sim, criatura! E tu queres que eu me engasgue toda aqui?! — ela virou para mim, limpando os cantos da boca com os indicadores, toda Paty.
— Se já terminou, bora logo que as meninas tão tudo esperando no pátio — descruzei os braços e enrolei o cabelo na mão direita, depois jogando ele todo por cima do ombro.
Em seguida, finalmente, pude desencostar daquela parede dura e amarela – se fosse a Jamille no lugar da Ineda, ela provavelmente já teria feito milhares de piadinhas sem graça sobre eu poder me camuflar no ambiente, jogando na cara que pareço anêmica, que sou desprovida de ferro, essas coisas... porque quem tem amigo zoado não perde oportunidades, né?
[...]
Apenas mais alguns passos e chegaríamos onde as meninas estavam.
— CORRE, ANA, CORRE! — ouvi alguém gritando. E pelo tom de voz escandaloso só poderia ser a Nicole... ou alguma mulher parindo, vai saber.
— O que tá acontecendo, gente? — Ineda fez a pergunta antes que eu tivesse chance, tão surpresa quanto eu ao ver as quatro doidas, vulgo amigas, correndo desesperadas em nossa direção.
— A GENTE PRECISA SAIR DAQUI AGORA!
— A GENTE VAI MORRER!
— MEU CABELOOOOOOO!
— SOCORRO, EU TO QUASE ME CAGANDO!
— DÁ PRA FALAR UMA DE CADA VEZ?! — me emputeci.
Estranhando, vi quando todas olharam em volta antes de puxarem a mim e a Ineda de volta à área do bebedouro.
— O Thiago não tava mentindo, Clara! — Nicole começou, menos alterada, porém visivelmente nervosa.
— A gente viu quando a Mille e a Ana saíram que nem doidas do banheiro feminino — continuou Ariel —, e ao mesmo tempo um garoto do convênio apareceu todo ensanguentado, saindo do banheiro masculino. E ele disse que era pra gente correr e avisar pra todo mundo!
— Mas gente, avisar o quê?! — perguntei sem entender porra nenhuma.
— O APOCALIPSE ZUMBI, CRIATURA! DEIXA DE SER LERDA!
— Ai Ariel, não grita! — tampei os ouvidos depois de perder 50% da audição, porque puta que pariu...
— Meu cabelinho como tá todo sujo — Ana choramingou.
Eu ainda pensava em tirar toda aquela história a limpo, mas não tive tempo. Senti alguém apertando fortemente o meu braço e, ao olhar para o lado, vi Ineda paralisada. Ela tinha os olhos arregalados e focava em algo além das meninas à nossa frente, então resolvi imitar o que ela fazia e me arrependi no segundo seguinte.
Atrás das quatro, se aproximando vagarosamente, cerca de três mortos-vivos – mais mortos do que vivos, obviamente – cambaleavam pelo corredor principal, exalando podridão e soltando ruídos estranhos pelo buraco nojento e gosmento que antes devia ser uma boca. Um deles usava calça jeans e um jaleco branco com o símbolo da escola no peito, que somente os alunos do último ano tinham; outro, mais atrás, vestia o uniforme de faxineira e... aquele troço torto e molhado acima do pescoço era a cabeça?! Porque se for: Eca, que nojo!
— Gente... sem pânico — comecei, aos sussurros, enquanto andava lentamente para trás e puxava a Ineda comigo, já que ela permanecia agarrada ao meu braço e parecia não querer soltar tão cedo.
Jamille, Nicole e Ariel, parecendo saber exatamente do que se tratava, iniciaram uma caminhada tão lenta quanto a minha, logo depois. No entanto, Ana Vitória continuou parada a mexer na zona que era o cabelo dela, e foi preciso eu chamá-la duas vezes até que tivesse sua atenção.
— Não é hora pra isso, Nana — murmurei no tom mais fraco que podia.
— O quê? Mas por quê? — ela perguntou, elevando a voz. Tão discreta quanto uma pedra, essa menina.
— Shhhh!! — Jamille tapou a boca dela, num impulso.
Talvez tivéssemos conseguido passar despercebidas pelos zumbis...
