A Outra Parte

3 Capítulo 2


Notas iniciais
Mudei um pouco a diagramação desse capítulo. Me digam o que acham melhor. ~Leo

Passar a noite anterior a minha formatura em claro não fazia parte dos meus planos, mas a gente trabalha com o que tem. Fiz a mesma rotina matinal de sempre, dei uma leve caprichada a mais na roupa e me maquiei no caminho para, pelo menos, estar apresentável no meu último dia.

A cerimônia começou às nove, o que me deu um tempo para ficar na biblioteca. E tudo foi muito simples, o diretor chamou cada aluno pelo nome, entregou o diploma e pronto. Depois de pegar o meu certificado, já estava indo em direção ao ponto de ônibus, porque, hoje em especial, eu queria voltar cedo para casa.

— Fiquei com medo de não conseguir te alcançar.

João falou sorrindo, encostado em sua moto.

— Disse que não precisava vim.

Ele revirou os olhos e me puxou para um abraço.

— Parabéns, Sina.

Ele me apertou forte e beijou minha cabeça.

— Obrigada!

— Bem, para onde vamos agora?

— Casa.

— Oxe, que casa, menina? A gente vai comemorar hoje, Sinaia, e ai de você se me falar não.

— Hm, você não soube, né?

Fiquei trocando de peso na perna, já prevendo a reação que ele teria ao saber.

— De que?

Suspirando, me recostei em sua moto e comecei a narrar os eventos da noite anterior. O meu despertar abrupto, a discussão de Rômulo e Miguel e a bela esbarrada que ganhei, o que resultou em um ombro totalmente dolorido e roxo. Acho que deveria agradecer por não ter deslocado. Também contei sobre a reação do meu irmão e do meu pai após a saída de Rômulo. Eles simplesmente suspiraram e me levaram para casa, mandando que eu dormisse e não falasse para ninguém sobre o que havia acontecido.

— Aquele bastardo te machucou?

— Sim, mas não foi nada grave.

— Sinaia...

Levantei as mãos em sinal de paz para acalmá-lo.

— Falo sério, João. Eu estou bem, só quero voltar para casa para tentar entender o que aconteceu. Posso não conhecer tão bem o Rômulo, mas aquele não era o comportamento usual dele, e você sabe que dia é hoje.

— Eu não poderia me importar menos com eles, Sina. O que ele fez é imperdoável, ainda mais com você! Foda-se que aquele moleque vai ser o futuro alfa.

Sabia que o fato de ter sido comigo iria pesar e, provavelmente, foi um dos motivos de meu pai não querer que eu falasse o que houve ontem. Mas ouvir isso, depois de tantos anos, ainda era difícil. Eu cresci em uma matilha, meu pai era o beta, ou seja, o braço direito do nosso alfa, o líder dos lobos. Já minha mãe era uma loba branca, uma espécie rara e respeitada entre o nosso povo. Meu irmão é um dos lobos mais fortes da matilha e foi criado para substituir nosso pai quando chegasse a hora.

Após o meu nascimento e consequente crescimento, meus pais começaram a ficar preocupados, já que o nosso corpo costuma dar sinais da presença do lobo em torno dos dez anos. Bem, eu não havia despertado o meu lobo aos dez, nem aos onze e muito menos aos doze. Quando completei treze anos, meus pais desistiram de esperar e me puseram na escola dos humanos, já que não havia o que aprender com os tutores da minha vila.

A transição foi difícil, mas estranhamente bem-vinda, já que os humanos não se transformavam na hora do recreio e nem quebravam acidentalmente as mesas. Eles tinham um pouco de receio em relação a nossa espécie, mas o tratado de paz e séculos de nenhum acontecimento entre nossas raças foram pontos favoráveis para me deixarem em paz no período em que frequentei o espaço deles.

— Não fique estressado, vai. Hoje é minha formatura, lembra?

— Não me venha com essa.

Revirei os olhos e peguei o meu capacete roxo.

— Vamos?

João subiu na moto emburrado, sabendo que teria que me ouvir pelo menos por hoje.

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Quando chegamos na vila, o clima pesado estava quase palpável.

— Céus, o que houve?

João falou tendo calafrios pelo corpo.

— Não tinha notado nada, só tava pensando na sua formatura.

— É, tá bem pesado.

Para eu sentir o quão tenso o clima estava, é porque coisa boa não tinha acontecido. Os lupinos tinham uma percepção do ambiente melhor do que qualquer ser humano, então eles percebiam as mudanças de humor que ocorriam em um lugar.

