Quando os dois voltaram a passar pelo buraco do retrato mais tarde, acompanhados de Neville e com Hermione em prantos, Rony não soube nem o que pensar. Hermione nem olhou para ele, os olhos embarcados de lágrimas, e subiu soluçando para o dormitório das meninas. Neville, que parecia muito chateado, ignorou os dois e fez o mesmo, foi Harry que se sentou com Rony e lhe contou o que tinha acontecido.

Harry contou que conseguiram levar Norberto e entregar aos amigos de Carlinhos, mas que no caminho para fazer isso, viram a Prof. McGonagall pegar Draco tardando pelo castelo, tentando entregá-los. Os dois tinham ficado tão felizes por Draco se dar mau e por se livrarem de Norberto sem prejudicar Hagrid, que quando desceram da torre de Astronomia esqueceram da capa e foram pegos por Filch, que os levou para a professora Minerva, que àquela altura já tinha pego Neville tentando encontrá-los para avisar de Draco e acabou sofrendo as consequências também.

—Mas, que desculpa deram pra ela? — Rony quis saber, abismado.

—Nenhuma, não tinha como falar algo sem arriscar Hagrid. Ela mesma tirou uma conclusão, disse que mentimos para Malfoy sobre um dragão para que ele saísse da cama e fosse pego e que Neville tivesse caído nessa história também, o que fez Neville ficar chateado com a gente.

—E o que ela fez? — Rony estava com medo de perguntar, temendo pela resposta.

—Deu um sermão em nós três e tirou cinquenta pontos de cada um. — Harry falou, chateado.

—CINQUENTA DE CADA? — falou Rony sem emitir som, mas como se gritasse.

—É, e uma detenção. — completou, se levantando para ir ao dormitório.

—Mas que injustiça, a gente tenta ajudar os outros e só se ferra. — Rony reclamou, acompanhando Harry escada acima.

Na manhã seguinte a notícia se espalhou. Grifinória tinha perdido cento e cinquenta pontos por culpa do famoso Harry Potter e outros dois panacas do primeiro ano. Até os alunos da Corvinal e Lufa-Lufa se voltaram contra eles, porque todos desejavam havia muito tempo ver a Sonserina perder a taça das casas.

Rony, que tinha descido com Harry para o Salão Principal, observava as pessoas os apontando e xingando. Os alunos de Sonserina, por outro lado, batiam palmas quando Harry passava, assobiavam e davam vivas. “Obrigado, Potter, ficamos lhe devendo essa!” — diziam eles.

Rony achou melhor tentar animá-lo.

— Eles vão esquecer dentro de umas semanas. Fred e Jorge já perderam montes de pontos desde que chegaram aqui e as pessoas continuam a gostar deles.

— Eles nunca perderam cento e cinquenta pontos de uma tacada, ou perderam? – retrucou Harry, infeliz.

— Bom... não. – admitiu Rony, ficando cabisbaixo de novo.

Hermione e Neville estavam sofrendo também. Não estavam apanhando tanto quanto Harry porque não eram tão conhecidos, mas ninguém falava com eles, tampouco. Hermione parara de chamar atenção nas aulas, mantinha a cabeça baixa e trabalhava em silêncio. Ela não tinha conseguido dormir, não fora comer o café da manhã e ainda tinha que aguentar as insinuações das garotas do dormitório, que falavam aos cochichos e risinhos sobre ela estar nos corredores com Harry Potter. Ela nem comentou tal coisa com os amigos, mas não pôde deixar de mandar uma carta para a mãe, na tentativa de aliviar o que sentia. Nunca na vida tinha ganhado detenção, ou levado uma bronca na escola sequer, mas sabia que no fim das contas o que a tinha levado àquilo era uma causa maior — o que, mesmo assim, não amenizava a chateação e também não recuperava os cento e cinquenta pontos perdidos.

Hermione decidiu mergulhar nos estudos e esperar para provar seu valor nos exames, que se aproximavam. Ela, Harry e Rony ficavam sozinhos, trabalhavam até tarde da noite, tentando lembrar os ingredientes das complicadas poções, aprender os feitiços e encantamentos de cor, decorar as datas das descobertas mágicas e das revoltas dos duendes...

