A Pianista
43 Capítulo 43
Notas iniciais
Ao acordar, já era de manhã. Não sabia ao certo que oras eram. Peguei meu celular e ele estava sem bateria. Que maravilha... Conectei-o no carregador e liguei-o em seguida. Não havia nenhuma mensagem ou ligação. Desci até a cozinha e me surpreendi quem estava fazendo o café da manhã. Era mamãe. Não tenho nada contra a comida da mamãe, mas eu gosto mais quando o sr. Jonson faça.
– Bom dia, Ayumi! Dormiu bem? – disse mamãe virando um peixe bem dourado, com um aroma ótimo também, na frigideira.
– Bom dia... – eu bocejei no final – Onde está o sr. Jonson?
– Ah, ele está lá fora podando algumas rosas. Você tem que ver, as rosas dele estão tão lindas...
– Depois eu vejo. Ah, mãe, hoje eu estarei saindo de casa por um instante, ok?
– Hmm... Aonde vais?
– Nada pessoal, mas encontrar-me-ei com o meu amigo.
Mamãe tossiu e depois riu um pouco, fazendo-me corar.
– Tudo bem – sibilou.
Ao mamãe finalizar a comida, ela chamou o sr. Jonson lá fora. Ele entrou retirando as botas cheias de terra. Estava com uma camisa que era branca, mas que agora está com enormes manchas de terra espalhadas. Usava luvas próprias para a jardinagem e carregava em sua mão direita uma pazinha. Estava vestindo uma calça jeans rasgada no joelho.
– Ah, bom dia, Ayumi! – disse secando a testa com as costas da mão.
– Bom dia.
Sentamos todos à mesa e eu fui a primeira a me servir. Peguei um pouco de arroz, onde joguei exageradamente molho shoyo por cima e peguei um pedaço de peixe gralhado.
– Olha a quantidade de sódio que você ingere, filha... – disse mamãe olhando apavorada para o meu prato, com arroz boiando no shoyo.
– Nada, eu tomo bastante água.
– Não é por isso...
– Ah, deixa ela, Mariko. Ainda é nova para ter pressão alta.
– Então pode devolver aqui o molho – disse mamãe pegando o frasco de molho da mão do sr. Jonson. Eu ri ao ver sua expressão de chateado.
Eram umas 18:48 da tarde, decidi sair de casa e ir à pracinha. Peguei meu celular, montei na bicicleta e fui lá. Ao chegar, eu encontro com o Tatsuo empurrando uma criancinha no balanço.
– Tatsuo! – disse eu, acenando minha mão no ar. Ele olhou para mim, mas não foi uma boa ideia, pois se esqueceu do balanço, que o acertou na altura das coxas fazendo-o cair no chão com tudo de bumbum. Eu ri um pouco e corri para ajudá-lo.
– Desculpe! – tentei segurar a risada.
Vi que a criança do balanço estava de pé e ria do Tatsuo.
– Mamoru seu capeta, volta aqui!
Ele se levantou, com a bunda cheia de areia grudada, e correu atrás do seu priminho, conseguindo pegá-lo. Tatsuo não estava nem um pouco com raiva do pequeno. Ao pegá-lo por trás, agarrou seu tronco e girou, fazendo o garoto gargalhar.
– Chega! Vou vomitar! – disse o menino entre risos.
– Que saia seu pâncreas! – o Tatsuo também riu.
Depois da linda comunhão de família ali, o Tatsuo colocou o Mamoru no gramado deitado e veio em minha direção.
– Oi! Desculpe por isso... Ele quis vir junto para brincar... – ele passou a mão no cabelo jogando-os para trás, mas não adiantou nada porque caiu novamente em sua face. – Agradeço que você ve... AI, INFERNO! – ele gritou, fazendo-me assustar.
– Ai, meu Deus! Tudo bem? – disse eu.
– Ah sim. – ele virou para trás e eu pude ver o seu priminho ali com um sorriso no rosto. – Não toca na minha bunda, cara!
Eu ri. Não contive o riso.
– Está cheio de areia. Não é, nee-chan?
Ein? Ele está falando comigo? O Tatsuo olhou para mim arregalando aqueles pares de esmeraldas verdes, corado.
– Ein? – disse eu sentindo minhas bochechas esquentarem.
– Nee-chan. Sei que o Tatsuo não é meu irmão, mas eu o considero como um. Então... a bunda dele não está com areia?
– A-ah, s-sim.
Nesse momento o Tatsuo bateu a mão no traseiro e murmurou algo. Corei depois de perceber que eu reparei em seu traseiro (> /// X /// <)"
– Mamoru, vá brinca com aqueles moleques lá, vai. Preciso falar com a Ayumi.
– Aham, sei... Aqui não é lugar para dar amassos.
– MEU DEUS, MAMORU! VÁ LOGO BRINCAR COM AQUELES SERES COMO VOCÊ!
– Mas não tem ninguém jogan...
– Apenas vá – disse Tatsuo com a mão esquerda no rosto abaixado e com a mão direita apontando para algum lugar por aí.
– Tatsuo, não é perigoso ele ficar sozinho? – disse eu.
– Nada, o moleque sabe se virar. Conviveu comigo. – disse ele com um ar de orgulhoso. Pude ver o quão vermelho estava suas bochechas.
No fim, o priminho do Tatsuo foi até a caixa do escorregador e começou a fazer montes de areia.
– Então... O que há de tão importante para falar para mim?
– Vamos hoje no local que sonhei?
Hesitei. Não sabia o que dizer a ele.
– Hã... ok...?
– Eu levarei o Mamoru para casa de novo e depois falarei que levarei você para a sua. Mas vamos ao local marcado. Mas, para isso precisamos de um ambiente escuro para que ninguém possa desconfiar de nós.
