Ela voltou à sala aonde estava o trasgo, passou pela porta oposta, chegando no corredor e correu até finalmente chegar na sala onde estava Rony. Ele continuava caído no mesmo lugar, desacordado.

Hermione se aproximou, com medo do pior. Olhou o corte feio que tinha na cabeça e que sangrava consideravelmente. Viu que ele respirava lentamente e pôde ouvi-lo gemer. Ela tocou levemente em seu braço, chamou seu nome, mas ele não acordava. Como iria tirá-lo dali? Precisava acordá-lo agora mesmo.

Assim, a garota repassou mentalmente os feitiços que sabia, mas não demorou a perceber que nenhum serviria. Enquanto pensava, mexia em Rony vez ou outra e chamava seu nome, só por tentativa.

Foi então que se lembrou da página do livro que estava lendo horas antes, quando tentava se preparar para aquela aventura e visualizou em sua mente a página exata, como se estivesse com o livro em sua frente: “Ennervate: um feitiço para usar em pessoas estuporadas.

Não era o caso, mas não faria mal tentar. Ela se concentrou, empunhou a varinha, fez o movimento e murmurou o encantamento, mirando Rony.

O garoto sentiu como se fosse puxado de um sono profundo, e quando abriu os olhos viu o rosto de Hermione: ela tinha a varinha numa mão e os olhos muito atentos, mas marejados, com um olhar preocupado.

—Mione? — ele quis se certificar, tentando sentar. Sua cabeça latejava muito, sua visão ainda estava um pouco turva e ele sentiu que iria desmaiar de novo, quando Hermione o segurou, mantendo-o sentado.

—Ah, Rony! Por Merlim! Ainda bem que acordou. — ela respirou aliviada, apoiando-o como podia.

—Cadê Harry? E a pedra? — ele tentou dizer rápido, levando a mão à cabeça que deu mais uma pontada quando ele a moveu depressa, procurando pelo amigo.

—Harry foi impedir Snape e nós precisamos ir chamar Dumbledore, ele não vai conseguir sozinho.

Assim, Rony ficou de pé com ajuda de Hermione o mais rápido que pôde, e os dois foram para a sala das chaves, onde pegaram duas vassouras para poder passar pelo alçapão, para perto do qual correram em seguida, pelo corredor que haviam passado depois do visgo-do-diabo.

—Eu vou primeiro — disse ele, decidido, tentando ignorar a dor em sua cabeça — Sou melhor voando, então eu distraio o Fofo e você voa rápido pela porta.

—Você vai conseguir se mover rápido? E sua cabeça? — Hermione hesitou, preocupada de que aquela pudesse ser uma ideia ainda pior para o estado dele.

—É só mantê-la o mais parada possível, confie em mim. — e quando ela acenou com a cabeça, ajeitando a própria vassoura, ele montou a sua e pairou a pouca distância para instruir — Assim que eu conseguir chamar a atenção dele, chamo seu nome e você vai com tudo direto pela porta, e me espera lá fora.

—Certo! — ela assentiu, se preparando, e pediu uma última vez — Tenha cuidado!

Rony assentiu com a cabeça, respirou fundo uma vez e subiu rápido, sem hesitar. Passou pelo alçapão como uma flecha e ficou voando alto sobre as cabeças de Fofo, fazendo com que se afastasse mais do alçapão.

—AGORA, MIONE! — gritou ele, o mais alto que conseguiu.

Segundos depois, a garota passou pelo alçapão tão rápido quanto ele havia ido, voando direto pela porta do lado oposto. Fofo nem a viu passar. Rony então manobrou a vassoura o melhor que pôde e avançou para a porta, passando tão rápido por ela que acabou parando no meio do corredor.

Os dois imediatamente largaram as vassouras e começaram a descer as escadas em direção à porta de entrada para irem ao corujal. Porém, ao chegarem no saguão de entrada, encontraram com Dumbledore, que vinha correndo na direção deles.

—Harry foi atrás dele, não foi? -perguntou, já passando por eles com urgência quando confirmaram com a cabeça.

Os garotos o viram subir desabalado para o terceiro andar e ficaram ainda alguns minutos recuperando o fôlego antes de irem à ala hospitalar.

Hermione não tinha machucado algum, então madame Pomfrey não deixou que ela ficasse lá. Ela e Rony se entre olharam antes de se despedir e, mesmo sem dizerem nada, sabiam que ambos pensavam na mesma coisa: Harry.

Rony tomou uma poção que o fez dormir e Hermione ficou ao lado de fora, esperando para ver se Dumbledore voltava com Harry.

Algum tempo depois — Hermione não sabia dizer quanto precisamente, porque para sua preocupação pareceram horas sem fim -, Dumbledore chegou carregando Harry desacordado e com uma aparência péssima. Ela pensou, quando colocou os olhos nele, que parecia estar..