Certa tarde, Hermione estava tomando os pontos de astronomia de Rony na biblioteca quando Harry, que tinha saído há pouco, voltou ofegante e lhes contou que acabara de ouvir o professor Quirrell falando com alguém e aceitando algo antes de sair correndo pelo corredor. Harry tinha olhado para dentro da sala, mas não viu ninguém, apenas uma outra porta entreaberta e deduziu que Snape teria saído por lá.

— Snape então conseguiu! – exclamou Rony. – Se Quirrell contou a ele como quebrar o feitiço antimagia negra…

— Mas ainda tem o Fofo – lembrou Hermione.

— Talvez Snape tenha descoberto como passar pelo cachorro sem perguntar ao Rúbeo – disse Rony, correndo os olhos pelos milhares de livros que os rodeavam. – Aposto como tem um livro por aqui que ensina como se passar por um cachorrão de três cabeças. Então, o que vamos fazer, Harry?

O brilho de aventura voltava a iluminar os olhos de Rony, mas Hermione respondeu, antes que Harry pudesse fazê-lo:

— Vamos procurar Dumbledore. Isto é o que deveríamos ter feito há séculos. Se tentarmos alguma coisa por conta própria, com certeza vamos ser expulsos.

— Mas não temos provas – disse Harry.

— Quirrell está apavorado demais para nos apoiar. Snape só precisa dizer que não sabe como foi que o trasgo entrou no Dia das Bruxas e que nem chegou perto do terceiro andar. Em quem vocês acham que eles vão acreditar, nele ou em nós? — Harry argumentou, sabiamente — Não é bem segredo que nós o detestamos, Dumbledore vai pensar que inventamos isso para ele ser despedido. Filch não nos ajudaria nem que a vida dele dependesse disso, é muito amigo de Snape, e quanto mais alunos forem expulsos, tanto melhor, é o que ele pensa. E não se esqueçam, nós nem devíamos saber da Pedra nem de Fofo. O que vai exigir muita explicação.

Hermione pareceu convencida de seus argumentos, mas não Rony.

— Se déssemos só uma espiadinha...

— Não – respondeu Harry, decidido –, já demos muitas espiadinhas.

E, dizendo isso, puxou um mapa de Júpiter para perto e começou a aprender os nomes das luas. Rony estranhou, mas suspirou, aceitando em silêncio que, apesar da curiosidade, os amigos estavam certos, e voltou a prestar atenção na correção de seu dever nas mãos de Hermione.

Na manhã seguinte, Harry, Hermione e Neville receberam bilhetes à mesa do café da manhã. Diziam a mesma coisa:

Sua detenção começará às vinte e três horas. Aguardem o Sr. Filch no saguão de entrada.

Profa. Minerva

Hermione dobrou o bilhete, guardou nas vestes e voltou a comer sem dizer uma palavra. Achava, como Harry, que mereciam o que tinham recebido.

Às onze horas da noite eles se despediram de Rony na sala comunal e desceram com Neville para o saguão de entrada. Rony deveria ficar relendo as anotações das revisões preparadas por Mione, mas não conseguia se concentrar em mais nada daquilo. Guardou os pergaminhos e livros e ficou mirando o fogo na lareira, deixando seu pensamento fluir. Quando fizeram poucos minutos que estava se concentrando em nada em particular naquelas faíscas, os gêmeos entraram pelo buraco do retrato rindo e, ao verem Rony sentado sozinho, foram brincar com o irmão.

—Ora, olá, Roniquinho! O que faz aqui sozinho? — perguntou Jorge, se aproximando.

—Nada demais. — ele deu de ombros — E vocês estavam fazendo o que lá fora? Como escaparam da ronda do Percy? — perguntou, surpreso.

—Veja bem, Roniquinho, nós somos os mestres das passagens de Hogwarts, entende? Percy não nos encontraria nem se estivéssemos debaixo daquele nariz feio dele.- disse Fred, cutucando o irmão gêmeo com o cotovelo e rindo.

