A Peregrinação Sombria

3 Capítulo 2 - A Dupla De Coletores


No final da estrada de pedra, Paulo se deparou com um pequeno lago rodeado por flores. A bússola que a garota lhe dera ainda apontava em direção da água. O menino entendeu que deveria dar a volta para conseguir chegar a porta para o próximo . Entretanto, ao passar o lago e caminhar em direção a floresta, a bússola passou a apontar para o local de onde ele tinha vindo. Assim, ele entendeu que a porta estava estritamente relacionada com o pequeno corpo de água atrás dele. O que preocupava-o era o fato de não ter nenhum tipo de indicação de como entrar na porta (ou portal, mas aparentemente as pessoas daquele mundo esquisito chamavam de porta as ligações entre as dimensões). Será que ele teria que pular dentro do lago? Aquela não parecia uma boa ideia; ele estava com fome e com muito sono por ter dormido mal à noite. Com certeza, ficar todo molhado não seria uma boa opção para sua saúde.

Repentinamente, a coruja que dormia em seu bolso começou a se mexer. Parecia que ela queria dizer alguma coisa.

— Calma amiga, calma. — disse Paulo — Não precisa se preocupar. — Estranhamente, ela estava muito inquieta dentro de seu bolso. Era notável que algo a incomodava. Só havia um porém, ele estava ainda estava dormindo em um sono profundo. Provavelmente, algum pesadelo a incomodava durante seu sono. Agora as coisas faziam mais sentido, ela preferia não estar sozinha durante o dia por causa de seus pesadelos, preferia mais a companhia, mesmo que de um estranho, do que ter que suportar todas as sua dores sozinha.

O menino hesitou por alguns instantes. Pular no lago era a única opção, e depois de algum tempo ele decidiu se atirar de uma vez. Com um só salto, ele e a coruja caíram no lago, os dois começaram a rodopiar freneticamente e a água na qual eles estavam imersos mudou de cor, primeiro para um verde muito escuro, depois para um azul claro, e quando perceberam, tal cor já não era a água mas sim um novo céu. Eles haviam achado a porta para a outra dimensão com sucesso. Estavam os dois em outra estrada, só que desta vez não havia árvores, apenas campos verdes abertos e um pequeno estabelecimento para viajantes. Uma plaquinha indicava seu nome: pousada fluvial, esse nome fazia sentido, tendo em vista que o menino teve que se atirar em um lago para chegar até ali.

— O de casa! Tem alguém aí? — gritou Paulo. Uma voz bem grave e agressiva respondeu.

— Tem sim, porém estamos fechados hoje. Só abriremos lá pela sete horas.

— Eu preciso de um emprego. Uma menina de enfeites no cabelo me mandou vir para cá. Ela disse que me ajudaria e sobreviver neste mundo.

De repente, a porta daquela pousada se abriu diante dele. Um homem alto, barbudo, cheio de cicatrizes no rosto que usava um avental o atendeu. Ele passava um ar agressivo aos que estavam próximos, mas o menino logo percebeu que era só o temperamento dele.

— Você quer um emprego então? Olha, eu tenho um emprego, mas ninguém o quer, porque aparentemente ele é um pé no saco. Eu poderia lhe dá-lo, mas você vai ter que andar muito e estar habituado a achar as portas. Poucos na Trulundra ficam vagando entre os nós, só fazemos isso quando é estritamente necessário. Além disso, você, por acaso, já possui algum equipamento para achar as portas? Se não, vai ter que arranjar sozinho, eu não tenho como bancar nenhuma ferramenta mais, todos a quem eu ofereço este emprego saem logo de cara, levando as ferramentas junto.

— Tenho sim, mas o que necessariamente é este emprego, moço? E porque aparentemente ninguém quer?