– Tudo bem. Mas lembre-se... Se a polícia nos pegar, colocarei a culpa em você. – disse eu.
– Sem problemas. Se a polícia nos pegar eu falo que nós estávamos nos pegando.
– EEEEIINNN???? – disse eu corada. Ele riu com a lateral da boca na mão.
– Estou brincando. Amo você corada.
– Isso não tem graça! – eu dei um empurrão no seu braço.
O tempo passou rápido, até o Mamoru reclamar que estava chato demais e que queria ir para casa. Voltamos para a casa do Tatsuo e ele fez como disse, de me levar para casa. O priminho dele deu um sorriso. Olha, se ele não tivesse 6 anos, digo que aquele sorriso foi um dos maliciosos. Ele é primo do Tatsuo... Então não posso pedir muito ¬_¬
O local que Tatsou havia falado era longe para caramba! Andamos um bocado e até pegamos trem. Eu estava exausta. Olhei no celular e vejo que eram 23:02.
– Tatsuo, minha mãe vai me matar. Ainda estamos no trem! Vai demorar muito?
– Ligue para ela e fale que você demorará um pouco mais. Pelo menos ela não vai ficar tão preocupada assim.
Obedeci e liguei para ela.
– Ayumi? – disse mamãe atrás do telefone – Cadê você?
– Oi, mãe. Quero dizer que... Estou bem. Estou na casa do Tatsuo.
– Ahh!! Aham. – mamãe riu. Do que ela estava rindo? O que ela estava pensando?!
– Não pense besteira, por favor. A mãe dele acabou me segurando um pouco. Quero dizer que se quiser, vocês já podem ir se recolhendo e não se preocupar comigo.
Mamãe acabou concordando e disse algo rapidamente como “Boa noite” dando ênfase no “boa”. Em seguida desliguei.
– Pronto – disse ao Tatsuo.
– Beleza, descemos aqui.
A estação estava deserta, não havia ninguém, ao subirmos, parecia que o Tatsuo sabia de cor onde ficava o tal local.
– E então... Onde fica esse lugar? É um cemitério? Um depósito?
– É aqui.
Depois de muito andar, ele me apontou uma janelinha de vidro.
– Hã... Você quer que eu vire um rato e passe por aí?
– Você não é tão gorda assim. Você passa de boas. Talvez a bunda empaque, mas eu empurro. – ele riu com seu sorriso lateral.
– Ei! – eu não sei se estava vermelha de corada ou de raiva – Passe você primeiro.
O Tatsuo acabou se ajoelhando e com um movimento rápido, quebrou o vidro com o cotovelo.
– Silêncio! Ai meu Deus... Vou para cadeia ainda nova...
– Vem! – Tatsuo cochichou para mim já dentro do ambiente. Estendeu a mão para mim.
Eu deitei e passei primeiro a cabeça, depois o tronco e por fim as pernas, desequilibrando na altura da virilha, caindo de cabeça em cima do Tatsuo.
– Foi mal! – disse eu ao olhar para ele. Estávamos-nos realmente muito próximos. Talvez milímetros de distância.
– Sem problemas. Agora pode sair de cima de mim?
– Desculpe-me. – eu me levantei e ajudei-o a se levantar também.
O lugar realmente dava arrepios. Era bem escuro e tinha um ar de umidade com mofo e coisas velhas. Não consegui ver muito bem por causa da baixa iluminação. Pude ver algumas caixas, talvez, empilhadas jogadas por aí. Aquele lugar não era tão grande, mas também muito pequeno. Acho que ele ficava pequeno com a quantidade de coisas indescritíveis que havia ali. Senti um arrepio tremer meu corpo todo. Passei as mãos em meus braços.
– Está com frio? – perguntou Tatsuo mostrando seu casaco.
– Ah, não. Obrigada. Senti um calafrio...
Fomos andando. Eu estava morrendo de medo de aparecer algum rato ou coisa parecida.
– Tatsuo... Que lugar é esse...? – cochichei analisando tudo ao meu redor.
– Shh... Você escutou isso? – ele parou levantando o indicador direito.
– O quê?
– Volte.
– Ein?
– Dê passos para trás novamente.
Eu obedeci, dando uma espécie de marcha ré. Depois ele pediu que eu avançasse lentamente em sua direção. Depois de uns três passos, o chão abaixo de mim rangeu, fazendo um som horroroso. O Chão era de estacas de madeiras típicas de casas japonesas.
– Pare aí e não se mexa. — pediu.
Eu fiquei imóvel, e vi o Tatsuo tirar do bolso da camiseta um canivete.
– Tatsuo! Por que você está com isso aqui?! – cochichei, mas queria gritar.
Ele não me respondeu. Foi até onde eu estava pedindo licença para mim. Com a ajuda do canivete, ele conseguiu tirar um dos blocos do chão. Eu me ajoelhei junto a ele. Havia um pano bem estragado por cima, logo abaixo do bloco de madeira. Assim que o Tatuso tirou um cheiro muito desagradável veio aos nossos olfatos. Eu quis vomitar. Olhei para o Tatsuo e ele parecia sério. Ele colocou a mão dentro do buraco e retirou uma espécie de bolsinha de tecido com seu fundo manchado. Parecia tinta escura que fora derramado a muito tempo atrás. Estava imunda com poeira, teia de aranha e aquele odor desagradável.
– Tatsuo, o que é isso?
– É o que veremos.
Ele abriu cuidadosamente o saquinho e depois vi uma expressão de ânsia em sua face. Eu, logo peguei a bolsinha e olhei dentro também.
– Ai, Cristo... O quê... O que é isso...?
Dentro do saco, havia ossos. Ossos pequenos e frágeis. Também havia larvas mortas dentro. Isso é... Ossos de dedos infantis.
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