Mas, logo sacudiu a cabeça para afastar o pensamento apavorante e se pôs a se convencer que, se ele estava ali, era porque estava vivo.

A garota os seguiu com os olhos, mas não tornou a entrar na enfermaria: pela porta entreaberta pôde ver Madame Pomfrey indicando um leito no fundo do cômodo e fechando-o com a divisória. Rony, que estava na cama mais perto da porta, dormia tranquilamente com um curativo na cabeça.

Quando o professor Dumbledore saiu, sugeriu que ela voltasse ao dormitório e tentasse dormir um pouco, e disse que quando Rony acordasse ele conversaria com os dois sobre o que acontecera.

Rony passou o dia na enfermaria, indo encontrar com Hermione no salão principal apenas na hora do jantar. Ao entrar no salão, as cabeças se voltaram para ele e vários estudantes vieram a seu encontro, lhe dando a mão e parabenizando-o. Fred e Jorge se aproximaram, afastando as pessoas como se fossem seus guarda-costas, e diziam com um tom de satisfação: “Calma, pessoal deixem o mestre do xadrez passar."

" Mestre do xadrez?"— pensou Rony, e levou uma mão à cabeça instintivamente, querendo ter certeza que já não estava mais inconsciente, ou talvez alucinando.

—O que está acontecendo? — ele perguntou aos irmãos, ainda sentindo tapinhas nas costas e ouvindo vivas.

—Todos já sabem de sua incrível partida de xadrez contra as peças de McGonagall. — respondeu Fred, sorrindo largo.

—Estamos até pensando em vender autógrafos seus. — disse Jorge, acenando com a cabeça para o gêmeo.

—Rony! Que bom que acordou! — disse Hermione animada, ao ver o amigo se aproximar — Como está se sentindo?

—Estou bem, muito melhor! E Harry? — ele perguntou baixo, de modo que só ela ouvisse, e se sentou ao seu lado.

—Está desacordado. Chegou muito mal na ala hospitalar, mas não pude vê-lo, Dumbledore sugeriu que eu fosse descansar. E também quer nos ver depois, para saber o que aconteceu.

—E o que é tudo isso? Como descobriram sobre o jogo?

—Não faço ideia, estou respondendo perguntas desde que saí do dormitório. — a menina encolheu os ombros e os dois olharam de relance uma última vez para os lados, onde outros alunos ainda estavam comentando e apontando para eles com muita empolgação.

Os dois jantaram sendo interrompidos várias vezes por alunos que queriam parabenizá-los e fazer perguntas. Depois que terminaram foram procurar Dumbledore em sua sala, onde contaram tudo o que havia acontecido e, no final, perguntaram sobre Harry, mas o professor disse que preferia falar primeiro com ele e depois o garoto mesmo explicaria tudo a eles.

Ao saírem da sala de Dumbledore, Rony e Hermione voltaram para a sala comunal da Grifinória. Eles não tinham tido tempo para conversar sobre tudo o que havia acontecido e pretendiam fazê-lo agora: no entanto, ao chegarem lá, vários alunos ainda estavam interessados em saber detalhes da aventura.

Hermione não disse nada: aproveitando que estava realmente cansada daquilo, deixou que Rony contasse sua parte e aproveitasse toda aquela atenção. Ele, por sua vez, estava realmente feliz com aquilo: nunca tivera tanta atenção em sua vida e, desta vez, por algo que ele fizera sozinho. Devia ter repetido a história mais de dez vezes, sem se importar — mas, contou do jogo apenas, omitindo quem possivelmente havia atacado Harry.

Hermione sorria e às vezes balançava a cabeça negativamente, ouvindo a história que Rony repetia incansavelmente, acrescentando detalhes sobre seus pensamentos e estratégias de jogo. Ele parecia realmente feliz com toda aquela atenção e enquanto constatava isso, em algum ponto ela soube que não conseguiriam conversar naquele dia, então se levantou e foi para o dormitório — queria tentar dormir antes que as outras garotas chegassem e fizessem mais perguntas.



No dia seguinte, após o café da manhã, Rony e Hermione tentaram visitar Harry, mas ele ainda estava dormindo e não puderam entrar na enfermaria, então foram para a beira do lago passar o tempo, finalmente conversando sobre o que acontecera.

—Você acha que Harry vai ficar bem? — perguntou Rony, preocupado.

—Claro que sim! Nem pense em outra coisa. — respondeu ela de imediato, levantando os olhos do livro que lia.

—E por que você está lendo se as aulas acabaram? — o garoto quis saber, arqueando uma sobrancelha inquisitivamente, aproveitando para esquecer o assunto de antes.

—Para me distrair, é claro. — ela respondeu como se fosse óbvio — Preciso ocupar minha cabeça para não ficar pensando besteiras.

