A Pianista
33 Capítulo 33 - Especial
Notas iniciais
Não acredito que fiz isso. Sim, eu fiz isso. Paguei o maior mico da minha vida: ter beijado a Ayumi. Pedi perdão à ela e ela retribuiu com um sorriso e falando algo que eu nunca pensaria que ela iria me dizer: “Não se preocupe. Também tenho esse sentimento por você!”. Esperei ela sair do meu campo de visão para entrar em casa novamente. Eu fui até a cozinha e joguei uma água fria em meu rosto. Peguei uma lata de refrigerante na geladeira, abri, sentei no sofá e comecei a assistir a televisão. Já eram umas 21:00 da noite quando mamãe e a tia voltaram.
– Chegamos! – disse mamãe entrando pela sala.
– Ah, olá.
– Mamoru-kun! A mamãe e a tia chegaram! Cadê você? – disse minha tia.
Oh, God! Esqueci meu priminho no banheiro! Eu rapidamente saí correndo largando a latinha em cima da mesa de centro e indo em direção ao banheiro. Abri a porta com tudo, mas esqueci que estava trancada. “Droga! Onde eu enfiei essa chave?! Ah! Estante da TV!” Novamente, como um louco eu saí correndo para a sala e comecei a procurar a chave pela estante. “Achei!”, gritei para mim mesmo.
– Filho? Está tudo bem?
– Ah, claro! – disse eu já saindo da sala.
Coloquei a chave na fechadura e abri a porta.
– Mamoru!
Ele estava deitado no chão do banheiro dormindo. O peguei no colo e levei até à tia.
– Ele dormiu... Onw, não precisava colocá-lo para dormir, Tatsuo – disse minha tia.
– Ah, imagina. Acabei colocando-o na cama para dormir um pouco... Hehe...
– Mas ele está gelado.
Dá para parar de fazer perguntas, tia?! Rapidamente eu pensei em alguma coisa para falar para ela.
– Provavelmente ele quis dormir com a janela aberta e sem coberta. Esse Mamoru...
A tia acabou despedindo de mim e da mamãe, colocou o Mamoru no banco de trás do carro na cadeirinha e me pediu um favor novamente: ficar com o Mamoru durante as semanas. Bom... Eu aceitei, porque eu gostava do Mamoru, o único problema dele é que ele fala o que quer. Entramos e mamãe novamente veio me perguntar se estava tudo bem comigo.
– Ah! C-claro! Por que não estaria? Hehe... – disse colocando a mão atrás da cabeça.
– Tatsuo, eu te conheço, querido... O que aconteceu? Sabe que pode confiar em mim, não é?
Ah, posso não. Depois de quando ela me envergonhou na frente da Ayumi... Disse que estava tudo bem e que iria tomar um banho para dormir porque estava cansado. Mentira não era. Cuidar de uma criança de seis anos não é fácil! Deixei a água cair bastante na minha cabeça. Queria poder voltar no tempo para não cometer aquele erro novamente. Em minha cabeça ficou passando um filme de tudo que havia acontecido... O beijo, o abraço, o cochicho. Senti minhas bochechas queimarem.
Ao sair do banho eu enfiei meu rosto com tudo no travesseiro. Escutei alguém bater na porta. Era mamãe.
– Tatsuo, querido? Está tudo bem? Você não vai comer?
– A-ah! N-não, obrigado, mãe! Pode jantar hoje sem mim?
– Estarei deixando a janta aqui na porta caso queira comer.
Eu não estava a fim de falar com ninguém. O que eu devo fazer?! Ah, Hayato! Espera... Será uma boa ideia? Não... Porque é o Hayato! Mas... Ele é o único amigo em que realmente posso confiar. Peguei meu celular e mandei uma mensagem para o Kazumi.
“Hayato, eu fiz uma besteira enorme.”
Depois de uns instantes meu celular vibrou. Mensagem dele.
“O que, cara? Você me acordou para isso? Ah, não estou a fim de digitar. Liga aqui que eu falo com você.”
Eu liguei para ele e uma voz sonolenta com bocejo no meio falou atrás do celular.
– O que foi que você fez?
– Eu... eu... b-b-beijei...
– Mano, dá para parar de gaguejar e falar de uma vez?