— Este emprego é o que chamamos de coletor. Quando eu preciso de algum produto, eu posso simplesmente ir andando até a mercearia mais próxima. Entretanto, há produtos que são muitos específicos de cada , as pessoas precisam atravessar cerca de três, quatro até cinco nós para chegarem a esses produtos. Por exemplo, há um óleo que só consigo no trinta e três e ele é muito essencial para limpar o chão. Os viajantes sempre chegam com algum tipo de alga nojenta do lago e o cheiro só sai realmente com esse produtinho especial. Eu ainda tenho um pouco no estoque, mas logo vou precisar de mais, não ter que ir lá buscar já é grande coisa, ficar mudando constantemente de nó acaba causando enxaquecas em algumas pessoas, e aparentemente, eu sou uma delas. Além disso, há a probabilidade de você por acidente cair em um nó errado. Já recebi três meninos que vieram de pontas contra a própria vontade.

— Moço, calma. Eu não tô entendendo o que tá acontecendo faz uns três dias seguidos. Como assim pontas? O que você quer dizer com isso.

— Você veio para cá contra sua própria vontade? — O menino anuiu — É, então você veio de um nó isolado, a Trulundra é como um emaranhado de cordas, e seu aparentemente não tem nenhum tipo de contato com os outros mundos. Seu pessoal não deve ter nem a consciência do que é a Trulundra, mas você, e lhe dou os parabéns de antemão, conseguiu chegar até aqui por acidente.

— Ótimo, mas o que é Tuludra?

Trulundra é o conjunto de todos os nós, seria o emaranhado de cordas como um todo. Isso é uma pergunta bem filosófica rapaz, não sei responder mais do que isso.

★★★

Depois de descansar aquela noite na pousada e se alimentar feito um padre, o menino recebia sua primeira tarefa. Ele não ganharia pouco, tendo em vista que a periculosidade de seu trabalho aumentava bastante o salário. A menina de fato o havia ajudado muito, lhe dando a bússola e mandando ele conseguir um trabalho. Era bem provável que ela já soubesse da pousada e por isso tinha lhe dado a bússola que seria indispensável para o seu emprego atual. Agora só restava ele começar. Seu empregador, Jeff, tinha lhe dado os suprimentos necessários e lhe disse para ir na outra porta sem ser a do lago que dava para o próximo . Ele advertiu o menino, dizendo que no atual, que tinha o nome de Júlio (por algum motivo que não sei dizer), havia um governante que cuidava das terras em que a próxima porta ficava, e de que se ele fizesse tudo corretamente, ele entraria nela tranquilamente. Era só ele ser cauteloso o suficiente para não causar nenhum incômodo naquele reino medieval.

Paulo seguiu pela estrada em campo aberto e foi seguindo até o feudo desse tal governante. Ele deve se chamar Júlio, pensou. Já que o tinha o nome dele. Entretanto, isso não era verdade. Aquele nome tinha sido escolhido aleatoriamente por algum cartógrafo por causa de alguma brincadeira sem graça, provavelmente aquele era muito chato e o mapeador resolveu chamá-lo assim para caçoar de algum amigo próximo ou algo do tipo.

De longe, o menino podia avistar grandes plantações em volta de um castelo muito antigo que era cercado por muita água. Se ele se lembrasse bem das aulas de história, quem ficava em volta do castelo na área rural eram os camponeses, que dependiam da proteção e das terras do senhor feudal, em troca, eles trabalhavam plantando e colhendo. Não era uma vida muito confortável, mas era melhor do que ficar em terras perdidas à mercê de saqueadores. Havia também algumas pessoas entrando e saindo do castelo que ficava no meio, provavelmente levavam os suprimentos para a parte nobre do feudo. Paulo estava muito interessado em conversar com alguém; por isso, assim que avistou um camponês livre, decidiu abordá-lo o mais rápido o possível.

— Oi moça, tudo bem? — Paulo perguntou timidamente.

— O que foi menino? — Ela era muito bonita, seus cabelos eram castanhos e seus olhos verdes. Era morena de trabalhar no Sol e estava bastante suja já que a idade média não perdoava ninguém, principalmente os camponeses que eram a base da pirâmide social.

— Você sabe onde fica a porta para o próximo ? — Ele indagou gentilmente.