— Alguém deve tá muito puto.

João tirou o capacete e eu fiz o mesmo logo em seguida.

— Você vai entrar?

Indaguei quando percebi que ele foi em direção a porta da minha casa.

— Lógico! Você enlouqueceu se acha que eu vou te deixar sozinha agora.

— Bem...Certo, só tenta, por favor, não brigar com Miguel.

— Ele que tem que se controlar.

João revirou os olhos e entrou na minha casa. Eu o segui e, para a nossa sorte, Miguel estava sentado no sofá da sala de estar. Meu irmão se levantou tenso assim que João entrou pela porta.

— Vim em paz, cachorrinho.

Chamar Miguel pelo apelido nada carinhoso não era a melhor forma de começar, mas pelo menos eles não tinham se atracado. Ainda.

— Cadê o papai?

Miguel olhou para mim de forma dura, da mesma maneira que ele me olhou a vida inteira. Quando o nosso pai perdeu a companheira em uma emboscada feita por outros lobos, ninguém pensou que ele se relacionaria com outra pessoa, até porque não era comum que a nossa espécie começasse um relacionamento após a perda da outra parte. A outra parte é o companheiro predestinado do lobo. Alguém que vamos amar incondicionalmente e, ao perdê-la, é impensável que se relacione com outra pessoa romanticamente. Os lobos, quando encontram sua metade, são fiéis até o fim da vida a ela.

Quando papai chegou com minha mãe na vila, isso não foi visto com bons olhos. Principalmente pelo filho dele. E após meu nascimento, tudo pareceu ir ladeira à baixo.

— Só responda, cachorrinho. Temos algo a tratar com o Beta.

— Cale a boca, imbecil!

Usar o cargo do meu pai não serviu para tornar a conversa mais civilizada.

— Só quero saber o que tá acontecendo, Miguel.

Quando pensei que ele ia me ignorar, Miguel, mesmo tenso, sentou-se novamente no sofá e começou a falar.

— Beatriz não é a outra parte de Rômulo.

Puta merda.

Ainda um pouco atônita, sentei lentamente na poltrona que ficava perto do sofá. Miguel parecia cansado e estressado. Mantinha a postura ereta e a testa parecia eternamente franzida.

— Bem, não é uma graande surpresa, é?

— João!

Virei para ele, que estava sentando no braço da minha poltrona.

— Eu não tô mentindo, Sina. E até Miguel sabe disso.

Meu irmão não concordou, mas também não falou nada. Fazia sentido, e acho que todo mundo sabia disso, só que ninguém queria acreditar. Rômulo não era para ser o nosso futuro alfa. Bruno, seu irmão mais velho, foi treinado a vida inteira para substituir Demitri, nosso atual líder. E, ao seu lado, Luana seria sua companheira. Isso já acontecia há séculos entre os Guimarães e os Bragas, famílias que lideravam nosso povo há muito tempo. Ninguém sabia o porquê, mas todos os primogênitos de ambas famílias se reconheciam como companheiros ao completar a maioridade. Sempre foi assim. Isso até Bruno, que não só não teve Luana como sua outra parte, como também deserdou após completar vinte e um anos.

Rômulo foi treinado desde então para assumir a função de alfa e todos tinham esperança que ele e Beatriz, irmã mais nova de Luana, seriam companheiros.

— E agora?

Miguel deu de ombros e se recostou no sofá. Suspirei longamente e me acomodei na poltrona.

— Bom, temos que ir agora.

João falou me puxando para cima.

— Hã?

Deixei que ele me levasse, ainda processando toda a situação.

— Você vai para onde?

A voz grave e inesperada de Miguel me parou no meio do caminho. Ele e João se encararam por alguns instantes, momento o qual eu quase explodi de tensão.

— Não te interessa, cachorrinho.

João me puxou e saímos de casa.

— Para onde vamos?

— Ao Comida de Lobo.

Ainda tinha sérias dúvidas sobre o nome da lanchonete na qual trabalhava, mas até que fazia um certo sentido depois de um tempo.

— Meu horário só começa mais tarde.

Ele me ignorou e continuou a me puxar até chegarmos na lanchonete.

— Vem cá.

João me puxa para ficar na sua frente e põe suas mãos em frente aos meus olhos.

— Céus, o que você tá fazendo?

Ele riu e continuou a me guiar. Eu ouvi o som do sino da porta da lanchonete e, após entrar, andamos mais um pouco e ele para em algum lugar.

— Surpresa!!