Talvez arrumássemos um esconderijo seguro...
Talvez fizéssemos o caminho até a sala de aula sem muito alarde, em busca de avisar a todos os outros sobre a catástrofe que estava acontecendo...
Contudo, entretanto, todavia, porém, no entanto; o alarme que indicava o fim das aulas ecoou por toda a escola, acabando completamente com meus planos. E o que antes eram zumbis mongóis e acabados passando pelo corredor sem nos notar, no instante seguinte se tornaram criaturas famintas e prontas para atacar o que viesse pela frente – no caso, os alunos do sexto, sétimo e oitavo anos, que saíam apressados de suas classes, com mochilas nas costas e sentimentos de, enfim, liberdade.
Mas isso não durou muito tempo.
— AAAAAAAAAAAH!!! — gritou uma garota, no momento em que foi atacada por um dos zumbis, tendo seu pescoço mordido com força e dilacerado em questão de segundos.
— ZUMBIS! SOCORRO! SOCORROOOOO!!
Assim, o pandemônio estava mais que formado. E de quebra, os alunos de outras classes também começaram a sair, causando o maior alvoroço, uma confusão de gritos, gemidos de dor e de ruídos estranhos. Não tínhamos mais o silêncio ao nosso favor, então nada mais importava. Saímos correndo o mais rápido que podíamos pelo meio da multidão, com apenas um objetivo em mente: sobreviver. E a questão ali era que não tínhamos nada, nem mesmo um lápis sequer, que pudesse ser usado como instrumento de defesa.
Olhei para trás e quase vomitei com a visão que tive do inferno; em tão pouco tempo, vários corpos já se encontravam parcialmente devorados pelo chão, a maioria de crianças que sequer tiveram tempo de entender o que acontecia antes de morrerem.
O pior é saber o que vão se tornar dentro de alguns minutos.
— O que tá fazendo?! Corre! — Ineda me tirou de um transe momentâneo e me puxou com força, fazendo meu braço arder.
— A gente tem que voltar pra sala — disse a ela, fazendo uma careta de dor.
— T’é doida?! Vamos morrer se fizermos isso!!
— MAS E O LUIZ? E os meninos?! — estava começando a me desesperar. — E como espera escapar de um bando de zumbis sem ter nada pra se defender?
Ineda pareceu pensar comigo por um momento, antes de avisar à Jamille o que já sabia que eu tinha em mente – amizades de mais de 12 anos te dão essa vantagem – e pedindo para que ela avisasse às outras meninas, que logo depois resolveram que seria mesmo bom ter algo com o que se defender ao alcance.
Chegando na sala, a encontramos praticamente vazia, com exceção apenas das nossas coisas sobre as carteiras desorganizadas.
— Cadê todo mundo?! — perguntou Nicole, preocupada.
— Devem ter passado pela gente no meio da confusão e nem vimos — respondeu Ariel.
— E agora? O que a gente faz? — foi a vez da Jamille perguntar.
— Tenta achar algo afiado o suficiente pra matar um morto — falei sem pensar.
— Ah, que ótimo! Talvez minha garrafinha fosse útil nesse momento... mas não, porque eu ESQUECI DE TRAZER!
— Jamille te acalma que não temos tempo! — Ineda interviu.
— Fala isso porque não foi tu que teve que agarrar uma zumbi pelas costas!
— Mesmo assim, não é hora pra desespero!
— Isso é um apocalipse, minha filha. Não tem hora pra desespero, não!
A discussão poderia muito bem tomar mais um pouco do tempo que não tínhamos, mas um barulho de metal caindo no chão, seguido de madeira se partindo, acabou fazendo-as parar. O motivo? Simples. Uma panda-nazista-terrorista-mirim, chamada Ariel, que tinha acabado de quebrar uma das carteiras (não me pergunte como) e se abaixava pare pegar algo do chão.
— Pronto. To equipada — disse ela, com um pedaço de ferro de uma das pernas da carteira quebrada em mãos, imitando os movimentos feitos por batedores em jogos de baseball.
E graças a ela eu tive mais uma ideia.
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