— Do que você está falando? Não sou artesã nem nada do tipo, e nem temos portas aqui garoto, só os nobres as tem. Temos que acender o fogo dentro de casa para nos proteger do frio.

Paulo achou muito estranho sua resposta. Talvez, apenas talvez, nem todos os habitantes dos nós sabiam sobre a Trulundra, já que o ato de viajar era como ser um viajante de multiverso de ficção científica. Ele olhou na bússola novamente, ela apontava para dentro da parte nobre do feudo, que era cercada por enormes muralhas.

A coruja se remexia novamente no seu bolso, o menino agora a acariciava para ver se ela se acalmava. Se ela tinha vindo da floresta dos abandonados, com certeza, ela deveria ter sido abandonada por alguma pessoa de seu de origem e acabara caindo assim como ele naquele multiverso bizarro, mas ainda não fazia sentido o por quê uma coruja ter tantos pesadelos, se é que esse tipo de animal podia sonhar.

Ele andava em direção a cidade, passando pelos agricultores esfarrapados que estavam trabalhando. A parte nobre da cidade era um pouco assustadora. Na muralha que a cercava havia um enorme arco para se entrar na parte de dentro, ele era extremamente mal cuidado e cheio de musgo. Dois guardas o guardavam um de cada lado, e quando o menino se aproximou, suas lanças o barraram:

— Alto lá baixinho!

— O que foi? Eu preciso entrar, é um pouco urgente.

— Garoto, eu preciso saber pelo menos o motivo da sua vinda. É bem nítido que você não é um camponês destas terras. Eu normalmente não deixaria um forasteiro passar tão facilmente sem uma autorização, mas já que você é bem novo e parece estar perdido vou perguntar pelo menos o que veio fazer aqui.

— É... eu vim comprar os legumes que são produzidos aqui neste feudo. Meu pai me mandou vir pra cá a cavalo. Normalmente ele não faria isso, mas minha mãe está grávida e ele tem medo de que se não dermos o legume certo o bebê vai nascer com cabeça de cenoura.

— Não sei o que você quer dizer com essa tal palavra feudo, mas pode entrar, isso me lembra meu pai também. — Paulo havia se esquecido completamente que a palavra feudo era um invenção soa historiadores de seu mundo, ali ela não tinha significado algum.

O menino agora entrava na cidade. Nela havia várias daquelas barraquinhas de mercadores que vendiam artesanato e faziam armaduras, a alguns metros de distância ele conseguia avistar a menina que o havia ajudado. Ela continuava com muitos enfeites no cabelo e ainda possuía um ar bem alegre e empolgado com tudo que via pela frente.

—Ei! Me vê duas daquela ali. — Disse ela para um vendedor de facas que estava bastante atarefado com a quantidade de clientes enorme que estava em volta de seu estabelecimento.

— O-oi... — gaguejou Paulo — Muito obrigado por me ajudar, eu estaria cansado e com muita fome se você não tivesse me dado as dicas necessárias.

—A oi... — Ela respondeu com um pouco de indiferença — Você deve estar indo para próxima porta não é? Ser um coletor é um trabalho muito difícil; porém,é muito recompensador. Normalmente, eles pedem para crianças como eu e você para fazer esse tipo de coisa. Conseguimos passar despercebidos por qualquer . Eu não me apresentei ainda: eu me chamo Naftália. Me deu muita pena ver você na floresta dos abandonados aí eu decidi ajudar.

— Eu me chamo Paulo. Você está indo para o próximo ?

— Sim — respondeu ela — Quer vir comigo?

Nesse momento Paulo ficou extremamente envergonhado. Não que ele estivesse gostando dela ou algo do tipo, já que eles haviam acabado de se conhecer. Entretanto, meninos de onze anos serão sempre meninos de onze anos, e falar com qualquer menina o deixava nervoso. Ainda mais uma que era da mesma idade que ele e que parecia tão confiante.

— Claro — disse Paulo disfarçando sua vergonha — Vamos juntos então.

Assim os dois foram em direção ao porão do castelo para ir para a próxima porta. Eles só não sabiam o que lhes esperava lá embaixo...