Eu escuto enquanto João tira a mão dos meus olhos. Dona Helena estava em uma das mesas, que abrigava muitas comidas que eu gostava, e, acima de sua cabeça, estava uma faixa me parabenizando pela formatura.

Minha chefe veio me abraçar e depois todos nos sentamos na mesa.

— Não precisava, gente.

— Não fale bobagens, claro que precisava.

João falou enquanto mastigava seu sanduíche de presunto. Eu o abracei de lado e comecei os trabalhos com as comidas. Nós conversamos por muito tempo, ignorando por completo o clima pesado que pairava sobre nossa vila.

— Vou precisar ir agora, galerinha. Maria está me chantageando, se eu não voltar para casa agora, ela vai assistir a nossa série sozinha.

— Isso é grave. Vá enquanto antes.

Rindo dos dois, abracei e agradeci novamente à dona Helena, mandando um abraço para a companheira dela que a esperava em casa.

— De volta à realidade?

— Sim!

— Não precisava dessa animação toda também.

Ri com o seu comentário, e nós começamos a arrumar tudo para a abertura da lanchonete. Naquele dia, não recebemos muito clientes e os que recebemos sussurravam sobre a fuga de Rômulo, o cargo de herdeiro vago, a fúria do atual alfa e o que nos esperava para o futuro.

— Você acha que ele volta?

João me perguntou abruptamente, enquanto pegava mais um pedido e eu limpava o balcão.

— Quem? Rômulo?

Me virei sussurrando.

— Claro, Sina. Só se fala disso.

— Bem, sim. Acho que sim. Pelo o que eu vi, ele sempre quis ser o alfa da matilha.

— Claro que o pirralho quer. A questão agora é se vai conseguir.

— Não fale assim, João. Ele é esforçado.

— Me irrita às vezes esse seu olhar positivo para tudo. O garoto é um tremendo esnobe e só a Deusa sabe como vai agir quando, e se!, chegar ao posto mais alto da matilha.

— Ele ainda é muito novo, mas creio que ele quer o melhor para todos.

João revirou os olhos e saiu para entregar o pedido. Seguimos nesse ritmo até o horário de fechar a lanchonete.

— Mesmo com pouco movimento, me sinto exausto.

Meu amigo falou limpando uma das últimas mesas.

— Não é para menos, a gente passou o dia inteiro recebendo essa energia pesada. Se tá difícil para mim, quem dirá para você.

Ele deu de ombros e continuou a limpeza. Ao terminar, fui deixar o uniforme no armário e, quando voltei, João havia fechado as persianas, então ninguém que estava do lado de fora conseguiam nos ver.

— O que é isso?

Perguntei ao notar as luzes mais baixas e uma música tocando ao fundo.

— Você me daria a honra de uma dança?

Ele se curvou e, achando graça da situação, eu fiz uma reverência e aceitei sua mão. Ficamos dançando por um tempo e João ficou fazendo algumas brincadeiras para animar ainda mais meu dia.

— Sina, mas falando sério, só queria que você soubesse o quão capaz e maravilhosa você é. A gente se conheceu em um momento difícil da minha vida, mas você chegou bem mansinha, com esse jeito doce e com essa mania irritante de ser boa.

Dei uma risada sincera com isso, mas estava atenta ao que ele estava falando. Apesar de ter esse jeito expansivo, João era bem reservado com sua vida pessoal, até mesmo comigo. Então, nesses momentos em que ele se sentia confortável falando sobre si mesmo, eu prestava o máximo de atenção.

— Só queria que você soubesse isso. Você é especial demais para mim, a melhor amiga que eu poderia ter.

Ele me abraçou forte e eu ia começar a falar quando um som estrondoso interrompeu o clima tranquilo em que estávamos.

— Pela Deusa! — Exclamei.

João me soltou e virou para a porta, que era de onde vinha o barulho.

— Quem será?

Como o portão estava abaixado, não era possível ver quem estava batendo.

— O principal assunto de hoje.

— Hã?

João foi até a porta e subiu o portão. Rômulo passou pelo meu amigo parecendo ainda mais furioso do que estava na noite passada.

— Por que estava fechado?

Ele perguntou encarando João, que havia fechado a cara e agora o olhava com uma expressão fria.

— Fugiu e perdeu a noção das horas?

João falou com seu melhor tom sarcástico e Rômulo rosnou. E, nesse momento, eu travei e engoli em seco. Esse som mostrava o quão Rômulo estava desestabilizado, porque não era possível ele agir assim em sã consciência. Fazer isso para outro lobo era sinal de briga, mas, graças à Deusa, João tinha bom senso. Ele apenas levantou a sobrancelha, mas notei a tensão que atravessou seu corpo.