—O que tem o Percy? — disse o mais velho, que acabara de entrar pelo retrato. Rony, assim como os gêmeos, se virou para olhá-lo só por um instante.

—Ah, tem muitas coisas! — disse Fred, erguendo as sobrancelhas e ficando de frente para o mais velho — Tem nariz grande… — ele enumerou no indicador.

—Pé chato — falou Jorge, continuando a enumeração.

—Uh, mas de chato não só o pé! disse Fred, rindo.

—Querem parar vocês dois? — Percy os repreendeu, nervoso — O que é que ainda fazem aqui embaixo, de toda forma? Por que não estão nos dormitórios?

—Bem, nos diga você, Percezinho! Por que chega só agora? — provocou Jorge, cruzando os braços e arqueado uma sobrancelha.

—Porque sou monitor, é claro, e tenho ronda para fazer. — respondeu ele, empinando o nariz, e com um tom presunçoso.

—Você é monitor? — Fred se fez de surpreso, arregalando muito os olhos — Não pode ser! Sabia disso Jorge?

—Não fazia nem ideia, Fred! Acho que nosso irmãozinho esqueceu de nos contar. — Jorge emendou, estreitando os olhos para o mais velho, como se o repreendesse.

—Imagine, uma coisa tão importante! Como você pôde esconder isso de nós, Percy? — o outro fez que estava chateado, negando com a cabeça para o monitor.

—Ah, certo, parem com isso agora mesmo! — ele esbravejou com os gêmeos, tão vermelho de raiva como os próprios cabelos. Os gêmeos riram discretamente, se entreolhando enquanto se afastavam para outro canto, e Percy se voltou para o mais novo, que observava rindo em silêncio, até então.

— E você, Rony? Que faz aqui a essa hora? — ele cobrou o garoto, que amarrou a cara e deu de ombros.

—Nada, oras. Tô quieto no meu canto, não tá vendo? — ele gesticulou para si mesmo, e desviou o olhar de volta para a lareira.

—Melhor assim. — o mais velho continuou, parecendo satisfeito, mas Rony sabia, prestes a emendar outro sermão — Já não basta o que seus amiguinhos fizeram com a Grifinória. Cuidado com as companhias que escolhe, Rony. — falou ele em tom de advertência.

—Ah, não enche, Percy. -retrucou Rony, ficando realmente nervoso, mas cerrou os punhos e afundou mais no sofá.

—É, Percy, não amola! Pelo menos ele tem amigos, diferente de uns e outros. — retrucou Fred, provocando-o.

—Eu tenho amigos, está bem? — Percy esbravejou de novo, endurecendo a expressão — Se querem saber, vou dormir que me é muito melhor do que ficar no meio dessa conversa infantil de vocês.

—É isso aí, vai mesmo! Aqui não tem a mamãe pra te defender. — falou Jorge para as costas do irmão, que já subia as escadas.

Os gêmeos se sentaram um de cada lado de Rony e então recomeçaram a falar.

—Agora conta, Rony! O que realmente aconteceu para Harry e Granger pegarem detenção e você ganhar uma mordida na mão? — perguntou Fred, curioso.

Rony hesitou um pouco mas, pouco depois constatou que não devia haver problemas em contar a verdade a eles. Sabia que não entregariam Hagrid, e muito menos Carlinhos.

Quando terminou a história, os dois estavam com os olhos cintilando, pregados nele, como se ainda processassem cada parte.

—Quem diria, nosso irmãozinho transgressor de regras como nós! — comentou Jorge, com um tom orgulhoso, dando palmadinhas nas costas de Rony.

—Que alívio, não é, Jorge? Por um momento achei que poderia se tornar um Percy. — completou Fred, fazendo uma careta. Rony rolou os olhos, sorrindo um pouco, e completou.

—Mas não contem a ninguém, certo? — pediu Rony — Muito menos à mamãe. Se ela souber da mordida e do risco que Carlinhos correu me ajudando, nem sei o que fará. — ele estremeceu, e tentou esquecer a ideia.

