A Paixão de Mori

5 Uma cena que as rosas presenciaram


Notas iniciais
Um dia isso iria acontecer.

Haruhi não viu Mori no Host Club. Já haviam se passado dois dias e só então ela reparou a falta que o gigante fazia para aquele lugar. Todos sentiam falta dele, mas Tamaki insistia:

-As freqüentadoras do Host Club não devem ser desamparadas! Não cessaremos nossas atividades embora sintamos muita falta de Mori-san! Não só continuaremos com nossas atividades como faremos ainda mais para satisfazer as adoráveis damas que nos dão o prazer de sua companhia! – Disse ele, acompanhado em seguida pelos comuns gritos de suas alucinadas fãs.

-Ele só pode ter algum problema mesmo. – disse Haruhi, num suspiro, referindo-se claramente a declaração exagerada de Tamaki. – O Mori-sempai não morreu, ele só se afastou por uns tempos. Todos precisam de um tempo sozinhos. Ele ainda está frequentando as aulas, não é? Então que diferença faz?

Kyoya não pôde deixar de reparar o comentário “da” Host e retrucou, usando, como sempre, seu melhor sorriso.

-Ah, mas faz diferença sim, Haruhi. Olhe para as acompanhantes de Honey. Repara alguma diferença?- e então indicou a mesa onde o pequeno confortavelmente comia seus usuais bolos enquanto interagia com as garotas que escolhessem sua companhia. A crossdresser realmente reparou algo estranho: Havia bem menos garotas sentadas em torna daquela mesa que sempre estava recheada de guloseimas. Talvez Mori realmente tivesse seu charme de garoto silencioso e viril, como dizia o óbvio, talvez Honey, embora parecesse tão jovial quanto de costume, tivesse sido afetado pela falta de seu amigo mais próximo e perdido um pouco de seu chamariz, mas provavelmente o que tornava aquela mesa menos atraente era a ausência daquele que ainda estava presente. Haruhi instintivamente desviou seu olhar para Tamaki.

-Sei que não é boba, Haruhi, então sei que já percebeu. Repare em Tamaki por alguns instantes e, por mais que isso seja um pouco difícil, tente ignorar o fato de ele ser um idiota completo. Suas frases prontas e trejeitos exagerados, embora pareçam estúpidos na convivência diária, constituem uma eficaz técnica de entretenimento para as jovens que o escolhem como anfitrião. Ele sozinho poderia facilmente cuidar de sua clientela, assim como eu, que apenas preciso de algumas demonstrações de conhecimento em assuntos um tanto fúteis para causar um efeito semelhante. – Haruhi, ao ouvir a última frase, fez uma careta de descontentamento, quase pensando alto, mas conseguindo mantê-las apenas em sua cabeça. “Esse cara realmente se acha. Eu nem sei como ele consegue lembrar a metade das coisas que ele chama de ‘fúteis’. Ricos mimados malditos.”

-No entanto, como suponho que também tenha percebido, — continuou, enquanto ajeitava seus óculos com o indicador e indicava com a outra mão Kaoru e Hikaru, que faziam o velho jogo “Adivinhem quem é o Hikaru-kun?” para um grupo impressionado de garotas. – os gêmeos Itacchin dependem um do outro para manterem a atenção suas expectadoras, assim como para todo o resto.

Haruhi então olhou novamente para Honey. Ele parecia estar fazendo seu máximo para agradar aquelas que insistiam em tê-lo como anfitrião, mas não conseguia esconder o fato que seu brilho não era o mesmo sem a companhia de Mori.

-Honey-san pode ter uma graciosidade contagiante, mas muitas clientes não o consideram tão atraente sem a companhia de seu “irmão mais velho”.

De fato, embora Honey parecesse saber pelo que Mori estava passando, ele sempre parecia triste e preocupado quando achava que ninguém estava olhando (e Haruhi era especialista em olhar para as pessoas nessas horas). Seus pensamentos foram interrompidos pela mão que Kyoya pousou em seu ombro. Quando falou, seu odioso sorrisinho continuava impecável. Haruhi percebeu naquele instante do que se tratava todo aquele discurso cheio de detalhes. Sem Mori por ali, os lucros do clube caíam, e isso era um problema para Kyoya. A “plebéia” não pôde esconder sua expressão de desprezo que senti por aqueles olhos gananciosos por detrás daqueles óculos, que refletiam a imagem do pequeno Honey.

-Isso mesmo, Haruhi. Mori-san faz MUITA falta.

-Explorador. – Por mais que soubesse que seu comentário não significasse nada, não resistiu. Depois girou em seus calcanhares e se dirigiu à porta – Vou dar uma volta. Tô com medo que a sua ganância seja contagiosa.

Quando fechou a porta atrás de si, Haruhi se permitiu um longo suspiro. Muito mais cansativo que ouvir os planos malignos do Kyoya era expor-se ao constante risco de se tornar um alvo das brincadeiras dos gêmeos ou das idiotices do Tamaki sem poder contar com a proteção emergencial de Mori caso exagerassem na dose, o que acontecia quase todas as vezes. Por mais que ela quase nunca pedisse sua ajuda, só o fato de ele estar lá já a deixava mais tranqüila. Tentando se acalmar, começou a caminhar pelos longos corredores da escola. Provavelmente era para isso mesmo que serviam, já que não havia a menos necessidade para serem tão grandes.

Só então reparou, olhando atravéz das janelas para o pátio logo abaixo, que Mori passava de braços dados com a garota que havia percebido que ele observava na última vez que o viu no salão de música numero três. Sem pensar duas vezes, Haruhi escancarou as janelas e gritou o mais alto que pôde. Não queria correr o risco de não ser ouvida.

-Mori-sempai! – os dois transeuntes se viraram – O que pensa que está fazendo? Honey sente sua falta! Nós... Nós todos sentimos!

Mesmo àquela distância, Haruhi pôde ver claramente a tristeza estampada no rosto de Mori. Entretanto, não conseguiu encontrar sentido no modo como a jovem que o acompanhava a olhava. Seu rosto bonito e altivo carregava um misto de confiança e desespero que a humilde bolsista não conseguia compreender. A voz grave de Mori se fez ouvir, preenchendo todo o pesado clima que habitava entre os três.

-Haruhi... Perdoe-me. Ainda não posso voltar. – E deu as costas, mas antes que recomeçasse a andar, sua companheira sorriu lascivamente para Haruhi, revelando uma voz autoritária, mas ainda suave e muito feminina, embora se mostrasse disfarçadamente vacilante.

-Não vê, garota? Ele não tem olhos para nada além de mim.

O vento bateu nas rosas do jardim e espalhou suas pétalas, ajudando a enfeitar aquele momento repleto de significados. Haruhi apenas observou o casal se retirar, tentando afastar a terrível sensação que sentia ao olhar para aquela moça. A sensação de que, com ela, Mori iria de encontro a um destino perigoso que ela temia não poder evitar.