— Você precisa de alguma coisa, Rômulo?

Perguntei para tentar aliviar a tensão, mas aparentemente não deu muito certo. Ele cerrou o maxilar, fechou ainda mais a expressão e nem se dignou a olhar para mim. João pareceu notar a reação e se aproximou de Rômulo.

— O que quer aqui? Seu pai não está te procurando?

Eles ficaram se encarando e eu estava quase desfalecendo, porque, se começasse alguma briga, eu era a última pessoa que conseguiria separar os dois.

— Sinaia.

Tomei um susto quando Rômulo falou meu nome, estava esperando um arranca rabo, não que alguém me chamasse.

— Pois não?

Falei com a voz trêmula, mas tentando passar alguma calma, era a única coisa que eu podia fazer na hora.

— Ela vai comigo.

João soltou um riso sarcástico.

— O que foi? Enlouqueceu finalmente?

Nesse exato momento, um Miguel totalmente ofegante irrompe na porta e fica ao lado de seu amigo.

Eita, que a coisa tava ficando boa.

— Onde diabos você estava?

Rômulo relutantemente tirou os olhos de João e olhou para seu amigo.

— Seu pai sabe que você está aqui, vamos logo antes que tudo piore.

Miguel puxou Rômulo, mas ele se soltou.

— Sinaia vem comigo.

Meu irmão, que já estava virado para a saída, voltou lentamente para olhar para o amigo.

— Do que diabos...

— Ela vem comigo e chega de discussão.

Ele usou um tom forte que fez o meu irmão olhá-lo com raiva, mas Miguel escolheu não retrucar.

— Vamos, Sinaia.

Meu amigo falou e eu o olhei confusa. Ele foi até o balcão, pegou seu celular e carteira e, após guardá-los no bolso, pegou minhas mãos e me guiou até onde meu irmão e o amigo dele estavam.

— Vocês podem sair agora para eu fechar? Ou é difícil para vocês fazerem o mínimo?

Ambos encararam meu amigo, mas saíram da lanchonete. Após tudo fechado, João pegou novamente em minhas mãos e nos guiou até os outros. Miguel estava aparentemente confuso, já Rômulo olhava para onde João segurava minhas mãos.

— Você não foi convidado.

Rômulo falou assim que nos aproximamos.

— Você pirou se acha que vou deixá-la com vocês.

Rômulo não pareceu satisfeito, mas não falou mais nada. O que eu realmente agradecia, já que não estava mais aguentando essa tensão toda.

Eles foram caminhando na frente, e eu e João escolhemos diminuir o passo para ter mais privacidade ao conversar, o que não adiantava muita coisa com a audição dos lupinos, mas era o máximo que podíamos fazer naquele momento.

— O que tá acontecendo, João?

— Não faço a menor ideia, mas não parece bom.

— Céus, o que a gente vai fazer?

— Pelo visto, vamos ver de perto a fúria do alfa, mas, relaxa que eu tô aqui.

Não sei se isso era um alívio, dado ao talento do meu amigo em ser sarcástico em toda e qualquer situação. Eu só esperava sair viva de lá. A caminhada era um pouco longa e foi feita em completo silêncio após minha conversa com João. Ao avistarmos a casa do alfa, um arrepio subiu em minhas costas e eu me aproximei mais do meu amigo, que passou os braços ao redor da minha cintura.

Rômulo atravessou a porta e nós o seguimos.

— Fiquem aqui.

Miguel nos falou e seguiu seu amigo. Sentei no sofá e João ficou ao meu lado em pé.

— Por que não senta?

Ele deu de ombros, como se não se importasse, mas eu sabia que ele sentia o quão pesado estava o ambiente e ficou ao meu lado para me proteger, o que eu achava desnecessário, mas não era hora de falar nada.

Os minutos passaram se arrastando e, quando Miguel voltou, eu já estava pensando que nossa presença era desnecessária.

— O alfa está chamando, Sinaia.

O meu estômago despencou ao ouvir suas palavras. Pela Deusa, o que eu fiz? Levantei lentamente, conseguindo ficar de pé só no modo automático, porque estava tremendo dos pés à cabeça. João entrelaçou seu braço no meu e passamos por meu irmão, que parecia extremamente exausto e não falou nada ao ver meu amigo me acompanhar.

Eu definitivamente iria vomitar.