– Eu beijei a Ayumi! — desembuchei.
Sua voz mudou totalmente, parecia que ele havia tomado cafeína pura na veia.
– Não brinca, cara! Sério?! Quando isso? Me conta os detalhes!
Isso estava parecendo um diálogo de amigas, quando uma sai para ir ao shopping, compra um sapato ou vestido e fica falando com as outras amigas que tal acessório é lindo. Ou que viu o cara que é apaixonada.
– Não vamos deixar esse diálogo gay, okay? – disse eu.
– Mas não está gay! Ah, dane-se. Agora me fala o que rolou, cara!
– Eu não sei! Eu sei lá... Perdi o controle!
– DETALHA, CARAMBA! – gritou Hayato.
– Eita acalme-se, Kazumi. Eu me lembro de ter segurado seu pulso e depois ter a beijado nos lábios. Acabei dando um abraço por fim.
– E sua reação?! – disse ele eufórico.
– Minha ou da Ayumi?
– Dela, né?!
– Eu sei lá o que ela sentiu no início. Ela me disse que “sentia o mesmo sentimento que o meu”, alguma coisa assim.
– ELA GOSTA DE VOCÊ, MANO! ENTÃO ELA CURTIU, CARA! – Hayato deu um grito, fino para dizer a verdade, no final da frase. Escutei um barulho.
– Hayato?
– Oi, estou aqui. Cai da cama, foi mal.
Não sabia o que dizer depois disso. Sabia que ela poderia talvez ter uma queda por mim, mas talvez como amigos.
– O que eu faço? – perguntei depois da comemoração do Hayato. Parecia que era ele quem tinha beijado alguém '-'
– E eu vou saber, Tatsuo?! Isso é com você! – ele deu uma risadinha curta.
– Dá para parar de rir?! – disse eu.
– Não mesmo haha! Eu preciso falar com a Ayumi e infernizar vocês dois! Hahaha!
– Ah, não vai mesmo! Se você fizer isso juro contar para a Naomi sobre o “Operação Cueca” na quinta série que você era o envolvido.
– Operação Cueca? Q-que operação? – ele deu umas risadas constrangedoras – Não sei de nada disso não.
– Ah é? Então vamos refrescar sua memória. Na quinta série quando nós havíamos saído da piscina em natação na Educação Física você tomou uma ducha, mas não havia encontrado sua cueca. Pediu para mim mas eu já estava usando. Então você rapidamente foi até o armário da Sawako achando que era de um menino e pegou sua cal – fui interrompido por ele gritando.
– ESTÁ BEM! Não conto nada para ninguém!
– Hayato preciso que você não conte nem para a Naomi, okay? Se a Ayumi contar, tudo bem, mas até lá não comente nada.
– Tudo bem. Entendido. Mas então... Isso não quer dizer que vocês vão parar de falar né?
– Não... acho que bem pelo contrário. Mas eu não sei direito como falar com ela – disse eu.
– Amanhã manda uma mensagem à ela ou faz uma ligação.
– Ok... Então até mais. Obrigado pela ajuda.
– De nada. Mas nunca achei que um cara como você iria se apaixonar, Tatsuo. Muito menos beijar alg – o interrompi.
– Tchau, Kazumi.
Desliguei o celular. Virei para o lado, mas não consegui dormir. Escutei meu celular vibrar novamente em cima do meu criado mudo.
– O que ele quer agora? – disse eu para mim mesmo.
Ascendi o abajur novamente e vi que era uma mensagem. Abri e li: Yang Ayumi. OH SHIT! Espera! Porque eu estou tão nervoso assim?! Porque eu estou tremendo?! É só uma mensagem, não?! ÕuÓ”
“Desculpe-me por mandar uma mensagem tão tarde assim... Sabe... É uma pergunta um pouco constrangedora, mas... Dês de quando você tem esse sentimento por mim?”
O que eu faço?! Eu respondo?! Finjo que não recebi mensagem nenhuma?! Não! Não poderia fazer isso com a mensagem de uma garota que acabei de beijar! Mesmo com minhas mãos tremendo eu digitei:
“Desde sempre.”
Enviei. A resposta? Acabei dormindo antes de recebê-la.
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