—Fique tranquilo, maninho, seu segredo está seguro com a gente. — falou Fred se levantando e bagunçando seus cabelos. Jorge assentiu, dando uma piscadela e subiu com o irmão para o dormitório, deixando-o sozinho novamente.

Rony adormecera na sala comunal às escuras, esperando os amigos voltarem. Sonhava com alguma coisa sobre faltas no quadribol, quando sentiu ser sacudido com força e, ao abrir os olhos, viu Harry, e Hermione um pouco atrás dele. Ainda estava um pouco adormecido quando Harry começou a falar, ofegante — em questão de segundos, porém, seus olhos se arregalaram.

Harry contou que viu um vulto encapuzado na Floresta Proibida, onde fora a detenção, que se arrastava como uma fera e bebia o sangue de um unicórnio. Malfoy gritou e fugiu, o que fez a figura levantar-se, olhar pra ele e avançar rápido em sua direção. Harry contou que então ficou paralisado de medo, a dor em sua cicatriz foi tão insuportável que o deixou cego e ele cambaleou.

Depois ouviu cascos que saltaram por cima dele e atacaram o vulto. Ele caiu de joelhos por causa da dor e, quando se recuperou, o vulto tinha fugido e o centauro o deixou montá-lo para levá-lo até Hagrid, e por isso brigou com os outros dois centauros. Quando voltaram a andar, o centauro Firenze contou que beber sangue de unicórnio é algo monstruoso, que é ele o que mantém a pessoa viva, mesmo que esteja a beira da morte tendo apenas uma sobrevida, uma vida amaldiçoada, do momento que o sangue lhe toca os lábios. Firenze também lhe disse que alguém só aceitaria esta sobrevida para se manter viva o tempo suficiente para beber outra coisa, algo que vai lhe devolver a força e o poder totais, algo que significa que jamais poderá morrer. Ele afirmou sobre a Pedra filosofal estar no castelo e sugeriu que Voldemort estivesse por trás disso.

Harry nem conseguia se sentar. Andava para cima e para baixo na frente da lareira. Continuava a tremer. Rony, sentando na frente da lareira repassando toda a história e as cenas em sua cabeça, não estava muito diferente.

— Snape quer a pedra para Voldemort... E Voldemort está esperando na floresta... E todo esse tempo pensamos que Snape só queria ficar rico.

— Pare de repetir esse nome! – disse Rony num sussurro de terror, como se Voldemort pudesse ouvi- los. Ainda não entendia como Harry podia ficar repetindo aquele nome, era como um mau agouro terrível.

Harry nem o escutou.

— Firenze me salvou, mas não devia ter feito isso... Agouro ficou furioso... falou de interferência naquilo que os planetas anunciaram que ia acontecer. Eles devem estar indicando que Voldemort vai voltar... Agouro acha que Firenze devia ter deixado Voldemort me matar... Imagino que isso também esteja escrito nas estrelas.

— Quer parar de dizer esse nome? – sibilou Rony, nervoso, mas o amigo ignorou, compenetrado demais.

— Portanto só preciso esperar que Snape roube a pedra – continuou Harry, febril –, então Voldemort vai poder voltar e acabar comigo... Bem, quem sabe Agouro vai ficar feliz.

Hermione estava muito assustada, mas teve uma palavra de consolo que lhe veio à mente bem na hora.

— Harry, todo mundo diz que Dumbledore é a única pessoa de quem Você-Sabe-Quem já teve medo. Com Dumbledore por perto, Você-Sabe-Quem não vai tocar em você. Em todo o caso, quem disse que os centauros têm razão? Isso está me parecendo adivinhação, e a Profa. Minerva diz que adivinhar o futuro é um ramo muito inexato da magia.



O céu havia clareado antes de terminarem de conversar. Foram se deitar exaustos, com as gargantas ardendo. Rony se deitou na cama e adormeceu instantaneamente, enquanto Hermione, por outro lado, ainda demorou um pouco para desligar seus pensamentos, que agora estavam num turbilhão incessante.