—Ah, certo. Sei como é. — falou o garoto, encarando o Sol brilhante no céu, os olhos fechando — Só não consigo fazer isso com livros. — ele completou fazendo uma careta e depois sorriu, jogando uma pedra no lago. Hermione rolou os olhos com um breve riso, e fechou o livro segundos depois.

—Sabe, Rony, eu não disse nada antes, mas fiquei impressionada com sua habilidade, e coragem também, no jogo de xadrez da Profa. McGonagall. — ela disse, acompanhando o olhar dele no lago, e sorriu um pouco, abraçando o livro ao corpo.

Rony corou perceptivelmente, as orelhas ficando escarlate, e se Hermione não soubesse que haviam se sentado ali há cinco minutos, poderia dizer que o Sol o havia queimado exageradamente.

—Ah, eu… — ele pigarreou, coçando a nuca, mas finalmente disse, sorrindo timidamente — Muito obrigado, Mione. Parece que afinal sou bom em alguma coisa. — ele deu de ombros, ainda sorrindo breve, e jogou mais uma pedra no lago.

Mesmo com a distração, os dois continuaram aflitos por Harry: iam visitar o amigo de tempos em tempos para ver se já tinha acordado, mas não podiam entrar. Foi só no terceiro dia após a aventura que, ao chegarem na ala hospitalar para a eventual tentativa de visita, Madame Pomfrey disse que Harry tinha acordado e falava com Prof. Dumbledore. Os dois se entreolharam, sorrindo aliviados, e ficaram à porta esperando uma chance de vê-lo também. Ficaram ali por um bom tempo e quando Dumbledore saiu piscou para os dois, que aguardaram pela curandeira para poder pedir para vê-lo também.

Minutos após a saída de Dumbledore, Pomfrey foi até os garotos e avisou que Harry queria vê-los, mas que teriam só cinco minutos pois ele precisava descansar. Os dois correram até onde Harry estava na mesma hora.

— Harry!

Hermione parecia prestes a abraçá-lo outra vez, muito empolgada, mas Harry gostou que tivesse se contido porque a cabeça dele ainda estava muito doída.

— Ah, Harry, nós estávamos certos que você ia... — ela hesitou, segurando o ar, e depois balançou a cabeça para dizer — Dumbledore estava tão preocupado…

— A escola inteira não fala em outra coisa – disse Rony, se debruçado num espaço da cama. – Mas, no duro, o que foi que aconteceu?

Era uma das raras ocasiões em que a história verdadeira é ainda mais estranha e excitante do que os boatos fantásticos. Harry contou tudo: Quirrell; o espelho; a Pedra e Voldemort.

Rony e Hermione eram bons ouvintes; exclamavam nas horas certas e quando Harry lhes disse o que havia sob o turbante de Quirrell, Hermione soltou um grito.

— Então a Pedra acabou? – perguntou Rony finalmente. – Flamel simplesmente vai morrer?

— Foi o que perguntei, mas Dumbledore acha que... como foi mesmo?... — ele franziu o cenho, parecendo tentar se lembrar — Que para a mente bem estruturada a morte é a grande aventura seguinte.

— Eu sempre disse que ele era biruta – disse Rony, parecendo muito impressionado.

— Então o que aconteceu com vocês dois? – perguntou Harry.

Hermione não demorou a contar o que havia acontecido depois de passar as chamas roxas.

— Você acha que ele queria que você fizesse aquilo? – perguntou Rony, em dúvida – Mandou a capa do seu pai e tudo o mais?

— Bom! – explodiu Hermione, incrédula. – Se ele fez isso... Quero dizer... Isso é horrível... Você podia ter sido morto.

— Não, não é horrível – disse Harry, pensativo. – Ele é um homem engraçado, o Dumbledore. Acho que meio que queria me dar uma chance. Acho que sabe mais ou menos tudo o que acontece por aqui, sabe? Imagino que tivesse uma boa ideia do que íamos tentar fazer e em lugar de nos impedir, ele simplesmente ensinou o suficiente para nos ajudar. Não acho que tenha sido por acaso que me deixou descobrir como o espelho funcionava. Era quase como se pensasse que eu tinha o direito de enfrentar Voldemort se pudesse…

— É, a marca de Dumbledore, com certeza – disse Rony, orgulhoso, embora ainda um pouco impressionado. – Olhe, você precisa estar bom para a festa de fim de ano, amanhã. Os pontos já foram todos computados e Sonserina ganhou, é claro. Você faltou ao último jogo de quadribol, fomos estraçalhados por Corvinal sem você. Mas a comida vai ser legal.

Nesse instante, Madame Pomfrey irrompeu no quarto.

— Vocês já estão aí há quinze minutos, agora FORA! – disse com firmeza.